Do céu
fez-se surgir
em tiras galopantes,
no azul cacete,
o multifacetado puteiro
de cores incandecentes.
Até sua queda desesperante
na falsa morte
que se persegue,
peixes-pombo
comiam migalhas de pão
nas mãos dos deuses.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Em algum lugar.
Em algum lugar, ambos entraram mudos. Ela recostou os pacotes do supermercado na batente da porta da cozinha, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, xampu, enquanto ele despia o casaco. Fazia frio. Pensou em acender um cigarro, desistiu da idéia, jogou o isqueiro e o maço em cima da mesa, continuavam mudos. Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também, e não havia nenhum motivo em especial, além de que fosse aquele motivo.
Além de ser mais outro motivo, outro aquém entre vírgulas e um cochicho na cidade. O pensamento foi o mesmo, telepatia, letargia, consentimento, convívio, coincidência, providência divina, providência profana, clímax contextual, chame como quiser. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, ela olhou em seus olhos – ele já havia trancado a porta, bebido um copo d’água e roçado os pés descalços no chão. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, me coma. Ele já havia entendido. Com ou sem explicações, me coma no chão e despiu a saia.
Ele, como qualquer bom galã – sem ao menos ser tão bonito – folgou as calças, soltou os botões do colarinho, e a qualquer maneira digna – ou não – ela que lhe abrisse a camisa, enquanto os dedos dele se enrolavam pra abrir o sutiã. Não era uma cena de filme, não era um livro garboso, era a vida real, mais noir do que as estrelas do céu. Ela não teve paciência com os botões, costurasse aquela porra depois, ele embolou os dedos no sutiã, foda-se que depois a compro outro, ela rasgou a camisa, ele arrebentou os grampos.
Ele não tinha corpo escultural, não fumava cigarro de marca e muito menos tinha olhos azuis. Ela tinha longos cabelos negros –alisados – e de pontas duplas. Gordurinha localizada, quadris largos, seios médios – um consideravelmente maior que o outro. Ele tinha miopia e ficava horrível de óculos, ela tinha lábios finos e ficava horrível de batom, mas insistia em usá-lo. Ele fedia a perfume barato e ela a perfume francês vagabundo. Nele, considerável parte da cabeleira era rescindida por fios grisalhos, enquanto ela tinha uma cicatriz no joelho. As pernas dele eram cabeludas, tinha pança, seios masculinos e barba mal feita, ela tinha unhas roídas e calos nas mãos.
Despiram-se, derramaram-se lentamente no chão, trepavam antes com as línguas, corrompiam boca a boca, mordiam lábio a lábio, mordiscavam os queixos, os pescoços. Ela só de calcinha, ele de cueca. Ela assumiu o controle e beijou todo o corpo, segurou-lhe as mãos, descia mais e mais, mordia-lhe em pequenos pontos da barriga enquanto pressionava os pulsos, propositalmente. Os filhos estavam na casa dos tios pelo fim de semana todo, brincando com os primos, não haveria problema. Descendo pelo corpo dele, como lesse o braile, roçou o lábio por sua barriga avolumada. Baixou a cueca dele com a boca, o pau levemente entortado à direita balançou no ar, como mastro recém levantado, e até alguns dos pentelhos eram grisalhos. Removeu-lhe completamente a cueca, soltou-lhe as mãos e ousou olhar para seus olhos negros com seus olhos negros, como espreitasse carne fresca. Seguiu lambendo suas coxas firmando caminho até seu saco, deu uma mordiscada, ele sempre adorou, ele fisgou ar com o canto da boca. Ela agarrou aquele mastro, beijou-lhe em direção da cabeça, masturbou-lhe um pouco, até que, sedenta, pôs-lhe na boca.
Roçou os dentes de leve, provocou bastante, ele fisgava ar e gemia como quem queria meter naquele instante, e seu corpo lhe empurrava a estocar. Ela lambeu a cabeça, brincou, lambeu todo o comprimento, ele estava louco, de pernas deitadas e mesmo assim bambas. Chupou até notar que sua rijez estava melhorada e assegurada, ele quis vingar, também deixá-la ensandecida, engoliu o próprio tesão por tempo suficiente. De súbito agarrou sua cintura com força, suspendeu-a com força, tateou sua camisa e amarrou as mãos atrás das costas. Ela riu surpresa, mordeu os lábios, ele sorriu maliciosamente.
Lambeu-lhe o corpo todo, beijou suas saboneteiras, as adorava. Segurou-a firme pela cintura, mordeu sua barriga, sugou-lhe os seios e partiu em diagonal até os mamilos, perdidos de duros, escuros, e quando aproximava-se, ela arfava cheia de tesão, ele parava, apalpava-lhe as nádegas e repetia tudo. Enfim, mordiscou e chupou seus mamilos, ela gemia baixinho, contorcia-se de mansinho. Ele descia os dedos, um a um, por seu corpo, abriu suas pernas lentamente – mesmo demorando em seus seios, um maior que o outro. Desceu sem tirar a boca do corpo, mordiscou-lhe as virilhas, sugou-lhe as entrecoxas, cravou os dedos nas nádegas, já beliscadas de estrias. Ela sorria. Gemia mais ainda.
Expirou ar quente próximo a púbis, cruelmente ria com os hms e ais que ela deixava escapar. Separou-lhe os lábios e expirou de novo, ela revirou os olhos e riu. Ele lambeu rapidamente, ela enlouqueceu, abriu a boca, gemeu. Cuidadosamente, fez com que o clitóris saltasse, lhe cumprimentou aparentando suculência. Não necessitava emendas ou qualquer tipo de pré-apresentação, Fez bico e sugou devagar, enquanto ela beirava a morte, perdia o ar e a voz ao gemer sem rodeios. Assim como tudo mais, ela estava ensopada. Ele sempre amou aquele gosto de boceta, que toda boceta digna e toda mulher de verdade é obrigada a ter. Ela se perdia, contorcia, revirava os olhos, explodia, gozou uma, duas, e antes que gozasse terceira vez, ele parou. Ela respirou ofegante, tentando recuperação.
Sua boceta pulsava. Enfiou dois dedos bem devagar, viu que os olhos dela perderam-se nas órbitas e que seus pulmões haviam desistido de um ritmo, todo seu corpo pulsava, além da própria boceta. Masturbou-lhe lentamente, enfiou um terceiro dedo e passou a sugar-lhe o clitóris. Terceira, quarta, quinta vez. Com a força de uma mulher na ânsia da penetração, ela rasgou a camisa, o agarrou pela cintura e fez com que cedesse. Sem rodeios, sem enfeites, sem folia, ela queria aquele pau, duro e torto, dentro dela, cravando fundo, estocando descontrolado. Ele, provocando-a, penetrou somente com a cabeça, foda-se, agarrou-o pela cintura e puxou com força, foda-me. E gemeu, sexta vez. Ele também gemeu, soltou-se enfim.
Me fode mais forte, não adiantaria compasso, ritmo, sutileza, ambos queriam sentir o chão ralando seus corpos, o gozo, e o resto que fosse pro inferno. Ela gemia, ele também, as estocadas eram cada vez mais fortes, intensas, ele sentiu-se homem, ela sentiu-se mulher, ambos ensopados. E durante o terceiro ou quarto orgasmo – ela não saberia dizer – ele gozou, esporrou e a segurou com força, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, homem, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, mulher, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, porra e xampu espalhados pelo chão.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também. E de certo, ao menos agora, alguém também trepava no chão da cozinha, mesmo com seus trinta e pouco anos.
Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, casais estavam ensopados (também por dentro), os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.
E não há nada mais erótico do que esquecer a rúcula no porta-malas.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também, e não havia nenhum motivo em especial, além de que fosse aquele motivo.
Além de ser mais outro motivo, outro aquém entre vírgulas e um cochicho na cidade. O pensamento foi o mesmo, telepatia, letargia, consentimento, convívio, coincidência, providência divina, providência profana, clímax contextual, chame como quiser. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, ela olhou em seus olhos – ele já havia trancado a porta, bebido um copo d’água e roçado os pés descalços no chão. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, me coma. Ele já havia entendido. Com ou sem explicações, me coma no chão e despiu a saia.
Ele, como qualquer bom galã – sem ao menos ser tão bonito – folgou as calças, soltou os botões do colarinho, e a qualquer maneira digna – ou não – ela que lhe abrisse a camisa, enquanto os dedos dele se enrolavam pra abrir o sutiã. Não era uma cena de filme, não era um livro garboso, era a vida real, mais noir do que as estrelas do céu. Ela não teve paciência com os botões, costurasse aquela porra depois, ele embolou os dedos no sutiã, foda-se que depois a compro outro, ela rasgou a camisa, ele arrebentou os grampos.
Ele não tinha corpo escultural, não fumava cigarro de marca e muito menos tinha olhos azuis. Ela tinha longos cabelos negros –alisados – e de pontas duplas. Gordurinha localizada, quadris largos, seios médios – um consideravelmente maior que o outro. Ele tinha miopia e ficava horrível de óculos, ela tinha lábios finos e ficava horrível de batom, mas insistia em usá-lo. Ele fedia a perfume barato e ela a perfume francês vagabundo. Nele, considerável parte da cabeleira era rescindida por fios grisalhos, enquanto ela tinha uma cicatriz no joelho. As pernas dele eram cabeludas, tinha pança, seios masculinos e barba mal feita, ela tinha unhas roídas e calos nas mãos.
Despiram-se, derramaram-se lentamente no chão, trepavam antes com as línguas, corrompiam boca a boca, mordiam lábio a lábio, mordiscavam os queixos, os pescoços. Ela só de calcinha, ele de cueca. Ela assumiu o controle e beijou todo o corpo, segurou-lhe as mãos, descia mais e mais, mordia-lhe em pequenos pontos da barriga enquanto pressionava os pulsos, propositalmente. Os filhos estavam na casa dos tios pelo fim de semana todo, brincando com os primos, não haveria problema. Descendo pelo corpo dele, como lesse o braile, roçou o lábio por sua barriga avolumada. Baixou a cueca dele com a boca, o pau levemente entortado à direita balançou no ar, como mastro recém levantado, e até alguns dos pentelhos eram grisalhos. Removeu-lhe completamente a cueca, soltou-lhe as mãos e ousou olhar para seus olhos negros com seus olhos negros, como espreitasse carne fresca. Seguiu lambendo suas coxas firmando caminho até seu saco, deu uma mordiscada, ele sempre adorou, ele fisgou ar com o canto da boca. Ela agarrou aquele mastro, beijou-lhe em direção da cabeça, masturbou-lhe um pouco, até que, sedenta, pôs-lhe na boca.
Roçou os dentes de leve, provocou bastante, ele fisgava ar e gemia como quem queria meter naquele instante, e seu corpo lhe empurrava a estocar. Ela lambeu a cabeça, brincou, lambeu todo o comprimento, ele estava louco, de pernas deitadas e mesmo assim bambas. Chupou até notar que sua rijez estava melhorada e assegurada, ele quis vingar, também deixá-la ensandecida, engoliu o próprio tesão por tempo suficiente. De súbito agarrou sua cintura com força, suspendeu-a com força, tateou sua camisa e amarrou as mãos atrás das costas. Ela riu surpresa, mordeu os lábios, ele sorriu maliciosamente.
Lambeu-lhe o corpo todo, beijou suas saboneteiras, as adorava. Segurou-a firme pela cintura, mordeu sua barriga, sugou-lhe os seios e partiu em diagonal até os mamilos, perdidos de duros, escuros, e quando aproximava-se, ela arfava cheia de tesão, ele parava, apalpava-lhe as nádegas e repetia tudo. Enfim, mordiscou e chupou seus mamilos, ela gemia baixinho, contorcia-se de mansinho. Ele descia os dedos, um a um, por seu corpo, abriu suas pernas lentamente – mesmo demorando em seus seios, um maior que o outro. Desceu sem tirar a boca do corpo, mordiscou-lhe as virilhas, sugou-lhe as entrecoxas, cravou os dedos nas nádegas, já beliscadas de estrias. Ela sorria. Gemia mais ainda.
Expirou ar quente próximo a púbis, cruelmente ria com os hms e ais que ela deixava escapar. Separou-lhe os lábios e expirou de novo, ela revirou os olhos e riu. Ele lambeu rapidamente, ela enlouqueceu, abriu a boca, gemeu. Cuidadosamente, fez com que o clitóris saltasse, lhe cumprimentou aparentando suculência. Não necessitava emendas ou qualquer tipo de pré-apresentação, Fez bico e sugou devagar, enquanto ela beirava a morte, perdia o ar e a voz ao gemer sem rodeios. Assim como tudo mais, ela estava ensopada. Ele sempre amou aquele gosto de boceta, que toda boceta digna e toda mulher de verdade é obrigada a ter. Ela se perdia, contorcia, revirava os olhos, explodia, gozou uma, duas, e antes que gozasse terceira vez, ele parou. Ela respirou ofegante, tentando recuperação.
Sua boceta pulsava. Enfiou dois dedos bem devagar, viu que os olhos dela perderam-se nas órbitas e que seus pulmões haviam desistido de um ritmo, todo seu corpo pulsava, além da própria boceta. Masturbou-lhe lentamente, enfiou um terceiro dedo e passou a sugar-lhe o clitóris. Terceira, quarta, quinta vez. Com a força de uma mulher na ânsia da penetração, ela rasgou a camisa, o agarrou pela cintura e fez com que cedesse. Sem rodeios, sem enfeites, sem folia, ela queria aquele pau, duro e torto, dentro dela, cravando fundo, estocando descontrolado. Ele, provocando-a, penetrou somente com a cabeça, foda-se, agarrou-o pela cintura e puxou com força, foda-me. E gemeu, sexta vez. Ele também gemeu, soltou-se enfim.
Me fode mais forte, não adiantaria compasso, ritmo, sutileza, ambos queriam sentir o chão ralando seus corpos, o gozo, e o resto que fosse pro inferno. Ela gemia, ele também, as estocadas eram cada vez mais fortes, intensas, ele sentiu-se homem, ela sentiu-se mulher, ambos ensopados. E durante o terceiro ou quarto orgasmo – ela não saberia dizer – ele gozou, esporrou e a segurou com força, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, homem, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, mulher, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, porra e xampu espalhados pelo chão.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também. E de certo, ao menos agora, alguém também trepava no chão da cozinha, mesmo com seus trinta e pouco anos.
Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, casais estavam ensopados (também por dentro), os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.
E não há nada mais erótico do que esquecer a rúcula no porta-malas.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Sinceridade
Não sabia exatamente o que fazer, ao menos conscientemente. Decidiu deixar tudo por conta de seus instintos, seu corpo guiaria sua mente, suas intenções. Talvez fosse a primeira vez dela também – ou não. Sua cabeça ameaçava explodir, seu corpo estava prestes ao despedace – se entregue. Quem sabe caso analisa-se melhor a situação, repensaria – se entregue – no que fazer, ou não fazer. A cidade, aos poucos, corrompia a madruga, era possível ouvir seus gemidos, seus grunhidos. Não seria nada demais, ou fosse escandaloso – se entregue. Não adiantaria lutar, resistir seria bobagem. Baixou a guarda, ouviu a voz com mais clareza, ofegante, quase que ao pé de seu ouvido. Mas estava dentro de si. Se entregue.
As venezianas do banheiro impediam que a cidade observasse qualquer detalhe do que se passava ali. Não era necessária a presença de mais ninguém, no entanto. Olhou-se no espelho, apoiou as mãos na pia. Tinha cabelos longos, livrou uma das mãos do apoio, reuniu as mechas, tufos e fios, enrolou-os e prendeu com um elástico, antes abandonado ao lado da torneira, agora separava os cabelos da face. Ainda olhava-se no espelho, notou as maçãs do rosto. Notou as falhas, os olhos, as olheiras, a boca, os lábios, o queixo, a cicatriz da infância. Tocou-os lentamente, passava seus dedos, sentia a textura da existência, da sua existência, que por algum motivo parecia distante de si.
As roupas estavam no quarto, no chão. Ela também. As roupas dela também. O chão abraçava todos, o chão queria, mas não poderia engolir nada além da gravidade dos corpos nele jogados. Respirava lentamente, de um jeito ansioso. Talvez fosse sua primeira vez. Sua existência, por algum motivo, parecia distante de si. A ponta de seus dedos tocava sua face, mas era como se estivesse dormente, latência. Olhou seu corpo. Não era um corpo escultural, muito menos o que pudesse dizer bonito. Mas inspirava alguma coisa. Era estranho, mas sim. Inspirava sensualidade, charme pelo simples fato de existir. Mordeu os lábios. Tocou a maçaneta, fria. Seu corpo, antes dormente, agora estava intensamente sensível.
Uma descarga elétrica percorreu seu braço, chegou à espinha. A maçaneta fria havia eriçado os cabelos de sua nuca. Sentiu, de forma inesperada, vontade de se masturbar. Não, espere mais um pouco. Decidira seguir seus instintos, sua verdadeira voz, que lhe sussurrava ao ouvido, por dentro. A mão já estava no fim da barriga. Pressionou os dedos contra a palma, girou a maçaneta. Abriu a porta, o ranger revelou a passagem para o quarto. Lá estava ela, no chão. Ela e as roupas abandonadas, sem vida. Sua respiração tornou-se mais profunda, ainda sentia vontade de masturbação. Pressionou os dedos ainda mais. E ela ainda estava lá.
Sentiu o sangue fluindo por todo corpo. As cortinas, brancas como ela, debruçavam sobre o espaço, chacoalhavam, acusavam a presença do vento. Olhou em seu rosto, um sorriso malicioso. Como não bastasse sua nudez e a noite fria, o sorriso malicioso. Não, vá devagar. Custosamente, obedecia. Passo ante passo aproximou-se. Ela estava deitada sobre um lençol branco, longo, talvez não achasse fim. Inclusive, usava uma das beiradas pra encobrir as pernas. Inclinou o corpo, lentamente deitou-se ao lado dela, de sua pele macia, e por algum motivo, sua existência parecia distante de si.
Hesitou por um instante, não se segure, não o fez. Esticou o braço, ela fechou os olhos, mascarou o sorriso em satisfação, movimentou-se por debaixo da beirada de lençol, os contornos tornaram-se significativos. A mão encontrou um seio, a respiração dela soou ofegante, um quase-gemido abafado. Não se segure. Com a outra mão, agarrou-a pela cintura, firme. Apertou seu corpo contra o dela, não havia resistência. Notou os mamilos endurecidos, a boca entreaberta, a respiração mudada. Não se segure. Prendeu-a mais forte em seus braços, pressionou sua cintura, beijou-lhe, agarrou sua boca com a própria, penetrou seus gemidos e abraçou-lhe a língua, uma curta convulsão no corpo dela. Beijou-a devagar, mas intensamente. Ouvia gemidinhos dentro de sua boca. Mordeu seu lábio e soltou seu corpo por um instante. Ela trançou seus braços por sua nuca, puxou-lhe, submeteu boca, à boca, percorreu sua língua.
Não precisava mais de avisos, de significativas advertências, sabia exatamente o que fazer sem ao menos sabê-lo. Tomou o peito em sua mão, agarrou de leve, pressionou, manteve o mamilo entre os dedos, imprimiu-lhe certa pressão, sentiu o corpo dela contorcer de tesão, a boca escapou do beijo e gemeu baixo. Roçou o pescoço com os lábios, respirava firmemente, o ar quente fazia com que ela ficasse mais arrepiada, contorcesse mais. Com a ponta da língua percorreu todo o pescoço, várias vezes, até que pudesse sugá-lo, mordê-lo, sentir as vibrações do corpo dela e as do seu. Foi com a mão até o outro seio, contornou-o com os dedos, em espiral, até que apertasse o mamilo, endurecido ao centro. Pressionou seu corpo com mais força, um novo espasmo, mais gemidos que esvaeciam. Desceu pelas saboneteiras, roçando os dentes na pele.
Crava seus dedos em suas costas, ela aprova, geme mais forte. Arranha com suas unhas curtas, deixa marcas vermelhas em sua pele branca, ela geme, se contorce, pede mais sem ao menos proferir uma palavra. Sua língua desce ao encontro do seio, mas pára. Ela não entende, pensa em perguntar, o que houve. Não, não houve oportunidade. A mão das costas agarrou sua nádega, apertou, ela adora, ri desconcertada. A língua lambe o seio, a boca chupa a carne e em espiral aproxima-se do rubi cravado na pele. Respira firme, sabe o que está fazendo, o ar quente que expele faz com que ela contorça mais e mais. Não há pensamentos, ações. Por algum motivo, sua existência parecia distante de si. O gosto daquela pele era incrível.
Tocou o mamilo com os lábios, ela provou parte do êxtase, gemeu mais forte, agarrou-lhe as costas e cravou as cumpridas unhas. Não havia porque se segurar, e nem mesmo a voz se fazia presente. Mordiscava rapidamente, lambia, sugava, o corpo perdia-se sobre o lençol, as unhas trilhavam o caminho nas costas. Agarrou a bunda com maior firmeza, cravou os dedos na nádega, envolveu-a com fome, com desejo. Em espiral, repetiu o mesmo no outro seio, sugou-lhe com força, com tesão. Queria mais. Queriam mais. O corpo pedia mais, o lençol pedia mais, a noite pedia mais, as venezianas do banheiro pediam mais, o chão pedia mais, as roupas pediam mais. Os corpos pediam mais.
Com a outra mão, agarrou-lhe a coxa. Desceu sentindo as costelas e a pele com o queixo, logo em seguida provocando o corpo com a ponta da língua, fazia de labirinto e se perdia consciente. Vagava, mordeu de leve, ela riu, ela gemeu, ela não agüenta mais. Agarrando-a, agora, pelos quadris, puxa com a boca o lençol, lentamente. O lençol branco, de alguma forma inexplicável, mais branco que sua pele, desliza suave por entre as formas. Finalmente, nua. Por alguns instantes observa. Lê sua pele, suas pernas, as coxas. Nota os pêlos, roça uma das mãos, sente na palma, ela tem um espasmo intenso, contorção de todos os músculos do corpo. Abriu suas pernas lentamente enquanto lambia suas coxas, deslizava para entrecoxas. Subia à virilha, via a boceta. Não havia querer, só o fazer. Não precisou querer tocá-la, simplesmente a tocou.
Comprimiu os dedos, roçou suavemente, ela perdeu o ar por alguns segundos. Afastou-lhe os lábios, estava molhada, loucamente molhada. Com seu indicador percorreu o caminho até o clitóris, ela gemeu e logo perdeu a voz. Mordendo-lhe a coxa, afastou mais as pernas. Queria sentir seu gosto, gosto de mulher, gosto de boceta. Aproximou-se, respirou firme e expeliu o ar quente nos lábios afastados, o coração dela explodia para fora do peito, soltava gritinhos, e gemidos, e contorcia minúsculas partes do corpo, até então desconhecidas. Encostou os lábios nos lábios, usou-os no afastamento, lambeu. Ela não agüentou, colocou as mãos em seus cabelos, puxou. Não era satisfação completa, queria mais. Queriam mais, todos e os dois.
A língua encontrou o clitóris, deslocou-se por cima, ela gemia com a voz que lhe restava. E o gosto de boceta lhe preenchia, como que uma nova existência, real, segura, diferente de qualquer outra que já tivera. Chupou por entre os lábios, pressionou a língua, expeliu o ar quente. Mal começara e ela estava a ponto de gozar. Seu corpo tremia. Sua voz não tinha mais controle gemia loucamente. E ali, experimentando o gosto de mulher, finalmente sentia-se bem. E só de lhe chupar, de lhe penetrar com a língua, estava bem. E por algum motivo, que não importava mais, tanto ao espelho ou à maçaneta que deixara pra trás, sentir o corpo de outra mulher a fazia real.
As venezianas do banheiro impediam que a cidade observasse qualquer detalhe do que se passava ali. Não era necessária a presença de mais ninguém, no entanto. Olhou-se no espelho, apoiou as mãos na pia. Tinha cabelos longos, livrou uma das mãos do apoio, reuniu as mechas, tufos e fios, enrolou-os e prendeu com um elástico, antes abandonado ao lado da torneira, agora separava os cabelos da face. Ainda olhava-se no espelho, notou as maçãs do rosto. Notou as falhas, os olhos, as olheiras, a boca, os lábios, o queixo, a cicatriz da infância. Tocou-os lentamente, passava seus dedos, sentia a textura da existência, da sua existência, que por algum motivo parecia distante de si.
As roupas estavam no quarto, no chão. Ela também. As roupas dela também. O chão abraçava todos, o chão queria, mas não poderia engolir nada além da gravidade dos corpos nele jogados. Respirava lentamente, de um jeito ansioso. Talvez fosse sua primeira vez. Sua existência, por algum motivo, parecia distante de si. A ponta de seus dedos tocava sua face, mas era como se estivesse dormente, latência. Olhou seu corpo. Não era um corpo escultural, muito menos o que pudesse dizer bonito. Mas inspirava alguma coisa. Era estranho, mas sim. Inspirava sensualidade, charme pelo simples fato de existir. Mordeu os lábios. Tocou a maçaneta, fria. Seu corpo, antes dormente, agora estava intensamente sensível.
Uma descarga elétrica percorreu seu braço, chegou à espinha. A maçaneta fria havia eriçado os cabelos de sua nuca. Sentiu, de forma inesperada, vontade de se masturbar. Não, espere mais um pouco. Decidira seguir seus instintos, sua verdadeira voz, que lhe sussurrava ao ouvido, por dentro. A mão já estava no fim da barriga. Pressionou os dedos contra a palma, girou a maçaneta. Abriu a porta, o ranger revelou a passagem para o quarto. Lá estava ela, no chão. Ela e as roupas abandonadas, sem vida. Sua respiração tornou-se mais profunda, ainda sentia vontade de masturbação. Pressionou os dedos ainda mais. E ela ainda estava lá.
Sentiu o sangue fluindo por todo corpo. As cortinas, brancas como ela, debruçavam sobre o espaço, chacoalhavam, acusavam a presença do vento. Olhou em seu rosto, um sorriso malicioso. Como não bastasse sua nudez e a noite fria, o sorriso malicioso. Não, vá devagar. Custosamente, obedecia. Passo ante passo aproximou-se. Ela estava deitada sobre um lençol branco, longo, talvez não achasse fim. Inclusive, usava uma das beiradas pra encobrir as pernas. Inclinou o corpo, lentamente deitou-se ao lado dela, de sua pele macia, e por algum motivo, sua existência parecia distante de si.
Hesitou por um instante, não se segure, não o fez. Esticou o braço, ela fechou os olhos, mascarou o sorriso em satisfação, movimentou-se por debaixo da beirada de lençol, os contornos tornaram-se significativos. A mão encontrou um seio, a respiração dela soou ofegante, um quase-gemido abafado. Não se segure. Com a outra mão, agarrou-a pela cintura, firme. Apertou seu corpo contra o dela, não havia resistência. Notou os mamilos endurecidos, a boca entreaberta, a respiração mudada. Não se segure. Prendeu-a mais forte em seus braços, pressionou sua cintura, beijou-lhe, agarrou sua boca com a própria, penetrou seus gemidos e abraçou-lhe a língua, uma curta convulsão no corpo dela. Beijou-a devagar, mas intensamente. Ouvia gemidinhos dentro de sua boca. Mordeu seu lábio e soltou seu corpo por um instante. Ela trançou seus braços por sua nuca, puxou-lhe, submeteu boca, à boca, percorreu sua língua.
Não precisava mais de avisos, de significativas advertências, sabia exatamente o que fazer sem ao menos sabê-lo. Tomou o peito em sua mão, agarrou de leve, pressionou, manteve o mamilo entre os dedos, imprimiu-lhe certa pressão, sentiu o corpo dela contorcer de tesão, a boca escapou do beijo e gemeu baixo. Roçou o pescoço com os lábios, respirava firmemente, o ar quente fazia com que ela ficasse mais arrepiada, contorcesse mais. Com a ponta da língua percorreu todo o pescoço, várias vezes, até que pudesse sugá-lo, mordê-lo, sentir as vibrações do corpo dela e as do seu. Foi com a mão até o outro seio, contornou-o com os dedos, em espiral, até que apertasse o mamilo, endurecido ao centro. Pressionou seu corpo com mais força, um novo espasmo, mais gemidos que esvaeciam. Desceu pelas saboneteiras, roçando os dentes na pele.
Crava seus dedos em suas costas, ela aprova, geme mais forte. Arranha com suas unhas curtas, deixa marcas vermelhas em sua pele branca, ela geme, se contorce, pede mais sem ao menos proferir uma palavra. Sua língua desce ao encontro do seio, mas pára. Ela não entende, pensa em perguntar, o que houve. Não, não houve oportunidade. A mão das costas agarrou sua nádega, apertou, ela adora, ri desconcertada. A língua lambe o seio, a boca chupa a carne e em espiral aproxima-se do rubi cravado na pele. Respira firme, sabe o que está fazendo, o ar quente que expele faz com que ela contorça mais e mais. Não há pensamentos, ações. Por algum motivo, sua existência parecia distante de si. O gosto daquela pele era incrível.
Tocou o mamilo com os lábios, ela provou parte do êxtase, gemeu mais forte, agarrou-lhe as costas e cravou as cumpridas unhas. Não havia porque se segurar, e nem mesmo a voz se fazia presente. Mordiscava rapidamente, lambia, sugava, o corpo perdia-se sobre o lençol, as unhas trilhavam o caminho nas costas. Agarrou a bunda com maior firmeza, cravou os dedos na nádega, envolveu-a com fome, com desejo. Em espiral, repetiu o mesmo no outro seio, sugou-lhe com força, com tesão. Queria mais. Queriam mais. O corpo pedia mais, o lençol pedia mais, a noite pedia mais, as venezianas do banheiro pediam mais, o chão pedia mais, as roupas pediam mais. Os corpos pediam mais.
Com a outra mão, agarrou-lhe a coxa. Desceu sentindo as costelas e a pele com o queixo, logo em seguida provocando o corpo com a ponta da língua, fazia de labirinto e se perdia consciente. Vagava, mordeu de leve, ela riu, ela gemeu, ela não agüenta mais. Agarrando-a, agora, pelos quadris, puxa com a boca o lençol, lentamente. O lençol branco, de alguma forma inexplicável, mais branco que sua pele, desliza suave por entre as formas. Finalmente, nua. Por alguns instantes observa. Lê sua pele, suas pernas, as coxas. Nota os pêlos, roça uma das mãos, sente na palma, ela tem um espasmo intenso, contorção de todos os músculos do corpo. Abriu suas pernas lentamente enquanto lambia suas coxas, deslizava para entrecoxas. Subia à virilha, via a boceta. Não havia querer, só o fazer. Não precisou querer tocá-la, simplesmente a tocou.
Comprimiu os dedos, roçou suavemente, ela perdeu o ar por alguns segundos. Afastou-lhe os lábios, estava molhada, loucamente molhada. Com seu indicador percorreu o caminho até o clitóris, ela gemeu e logo perdeu a voz. Mordendo-lhe a coxa, afastou mais as pernas. Queria sentir seu gosto, gosto de mulher, gosto de boceta. Aproximou-se, respirou firme e expeliu o ar quente nos lábios afastados, o coração dela explodia para fora do peito, soltava gritinhos, e gemidos, e contorcia minúsculas partes do corpo, até então desconhecidas. Encostou os lábios nos lábios, usou-os no afastamento, lambeu. Ela não agüentou, colocou as mãos em seus cabelos, puxou. Não era satisfação completa, queria mais. Queriam mais, todos e os dois.
A língua encontrou o clitóris, deslocou-se por cima, ela gemia com a voz que lhe restava. E o gosto de boceta lhe preenchia, como que uma nova existência, real, segura, diferente de qualquer outra que já tivera. Chupou por entre os lábios, pressionou a língua, expeliu o ar quente. Mal começara e ela estava a ponto de gozar. Seu corpo tremia. Sua voz não tinha mais controle gemia loucamente. E ali, experimentando o gosto de mulher, finalmente sentia-se bem. E só de lhe chupar, de lhe penetrar com a língua, estava bem. E por algum motivo, que não importava mais, tanto ao espelho ou à maçaneta que deixara pra trás, sentir o corpo de outra mulher a fazia real.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Muiraquitã
Sou um todo:
partes sem parte,
um todo sem separação.
Na pele, no pêlo,
no nó do cabelo
que é liso e crespo,
escorrido de mechas
nos meus olhos cor de pele,
vermelho-negro.
Enquanto meu
pop-tupi deságua
pelo grosso do meu beiço,
meu nariz afinado
reconhece o cheiro
da polenta com caruru
que ma abuela cabocla preta
preparou usando o lenço
penso, presente
de titio nipo-lusitano,
hermano judeu,
jogador de futebol
no time do mascate chinês,
flanelinha profissional
e sambista de aluguel
desde mil quinhentos e tal.
partes sem parte,
um todo sem separação.
Na pele, no pêlo,
no nó do cabelo
que é liso e crespo,
escorrido de mechas
nos meus olhos cor de pele,
vermelho-negro.
Enquanto meu
pop-tupi deságua
pelo grosso do meu beiço,
meu nariz afinado
reconhece o cheiro
da polenta com caruru
que ma abuela cabocla preta
preparou usando o lenço
penso, presente
de titio nipo-lusitano,
hermano judeu,
jogador de futebol
no time do mascate chinês,
flanelinha profissional
e sambista de aluguel
desde mil quinhentos e tal.
Esvaecer.
Havia motivo de preocupação.
Seus olhos eram perdidos em alguma coisa, jogados contra alguma coisa. Respondia a estímulos externos, até quem sabe quando. Chamavam seu nome algumas vezes, ele ouvia, balbuciava, respondia qualquer coisa. Dada por satisfeita ou desistente, iam embora. Quando o assunto pedia por resposta menos monossilábica, insistiam até que certa impaciência acobertasse qualquer traço de voz. Pigarreio, como fumasse constantemente, demorava alguns instantes até a fala, como precisasse lembrar como fazê-lo. Largava alguma coisa no ar, Oi, ríspido. Quem estivesse acostumado, persistia. De qualquer maneira, ele compunha uma resposta rápida, semi-mecânica, seu corpo era como vazio, o espírito talvez tivesse lhe deixado, caixa craniana sem cérebro, ou talvez simplesmente no uso não físico.
Não havia motivos praquilo. Ao menos, não os já discutidos, sanados. Tudo estava bem. Sua esposa preocupava-se, seus filhos não o reconheciam. Aposentado, sentado, aparentemente imóvel. Não. Movimentava-se displicente e independente de qualquer outra coisa. Lembraram um dia, seus irmãos, de quando era menino, e tinha cismado em sumir. A mãe sabia que era coisa de moleque, arte de menino. Foi à venda, comprou farinha fermentada, leite, ovos, fez bolo, deixado a esfriar na janela do quarto dos meninos, onde seu filho estava, imóvel, sentado no beliche. Mal deu tempo de ir lavar as mãos, voltou e não havia bolo, muito menos alguém ali. Menino estava na terra, Não brinca na lama, meu filho, como adiantasse de alguma coisa. Dizia por dizer, era alívio de mãe. O menino não tinha dormido e nem comido nos dois dias anteriores. Era manha de bolo.
Agora era macaco velho, sem lama pra se enfiar, sem gude pra tocar, gritaria e poeira de rastro de rolimã. Era macaco velho, tinha esposa, filhos. Sua mãe, Doracile, por complicações respiratórias, morrera alguns anos antes. Era ótimo funcionário na firma onde trabalhava. Pontual, exemplar, disciplinado, amigável, eficiente. Aposentou-se feliz, deu por satisfeito o tempo de emprego, sentiu que havia cumprido sua tarefa. E do mais, suas costas e visão não permitiam mais nada, e mesmo o pensamento lhe feria o corpo, por vezes. Perfurava o éter do ar, sabia-se lá com o quê. Justino ficava lá, parado, fitando alguma coisa, que talvez só existisse a seus olhos.
Chamaram médico, nada havia de errado, talvez fosse depressão, fadiga, stress. Era bem apessoado, brincalhão, simpático, paciente, compreensivo. Mas era possível, dizia o médico, era possível. Cria-se em demência repentina, pipoco do transformador da cabeça, curto circuito, fio queimado, idéias não se formavam e o corpo não respondia. O tempo passou. Comia de menos pra pior, antes que era carne magra, agora só pele em osso. Olhos recaídos, ainda perdidos em algum canto sabe-se lá onde. Os meninos já eram marmanjos, um casado, o outro terminando a escola, cabra-safado namorador.
Bença, Mãe. Deus bençoe, filho, gritava de dentro, enxugando a louça Seu pai tá na varanda, de costume, fazia-se ouvir aos berros. Dinha tá comigo, anunciando a presença da nora à sogra. O grito estarrecedor, o silêncio irrompido, o corte no vácuo, o soluço no espaço. A mãe vem correndo da cozinha, que houve meu Deus, aflita. E do batente viu a nora com as mãos na boca, o filho de olhos arregalados, pulou em passos, passou ligeira pela porta. E ali havia o nada. Na cadeira, só as roupas, vazias, sem dono. Não havia mais bolo de Doralice, nem lama, nem gude, ou rolimã. Apenas o vazio do tecido tocando tecido.
Seus olhos eram perdidos em alguma coisa, jogados contra alguma coisa. Respondia a estímulos externos, até quem sabe quando. Chamavam seu nome algumas vezes, ele ouvia, balbuciava, respondia qualquer coisa. Dada por satisfeita ou desistente, iam embora. Quando o assunto pedia por resposta menos monossilábica, insistiam até que certa impaciência acobertasse qualquer traço de voz. Pigarreio, como fumasse constantemente, demorava alguns instantes até a fala, como precisasse lembrar como fazê-lo. Largava alguma coisa no ar, Oi, ríspido. Quem estivesse acostumado, persistia. De qualquer maneira, ele compunha uma resposta rápida, semi-mecânica, seu corpo era como vazio, o espírito talvez tivesse lhe deixado, caixa craniana sem cérebro, ou talvez simplesmente no uso não físico.
Não havia motivos praquilo. Ao menos, não os já discutidos, sanados. Tudo estava bem. Sua esposa preocupava-se, seus filhos não o reconheciam. Aposentado, sentado, aparentemente imóvel. Não. Movimentava-se displicente e independente de qualquer outra coisa. Lembraram um dia, seus irmãos, de quando era menino, e tinha cismado em sumir. A mãe sabia que era coisa de moleque, arte de menino. Foi à venda, comprou farinha fermentada, leite, ovos, fez bolo, deixado a esfriar na janela do quarto dos meninos, onde seu filho estava, imóvel, sentado no beliche. Mal deu tempo de ir lavar as mãos, voltou e não havia bolo, muito menos alguém ali. Menino estava na terra, Não brinca na lama, meu filho, como adiantasse de alguma coisa. Dizia por dizer, era alívio de mãe. O menino não tinha dormido e nem comido nos dois dias anteriores. Era manha de bolo.
Agora era macaco velho, sem lama pra se enfiar, sem gude pra tocar, gritaria e poeira de rastro de rolimã. Era macaco velho, tinha esposa, filhos. Sua mãe, Doracile, por complicações respiratórias, morrera alguns anos antes. Era ótimo funcionário na firma onde trabalhava. Pontual, exemplar, disciplinado, amigável, eficiente. Aposentou-se feliz, deu por satisfeito o tempo de emprego, sentiu que havia cumprido sua tarefa. E do mais, suas costas e visão não permitiam mais nada, e mesmo o pensamento lhe feria o corpo, por vezes. Perfurava o éter do ar, sabia-se lá com o quê. Justino ficava lá, parado, fitando alguma coisa, que talvez só existisse a seus olhos.
Chamaram médico, nada havia de errado, talvez fosse depressão, fadiga, stress. Era bem apessoado, brincalhão, simpático, paciente, compreensivo. Mas era possível, dizia o médico, era possível. Cria-se em demência repentina, pipoco do transformador da cabeça, curto circuito, fio queimado, idéias não se formavam e o corpo não respondia. O tempo passou. Comia de menos pra pior, antes que era carne magra, agora só pele em osso. Olhos recaídos, ainda perdidos em algum canto sabe-se lá onde. Os meninos já eram marmanjos, um casado, o outro terminando a escola, cabra-safado namorador.
Bença, Mãe. Deus bençoe, filho, gritava de dentro, enxugando a louça Seu pai tá na varanda, de costume, fazia-se ouvir aos berros. Dinha tá comigo, anunciando a presença da nora à sogra. O grito estarrecedor, o silêncio irrompido, o corte no vácuo, o soluço no espaço. A mãe vem correndo da cozinha, que houve meu Deus, aflita. E do batente viu a nora com as mãos na boca, o filho de olhos arregalados, pulou em passos, passou ligeira pela porta. E ali havia o nada. Na cadeira, só as roupas, vazias, sem dono. Não havia mais bolo de Doralice, nem lama, nem gude, ou rolimã. Apenas o vazio do tecido tocando tecido.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
O Anti-Romântico
Sou o anti-romântico,
digo que amo
sem dizer que amo.
Divago sobre Bruxelas
e avenidas, ruelas,
coisas absurdas e vadias.
Sentimento sem os 'estes',
fizestes, chegastes, deixastes,
calastes, enrolastes, enchestes
língüiça em alexandrinos mal-amados.
Sou o anti-romântico
icógnito do desejo,
revelo a paixão não
em estrofes quilométricas, mas no beijo
das línguas que se abraçam
na sinceridade inexata de um filme vagabundo.
Não faço amor,
trepo, transo, faço sexo
bebo e falo tríplices trupes
sem nexo; revelo:
meus decassílabos são contados
a partir da vigésima sétima casa decimal.
Sou o anti-romântico,
amo nos seios, na bunda, nas coxas, entrecoxas,
não tenho medo de dizê-los
pêlos, vagina, cabelos.
Anti-simétrico
anti-estético
anti-estático
anti-patético
dos que amam na intensidade de um palavrão,
proferindo a dor angustiada na falta
do bem-amado,
caralho.
E estamos no século vinte e um,
e ainda preferem o lirismo exacerbado, caralho.
Sou a favor
do amor sem frangalhos,
sem vertentes, estrepes,
caixa de marcha, cigarro,
caralho.
Sou o anti-romântico,
e amo desempedido,
não preciso me segurar:
poesia é o orgasmo literário
dos que gozam intensamente.
digo que amo
sem dizer que amo.
Divago sobre Bruxelas
e avenidas, ruelas,
coisas absurdas e vadias.
Sentimento sem os 'estes',
fizestes, chegastes, deixastes,
calastes, enrolastes, enchestes
língüiça em alexandrinos mal-amados.
Sou o anti-romântico
icógnito do desejo,
revelo a paixão não
em estrofes quilométricas, mas no beijo
das línguas que se abraçam
na sinceridade inexata de um filme vagabundo.
Não faço amor,
trepo, transo, faço sexo
bebo e falo tríplices trupes
sem nexo; revelo:
meus decassílabos são contados
a partir da vigésima sétima casa decimal.
Sou o anti-romântico,
amo nos seios, na bunda, nas coxas, entrecoxas,
não tenho medo de dizê-los
pêlos, vagina, cabelos.
Anti-simétrico
anti-estético
anti-estático
anti-patético
dos que amam na intensidade de um palavrão,
proferindo a dor angustiada na falta
do bem-amado,
caralho.
E estamos no século vinte e um,
e ainda preferem o lirismo exacerbado, caralho.
Sou a favor
do amor sem frangalhos,
sem vertentes, estrepes,
caixa de marcha, cigarro,
caralho.
Sou o anti-romântico,
e amo desempedido,
não preciso me segurar:
poesia é o orgasmo literário
dos que gozam intensamente.
Seus olhos azuis.
Um casaco grosso de lã, vermelho e desgastado. A gola, grossa e quase sufocante, envolvia seu pescoço. Era algo aconchegante, naqueles tempos, naquele frio. Ainda sobre o casaco de lã, vermelho e desgastado, porém de gola materna, uma espécie de jaqueta azul escura. Reforçava qualquer dúvida deixada pela lã, antiga. Um short que pendia nos joelhos, por cima, calça jeans desbotadas. Sentia-se confortável no velho jeans que sempre usava. E nos pés, meias cobriam até o tornozelo, delimitavam o contato ao tênis. Apesar do frio, estava sentado no píer, com um dos pés próximo o suficiente da água, pra lhe gerar dúvidas do toque, ou não.
Pensava em tantas, tantas muitas coisas, mas em si, nada definido. As luzes do céu estavam em dúvida entre o semi-crepúscular sadio e o róseo deprimente pôr-do-sol. Vagueava em palavras, divagava. Milhões de palavras, milhões de pensamentos, nenhuma exatidão. Arqueava as costas de vez em vez, provavelmente tentando encontrar uma posição mais adequada. Respirava lentamente, seus cabelos negros, curtos, esvoaçavam como curtas rabiolas das pipas, uma pequena mecha caía-lhe sobre o olho, a mão esquerda saía do bolso, ao seu encontro. Voltava ao topo, esvoaçar ao vento. Respirava lentamente. Ainda sentia saudades dela, sua irmã. Tantos anos se passaram, a falta continuava tão recente quanto fora, tanto tempo atrás, próxima.
Seu rosto estava cansado, seu espírito mal estivesse ali. Não, estava sim. O ar que lhe saía das ventas, a dióxido congelado, o escape visível, era intenso. Por entre seus pensamentos, um monólogo incansável, também sem definição, sem sentido. Tirou as mãos dos bolsos, da jaqueta azul escura, de perto do grosso casaco de lã vermelho e sua gola maternal quase sufocante. Esticou os braços acima da cabeça, tateou como esquecesse o toque do ar, tentava encontrar as mãos, as encontrou, espreguiçou-se olhando ao horizonte. Estalou os dedos, as mãos, os braços, o pescoço. Voltaram, por fim, aos bolsos.
Sob o píer um lago de águas calmas, negras, de curto reflexo. Não fazia frio suficiente para que aquelas águas estivessem paralisadas, adormecessem, hibernassem no vazio da compressão absurda dos átomos. Congelassem. As margens não eram visíveis, tanto pela espessa bruma que inundava os olhos, quanto à falta de interesse de delimitar o que, naquele momento, não deveria ser delimitado. Em meio à torrente de pensamentos e palavras, uma lembrança. Uma memória, simples, curta. Não, não era uma memória qualquer, apesar de tão simplória.
Muitos anos antes, quando ainda era uma criança, nadara naquele lago. Não, não era inverno, não usava agasalho, não bebia cerveja, não ouvia Bob Dylan, não fazia sexo. Mal sabia o que era a maioria daquelas coisas, e caso soubesse, as ignorava. Não fazia sentido dar valor, ao que naquela idade, era por demais abstrato. A água fria coexistindo com sua pele, o céu azul perolado tomando posse de seus olhos de menino bravio. Isso e os mergulhos em busca das mil léguas submarinas. Naquele tempo, as frutas do caminho de casa estavam maduras, as flores, não todas, emergiam da escuridão de seus próprios caules, de suas próprias folhas.
Hesitou. Fechou os olhos, as mãos esgueiraram bolso afora, estava, agora, de pé. Lentamente permitiu o contato da visão com o invisível, da bruma que permeava o fim, e tornava-o indefinível, indescritível. Seus olhos contemplavam o universo à beira do lago. Os pensamentos pararam, o monólogo cessou. Seu espírito estava a lhe sair, talvez. Não, ainda estava ali. Ou melhor, tomou-lhe conta das funções, todas. Sua fisiologia era mais aquém que nunca, sua vida era inconsciente. Respirava lenta e pausadamente, fumaça tenra, vapor d’água, o dióxido era quase invisível, semi-indistinguível. Cerrou os olhos. Seus braços moviam-se sozinhos. A jaqueta caiu na madeira molhada, seus tênis estavam de lado, os meiotes sobrepostos logo ao lado. A cabeça sumiu por dentro da gola, os braços ergueram a lã. Milhões de alfinetes penetravam e percorriam seu corpo, o short não adiantava de muito. Jogou de lado. Abriu os olhos e contemplou a superfície do lago. Não via seu reflexo, não havia luz suficiente na existência de um espelho. Cerrou os olhos mais uma vez. Timidamente, dois passos para trás. Impulso, salto, mergulho.
Manteve-se submerso por algum tempo, acostumar-se à escuridão que lhe envolvia tenramente. Não, não era escuridão. O medo estava por debaixo dos meiotes, lembrou. Retornou à superfície. Olhou ao redor. Não havia píer, não havia margem. A bruma corrompeu-lhe os olhos. Mas o desespero estava no bolso esquerdo da jaqueta. Cerrou os olhos. O frio não lhe tirava mais o ar. Seus batimentos estavam tranqüilos mais uma vez, como de tantos anos atrás, como em algumas flores tímidas que arqueavam da sebe altitude, tocavam de leve o ar que constipava folhas.
A respiração atrasou dois segundos, o coração pulou uma batida. Qual a profundidade do lago? Não lembrava. Ou nunca soube? Tomou fôlego. Mergulhou, sobrevoou na escuridão gélida, desceu na semi-horizontal. Não descera na diagonal, o ângulo estava por demais perto da horizontalidade, sem ao menos sê-la. Retornou à superfície. Precisava de mais fôlego, de mais força. Não via mais o céu, a bruma estava sob posse de seus sentidos. Via o nada, ouvia o silêncio, sentia o gosto do inexistente, tateava a escuridão na qual estava imerso. A água não mais lhe era estranha, seu corpo a aceitava, e era mútuo.
Lembrou do artifício de alguns mergulhadores. Forçaria a respiração por um minuto e depois tomaria grande fôlego. O mergulhar seria repentino. Não tinha noção de tempo. Mas respirou o suficiente a seus pulmões tomarem nota da hora certa, fôlego, peito inflado, profundidade. Mergulhou no silêncio. Aprofundava-se mais e mais, nada mais existia. Nem água, nem bruma, talvez, sequer ele mesmo existisse. Bastante ar nos pulmões, poderia aprofundar-se mais e voltar sem problemas. Tocava o vazio, penetrava o vazio, existia no vazio.
Seus pulmões, seu coração, seus olhos, seus braços, suas pernas, seus cabelos, tudo havia sido tragado. Existia ao mesmo tempo da não existência. Enxergou a superfície, apesar não ter lembrado a decisão de voltar, muito menos o movimento necessário. O vazio agora era lago, mesmo ainda sem fundo. A água cercava sua existência, retomada no silêncio. Que não mais existia. As correntes, fluxos e seus próprios movimentos geravam sons abafados pela água, mas audíveis. Emergiu. O céu era azul perolado, não havia bruma. A água não estava tão gélida quanto lembrava. Olhou para cima, perplexo, com seus olhos de menino. Não nade pra muito longe, gritou-lhe a voz feminina infantil vinda do píer. Seus olhos eram azuis.
Pensava em tantas, tantas muitas coisas, mas em si, nada definido. As luzes do céu estavam em dúvida entre o semi-crepúscular sadio e o róseo deprimente pôr-do-sol. Vagueava em palavras, divagava. Milhões de palavras, milhões de pensamentos, nenhuma exatidão. Arqueava as costas de vez em vez, provavelmente tentando encontrar uma posição mais adequada. Respirava lentamente, seus cabelos negros, curtos, esvoaçavam como curtas rabiolas das pipas, uma pequena mecha caía-lhe sobre o olho, a mão esquerda saía do bolso, ao seu encontro. Voltava ao topo, esvoaçar ao vento. Respirava lentamente. Ainda sentia saudades dela, sua irmã. Tantos anos se passaram, a falta continuava tão recente quanto fora, tanto tempo atrás, próxima.
Seu rosto estava cansado, seu espírito mal estivesse ali. Não, estava sim. O ar que lhe saía das ventas, a dióxido congelado, o escape visível, era intenso. Por entre seus pensamentos, um monólogo incansável, também sem definição, sem sentido. Tirou as mãos dos bolsos, da jaqueta azul escura, de perto do grosso casaco de lã vermelho e sua gola maternal quase sufocante. Esticou os braços acima da cabeça, tateou como esquecesse o toque do ar, tentava encontrar as mãos, as encontrou, espreguiçou-se olhando ao horizonte. Estalou os dedos, as mãos, os braços, o pescoço. Voltaram, por fim, aos bolsos.
Sob o píer um lago de águas calmas, negras, de curto reflexo. Não fazia frio suficiente para que aquelas águas estivessem paralisadas, adormecessem, hibernassem no vazio da compressão absurda dos átomos. Congelassem. As margens não eram visíveis, tanto pela espessa bruma que inundava os olhos, quanto à falta de interesse de delimitar o que, naquele momento, não deveria ser delimitado. Em meio à torrente de pensamentos e palavras, uma lembrança. Uma memória, simples, curta. Não, não era uma memória qualquer, apesar de tão simplória.
Muitos anos antes, quando ainda era uma criança, nadara naquele lago. Não, não era inverno, não usava agasalho, não bebia cerveja, não ouvia Bob Dylan, não fazia sexo. Mal sabia o que era a maioria daquelas coisas, e caso soubesse, as ignorava. Não fazia sentido dar valor, ao que naquela idade, era por demais abstrato. A água fria coexistindo com sua pele, o céu azul perolado tomando posse de seus olhos de menino bravio. Isso e os mergulhos em busca das mil léguas submarinas. Naquele tempo, as frutas do caminho de casa estavam maduras, as flores, não todas, emergiam da escuridão de seus próprios caules, de suas próprias folhas.
Hesitou. Fechou os olhos, as mãos esgueiraram bolso afora, estava, agora, de pé. Lentamente permitiu o contato da visão com o invisível, da bruma que permeava o fim, e tornava-o indefinível, indescritível. Seus olhos contemplavam o universo à beira do lago. Os pensamentos pararam, o monólogo cessou. Seu espírito estava a lhe sair, talvez. Não, ainda estava ali. Ou melhor, tomou-lhe conta das funções, todas. Sua fisiologia era mais aquém que nunca, sua vida era inconsciente. Respirava lenta e pausadamente, fumaça tenra, vapor d’água, o dióxido era quase invisível, semi-indistinguível. Cerrou os olhos. Seus braços moviam-se sozinhos. A jaqueta caiu na madeira molhada, seus tênis estavam de lado, os meiotes sobrepostos logo ao lado. A cabeça sumiu por dentro da gola, os braços ergueram a lã. Milhões de alfinetes penetravam e percorriam seu corpo, o short não adiantava de muito. Jogou de lado. Abriu os olhos e contemplou a superfície do lago. Não via seu reflexo, não havia luz suficiente na existência de um espelho. Cerrou os olhos mais uma vez. Timidamente, dois passos para trás. Impulso, salto, mergulho.
Manteve-se submerso por algum tempo, acostumar-se à escuridão que lhe envolvia tenramente. Não, não era escuridão. O medo estava por debaixo dos meiotes, lembrou. Retornou à superfície. Olhou ao redor. Não havia píer, não havia margem. A bruma corrompeu-lhe os olhos. Mas o desespero estava no bolso esquerdo da jaqueta. Cerrou os olhos. O frio não lhe tirava mais o ar. Seus batimentos estavam tranqüilos mais uma vez, como de tantos anos atrás, como em algumas flores tímidas que arqueavam da sebe altitude, tocavam de leve o ar que constipava folhas.
A respiração atrasou dois segundos, o coração pulou uma batida. Qual a profundidade do lago? Não lembrava. Ou nunca soube? Tomou fôlego. Mergulhou, sobrevoou na escuridão gélida, desceu na semi-horizontal. Não descera na diagonal, o ângulo estava por demais perto da horizontalidade, sem ao menos sê-la. Retornou à superfície. Precisava de mais fôlego, de mais força. Não via mais o céu, a bruma estava sob posse de seus sentidos. Via o nada, ouvia o silêncio, sentia o gosto do inexistente, tateava a escuridão na qual estava imerso. A água não mais lhe era estranha, seu corpo a aceitava, e era mútuo.
Lembrou do artifício de alguns mergulhadores. Forçaria a respiração por um minuto e depois tomaria grande fôlego. O mergulhar seria repentino. Não tinha noção de tempo. Mas respirou o suficiente a seus pulmões tomarem nota da hora certa, fôlego, peito inflado, profundidade. Mergulhou no silêncio. Aprofundava-se mais e mais, nada mais existia. Nem água, nem bruma, talvez, sequer ele mesmo existisse. Bastante ar nos pulmões, poderia aprofundar-se mais e voltar sem problemas. Tocava o vazio, penetrava o vazio, existia no vazio.
Seus pulmões, seu coração, seus olhos, seus braços, suas pernas, seus cabelos, tudo havia sido tragado. Existia ao mesmo tempo da não existência. Enxergou a superfície, apesar não ter lembrado a decisão de voltar, muito menos o movimento necessário. O vazio agora era lago, mesmo ainda sem fundo. A água cercava sua existência, retomada no silêncio. Que não mais existia. As correntes, fluxos e seus próprios movimentos geravam sons abafados pela água, mas audíveis. Emergiu. O céu era azul perolado, não havia bruma. A água não estava tão gélida quanto lembrava. Olhou para cima, perplexo, com seus olhos de menino. Não nade pra muito longe, gritou-lhe a voz feminina infantil vinda do píer. Seus olhos eram azuis.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Interjeição
Lá fora
um céu azul.
cá dentro,
carquético e hermético,
recosta na janela
Num parapeito
que nem sequer Deus me livre.
Uma caixinha limita o horizonte
que não vejo.
Fora meus olhos, e paredículas, ridículas
de azulejo.
E nuvens empoleiradas nas laterais do
sol
zombam da prisão de nada
que me contém.
Céu,
gigante poça d'água do universo;
azul pra cacete.
e ainda há quem me mantenha
tão longe dele,
azul pra cacete.
ao quadrado da limitação
resta o que me desfaz.
Sem teto,
sem paz.
um céu azul.
cá dentro,
carquético e hermético,
recosta na janela
Num parapeito
que nem sequer Deus me livre.
Uma caixinha limita o horizonte
que não vejo.
Fora meus olhos, e paredículas, ridículas
de azulejo.
E nuvens empoleiradas nas laterais do
sol
zombam da prisão de nada
que me contém.
Céu,
gigante poça d'água do universo;
azul pra cacete.
e ainda há quem me mantenha
tão longe dele,
azul pra cacete.
ao quadrado da limitação
resta o que me desfaz.
Sem teto,
sem paz.
Então é Natal.
Natal. Não, não era bem Natal. Mas sim a época. Não importava, sinceramente, não importava. Desde a primeira peça de decoração no adiantamento das lojas, aos panfletos, às luzes, ao mês, à semana, à véspera, ao enfim Natal. Detestava tudo. E detestava o bico que arranjava todo ano: Papai Noel de shopping. E caso precisasse contar a alguém, explicar, explanar, o faria de uma só forma, desdém. Ah, só me enfiar dentro de uma roupa com cheiro de estofado de sofá e um gorro mofado. Meio quilo de talco na cara e uma cara de bobo alegre. Nossa! você é modelo? Quase. Esqueci da barba postiça com cheiro de queijo, sou Papai Noel de shopping.
Era desses que sentava em meio à decoração, o tempo passava, crianças dos mais variados tipos sentavam em seu colo, pré-adolescentes desocupados tiravam fotos e o dia passava devagar. Sempre se surpreendia com a variedade de crianças que existiam. Brancas, amarelas, negras, vermelhas, algumas meio azuladas. Muitas hiperativas, algumas magras, muitas pesadas. Sempre tinha de usar parte de seu pagamento pra dar um jeito nas pernas e nas costas. Pulavam, esperneavam, flatulavam, gritavam, aquietavam. Todo ano alguém melava as calças e vomitava. Típico. Por costume e preparo, carregava um segundo par de calças vermelhas e do resto da indumentária. E um frasco de perfume no bolso. Vagabundo, claro. Mas válido. Em síntese, fazia com que detestasse mais ainda o Natal.
Pelo bem de sua sanidade, desenvolveu técnicas de auto-distração. Algo como imaginar o seu lugar feliz, mas mais duradouro e virtuoso. A lei era pensar. Pensar em qualquer coisa, aleatoriamente, freneticamente, inesgotavelmente, inexoravelmente, incessantemente. Pensar, pensar, pensar, pensar, pensar. E através do treino mental, até o mínimo objeto desencadeava o big bang irrefreável de pensamentos. Um piso rachado era motivo pra pensar no grande terremoto que assolou a China, em comida chinesa, em filmes chineses, em filmes do Bruce Lee, em filmes de luta, em luta das classes, em Karl Marx e... Voltava à figura de um velho barbudo, gordo e fedorento. Precisaria de outra ‘inspiração’.
Buscando distração, leu um livro sobre pinheiros, aprofundou-se no assunto. Observava diferentes réplicas e autênticos, identificava os tipos, as características, o preço, o tempo que levou para desenvolver-se, a espécie da planta, o nome popular, popular, festa popular, enfeites. Tudo convergia ao Natal. Mozart uma vez quase foi pra fogueira, ainda jovem, graças a uma marcha natalina. Ou foi Chopin? Não, não Mozart. Mas sempre me lembro da Marcha imperial, aquela do Darth Vader. Pã, pã, pã, põ, pã, pã... Ok, chega. Luke, I’m your father. Mas então lembrava dos presentes de Natal. DVDs em promoção, Guerra nas Estrelas estava em promoção. Maldição.
Observava os enfeites, bolas redondas coloridas, brilhantes. Pareciam planetas. Descobriram que Plutão não é um planeta, mas sim um satélite de um suposto planeta que foi destruído. Nossa! então somos só alguns planetas. Mas plutão nunca fez diferença. Plutão, plutão. Nome engraçado! lembra glutão. Recebia crianças no colo de forma mecânica. Supostamente as ouvia, dava um doce, tratava-as bem e se mantinha distante. Seu lugar feliz era o hiperativismo mental.
Seria hilário se eu tirasse a roupa, pintasse minhas bolas de vermelho cintilante e me escondesse em uma árvore. E quando alguém chegasse perto, saísse de lá e gritasse “Essas são as bolas de Natal, feliz festas”. Seria doentio. Mas engraçado. E uma criança sentara no seu colo. Por um instante a linha de raciocínio sem sentido parou. O que fazer? Dar atenção. Mas estava cansado, dolorido, semi-emburrado. Qual seu nome?
Jesus. Ai, ironia. Mas é com G. Gesus! Isso. Certo, garoto.... E o que quer ganhar de Natal? Paz na terra. E um boneco do Max Steel? Com espada laser? Certo, certo. Como é o nome da sua mãe? Maria. Ta de brincadeira? Como? Nada, Gesus, nada. Não me diga que o nome do seu pai é Espírito Santo. Não, é Maicoun. Mas pensando bem, tinha algo do natal que teria a ver com Marx. Afinal a cor vermelha significa alguma coisa. Papai Noel? Seria uma conspiração do proletário? Papai Noel? Dizia o garoto com lágrimas nos olhos. Mas então o Papai Noel é um agente duplo? PAPAI NOEL? Que é, moleque? Acho que eu fiz xixi...
Era desses que sentava em meio à decoração, o tempo passava, crianças dos mais variados tipos sentavam em seu colo, pré-adolescentes desocupados tiravam fotos e o dia passava devagar. Sempre se surpreendia com a variedade de crianças que existiam. Brancas, amarelas, negras, vermelhas, algumas meio azuladas. Muitas hiperativas, algumas magras, muitas pesadas. Sempre tinha de usar parte de seu pagamento pra dar um jeito nas pernas e nas costas. Pulavam, esperneavam, flatulavam, gritavam, aquietavam. Todo ano alguém melava as calças e vomitava. Típico. Por costume e preparo, carregava um segundo par de calças vermelhas e do resto da indumentária. E um frasco de perfume no bolso. Vagabundo, claro. Mas válido. Em síntese, fazia com que detestasse mais ainda o Natal.
Pelo bem de sua sanidade, desenvolveu técnicas de auto-distração. Algo como imaginar o seu lugar feliz, mas mais duradouro e virtuoso. A lei era pensar. Pensar em qualquer coisa, aleatoriamente, freneticamente, inesgotavelmente, inexoravelmente, incessantemente. Pensar, pensar, pensar, pensar, pensar. E através do treino mental, até o mínimo objeto desencadeava o big bang irrefreável de pensamentos. Um piso rachado era motivo pra pensar no grande terremoto que assolou a China, em comida chinesa, em filmes chineses, em filmes do Bruce Lee, em filmes de luta, em luta das classes, em Karl Marx e... Voltava à figura de um velho barbudo, gordo e fedorento. Precisaria de outra ‘inspiração’.
Buscando distração, leu um livro sobre pinheiros, aprofundou-se no assunto. Observava diferentes réplicas e autênticos, identificava os tipos, as características, o preço, o tempo que levou para desenvolver-se, a espécie da planta, o nome popular, popular, festa popular, enfeites. Tudo convergia ao Natal. Mozart uma vez quase foi pra fogueira, ainda jovem, graças a uma marcha natalina. Ou foi Chopin? Não, não Mozart. Mas sempre me lembro da Marcha imperial, aquela do Darth Vader. Pã, pã, pã, põ, pã, pã... Ok, chega. Luke, I’m your father. Mas então lembrava dos presentes de Natal. DVDs em promoção, Guerra nas Estrelas estava em promoção. Maldição.
Observava os enfeites, bolas redondas coloridas, brilhantes. Pareciam planetas. Descobriram que Plutão não é um planeta, mas sim um satélite de um suposto planeta que foi destruído. Nossa! então somos só alguns planetas. Mas plutão nunca fez diferença. Plutão, plutão. Nome engraçado! lembra glutão. Recebia crianças no colo de forma mecânica. Supostamente as ouvia, dava um doce, tratava-as bem e se mantinha distante. Seu lugar feliz era o hiperativismo mental.
Seria hilário se eu tirasse a roupa, pintasse minhas bolas de vermelho cintilante e me escondesse em uma árvore. E quando alguém chegasse perto, saísse de lá e gritasse “Essas são as bolas de Natal, feliz festas”. Seria doentio. Mas engraçado. E uma criança sentara no seu colo. Por um instante a linha de raciocínio sem sentido parou. O que fazer? Dar atenção. Mas estava cansado, dolorido, semi-emburrado. Qual seu nome?
Jesus. Ai, ironia. Mas é com G. Gesus! Isso. Certo, garoto.... E o que quer ganhar de Natal? Paz na terra. E um boneco do Max Steel? Com espada laser? Certo, certo. Como é o nome da sua mãe? Maria. Ta de brincadeira? Como? Nada, Gesus, nada. Não me diga que o nome do seu pai é Espírito Santo. Não, é Maicoun. Mas pensando bem, tinha algo do natal que teria a ver com Marx. Afinal a cor vermelha significa alguma coisa. Papai Noel? Seria uma conspiração do proletário? Papai Noel? Dizia o garoto com lágrimas nos olhos. Mas então o Papai Noel é um agente duplo? PAPAI NOEL? Que é, moleque? Acho que eu fiz xixi...
domingo, 29 de novembro de 2009
Os pés.
Pés em pares:
parem passos
permeiam espaços
permitem a um mundo
de movimentos escassos
a conquista incansável
de homens descalços
que caminham na lua
com os pés no chão.
Quando separados,
caminham apoiados
em longos cajados,
nunca cansados
marcando sempre
em um dos lados
cinco dedos
firmados, fincados,
qualquer situação.
Então pra cima
descansados das botas,
chinelos,alcovas
respiram aliviados:
bem aventurado
o momento da pausa
quando estirados,
os pés sentem falta
do chão.
parem passos
permeiam espaços
permitem a um mundo
de movimentos escassos
a conquista incansável
de homens descalços
que caminham na lua
com os pés no chão.
Quando separados,
caminham apoiados
em longos cajados,
nunca cansados
marcando sempre
em um dos lados
cinco dedos
firmados, fincados,
qualquer situação.
Então pra cima
descansados das botas,
chinelos,alcovas
respiram aliviados:
bem aventurado
o momento da pausa
quando estirados,
os pés sentem falta
do chão.
Oca do mundo
Antes, obrigadas ao aborto silencioso pela não entrega de seus filhos à escravidão, mas o alvorecer chegara. Seus barrigões lisos eram acompanhados de sorrisos, esperança enfim. Os rituais foram retomados, as iniciações, os cânticos, as festas, a honra. A continuidade, expressa e infinda no honrar de seus antepassados, agora era possível. Não, nunca haviam esquecido. Em suas cabeças, varava uma enorme fogueira central, onde ritualisticamente faziam o necessário. Tudo acabara. Exteriorizaram as fogueiras, reuniram as brasas, as fagulhas: era enorme, um fogaréu lindo. Vermelho que ascendia brilhante, lambendo as estrelas e cuspindo cinzas.
O velho cacique, doente em outras épocas, mal parecia o homem moribundo de antes. Estava vivo. Seus pequenos olhos pulsavam fortes, vívidos como ele. Os jovens entendiam finalmente seu nome, Cacique Olhos de Sol. A caça, a pesca, a extração de tudo mais que precisavam. Agora sim, era o verde, o amarelo, o vermelho, o índio. Antes, nem suas próprias matas reconheciam. Em casa, enfim. Uma casa tão grande que enchia os olhos de vida. Enchia a vida de olhos. Noites e dias eram vivos, surgiam por vontade própria, sem hora marcada. Mas lá fora, distante das matas, algo acontecera. Algo de importante, algo de sinistro.
Um golpe. Um golpe militar. Era, afinal, o Brasil, 1970. A ditadura militar fora instalada há algum tempo. O resto da vida não existia, nem liberdade, nem voz. Pássaros que cantavam nas matas, não cantavam nas florestas de concreto, medo da prisão. Medo da tortura. Mas aquela, na verdade, era a pior tortura: não viver de verdade. O sangue escorria em segredo, as lágrimas também. Existia um aborto ideológico. As idéias, os ideais, não poderiam existir ali, seriam apenas escravos. Os rituais urbanos, em parte, foram revogados. Instaurado também, um toque de recolher. A noite dormia cedo, o dia acordava adiantado. O mundo em cinzas.
Nada daquilo, de quebranto, afetava a vida ali nas matas. Passado tempo, homens brancos andavam aos arredores da aldeia. Talvez, coletando informações. Quais? Não se sabia. Não havia receio, nada. Dias depois, um mensageiro, branco, extremamente caucasiano, chegou à aldeia. Trazia uma carta, leria em voz alta, claro. Aqueles índios, graças ao contato prolongado, passado, com outros homens brancos, tinham noção de português. Está determinado de forma estrita e direta, através das próprias palavras do excelentíssimo presidente general, que quaisquer tipos de rituais, reuniões e/ou demonstrações de aglomero, são considerados exemplos de conspiração, agitação política e heresia social. Caso insistissem em tais ações, seriam todos presos.
Na cidade, alguns dias depois, um pequeno reduto militar fora acionado, agitadores reunidos. Camburões, furgões e armas. Qual foi a denúncia, tenente? O de sempre, cabo. Alguém conspirando contra a nação.
Um ronco alto. Não, não era só um. Agora eram vários. Seriam os espíritos das matas?
O chão tremia. O que fazer? Esperar, explicava Olhos de Sol.
Onde estão? Siga por aquela clareira, cabo. Sim, senhor!
Estão com roupas estranhas. São mesmo os espíritos das matas?
São selvagens! São os malditos indígenas! O que fazer?
O que têm nas mãos?
Uma medida patriótica.
Parecem lanças de pedra preta. Mas não são afiadas.
Qual?
Eles pararam. Que bichos são aqueles em que estão montados?
Atirem.
Cinzas.
O velho cacique, doente em outras épocas, mal parecia o homem moribundo de antes. Estava vivo. Seus pequenos olhos pulsavam fortes, vívidos como ele. Os jovens entendiam finalmente seu nome, Cacique Olhos de Sol. A caça, a pesca, a extração de tudo mais que precisavam. Agora sim, era o verde, o amarelo, o vermelho, o índio. Antes, nem suas próprias matas reconheciam. Em casa, enfim. Uma casa tão grande que enchia os olhos de vida. Enchia a vida de olhos. Noites e dias eram vivos, surgiam por vontade própria, sem hora marcada. Mas lá fora, distante das matas, algo acontecera. Algo de importante, algo de sinistro.
Um golpe. Um golpe militar. Era, afinal, o Brasil, 1970. A ditadura militar fora instalada há algum tempo. O resto da vida não existia, nem liberdade, nem voz. Pássaros que cantavam nas matas, não cantavam nas florestas de concreto, medo da prisão. Medo da tortura. Mas aquela, na verdade, era a pior tortura: não viver de verdade. O sangue escorria em segredo, as lágrimas também. Existia um aborto ideológico. As idéias, os ideais, não poderiam existir ali, seriam apenas escravos. Os rituais urbanos, em parte, foram revogados. Instaurado também, um toque de recolher. A noite dormia cedo, o dia acordava adiantado. O mundo em cinzas.
Nada daquilo, de quebranto, afetava a vida ali nas matas. Passado tempo, homens brancos andavam aos arredores da aldeia. Talvez, coletando informações. Quais? Não se sabia. Não havia receio, nada. Dias depois, um mensageiro, branco, extremamente caucasiano, chegou à aldeia. Trazia uma carta, leria em voz alta, claro. Aqueles índios, graças ao contato prolongado, passado, com outros homens brancos, tinham noção de português. Está determinado de forma estrita e direta, através das próprias palavras do excelentíssimo presidente general, que quaisquer tipos de rituais, reuniões e/ou demonstrações de aglomero, são considerados exemplos de conspiração, agitação política e heresia social. Caso insistissem em tais ações, seriam todos presos.
Na cidade, alguns dias depois, um pequeno reduto militar fora acionado, agitadores reunidos. Camburões, furgões e armas. Qual foi a denúncia, tenente? O de sempre, cabo. Alguém conspirando contra a nação.
Um ronco alto. Não, não era só um. Agora eram vários. Seriam os espíritos das matas?
O chão tremia. O que fazer? Esperar, explicava Olhos de Sol.
Onde estão? Siga por aquela clareira, cabo. Sim, senhor!
Estão com roupas estranhas. São mesmo os espíritos das matas?
São selvagens! São os malditos indígenas! O que fazer?
O que têm nas mãos?
Uma medida patriótica.
Parecem lanças de pedra preta. Mas não são afiadas.
Qual?
Eles pararam. Que bichos são aqueles em que estão montados?
Atirem.
Cinzas.
sábado, 28 de novembro de 2009
A quem escreve
Minha vida
não cabe num disco
num outdoor
num papelete
numa manchete
numa coluna de jornal
em contreau
em vinte e cinco de
março
em antigo carnaval
em passos largos
em lugares alagados
em metrôs movimentados
em serpentear
da areia que dança no
chão.
E tudo
são crostas absurdas
cortes suturados
palavras imundas,
queimaduras de sol,
unhas encravadas
farpas, espinhos,
fraturas, espadas
e bolas de papel.
Minha vida cabe
na plana palma
da alma plena
da minha
mão
não cabe num disco
num outdoor
num papelete
numa manchete
numa coluna de jornal
em contreau
em vinte e cinco de
março
em antigo carnaval
em passos largos
em lugares alagados
em metrôs movimentados
em serpentear
da areia que dança no
chão.
E tudo
são crostas absurdas
cortes suturados
palavras imundas,
queimaduras de sol,
unhas encravadas
farpas, espinhos,
fraturas, espadas
e bolas de papel.
Minha vida cabe
na plana palma
da alma plena
da minha
mão
Momento.
Dona de casa, teimosa, decidida, jeitosa, líder do movimento anti-homossexual de sua cidade, alta, loira, homofóbica, olhos azuis. Suas características, sua pura persona, era descrita assim, apenas assim. Quem ouvisse de falar das enumerações de fatos, sabia se tratar dela. Era, diz-se, conhecida. Através de uma polêmica indizível e inexplicável, expulsou três casais gays que moravam em seu bairro. Oratória impecável, vocabulário na medida. Não era chulo, não era garboso, mas na medida. Todos entendiam, compreendiam e deixavam-se hipnotizar por aquele discurso preconceituoso, o qual, ela acreditava piamente. Juntou-se, inclusive, com uma igreja local. Tinha lá seus detentos motivos: demonizar, também de forma religiosa, aquelas pessoas inocentes.
Um tanto feminista, na medida certa. Conservadora por natureza. Tinha uma beleza estranha. Media lá pra seus um metro e oitenta, cabelos loiros, lisíssimos e longos, assoreando as nádegas, as quais, volumosas. Rosto afinado, olhos piscina, azul piscina. Vestia-se basicamente com o mesmo tom de roupa que de seus olhos, técnica de destaque, joguete de oratória e método de cativo de atenção. Irritava-se com facilidade, achava a homossexualidade um absurdo. Horrendo, nojento, depravado. Atirava suas cargas de chumbo verbal ao público, que, depois de quinze minutos, caíam na conversa, acompanhavam, gritavam junto.
Começara de baixo, antes, era apenas um membro qualquer. Galgando e trabalhando, atingiu a liderança. A líder anterior não era sequer metade do que ela era. Decidida, vontades impostas e expostas. Sempre de vestido, que esvoaçava ao ponto de uma necessidade de segurá-lo. Hitler preso em Marilyn Monroe, já fora dito. E não deixava de ser verdade. Era casada, muito bem casada. Ele era alto, forte, charmoso, bonito e rico. Sonho de consumo de qualquer uma daquelas mulheres, assíduas acompanhantes e fiéis do movimento. O sexo era bom. Tinha dois filhos.
A liderança, apesar de rotatória, concentrava-se em suas mãos. Não fora golpe de estado, não fora joguete político. Simplesmente, todos os membros concordavam que ela era a melhor, sem dúvidas. Era a Evita Perón do movimento, que, caso tudo corresse bem, alavancaria um partido homofóbico-conservador. Tudo em prol da suposta limpeza moral, releitura da decência, renovação da moralidade, coisas do tipo. E, pela enorme contagem, ao menos no grupo local, ganhariam em vitória esmagadora. Todos, antes, homofóbicos dentro do armário, com a força do grupo, assumiram suas posições, tornaram-na pública.
Abaixo dela, os restos dos cargos eram rotatórios, móveis. Várias referências, influência de amizade aqui, ali, aí então, joguetes de poder. E o movimento exercia seu ‘trabalho’ com força e disposição totais. Alguém tão ‘admirável’ quanto ela, galgava aos poucos postos mais e mais elevados. E os alcançava com louvor, fazia o trabalho com maestria. Tinha seus um metro e setenta. Morena, cabelos curtos, olhos escuros, profundos. Vestia-se casualmente, falava calmamente, mas tinha a mesma influência hipnótica da líder.
E tornaram-se amigas, grandes. Conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. E principalmente sobre o partido e sua repulsa. Quando necessário de palestras em locais mais distantes, dormiam no mesmo quarto de hotel, ou quase. Às vezes mal dormiam, conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. Ela estava decidida que, quando se candidatasse pelo futuro partido, aquela garota tomaria seu lugar, comandaria tudo. E o faria bem.
Tudo corria inegavelmente bem. Antes de um grande encontro, em uma cidade vizinha, marcaram uma reunião a fim de acertar os últimos detalhes. Tudo, obviamente, resolvido facilmente. Conversaram por horas, incessantemente, incansavelmente. Não existiam segredos entre elas, eram quase irmãs. Quase. Até então, o único motivo real, era o sangue, distinto, desigual. E conforme as horas passavam, conversavam mais e mais intensamente. E em súbito, o coração pulou uma batida. Não. Ambos pularam. Não só uma batida, mas um fluxo incontestável de batidas.
O que houve? Ela cerrou os olhos. Apertou forte a mão da garota. Beijou-lhe. Beijou-lhe com mais tesão, desejo, afinco e paixão do que jamais beijara seu marido. Por horas, incessantemente, incansavelmente.
Um tanto feminista, na medida certa. Conservadora por natureza. Tinha uma beleza estranha. Media lá pra seus um metro e oitenta, cabelos loiros, lisíssimos e longos, assoreando as nádegas, as quais, volumosas. Rosto afinado, olhos piscina, azul piscina. Vestia-se basicamente com o mesmo tom de roupa que de seus olhos, técnica de destaque, joguete de oratória e método de cativo de atenção. Irritava-se com facilidade, achava a homossexualidade um absurdo. Horrendo, nojento, depravado. Atirava suas cargas de chumbo verbal ao público, que, depois de quinze minutos, caíam na conversa, acompanhavam, gritavam junto.
Começara de baixo, antes, era apenas um membro qualquer. Galgando e trabalhando, atingiu a liderança. A líder anterior não era sequer metade do que ela era. Decidida, vontades impostas e expostas. Sempre de vestido, que esvoaçava ao ponto de uma necessidade de segurá-lo. Hitler preso em Marilyn Monroe, já fora dito. E não deixava de ser verdade. Era casada, muito bem casada. Ele era alto, forte, charmoso, bonito e rico. Sonho de consumo de qualquer uma daquelas mulheres, assíduas acompanhantes e fiéis do movimento. O sexo era bom. Tinha dois filhos.
A liderança, apesar de rotatória, concentrava-se em suas mãos. Não fora golpe de estado, não fora joguete político. Simplesmente, todos os membros concordavam que ela era a melhor, sem dúvidas. Era a Evita Perón do movimento, que, caso tudo corresse bem, alavancaria um partido homofóbico-conservador. Tudo em prol da suposta limpeza moral, releitura da decência, renovação da moralidade, coisas do tipo. E, pela enorme contagem, ao menos no grupo local, ganhariam em vitória esmagadora. Todos, antes, homofóbicos dentro do armário, com a força do grupo, assumiram suas posições, tornaram-na pública.
Abaixo dela, os restos dos cargos eram rotatórios, móveis. Várias referências, influência de amizade aqui, ali, aí então, joguetes de poder. E o movimento exercia seu ‘trabalho’ com força e disposição totais. Alguém tão ‘admirável’ quanto ela, galgava aos poucos postos mais e mais elevados. E os alcançava com louvor, fazia o trabalho com maestria. Tinha seus um metro e setenta. Morena, cabelos curtos, olhos escuros, profundos. Vestia-se casualmente, falava calmamente, mas tinha a mesma influência hipnótica da líder.
E tornaram-se amigas, grandes. Conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. E principalmente sobre o partido e sua repulsa. Quando necessário de palestras em locais mais distantes, dormiam no mesmo quarto de hotel, ou quase. Às vezes mal dormiam, conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. Ela estava decidida que, quando se candidatasse pelo futuro partido, aquela garota tomaria seu lugar, comandaria tudo. E o faria bem.
Tudo corria inegavelmente bem. Antes de um grande encontro, em uma cidade vizinha, marcaram uma reunião a fim de acertar os últimos detalhes. Tudo, obviamente, resolvido facilmente. Conversaram por horas, incessantemente, incansavelmente. Não existiam segredos entre elas, eram quase irmãs. Quase. Até então, o único motivo real, era o sangue, distinto, desigual. E conforme as horas passavam, conversavam mais e mais intensamente. E em súbito, o coração pulou uma batida. Não. Ambos pularam. Não só uma batida, mas um fluxo incontestável de batidas.
O que houve? Ela cerrou os olhos. Apertou forte a mão da garota. Beijou-lhe. Beijou-lhe com mais tesão, desejo, afinco e paixão do que jamais beijara seu marido. Por horas, incessantemente, incansavelmente.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Diminuendo.
Ainda me faço
tão quanto
e tanto pequeno
pra caber na miudeza
dos olhos serenos
que insistem em me olhar.
E ainda
solto em desafio
perdido num bolso de calça
escondido
junto da costura,
agarrado ferrenho e com raça
pra ninguém mais me encontrar.
são só moedas de centavos,
meu bem, só um cara
e um coroa
sem ciúme,
mais ninguém;
e o mundo
cabe num ticked de trem.
tão quanto
e tanto pequeno
pra caber na miudeza
dos olhos serenos
que insistem em me olhar.
E ainda
solto em desafio
perdido num bolso de calça
escondido
junto da costura,
agarrado ferrenho e com raça
pra ninguém mais me encontrar.
são só moedas de centavos,
meu bem, só um cara
e um coroa
sem ciúme,
mais ninguém;
e o mundo
cabe num ticked de trem.
sábado, 7 de novembro de 2009
Individualismo
Nos preceitos
mais fundamentais
Somos átomos, distantes
e somente orbitais.
separados,
enclausurados
na distância de nós mesmos
numa auto-transcendência social
solitária da morte que nos
conserva.
mais fundamentais
Somos átomos, distantes
e somente orbitais.
separados,
enclausurados
na distância de nós mesmos
numa auto-transcendência social
solitária da morte que nos
conserva.
Óculos blues.
Seus relacionamentos não funcionavam. Apesar aquela peculiaridade, era atraente. Charmoso, a palavra certa. Conquistava mulheres, lia os sinais, o morder de lábios, os sorrisos sutis, as mãos nos cabelos. Sabia o que dizer, quando dizer, como dizer. Mas não se relacionava de forma séria, não avançava de forma alguma. Tudo, apesar de ser a palavra certa, graças à peculiaridade. Quando perguntavam sobre, simplesmente respondia que não poderia tirá-los. Estariam grudados ou algo do tipo? Não, só não posso tirá-los, resposta. Mal talvez enxergasse o rosto de todas as mulheres com quem esteve. De todas as maneiras que esteve. Aquela peculiaridade, mesmo à noite. Lentes escuras, óculos escuros. E talvez nem ele mesmo soubesse a cor de seus próprios olhos.
Por uma vez, sentiu-se obrigado a explicar a situação, os motivos. O motivo, na verdade. Ela talvez não fosse alguém por quem estivesse apaixonado, mas não era alguém que mereceria ficar sem resposta. Qual a cor de seus olhos? Por que nunca tira os óculos? Dissertou, explicou todos os detalhes. O motivo. Ela riu, riu como nunca tinha rido. Vá embora, nunca mais se aproxime de mim. Que de outra maneira poderia ser? Agora eram lágrimas, não dentes brancos. Um dia, você se sentirá compelido a tirar estes seus óculos escuros. Nunca. Um dia, um dia. E perceberá que nada disso é uma brincadeira. Vá embora. Agora era solidão, não eram lágrimas, nem dentes brancos. Acima de tudo, óculos escuros.
O motivo, se é que você realmente importa-se em saber, é simples. Confuso, surreal. Mas simples. E risadas não adiantarão de nada, garanto. Os olhos são os espelhos da alma, dizem. E nesse caso, específico, porta aberta, sem tranca, sem trava, escape sem válvula. Esvoaçadamente perderia sua existência. E todo o surrealismo, desde que se entendia por gente, era presente em sua rotina. Óculos escuros, mais nada. Refeições, óculos escuros. Banho, óculos escuros. Dormir, óculos escuros. Sexo, óculos escuros. Nascimento, óculos escuros. E desde que conservasse os óculos escuros, Morte, óculos escuros.
Seria assim, uma vida por trás do semitransparente, na escuridão relativa, não fosse pela maldita praga. Aquela garota praguejara, amaldiçoara, rira. No fim das contas, coincidente ou não, tudo aconteceu, de uma maneira ou de outra. Alguma coisa, sem óculos escuros. Uma garota nova no trabalho, visivelmente interessada em seu jeito. Seu charme natural, a palavra certa. De forma incrível e inesperada, ele não se esforçou para tanto, era natural. Uma palavra mais-que-certa, desde que interpretada assim. Foi um encontro, ao amanhecer, talvez ela não estranhasse os óculos, desse tudo certo. Finalmente, Amor, óculos escuros. Ele gostava dela. Era mútuo, nós sabemos. Mas ele não se atreveu a ler.
Conversaram. Uma teórica troca de olhares. Os dedos juntos, aos poucos, óculos escuros. Tolices, óculos escuros. E então o beijo. O beijo apaixonado, nada além daquilo, óculos escuros. Mas tudo rápido demais, um grito na mudez, o silêncio permanente. Tudo está ali, diante de seus olhos. Dos olhos dela, dos nossos olhos. E palavras não são nada mais que olhos de uma realidade interpretável, óculos escuros. Restaram suas roupas, murchas, sem carne, sem vida, e uma fumaça branca, desvencilhou por onde órbitas fitariam os óculos escuros. Os óculos estavam na areia, praia. Eram verdes, óculos escuros.
Por uma vez, sentiu-se obrigado a explicar a situação, os motivos. O motivo, na verdade. Ela talvez não fosse alguém por quem estivesse apaixonado, mas não era alguém que mereceria ficar sem resposta. Qual a cor de seus olhos? Por que nunca tira os óculos? Dissertou, explicou todos os detalhes. O motivo. Ela riu, riu como nunca tinha rido. Vá embora, nunca mais se aproxime de mim. Que de outra maneira poderia ser? Agora eram lágrimas, não dentes brancos. Um dia, você se sentirá compelido a tirar estes seus óculos escuros. Nunca. Um dia, um dia. E perceberá que nada disso é uma brincadeira. Vá embora. Agora era solidão, não eram lágrimas, nem dentes brancos. Acima de tudo, óculos escuros.
O motivo, se é que você realmente importa-se em saber, é simples. Confuso, surreal. Mas simples. E risadas não adiantarão de nada, garanto. Os olhos são os espelhos da alma, dizem. E nesse caso, específico, porta aberta, sem tranca, sem trava, escape sem válvula. Esvoaçadamente perderia sua existência. E todo o surrealismo, desde que se entendia por gente, era presente em sua rotina. Óculos escuros, mais nada. Refeições, óculos escuros. Banho, óculos escuros. Dormir, óculos escuros. Sexo, óculos escuros. Nascimento, óculos escuros. E desde que conservasse os óculos escuros, Morte, óculos escuros.
Seria assim, uma vida por trás do semitransparente, na escuridão relativa, não fosse pela maldita praga. Aquela garota praguejara, amaldiçoara, rira. No fim das contas, coincidente ou não, tudo aconteceu, de uma maneira ou de outra. Alguma coisa, sem óculos escuros. Uma garota nova no trabalho, visivelmente interessada em seu jeito. Seu charme natural, a palavra certa. De forma incrível e inesperada, ele não se esforçou para tanto, era natural. Uma palavra mais-que-certa, desde que interpretada assim. Foi um encontro, ao amanhecer, talvez ela não estranhasse os óculos, desse tudo certo. Finalmente, Amor, óculos escuros. Ele gostava dela. Era mútuo, nós sabemos. Mas ele não se atreveu a ler.
Conversaram. Uma teórica troca de olhares. Os dedos juntos, aos poucos, óculos escuros. Tolices, óculos escuros. E então o beijo. O beijo apaixonado, nada além daquilo, óculos escuros. Mas tudo rápido demais, um grito na mudez, o silêncio permanente. Tudo está ali, diante de seus olhos. Dos olhos dela, dos nossos olhos. E palavras não são nada mais que olhos de uma realidade interpretável, óculos escuros. Restaram suas roupas, murchas, sem carne, sem vida, e uma fumaça branca, desvencilhou por onde órbitas fitariam os óculos escuros. Os óculos estavam na areia, praia. Eram verdes, óculos escuros.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A genética do acaso
O caso é um descaso
que me persegue e
me seduz
O acaso me acompanha
no lúme das entranhas
de meia em meia noite
e me desperta de cinco
em cinco de manhã
me reduz ao desacato
e me despede em montanhas
de caras e coroas
e bocas estranhas
numa aleatoriedade
que me antecede e
me reduz:
sou metade
da interferência
da prévia antecedência
do que o destino sempre
quis pra mim; sou um rebelde
na genética de concreto
dane-se o certo
o incerto
me conduz.
que me persegue e
me seduz
O acaso me acompanha
no lúme das entranhas
de meia em meia noite
e me desperta de cinco
em cinco de manhã
me reduz ao desacato
e me despede em montanhas
de caras e coroas
e bocas estranhas
numa aleatoriedade
que me antecede e
me reduz:
sou metade
da interferência
da prévia antecedência
do que o destino sempre
quis pra mim; sou um rebelde
na genética de concreto
dane-se o certo
o incerto
me conduz.
Incerteza
Existe então algum sentido em transar com uma garota diferente a cada dois dias, em média? É o tipo de coisa que nunca aconteceria, não a um cara como eu. Por outro lado sempre acontece. Exato. Enquanto acontecer, não existe um motivo concreto que me faça desperdiçar aquilo. O que?
Ele deu uma longa tragada no cigarro, retirou da boca, segurou para fora da cama, batendo as cinzas num cinzeiro de um banco próximo. Ela simplesmente continuou o que fazia. Acarinhava seus cabelos, cabelos lisos e jogados. De alguma maneira, estariam penteados, um charme incomum. E gritavam a súplica do afago. Eram atendidos, a mão sempre retornava àquela cabeça. Ele tragou mais uma vez o cigarro, repetiu todo o movimento.
Se uma mulher atraente, não vulgar, te beija... Você não pode fazer nada além de beijar de volta. ? Simplesmente, aquele beijo pode levar a algo. E você realmente acha que uma transa é tudo? No caso, não é uma transa, foram várias. Não estava falando disso. ? Daqui pra um minuto, um dia, uma semana, um mês, uma década. Tudo pode estar acabado. E um beijo faria a diferença? Depende. Sexo faria?
Apagou o cigarro, beijou o pulso, dono da mão que o acalantava nos cabelos. Ela sorriu. Talvez ele tenha percebido, talvez não. Mas, de forma sutil e quase imperceptível, ela sorriu. Nós percebemos, o foco era o rosto dela. Queríamos alguma reação. E tudo aquilo parecia surrado, dentro de um lugar inatingível.
Tudo pra você, então, depende de uma estranha relação vagina-coração? Não necessariamente, mas é algo que se deve tentar, atingir o fundo. Nojento. Seria assim, se tentasse com todas elas, sem restrições. E então você simplesmente beija? Nem todo beijo é O beijo. E então, caso nunca apareça, tudo será resumido nessa média de uma garota a cada duas noites? Não, a solidão só existe pra quem abre os braços quando ela se aproxima. Então me diga, como você imagina sua vida daqui pra dez anos?
Ele fechou os olhos. Ela insistiu.
Talvez eu não precise de mais dez anos pra me apaixonar ou achar o amor da minha vida.
Ela mordeu os lábios, Ele tragou um novo cigarro, repetiu todo o movimento. Dessa vez, nem mesmo eu, ou você, ou ele percebemos. Mas não precisamos, é um sorriso mudo.
Estou grávida.
Ele deu uma longa tragada no cigarro, retirou da boca, segurou para fora da cama, batendo as cinzas num cinzeiro de um banco próximo. Ela simplesmente continuou o que fazia. Acarinhava seus cabelos, cabelos lisos e jogados. De alguma maneira, estariam penteados, um charme incomum. E gritavam a súplica do afago. Eram atendidos, a mão sempre retornava àquela cabeça. Ele tragou mais uma vez o cigarro, repetiu todo o movimento.
Se uma mulher atraente, não vulgar, te beija... Você não pode fazer nada além de beijar de volta. ? Simplesmente, aquele beijo pode levar a algo. E você realmente acha que uma transa é tudo? No caso, não é uma transa, foram várias. Não estava falando disso. ? Daqui pra um minuto, um dia, uma semana, um mês, uma década. Tudo pode estar acabado. E um beijo faria a diferença? Depende. Sexo faria?
Apagou o cigarro, beijou o pulso, dono da mão que o acalantava nos cabelos. Ela sorriu. Talvez ele tenha percebido, talvez não. Mas, de forma sutil e quase imperceptível, ela sorriu. Nós percebemos, o foco era o rosto dela. Queríamos alguma reação. E tudo aquilo parecia surrado, dentro de um lugar inatingível.
Tudo pra você, então, depende de uma estranha relação vagina-coração? Não necessariamente, mas é algo que se deve tentar, atingir o fundo. Nojento. Seria assim, se tentasse com todas elas, sem restrições. E então você simplesmente beija? Nem todo beijo é O beijo. E então, caso nunca apareça, tudo será resumido nessa média de uma garota a cada duas noites? Não, a solidão só existe pra quem abre os braços quando ela se aproxima. Então me diga, como você imagina sua vida daqui pra dez anos?
Ele fechou os olhos. Ela insistiu.
Talvez eu não precise de mais dez anos pra me apaixonar ou achar o amor da minha vida.
Ela mordeu os lábios, Ele tragou um novo cigarro, repetiu todo o movimento. Dessa vez, nem mesmo eu, ou você, ou ele percebemos. Mas não precisamos, é um sorriso mudo.
Estou grávida.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Outdoor
Há um retrocesso
no acesso das coisas
que se despedem no céu
ou há um sucesso
ou um regresso
sempre que existem
nuvens quaisquer
num mundo pelado:
cubram os anúncios!
(e todos os prenúncios
espalhados por aí ).
Perdido
Escuridão. A primeira coisa que viu. Não sabia onde estava, quando estava, muito menos como estava, apenas, estar mergulhado numa treva sem fim. E, de tão profunda, engolia aos poucos a chama de seus pensamentos. Percebeu o chão firme abaixo de seus pés. Passada em frente, lentamente. Quando a sola de seu sapato tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. Caso alguma criatura habitasse aquela treva, agora estaria ciente de sua presença. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. Suas estranhas garras musicadas apontavam a existência do indivíduo perdido na treva, a intrínseca visão das criaturas ali também perdidas, em suas órbitas cegas à imagem e afiadas ao som, centraram na carne pulsante, nos ossos estalantes e no coração aflito. E, aquela presa era simplesmente deliciosa, imperdível. Não tinha armas, não era gigante, não era perigosa. Deliciosamente indefesa.
As grandes notas difusas do estalar dos passos do homem, apesar de traíras de sua presença, também denunciaram uma das criaturas, que, na tentativa da aproximação furtiva, permitiu que uma gota de saliva de sua boca grotesca atingisse o solo. O alarme ecoou por toda a treva, o alarde recuou por todo o espaço. Não se podia ver o som, mas com aquele tipo de definição, deduzia-se que vinha da retaguarda. O homem pressentindo perigo correu, pesadamente, distribuindo garras musicais pelo espaço, uma trilha de pão viva e contínua. As bestas, não mais preocupadas com a esgueira, batiam caudas calamitosas por todo o assoalho de negrura, e, apesar do mar de treva invadir tudo, a movimentação era extraordinária, mesmo à visão cega.
Aflito, as pernas humanas moviam-se mais e mais, os passos debatiam furiosamente contra o chão, o homem corria do nada para o nada. Corria, não importava. As criaturas estavam a uma distância considerável, mas continuavam a caçada. Caso parasse num breve descanso, seria refeição. Sua respiração ofegava, já não tinha mais tanta força, mas o instinto de sobrevivência impedia a diminuição do ritmo, morreria do coração, mas não findaria a corrida, jamais POW, choque frontal, talvez tivesse quebrado o nariz. Alguma superfície que lembrava a madeira, a integridade do nariz estava mantida em sua percentagem total. E quase esquecera seus perseguidores, quando notou um orifício na parede amadeirada onde deu de cara. Um orifício tão mínimo que, talvez os olhos mal pudessem vê-lo. Só talvez, mas não, era real e por ele passava um ponto ínfimo de luz. Tateou a treva em busca do resto da parede amadeirada, mas notou, ao procurar bordas e continuações, que era apenas uma placa, solta no vácuo-espaço.
Olhou pelo orifício. Um enorme corredor, inúmeras portas, um corredor sem fim, portas e mais portas. Notou um vulto esbranquiçado correndo pelo corredor. Arregalou seu único olho ao máximo e tentou precisar o vulto. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era uma... RATAZANA?! Sentia agora o mau-hálito de seus perseguidores, distantes apenas um palmo de seu corpo, inerte e paralisado. Não pensou, agiu. Empurrou aquilo que parecia ser mais uma das portas do corredor sem fim, deslocou-a rapidamente e, quando caiu num chão esbranquiçado, no assoalho mais limpo que já vira em toda sua vida, a passagem por onde havia emergido, simplesmente não estava mais lá.
Nem criaturas, nem escuridão. Ouvia garras raspando contra a parede maciça, mas o som logo cessou. E o que havia, diante de si, era uma parede azul marfim, maciça, muda e gélida. Não havia escuridão, e, ao concentrar-se naqueles instantes anteriores, parecia algum tipo de alucinação, fruto de sua insanidade momentânea. Sentiu um arder leve em seu tornozelo esquerdo. Notou a calça rasgada em um ponto, um longo corte e muitos arranhões. Não, não fora uma alucinação. Tocou na perna, dor. Torceu a cara, observou a ponta dos dedos e notou sangue. Estava vivo, vivo. Vivo, por pouco. Mas vivo. Fazia questão de repetir mentalmente seu estado de vivacidade, na tentativa de provar, quantas vezes necessárias. Estou vivo. Vivo, por pouco. Respirou fundo, recuperou o fôlego, limpou o pó de suas vezes, Pó? Como assim Pó? Teve de ignorar suas próprias perguntas, teve de seguir em frente. Levantou-se, respirou fundo mais algumas vezes.
Olhou para o infinito estendido à sua fronte. E não conseguia definir limites ao horizonte do corredor e de portas. Até onde conseguia ver, as portas não findavam, as portas não mudavam. Talvez, por alguma diferença milimétrica, fossem diferentes, mas à olho nu, eram completamente idênticas. Através de alguns passos, certificou-se que não eram espelhos. Eram portas, todas. E todas idênticas. Formato, textura, cor, posição. Imaginou então, inúmeros cômodos ao longo do corredor, ou, simplesmente um exterior estranho, que necessitasse de milhões de portas para passagem. Caminhou o suficiente para que a parede maciça por onde havia caído, fugisse de sua visão. Contou seus passos, precisou aproximadamente dois quilômetros. Seu porte físico permitia facilmente exercícios, já que, pelas manhãs de todos os dias, caminhava até onde seu corpo suportava. Não estava cansado. Apenas algumas gotas de suor brotavam de sua face, um pouco mais corada, diante de sua perseguição, instantes passados.
Decidiu fazer o caminho de volta, retornar à parede. Andou mais. Dois, três, quatro, cinco, seis quilômetros. Não encontrava mais a parede, o cansaço já perseguia sua existência. Simplesmente sumiu? Qual seria a lógica disso? Se é que existe algum tipo de lógica em tudo acontecido até então. Sentou-se ao chão, desesperado. O que fazer? Voltaria pra casa? Tinha lágrimas nos olhos, milhares de pensamentos brotavam-lhe dos miolos, no entanto, o silêncio mortal machucava seus ouvidos, desviando completamente sua atenção. Era como se o mundo ruísse, e, de tão sonoro o barulho gerado a partir daquilo, o universo emudecera. Sua respiração, ritmada, era tiro de canhão atrás do outro, cortando o vácuo, desfazendo tudo. Gotas de suor pingando em suas vestes ecoavam por todo o corredor. Seu tímpano era papel manteiga, sua existência era em uma casa de cristal infinda. Por instinto, indução automática, arregaçou a manga direita, em busca do horário. Ponteiros fixos, imóveis, congelados. Tão perdidos quanto ele.
Ouviu, de súbito, o ruído de pequenos estalos. Não, eram passos. Pequenos passos. Pequenos passos que ecoavam de forma tão incrível! Não saberia dizer de onde vinham os estalos. Os passos, milhares deles. Sentiu medo, talvez fossem as criaturas de outrora. Levantou-se, não poderia correr, estava exausto. Empunhou-se, preparou uma posição de batalha, não tinha planos, não tinha armas. Os passos aproximavam-se, a tensão rompia o ar. Seus olhos eram globos perdidos no espaço, sua respiração era o mar bravo nas rochas. Vinha pela frente, a seu encontro. Músculos rígidos, boca cerrada, dentes rangendo, suor pingando, pupilas dilatadas. Era um vulto, nada mais. Aproximava-se mais e mais, conseguia precisar delimitações, cores. Era branco. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era a... RATAZANA?!
A ratazana de outrora! Na aproximação, notou algo peculiar. A ratazana possuía um pequeno relógio dourado, em um cordonete, ao redor do que seria seu pescoço. Possuía bigodes muitíssimo bem penteados, pelos lustrosos e, mas o quê? Seria possível? Uma pequena gravata borboleta, azul. Uma ratazana branca, deste tamanho, com um relógio ao redor do pescoço, em cordonete. Bigodes penteados, pêlo extremamente bem cuidado e, bem, a quase-confirmação do delírio: uma gravada borboleta azul. Pequena, mas estava ali, em perfeita simetria e alinhamento. E vais ficar aí, parado?
Como? Quem está falando? Aqui embaixo, mané! Deu de caras com aquela ratazana branca, em pé, apoiado nas patas traseiras, alisando os bigodes com as patas dianteiras. Como? Como assim “como?” Estou a falar com você, mané! Prestes a desmaiar, levou bofetões daquelas minúsculas patas. Se desmaiares, não será culpa minha. Você fala! Você também! Ainda não creio. Agora pouco estava mergulhado numa escuridão sem fim, atravessei uma parede, andei uns quilômetros nesse corredor e dei de cara com você. Essa ênfase em “você” significa exatamente o quê?
Você é uma ratazana! Mas que fique estritamente claro: um ratazana, não “uma”. E além do mais, que de tão estranho há nisso? Tu és um macaco e fala. Vendo por esse ângulo... Sim, sim, mas não tenho tempo. Deixe-me adivinhar: você está atrasado! Tenho certeza que essa é um sonho, esse é país das maravilhas e você é alguma parte doentia do meu subconsciente. Bom, estou com vontade de ir ao banheiro, não atrasado. Isso talvez seja sonho ou delírio meu. Significa que tenho de recobrar o juízo ou consciência logo. Caso contrário, molhar a cama. Esse não é o país das maravilhas e o único sujeitinho doentio aqui é você. Mas, mas, mas “Mas” nada, ou você vem, ou não vem. Vem? Pronde? Vem ou não? Vou.
Ambos, o homem e o ratazana seguiram pelo corredor. Torcendo o focinho, espalhando as tantas pontas de seus bigodes ao ar, piscando rápida e euforicamente, trincando suas pequenas patas no chão. Em seguida, vinha o homem, torcendo a cara, de narinas exorbitantes num respirar confuso, de órbitas palpitantes e extremamente abertas, tapteando em passadas confusas. Ambos pararam. ? Espere, espere. O ratazana parou entre duas portas, calou-se por alguns segundos. ? Já lhe disse para que esperes! Mas que impaciência é essa? Certo, certo, quietinho fico. Assim espero ou dou-lhe de dentadas e ainda te abandono. O homem fez que sim. O ratazana aproximou-se da porta a sua esquerda, cheirou-a por uns instantes. Raspou um canto da porta com um de seus pequeninos dedos, aproximou do focinho. Foi à porta da direita, repetiu todo o processo.
Empurre a porta da esquerda. Obedecendo, o homem deslocou a estranha fechadura, empurrou a porta e deu de cara com a mesma profunda escuridão que vira antes. Aqui não entro! Queres ir para casa? Claro que sim, mas não ir de encontro com aquelas criaturas. E você, não vem? Não, minha porta é a da direita. Mas como assim? Vou com você. Não, você não pertence a este lugar. Mas que lugar é esse? Não importa! Você simplesmente não pertence a ele. Certo, certo, mas vou com você. Não, não vai. E trate de passar por essa maldita porta antes que ela cerre. Mas cerrando, abrimo-la, certo? Não, macaco. A porta troca de lugar e seu acesso só é possível à sorte. E como conseguiu achá-la? Sorte. Não ouviu quando lhe disse da primeira vez? Ok, mas o que me espera do outro lado? Não sei. Só palpites.
O homem tentou empurrar a porta. Não conseguia. O vão por outro lado, diminuíra. Passe logo! Só não me incomode mais, certo? Mas e se eu voltar? Ou não conseguir sair realmente? Bom, ou você conta com a sorte de me encontrar ou de encontrar um fim rápido. O homem comprimiu-se ao máximo, passou com todo o corpo, exceto pela cabeça. Muito obrigado. Mas diga-me: o que você acha que me espera do outro lado? Talvez algo pior. PIOR? Tarde demais. Sua cabeça fora sugada pelo impossível vácuo, seu corpo jazia no vazio da escuridão. Mas a escuridão não o inundava, não o afogava, não o ameaçava. Era uma escuridão menos densa, infiel à originalidade comum. Percebeu que estava de olhos fechados desde que entrou. Através das pálpebras notava uma luz branca, dolorida, flutuando sobre seu corpo. Abriu os olhos, percebeu-se deitado. Piscou forte, a luz machucava seus olhos. Acostumou-se à brancura.
Ouviu o barulho de equipamentos, computadores, bips. Isso! eram bips. Eram seus sinais vitais. Estava em uma sala hospitalar? Apertou os olhos de leve, como tentasse readquirir algum lance de memória. Nada. Olhou à esquerda, notou os equipamentos. Olhou à direita, uma mulher estava dormindo. Limpou a garganta, sentou-se na cama. Tocou a mão da mulher, cuidadosamente. Janaína? Janaína? Hmm, hmm... Janaína? Apertou levemente os dedos de Janaína. Levantou a voz, Janaína? Abrindo lentamente os olhos, a mulher notou algo apertando sua mão. Algo? Algo... alguém? Acordou? Acordou? Não acreditava, cerrou os olhos lacrimejantes. Força na piscada. Torceu a cara, uma pesada gota despencou-lhe à face. Janaína? Abriu os olhos, abraçou forte o marido. Ele até então, não sabia o que acontecera. Mas sentia uma saudade inexplicável de sua mulher.
Alguns dias se passaram, não lembrara tudo, mas ao menos sabia do acontecido. A caminho do trabalho, um motorista bêbado invadiu a contramão e bateu contra seu carro. O bêbado, apesar da seriedade a batida, ileso. Ele, inconsciente e com alguns arranhões. Em coma por oito dias. Contou o sonho ‘comático’ à mulher. Rindo das próprias palavras, fazendo-a rir, absurdos, estranhezas. Beijaram-se demoradamente, não, não precisa ficar mais. Vá dormir em casa, amanhã me vê. Apago a luz? Não, não, acho que vou ler alguma coisa. Certo, boa noite, vê se acorda, hein? Acordo sim. Oito dias já foram demais. Não se sentia bem na escuridão, coma ou não, preferia assim.
O médico disse que você precisa descansar, apesar do coma, sua mente não estava em descanso. Claro, não se preocupe, mas não apague a luz. Certo, certo. Deixo este celular com você, caso precise de algo. Amanhã cedo estarei aqui. Te amo, também, até, até. Enquanto lia, ao meio da madrugada, ouviu um ruído. O ruído era ao lado de fora do prédio, no jardim. Caminhou até a janela, recostou ao vidro. Viu um vulto branco correndo por entre as flores. Levantou o camisolão, fitou o tornozelo, notou um corte. Notou arranhões. Do acidente, claro. Recostou-se no apoio da janela, sentou-se no criado mudo vazio. Ligou para a mulher, mesmo à madrugada. Pediu centenas de livros. Livros? Livros.
Cerrou os olhos, respirou fundo. Decidiu mover-se na escuridão dos próprios pensamentos. Quando a sola de seus pés tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. O telefone tocou mais uma vez, era ele. Será que algo de ruim havia acontecido? Aconteceu algo de ruim? Não, não. O que há? Só um detalhe sobre os livros. Sim, claro, diga. Nada de Lewis Carroll, por favor.
As grandes notas difusas do estalar dos passos do homem, apesar de traíras de sua presença, também denunciaram uma das criaturas, que, na tentativa da aproximação furtiva, permitiu que uma gota de saliva de sua boca grotesca atingisse o solo. O alarme ecoou por toda a treva, o alarde recuou por todo o espaço. Não se podia ver o som, mas com aquele tipo de definição, deduzia-se que vinha da retaguarda. O homem pressentindo perigo correu, pesadamente, distribuindo garras musicais pelo espaço, uma trilha de pão viva e contínua. As bestas, não mais preocupadas com a esgueira, batiam caudas calamitosas por todo o assoalho de negrura, e, apesar do mar de treva invadir tudo, a movimentação era extraordinária, mesmo à visão cega.
Aflito, as pernas humanas moviam-se mais e mais, os passos debatiam furiosamente contra o chão, o homem corria do nada para o nada. Corria, não importava. As criaturas estavam a uma distância considerável, mas continuavam a caçada. Caso parasse num breve descanso, seria refeição. Sua respiração ofegava, já não tinha mais tanta força, mas o instinto de sobrevivência impedia a diminuição do ritmo, morreria do coração, mas não findaria a corrida, jamais POW, choque frontal, talvez tivesse quebrado o nariz. Alguma superfície que lembrava a madeira, a integridade do nariz estava mantida em sua percentagem total. E quase esquecera seus perseguidores, quando notou um orifício na parede amadeirada onde deu de cara. Um orifício tão mínimo que, talvez os olhos mal pudessem vê-lo. Só talvez, mas não, era real e por ele passava um ponto ínfimo de luz. Tateou a treva em busca do resto da parede amadeirada, mas notou, ao procurar bordas e continuações, que era apenas uma placa, solta no vácuo-espaço.
Olhou pelo orifício. Um enorme corredor, inúmeras portas, um corredor sem fim, portas e mais portas. Notou um vulto esbranquiçado correndo pelo corredor. Arregalou seu único olho ao máximo e tentou precisar o vulto. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era uma... RATAZANA?! Sentia agora o mau-hálito de seus perseguidores, distantes apenas um palmo de seu corpo, inerte e paralisado. Não pensou, agiu. Empurrou aquilo que parecia ser mais uma das portas do corredor sem fim, deslocou-a rapidamente e, quando caiu num chão esbranquiçado, no assoalho mais limpo que já vira em toda sua vida, a passagem por onde havia emergido, simplesmente não estava mais lá.
Nem criaturas, nem escuridão. Ouvia garras raspando contra a parede maciça, mas o som logo cessou. E o que havia, diante de si, era uma parede azul marfim, maciça, muda e gélida. Não havia escuridão, e, ao concentrar-se naqueles instantes anteriores, parecia algum tipo de alucinação, fruto de sua insanidade momentânea. Sentiu um arder leve em seu tornozelo esquerdo. Notou a calça rasgada em um ponto, um longo corte e muitos arranhões. Não, não fora uma alucinação. Tocou na perna, dor. Torceu a cara, observou a ponta dos dedos e notou sangue. Estava vivo, vivo. Vivo, por pouco. Mas vivo. Fazia questão de repetir mentalmente seu estado de vivacidade, na tentativa de provar, quantas vezes necessárias. Estou vivo. Vivo, por pouco. Respirou fundo, recuperou o fôlego, limpou o pó de suas vezes, Pó? Como assim Pó? Teve de ignorar suas próprias perguntas, teve de seguir em frente. Levantou-se, respirou fundo mais algumas vezes.
Olhou para o infinito estendido à sua fronte. E não conseguia definir limites ao horizonte do corredor e de portas. Até onde conseguia ver, as portas não findavam, as portas não mudavam. Talvez, por alguma diferença milimétrica, fossem diferentes, mas à olho nu, eram completamente idênticas. Através de alguns passos, certificou-se que não eram espelhos. Eram portas, todas. E todas idênticas. Formato, textura, cor, posição. Imaginou então, inúmeros cômodos ao longo do corredor, ou, simplesmente um exterior estranho, que necessitasse de milhões de portas para passagem. Caminhou o suficiente para que a parede maciça por onde havia caído, fugisse de sua visão. Contou seus passos, precisou aproximadamente dois quilômetros. Seu porte físico permitia facilmente exercícios, já que, pelas manhãs de todos os dias, caminhava até onde seu corpo suportava. Não estava cansado. Apenas algumas gotas de suor brotavam de sua face, um pouco mais corada, diante de sua perseguição, instantes passados.
Decidiu fazer o caminho de volta, retornar à parede. Andou mais. Dois, três, quatro, cinco, seis quilômetros. Não encontrava mais a parede, o cansaço já perseguia sua existência. Simplesmente sumiu? Qual seria a lógica disso? Se é que existe algum tipo de lógica em tudo acontecido até então. Sentou-se ao chão, desesperado. O que fazer? Voltaria pra casa? Tinha lágrimas nos olhos, milhares de pensamentos brotavam-lhe dos miolos, no entanto, o silêncio mortal machucava seus ouvidos, desviando completamente sua atenção. Era como se o mundo ruísse, e, de tão sonoro o barulho gerado a partir daquilo, o universo emudecera. Sua respiração, ritmada, era tiro de canhão atrás do outro, cortando o vácuo, desfazendo tudo. Gotas de suor pingando em suas vestes ecoavam por todo o corredor. Seu tímpano era papel manteiga, sua existência era em uma casa de cristal infinda. Por instinto, indução automática, arregaçou a manga direita, em busca do horário. Ponteiros fixos, imóveis, congelados. Tão perdidos quanto ele.
Ouviu, de súbito, o ruído de pequenos estalos. Não, eram passos. Pequenos passos. Pequenos passos que ecoavam de forma tão incrível! Não saberia dizer de onde vinham os estalos. Os passos, milhares deles. Sentiu medo, talvez fossem as criaturas de outrora. Levantou-se, não poderia correr, estava exausto. Empunhou-se, preparou uma posição de batalha, não tinha planos, não tinha armas. Os passos aproximavam-se, a tensão rompia o ar. Seus olhos eram globos perdidos no espaço, sua respiração era o mar bravo nas rochas. Vinha pela frente, a seu encontro. Músculos rígidos, boca cerrada, dentes rangendo, suor pingando, pupilas dilatadas. Era um vulto, nada mais. Aproximava-se mais e mais, conseguia precisar delimitações, cores. Era branco. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era a... RATAZANA?!
A ratazana de outrora! Na aproximação, notou algo peculiar. A ratazana possuía um pequeno relógio dourado, em um cordonete, ao redor do que seria seu pescoço. Possuía bigodes muitíssimo bem penteados, pelos lustrosos e, mas o quê? Seria possível? Uma pequena gravata borboleta, azul. Uma ratazana branca, deste tamanho, com um relógio ao redor do pescoço, em cordonete. Bigodes penteados, pêlo extremamente bem cuidado e, bem, a quase-confirmação do delírio: uma gravada borboleta azul. Pequena, mas estava ali, em perfeita simetria e alinhamento. E vais ficar aí, parado?
Como? Quem está falando? Aqui embaixo, mané! Deu de caras com aquela ratazana branca, em pé, apoiado nas patas traseiras, alisando os bigodes com as patas dianteiras. Como? Como assim “como?” Estou a falar com você, mané! Prestes a desmaiar, levou bofetões daquelas minúsculas patas. Se desmaiares, não será culpa minha. Você fala! Você também! Ainda não creio. Agora pouco estava mergulhado numa escuridão sem fim, atravessei uma parede, andei uns quilômetros nesse corredor e dei de cara com você. Essa ênfase em “você” significa exatamente o quê?
Você é uma ratazana! Mas que fique estritamente claro: um ratazana, não “uma”. E além do mais, que de tão estranho há nisso? Tu és um macaco e fala. Vendo por esse ângulo... Sim, sim, mas não tenho tempo. Deixe-me adivinhar: você está atrasado! Tenho certeza que essa é um sonho, esse é país das maravilhas e você é alguma parte doentia do meu subconsciente. Bom, estou com vontade de ir ao banheiro, não atrasado. Isso talvez seja sonho ou delírio meu. Significa que tenho de recobrar o juízo ou consciência logo. Caso contrário, molhar a cama. Esse não é o país das maravilhas e o único sujeitinho doentio aqui é você. Mas, mas, mas “Mas” nada, ou você vem, ou não vem. Vem? Pronde? Vem ou não? Vou.
Ambos, o homem e o ratazana seguiram pelo corredor. Torcendo o focinho, espalhando as tantas pontas de seus bigodes ao ar, piscando rápida e euforicamente, trincando suas pequenas patas no chão. Em seguida, vinha o homem, torcendo a cara, de narinas exorbitantes num respirar confuso, de órbitas palpitantes e extremamente abertas, tapteando em passadas confusas. Ambos pararam. ? Espere, espere. O ratazana parou entre duas portas, calou-se por alguns segundos. ? Já lhe disse para que esperes! Mas que impaciência é essa? Certo, certo, quietinho fico. Assim espero ou dou-lhe de dentadas e ainda te abandono. O homem fez que sim. O ratazana aproximou-se da porta a sua esquerda, cheirou-a por uns instantes. Raspou um canto da porta com um de seus pequeninos dedos, aproximou do focinho. Foi à porta da direita, repetiu todo o processo.
Empurre a porta da esquerda. Obedecendo, o homem deslocou a estranha fechadura, empurrou a porta e deu de cara com a mesma profunda escuridão que vira antes. Aqui não entro! Queres ir para casa? Claro que sim, mas não ir de encontro com aquelas criaturas. E você, não vem? Não, minha porta é a da direita. Mas como assim? Vou com você. Não, você não pertence a este lugar. Mas que lugar é esse? Não importa! Você simplesmente não pertence a ele. Certo, certo, mas vou com você. Não, não vai. E trate de passar por essa maldita porta antes que ela cerre. Mas cerrando, abrimo-la, certo? Não, macaco. A porta troca de lugar e seu acesso só é possível à sorte. E como conseguiu achá-la? Sorte. Não ouviu quando lhe disse da primeira vez? Ok, mas o que me espera do outro lado? Não sei. Só palpites.
O homem tentou empurrar a porta. Não conseguia. O vão por outro lado, diminuíra. Passe logo! Só não me incomode mais, certo? Mas e se eu voltar? Ou não conseguir sair realmente? Bom, ou você conta com a sorte de me encontrar ou de encontrar um fim rápido. O homem comprimiu-se ao máximo, passou com todo o corpo, exceto pela cabeça. Muito obrigado. Mas diga-me: o que você acha que me espera do outro lado? Talvez algo pior. PIOR? Tarde demais. Sua cabeça fora sugada pelo impossível vácuo, seu corpo jazia no vazio da escuridão. Mas a escuridão não o inundava, não o afogava, não o ameaçava. Era uma escuridão menos densa, infiel à originalidade comum. Percebeu que estava de olhos fechados desde que entrou. Através das pálpebras notava uma luz branca, dolorida, flutuando sobre seu corpo. Abriu os olhos, percebeu-se deitado. Piscou forte, a luz machucava seus olhos. Acostumou-se à brancura.
Ouviu o barulho de equipamentos, computadores, bips. Isso! eram bips. Eram seus sinais vitais. Estava em uma sala hospitalar? Apertou os olhos de leve, como tentasse readquirir algum lance de memória. Nada. Olhou à esquerda, notou os equipamentos. Olhou à direita, uma mulher estava dormindo. Limpou a garganta, sentou-se na cama. Tocou a mão da mulher, cuidadosamente. Janaína? Janaína? Hmm, hmm... Janaína? Apertou levemente os dedos de Janaína. Levantou a voz, Janaína? Abrindo lentamente os olhos, a mulher notou algo apertando sua mão. Algo? Algo... alguém? Acordou? Acordou? Não acreditava, cerrou os olhos lacrimejantes. Força na piscada. Torceu a cara, uma pesada gota despencou-lhe à face. Janaína? Abriu os olhos, abraçou forte o marido. Ele até então, não sabia o que acontecera. Mas sentia uma saudade inexplicável de sua mulher.
Alguns dias se passaram, não lembrara tudo, mas ao menos sabia do acontecido. A caminho do trabalho, um motorista bêbado invadiu a contramão e bateu contra seu carro. O bêbado, apesar da seriedade a batida, ileso. Ele, inconsciente e com alguns arranhões. Em coma por oito dias. Contou o sonho ‘comático’ à mulher. Rindo das próprias palavras, fazendo-a rir, absurdos, estranhezas. Beijaram-se demoradamente, não, não precisa ficar mais. Vá dormir em casa, amanhã me vê. Apago a luz? Não, não, acho que vou ler alguma coisa. Certo, boa noite, vê se acorda, hein? Acordo sim. Oito dias já foram demais. Não se sentia bem na escuridão, coma ou não, preferia assim.
O médico disse que você precisa descansar, apesar do coma, sua mente não estava em descanso. Claro, não se preocupe, mas não apague a luz. Certo, certo. Deixo este celular com você, caso precise de algo. Amanhã cedo estarei aqui. Te amo, também, até, até. Enquanto lia, ao meio da madrugada, ouviu um ruído. O ruído era ao lado de fora do prédio, no jardim. Caminhou até a janela, recostou ao vidro. Viu um vulto branco correndo por entre as flores. Levantou o camisolão, fitou o tornozelo, notou um corte. Notou arranhões. Do acidente, claro. Recostou-se no apoio da janela, sentou-se no criado mudo vazio. Ligou para a mulher, mesmo à madrugada. Pediu centenas de livros. Livros? Livros.
Cerrou os olhos, respirou fundo. Decidiu mover-se na escuridão dos próprios pensamentos. Quando a sola de seus pés tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. O telefone tocou mais uma vez, era ele. Será que algo de ruim havia acontecido? Aconteceu algo de ruim? Não, não. O que há? Só um detalhe sobre os livros. Sim, claro, diga. Nada de Lewis Carroll, por favor.
domingo, 25 de outubro de 2009
O exato contrário.
Meu corpo
não acaba no contato
tão morto com o ar
vem o osso
a carne
a derme
a outra derme
outra carne
outro osso
que é o meu próprio corpo
depositado no movimento,
inerte e bento
encarapitado; completar.
Não existe espaço
entre o enlaço
apenas o vácuo
e quatro mãos:
o exato contrário
de qualquer fim
qualquer
em mói.
não acaba no contato
tão morto com o ar
vem o osso
a carne
a derme
a outra derme
outra carne
outro osso
que é o meu próprio corpo
depositado no movimento,
inerte e bento
encarapitado; completar.
Não existe espaço
entre o enlaço
apenas o vácuo
e quatro mãos:
o exato contrário
de qualquer fim
qualquer
em mói.
Uma Formiga
Mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo. Estava deitado no gramado, o sono talvez fora longo demais. Talvez fora longe demais. Com certeza, caso tivesse algum compromisso, estaria atrasado. Uma das mãos estiradas, roçando no mato. A outra de relance, o peso que pendia do pescoço deitava sobre a sua face. Lentamente, pata após pata, uma formiga, única, subiu-lhe pelo dedo indicador. O único que, encostado à grama, fazia parte do caminho pré-determinado daquele inseto. Suas minúsculas patas roçaram naquela derme esfriada, naquela superfície áspera de digitais. Não sendo por culpa da formiga, a consciência aturdida daquele rapaz escolheu aquele exato momento ao despertar. Seu tato, coincidentemente, concentrou esforços na determinação do movimento daquela criatura, mínima.
Inclinou sua cabeça, alguns segundos passaram até que suas órbitas, tontas, focalizassem o animal. Havia um pequeno pedaço de folha em suas costas. Seus pensamentos, perdidos entropicamente, reagruparam-se em alguma forma, um raciocínio. E, antes percebesse o ter acordado, observou o pequeno animal. Caminhava, parava por alguns instantes, tateava o ar com suas antenas e seguia em frente. Andava, de certo, lentamente. Aquela mão não era tão grande assim. Decidiu encostar-se na terra, permitir a passagem, sem pedágio. Não acanhada, seguiu seu caminho. Mal deu conta que aquela era a mão de um gigante.
Simplesmente passou ao contato do chão frio, terra. Alguns jurariam que ela voltou-se para trás numa espécie de agradecimento. E, ela então, teria percebido a derme do gigante. Hesitante, suas antenas arquearam, voltou a cabeça para trás e, em alguns segundos, tomou seu rumo. Logo aquele, o último ser humano do planeta. Não seria pra mais, não seria pra menos. Mas talvez, sejam apenas rumores. E logo, desprezando a presença das duas formigas, novamente, mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo.
Inclinou sua cabeça, alguns segundos passaram até que suas órbitas, tontas, focalizassem o animal. Havia um pequeno pedaço de folha em suas costas. Seus pensamentos, perdidos entropicamente, reagruparam-se em alguma forma, um raciocínio. E, antes percebesse o ter acordado, observou o pequeno animal. Caminhava, parava por alguns instantes, tateava o ar com suas antenas e seguia em frente. Andava, de certo, lentamente. Aquela mão não era tão grande assim. Decidiu encostar-se na terra, permitir a passagem, sem pedágio. Não acanhada, seguiu seu caminho. Mal deu conta que aquela era a mão de um gigante.
Simplesmente passou ao contato do chão frio, terra. Alguns jurariam que ela voltou-se para trás numa espécie de agradecimento. E, ela então, teria percebido a derme do gigante. Hesitante, suas antenas arquearam, voltou a cabeça para trás e, em alguns segundos, tomou seu rumo. Logo aquele, o último ser humano do planeta. Não seria pra mais, não seria pra menos. Mas talvez, sejam apenas rumores. E logo, desprezando a presença das duas formigas, novamente, mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo.
domingo, 11 de outubro de 2009
5
Estendo a palma aberta
imitando o sol
de espinhos primavera
São razões suficientes
pra contornar a face doce
que me espera
cinco vezes
cinco dedos
cinco meses
cinco segredos
( e nem é tão segredo assim
ter um amor que passa da palma
da mão )
imitando o sol
de espinhos primavera
São razões suficientes
pra contornar a face doce
que me espera
cinco vezes
cinco dedos
cinco meses
cinco segredos
( e nem é tão segredo assim
ter um amor que passa da palma
da mão )
Sépia Juventude
O tempo havia passado. Era essa a nota mental que todos, ao entrarem ali, faziam e sublinhavam em ênfase. O tempo havia passado. As roupas eram outras, as expressões eram outras, as vozes eram outras, as idéias eram outras. As pessoas eram outras. O mundo mudara, sim, tanto tempo havia passado. Música ambiente circulava no ar, misturado ao ar antiquário do salão. Todos sentados, alguns cochichando entre si, outros cochichando para si, enquanto ainda outros, não falavam nada.
Haviam entrado ali pouco depois do jantar, na comemoração da terceira idade, na rememoração dos antigos amigos, dos antigos encontros, dos antigos bailes. E, ao contrário do que se queria, tudo mantinha um clima fúnebre. O silêncio era uma marcha disparada no vazio, carregando corpos parados. E pensar que poucos dias atrás, os cabelos eram menos grisalhos e em maior quantidade, os ossos e articulações eram mais fortes, o mundo era mais nítido e não tinha o tom sépia do passado fotográfico.
Do canto do salão, um senhor estendeu a mão esquerda diante dos olhos minúsculos. Minúsculos e escondidos por detrás de óculos grossos e, também, envelhecidos. Moveu todos os dedos imitando o debater de tentáculos. Observou o movimento tão antinatural daquilo. Cessou o movimento. Observou e analisou cada uma de suas rugas. Eram inúmeras, eram incontáveis, eram incansáveis. As unhas eram aos poucos encobertas também, adquirindo, ao seu modo, uma tonalidade própria: tempo passado.
Ventiladores tremiam de lado a lado, pendendo das paredes, circulando o ar cansado. Algumas fitas multicoloridas, amarradas às grades de suas estruturas, pairavam dormentes no espaço. Tosse, tosse, tosse. Se limpa garganta, pigarreia-se, cerram-se os olhos. O tempo havia passado, sim, havia passado tempo demais. O que fazer? Era impossível parar o tempo, parar a vida, parar o resto do que sobrara, o tempo restante, a vida restante, o quase nada. As discussões envolviam alergias, dificuldades para respirar – com devida ênfase na dificuldade de respirar ao articular palavras – e pausas nos profundos suspiros mudos.
A música ambiente cessou. O silêncio cessou. O tempo cessou. Todos se entreolharam. O sépia era granuloso e o chão tabulado era lustrado. O jovem que observava a robusta mão esquerda com seus penetrantes olhos, negros como a noite, cessou o movimento. Inspirou profundamente, esbravejou dentro de si mesmo, levantou-se relutante. Passo após passo seguia até o outro lado do salão, deixando seu canto absurdamente abandonado. Inspirou mais uma vez, relaxando, logo em seguida, junto a todo o ar de seus pulmões.
A música não era mais ambiente. Era profunda e realmente sincera. Uma orquestra quase aveludada tocou alguns traços da melodia. Sorrisos foram atirados de todas as partes, sapatos e saltos e sandálias e passos, ressoando por todo o tabulado lustrado, vermelho vivo. O ar pulsava, os passos pulsavam, os corações pulsavam. Mãos estendidas, casais formados de última hora, centro do salão.
A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.
O jovem das robustas mãos e de negros olhos, finalmente atingiu o outro lado do salão. Relutante, envergonhado, hesitante e semi-amedrontado. Olhos se encontraram e, um Oi lançado a esmo. Olá.
A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
Com licença... Mas... Aceitaria uma dança comigo?
You came, you saw, you conquered me
Nada mais precisou de ser dito. Um sorriso fora disparado em sua direção, seus profundos negros olhos, aprofundaram-se mais ainda. Agarrou aquela mão fina, mais fina e suave que toda e qualquer mão. Foram ao meio do salão. No centro do mundo, no coração amadeirado.
When you did that to me, I knew somehow
It had to be.
Braços dados e, de início passos desajeitados. Tudo se moldou na orquestração, os corações batiam juntos, não havia mais ninguém sentado. Tudo e todos estavam de braços, abraços e passos dados.
The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
O rapaz sorriu e foi retribuído. O tempo parado.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.
E por quatro minutos, não havia mais nada além de sorrisos e Frank Sinatra.
Haviam entrado ali pouco depois do jantar, na comemoração da terceira idade, na rememoração dos antigos amigos, dos antigos encontros, dos antigos bailes. E, ao contrário do que se queria, tudo mantinha um clima fúnebre. O silêncio era uma marcha disparada no vazio, carregando corpos parados. E pensar que poucos dias atrás, os cabelos eram menos grisalhos e em maior quantidade, os ossos e articulações eram mais fortes, o mundo era mais nítido e não tinha o tom sépia do passado fotográfico.
Do canto do salão, um senhor estendeu a mão esquerda diante dos olhos minúsculos. Minúsculos e escondidos por detrás de óculos grossos e, também, envelhecidos. Moveu todos os dedos imitando o debater de tentáculos. Observou o movimento tão antinatural daquilo. Cessou o movimento. Observou e analisou cada uma de suas rugas. Eram inúmeras, eram incontáveis, eram incansáveis. As unhas eram aos poucos encobertas também, adquirindo, ao seu modo, uma tonalidade própria: tempo passado.
Ventiladores tremiam de lado a lado, pendendo das paredes, circulando o ar cansado. Algumas fitas multicoloridas, amarradas às grades de suas estruturas, pairavam dormentes no espaço. Tosse, tosse, tosse. Se limpa garganta, pigarreia-se, cerram-se os olhos. O tempo havia passado, sim, havia passado tempo demais. O que fazer? Era impossível parar o tempo, parar a vida, parar o resto do que sobrara, o tempo restante, a vida restante, o quase nada. As discussões envolviam alergias, dificuldades para respirar – com devida ênfase na dificuldade de respirar ao articular palavras – e pausas nos profundos suspiros mudos.
A música ambiente cessou. O silêncio cessou. O tempo cessou. Todos se entreolharam. O sépia era granuloso e o chão tabulado era lustrado. O jovem que observava a robusta mão esquerda com seus penetrantes olhos, negros como a noite, cessou o movimento. Inspirou profundamente, esbravejou dentro de si mesmo, levantou-se relutante. Passo após passo seguia até o outro lado do salão, deixando seu canto absurdamente abandonado. Inspirou mais uma vez, relaxando, logo em seguida, junto a todo o ar de seus pulmões.
A música não era mais ambiente. Era profunda e realmente sincera. Uma orquestra quase aveludada tocou alguns traços da melodia. Sorrisos foram atirados de todas as partes, sapatos e saltos e sandálias e passos, ressoando por todo o tabulado lustrado, vermelho vivo. O ar pulsava, os passos pulsavam, os corações pulsavam. Mãos estendidas, casais formados de última hora, centro do salão.
A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.
O jovem das robustas mãos e de negros olhos, finalmente atingiu o outro lado do salão. Relutante, envergonhado, hesitante e semi-amedrontado. Olhos se encontraram e, um Oi lançado a esmo. Olá.
A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
Com licença... Mas... Aceitaria uma dança comigo?
You came, you saw, you conquered me
Nada mais precisou de ser dito. Um sorriso fora disparado em sua direção, seus profundos negros olhos, aprofundaram-se mais ainda. Agarrou aquela mão fina, mais fina e suave que toda e qualquer mão. Foram ao meio do salão. No centro do mundo, no coração amadeirado.
When you did that to me, I knew somehow
It had to be.
Braços dados e, de início passos desajeitados. Tudo se moldou na orquestração, os corações batiam juntos, não havia mais ninguém sentado. Tudo e todos estavam de braços, abraços e passos dados.
The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
O rapaz sorriu e foi retribuído. O tempo parado.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.
E por quatro minutos, não havia mais nada além de sorrisos e Frank Sinatra.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Calamitosa
Como ser tão
sertão
sem ser seco
dentro do ser
tão seco de mim
mesmo?
E enquanto isso
existe uma calamidade
em forma de chuvas:
emoções,
parreiras
hortas e uvas secas;
emoções.
sertão
sem ser seco
dentro do ser
tão seco de mim
mesmo?
E enquanto isso
existe uma calamidade
em forma de chuvas:
emoções,
parreiras
hortas e uvas secas;
emoções.
Entropia
A lua estava escondida por detrás das negras nuvens, do negro céu. As gotas de chuva, pesadas, estalavam nas ruas, nos paralelepípedos, ao roçar contra as estruturas de metal das placas, dos carros e no encontro das janelas fechadas. Talvez fosse abril. E mesmo assim, chovia tanto, pensava. Olhava para o teto, olhos entreabertos, como pudesse atravessar qualquer tipo de obstáculo, e então, ir de encontro com o céu. Ou talvez algo mais que estivesse ali. Espreguiçou-se na poltrona, esticou as pernas, alongou o braço direito até alcançar a garrafa de cerveja. Tomou um gole e recolocou-a na antiga posição.
E então, chove até amanhã?
Provavelmente. Estou meio que, pressentindo essa chuva faz um tempo. Não é coisa pouca, sabe?
Sei, sei... Mas não é algo comum pra um dia de abril. Digo, uma noite de abril. O dia hoje estava límpido, azul, claro...
Mas você percebeu que iria chover, certo?
Ah, isso sim. Senti aquele cheirinho de terra molhada, de orvalho, de grama úmida e de nuvens pesadas chegando. Cheguei até a tirar as roupas do varal, a vizinha estranhou e acabou que fez o mesmo. Sorte, não?
Talvez. Não é algo tão difícil assim, pra você, perceber a chuva chegando. Normalmente humanos não conseguem pressentir algo assim.
Não entendi.
Simples. Seres humanos estão tão preocupados com sua rotina, com seus ‘incontáveis problemas’ e coisas do tipo.
Vamos, não seja tão cruel.
E você não seja tão hipócrita. Você concorda comigo e, inclusive, não entende o porquê de ser a única pessoa assim, certo?
Certo?
É...
Você nem precisaria responder, meu caro. Não é o tipo de coisa que precise ser confirmada verbalmente pra que se torne verdade. Entende?
Acho que sim.
Pois bem.
Estendeu sua mão direita, acariciou por trás da cabeça do gato preto, deitado no criado mudo, ao lado da poltrona.
Sei como você se sente.
Imagino que sim.
Na verdade, sendo parecido com você, ou o contrário, não sei; entendo perfeitamente.
Acho que é tudo uma questão de ponto de vista, mas não tira sua razão. Não me consigo me adequar ao mundo. Não da mesma forma que todo mundo o faz.
Por isso que você se parece tanto com tipos como eu.
Acho que sim. Mas não é o tipo de sentimento que me satisfaz por completo. Não é algo controlável ou racional. Talvez não. Mas tenho ciência de que não sou como os outros. Certo?
Certo?
Tarde demais, imaginou. O gato preto não responderia mais, estava dormindo profundamente, encolhido de frio.
Levantou-se da poltrona, atravessou o corredor escuro e voltou com uma pequena manta. Cobriu o gato, recolheu as duas garrafas vazias de cerveja, cerrou as cortinas e foi deitar-se. Não dormir. Apenas encobrir seus olhos com as pálpebras, infligir um tipo de descanso ao seu corpo. Mas sua mente não conseguia, nunca conseguia entrar em descanso. Um semi-stand-by era o máximo esperado. E no lugar de tudo isso, simplesmente revia todas as cenas do dia.
Abriu lentamente os olhos e observou sua mão esquerda, agora na frente do rosto. Cada um de seus dedos, ali, indeterminadamente colocados, um traço genético perfeitamente codificado. E suas cinco unhas, os cinco nós e observou até onde pôde, tentando ultrapassar o vazio de seu tecido. Falar com gatos era o suficiente de estranheza. Identificar células a olho nu seria demais pra qualquer ficção.
Seu dia tinha sido como qualquer outro. Ou simplesmente todos os dias fossem os mesmos, e ele, então, seria o algo diferente em todos eles.
Diferente. Diferente? A montagem igual, a pilha de pele, carne e ossos, e mesmo assim não conseguia enxergar a si mesmo como um ser humano. Não como os que via ao seu redor. E todos se moviam vagarosa ou rapidamente, enquanto ele observava tudo, aquele balé sincronizado, aquele caos entropicamente correto. Como? Não sabia. Mas era ele quem falava com gatos. Lembrava-se da chimpanzé que aprendera a linguagem dos sinais. Quem sabe assim conseguiria comunicar-se? Mas o que poderia dizer?
Tudo era o mesmo, e ele mudava constantemente. Falava com os gatos, e Chapeleiro dormia no sofá de sua sala. Fechou os olhos e conseguiu, por poucos segundos, entrar em stand-by, antes ao menos, que o sol socasse seu rosto por debaixo das cortinas púrpuras. E a chuva tornou a cair. Entropia.
Bom dia.
Sentiu certo peso em cima de suas pernas. Abriu os olhos lentamente, não estava sozinho no fim das contas. E em anos de gato, viveria eternamente. O suficiente, talvez.
Você estava certo, continua chovendo.
Não, você estava.
Entropia, e então o que mais?
Pift, pift, gotas de chuva contra a janela, aos poucos ganhando maior volume e espessura, plift, ploft, ploft.
E então, chove até amanhã?
Provavelmente. Estou meio que, pressentindo essa chuva faz um tempo. Não é coisa pouca, sabe?
Sei, sei... Mas não é algo comum pra um dia de abril. Digo, uma noite de abril. O dia hoje estava límpido, azul, claro...
Mas você percebeu que iria chover, certo?
Ah, isso sim. Senti aquele cheirinho de terra molhada, de orvalho, de grama úmida e de nuvens pesadas chegando. Cheguei até a tirar as roupas do varal, a vizinha estranhou e acabou que fez o mesmo. Sorte, não?
Talvez. Não é algo tão difícil assim, pra você, perceber a chuva chegando. Normalmente humanos não conseguem pressentir algo assim.
Não entendi.
Simples. Seres humanos estão tão preocupados com sua rotina, com seus ‘incontáveis problemas’ e coisas do tipo.
Vamos, não seja tão cruel.
E você não seja tão hipócrita. Você concorda comigo e, inclusive, não entende o porquê de ser a única pessoa assim, certo?
Certo?
É...
Você nem precisaria responder, meu caro. Não é o tipo de coisa que precise ser confirmada verbalmente pra que se torne verdade. Entende?
Acho que sim.
Pois bem.
Estendeu sua mão direita, acariciou por trás da cabeça do gato preto, deitado no criado mudo, ao lado da poltrona.
Sei como você se sente.
Imagino que sim.
Na verdade, sendo parecido com você, ou o contrário, não sei; entendo perfeitamente.
Acho que é tudo uma questão de ponto de vista, mas não tira sua razão. Não me consigo me adequar ao mundo. Não da mesma forma que todo mundo o faz.
Por isso que você se parece tanto com tipos como eu.
Acho que sim. Mas não é o tipo de sentimento que me satisfaz por completo. Não é algo controlável ou racional. Talvez não. Mas tenho ciência de que não sou como os outros. Certo?
Certo?
Tarde demais, imaginou. O gato preto não responderia mais, estava dormindo profundamente, encolhido de frio.
Levantou-se da poltrona, atravessou o corredor escuro e voltou com uma pequena manta. Cobriu o gato, recolheu as duas garrafas vazias de cerveja, cerrou as cortinas e foi deitar-se. Não dormir. Apenas encobrir seus olhos com as pálpebras, infligir um tipo de descanso ao seu corpo. Mas sua mente não conseguia, nunca conseguia entrar em descanso. Um semi-stand-by era o máximo esperado. E no lugar de tudo isso, simplesmente revia todas as cenas do dia.
Abriu lentamente os olhos e observou sua mão esquerda, agora na frente do rosto. Cada um de seus dedos, ali, indeterminadamente colocados, um traço genético perfeitamente codificado. E suas cinco unhas, os cinco nós e observou até onde pôde, tentando ultrapassar o vazio de seu tecido. Falar com gatos era o suficiente de estranheza. Identificar células a olho nu seria demais pra qualquer ficção.
Seu dia tinha sido como qualquer outro. Ou simplesmente todos os dias fossem os mesmos, e ele, então, seria o algo diferente em todos eles.
Diferente. Diferente? A montagem igual, a pilha de pele, carne e ossos, e mesmo assim não conseguia enxergar a si mesmo como um ser humano. Não como os que via ao seu redor. E todos se moviam vagarosa ou rapidamente, enquanto ele observava tudo, aquele balé sincronizado, aquele caos entropicamente correto. Como? Não sabia. Mas era ele quem falava com gatos. Lembrava-se da chimpanzé que aprendera a linguagem dos sinais. Quem sabe assim conseguiria comunicar-se? Mas o que poderia dizer?
Tudo era o mesmo, e ele mudava constantemente. Falava com os gatos, e Chapeleiro dormia no sofá de sua sala. Fechou os olhos e conseguiu, por poucos segundos, entrar em stand-by, antes ao menos, que o sol socasse seu rosto por debaixo das cortinas púrpuras. E a chuva tornou a cair. Entropia.
Bom dia.
Sentiu certo peso em cima de suas pernas. Abriu os olhos lentamente, não estava sozinho no fim das contas. E em anos de gato, viveria eternamente. O suficiente, talvez.
Você estava certo, continua chovendo.
Não, você estava.
Entropia, e então o que mais?
Pift, pift, gotas de chuva contra a janela, aos poucos ganhando maior volume e espessura, plift, ploft, ploft.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
O Barulho do Silêncio
Caminhando
uma música toca
sem fone no ouvido
sem caixa de som
é o barulho do silêncio
de toda manhã
é o dispositivo surdo
de toda noite sã
feito pra mudez
que não se cala
dentro de mim.
uma música toca
sem fone no ouvido
sem caixa de som
é o barulho do silêncio
de toda manhã
é o dispositivo surdo
de toda noite sã
feito pra mudez
que não se cala
dentro de mim.
Pescando Palavras
Sem aqueles momentos, não poderia fazer nada além do desejo vazio. Sentar-se na cama e manter a ânsia paralisada dentro de si, muda, querendo gritar aos quatro ventos algo que não sabia o que dizer. Não firmava residência fixa senão nos tantos seios desamparados e braços escancarados deixados pra trás. O vazio do silêncio, aquilo que roubava num crime ideal de si mesmo. Precisava, indubitavelmente, daquilo, era onde encontrava a palavra e o sentido, estampados na pele, na extensão promíscua e tão macia da pele.
Não era especificamente bonito, ou charmoso ou inteligente, mas, de alguma maneira, sempre terminava na cama com alguma mulher. E ali, era onde lia de todas as formas, senão no braile do tato desejo, a literatura de sua vida. Era escritor, e dos bons. Nunca escrevia, sequer, uma palavra, sentado de cara com o computador, com a máquina datilógrafa ou um bloco de folhas em branco. Pescava, de forma infinda e contínua, todo o material gráfico de seus textos. Retirava de cada centímetro de pele o tão aclamado parágrafo, verso, linha, estrofe, capítulo, livro. Sonhava alto e ria de si mesmo. Não havia saída senão aquela.
Encontrava nas coxas, inconcebíveis e loucas, palavras estiradas e contorcidas, necessárias de transcrição, fotografia mental, era o que fazia. E o quarto escuro da presença dos dois corpos, revelava as fotos imensuráveis, os fatos inacreditáveis. Nos dedos, nas mãos, nos cotovelos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nos seios, na barriga, nas pernas abertas e severas, na genitália, no infinito, na precária maneira de descrever suas próprias palavras em sua maneira impessoal de ser.
Levava-as à cama, despia seus corpos contra a luz da possível lua ou dos postes da rua, marcava com os olhos, sublinhando a pele fria com o corpo, reescrevendo pontos imprecisos, relendo sinais indecisos, estirando-os página por página na cama. E eram letras alvas de brancas, médias de morenas e obscuras de negras, palpáveis, inegáveis, irrefutáveis, desenfreadas. Emborcava o rosto no retoque esplêndido, na arte final de movimentos bruscos.
E a fina camada de lençol, recobria o corpo tragado pela madrugada. Estavam sozinhas no quarto. Ele já havia descido as escadas, cigarro na boca, canção na cabeça, camisa desabotoada, livro pré-escrito, pronto à prensa de seus dedos, fosse ao lápis ou não. E sentava sozinho, com o resto do mundo, no ponto de ônibus, esperando o circular da madrugada. Respirava fundo, baforava longamente com o cigarro. Apagava-o no meio fio, pisando firmemente. Acendia outro até que pudesse chegar em casa.
Em meio às marcas de unha e mordidas, colhia Ilíadas, Lusíadas e Infernos. E seu possível e único momento de prazer, em branco, em gozo, em finalle, era o abandono das páginas, prefácio, notas do autor, dedicatória, dedico à libido, inibido; insatisfatória pontuação final. Best-Seller, e sua vida, uma vida sem mais, estampada em Times New Roman, capa dura, acabamento artístico.
Não era especificamente bonito, ou charmoso ou inteligente, mas, de alguma maneira, sempre terminava na cama com alguma mulher. E ali, era onde lia de todas as formas, senão no braile do tato desejo, a literatura de sua vida. Era escritor, e dos bons. Nunca escrevia, sequer, uma palavra, sentado de cara com o computador, com a máquina datilógrafa ou um bloco de folhas em branco. Pescava, de forma infinda e contínua, todo o material gráfico de seus textos. Retirava de cada centímetro de pele o tão aclamado parágrafo, verso, linha, estrofe, capítulo, livro. Sonhava alto e ria de si mesmo. Não havia saída senão aquela.
Encontrava nas coxas, inconcebíveis e loucas, palavras estiradas e contorcidas, necessárias de transcrição, fotografia mental, era o que fazia. E o quarto escuro da presença dos dois corpos, revelava as fotos imensuráveis, os fatos inacreditáveis. Nos dedos, nas mãos, nos cotovelos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nos seios, na barriga, nas pernas abertas e severas, na genitália, no infinito, na precária maneira de descrever suas próprias palavras em sua maneira impessoal de ser.
Levava-as à cama, despia seus corpos contra a luz da possível lua ou dos postes da rua, marcava com os olhos, sublinhando a pele fria com o corpo, reescrevendo pontos imprecisos, relendo sinais indecisos, estirando-os página por página na cama. E eram letras alvas de brancas, médias de morenas e obscuras de negras, palpáveis, inegáveis, irrefutáveis, desenfreadas. Emborcava o rosto no retoque esplêndido, na arte final de movimentos bruscos.
E a fina camada de lençol, recobria o corpo tragado pela madrugada. Estavam sozinhas no quarto. Ele já havia descido as escadas, cigarro na boca, canção na cabeça, camisa desabotoada, livro pré-escrito, pronto à prensa de seus dedos, fosse ao lápis ou não. E sentava sozinho, com o resto do mundo, no ponto de ônibus, esperando o circular da madrugada. Respirava fundo, baforava longamente com o cigarro. Apagava-o no meio fio, pisando firmemente. Acendia outro até que pudesse chegar em casa.
Em meio às marcas de unha e mordidas, colhia Ilíadas, Lusíadas e Infernos. E seu possível e único momento de prazer, em branco, em gozo, em finalle, era o abandono das páginas, prefácio, notas do autor, dedicatória, dedico à libido, inibido; insatisfatória pontuação final. Best-Seller, e sua vida, uma vida sem mais, estampada em Times New Roman, capa dura, acabamento artístico.
sábado, 19 de setembro de 2009
Vadinho
É pelas beiradas que
te devoro
pra provar que
em devero
possuo e me apodero
da tua força descomunal.
De tua carne celulósica
tiro a essência
e do teu brasil
te tiro pau.
te devoro
pra provar que
em devero
possuo e me apodero
da tua força descomunal.
De tua carne celulósica
tiro a essência
e do teu brasil
te tiro pau.
As mãos dadas
Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente e em vão fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, insights, fantasias - tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
Aldous Huxley; Portas da Percepção.
O sono lhes atingiu por fruto do cansaço, uma bala perdida indefensável, vencendo-lhes toda a resistência final. E bem que, talvez, lá no fundo, ambos renderam ao sono, na consciência do fim tão próximo. Não houve preparação ou pedido especial, de nenhum. O único desejo, imerso em seus interiores, era o fim de tudo. De tudo, tudo que configurava o conjunto de destruição de seus corpos e espíritos. As sessões intermináveis e incansáveis de tortura. O fim era, finalmente, o que desejavam. Jocosamente, consideravam uma aposentadoria forçada. A causa, a herança, a revolução. Todas nas mãos da próxima geração e assim por diante, não importava em que palmas estivessem estendidas, desde que houvesse dedos no cerrar protetor e assumido, ali prostrado em mãos. Os pensamentos interromperam. Observaram o sol, que entrava furtivo por entre as frestas da janela. Não, não era uma janela. O sol esgueirava-se pelas frestas da grade.
Capturados, presos, torturados e julgados por crimes contra o Estado. E juntos, verteram o sangue, as lágrimas, a dor, os gritos. E o resultado final: pena de morte. Os dois não sabiam, ao certo, o tipo de execução, muito menos o tempo exato. As horas, ali dentro, não valiam de nada. O sol, observador fugaz, estaria ali, no exato momento. Quando pudessem observar sua existência despida, sem sua amarela aura de perseguições, olharem os olhos de Apolo, vê-lo e arder à visão sem sentido, seria o momento. Não esperavam muito do tempo restante. Não esperavam acréscimo ou decréscimo de velocidade. Estavam ambos livres de oscilações individuais e interpessoais do tempo, que de certa forma, não existia, por completo, ali. Não esperavam algum tipo de esquema de resgate ou salvamento. Sua esperança fora raptada por outrem: o cansaço.
Desde a idéia inicial estavam juntos. Desde o início dos planejamentos, os encontros, reuniões e lutas: juntos. E as mãos tocavam-se no silêncio de palavras mudas, de existência não-dita. Mesmo que separadas fisicamente, encontravam-se. A mão dele, grande e calejada, acostumada ao planejamento interminável, envolvia a dela, pequena, suave e branda, da rotina das pesadas armas. E mesmo distantes, envolviam-se. Palavras não eram necessárias, desde que houvesse o irromper do silêncio dos corpos, naquele único e mínimo instante de contato: reciprocidade.
Eram mártires, sabiam. Lembrados, eternamente, como símbolos inextinguíveis da revolução, da liberdade. O sol cegou seus olhos, despiu-se. Era o momento. Mãos dadas. Na verdade, não se separaram desde a chegada. Os torturadores faziam questão de levá-los juntos às sessões, de mãos dadas. Mostrar a dor de um ao outro. A porta destrancada ruidosamente. Homens de quase dois metros, roupas militares pretas e armas na mão. Escolta até a arena principal, sim, a execução seria pública, como forma de exemplo. Riram-se, ambos. Exemplo de um Estado falho.
Mãos dadas percorrendo o extenso caminho até o local delimitado. Enfileirados outros presos. Um a um caía diante da multidão, enquanto os fuzis estilhaçavam o silêncio. Alguns “Oh” eram deliberadamente ouvidos. E no momento final, as mãos soltaram-se e a morte foi individual. Duas balas, duas mãos, separadas, individuais. Não houve comoção, não houve aplauso, só o individual pitoresco. A morte liberta da prisão individual.
Aldous Huxley; Portas da Percepção.
O sono lhes atingiu por fruto do cansaço, uma bala perdida indefensável, vencendo-lhes toda a resistência final. E bem que, talvez, lá no fundo, ambos renderam ao sono, na consciência do fim tão próximo. Não houve preparação ou pedido especial, de nenhum. O único desejo, imerso em seus interiores, era o fim de tudo. De tudo, tudo que configurava o conjunto de destruição de seus corpos e espíritos. As sessões intermináveis e incansáveis de tortura. O fim era, finalmente, o que desejavam. Jocosamente, consideravam uma aposentadoria forçada. A causa, a herança, a revolução. Todas nas mãos da próxima geração e assim por diante, não importava em que palmas estivessem estendidas, desde que houvesse dedos no cerrar protetor e assumido, ali prostrado em mãos. Os pensamentos interromperam. Observaram o sol, que entrava furtivo por entre as frestas da janela. Não, não era uma janela. O sol esgueirava-se pelas frestas da grade.
Capturados, presos, torturados e julgados por crimes contra o Estado. E juntos, verteram o sangue, as lágrimas, a dor, os gritos. E o resultado final: pena de morte. Os dois não sabiam, ao certo, o tipo de execução, muito menos o tempo exato. As horas, ali dentro, não valiam de nada. O sol, observador fugaz, estaria ali, no exato momento. Quando pudessem observar sua existência despida, sem sua amarela aura de perseguições, olharem os olhos de Apolo, vê-lo e arder à visão sem sentido, seria o momento. Não esperavam muito do tempo restante. Não esperavam acréscimo ou decréscimo de velocidade. Estavam ambos livres de oscilações individuais e interpessoais do tempo, que de certa forma, não existia, por completo, ali. Não esperavam algum tipo de esquema de resgate ou salvamento. Sua esperança fora raptada por outrem: o cansaço.
Desde a idéia inicial estavam juntos. Desde o início dos planejamentos, os encontros, reuniões e lutas: juntos. E as mãos tocavam-se no silêncio de palavras mudas, de existência não-dita. Mesmo que separadas fisicamente, encontravam-se. A mão dele, grande e calejada, acostumada ao planejamento interminável, envolvia a dela, pequena, suave e branda, da rotina das pesadas armas. E mesmo distantes, envolviam-se. Palavras não eram necessárias, desde que houvesse o irromper do silêncio dos corpos, naquele único e mínimo instante de contato: reciprocidade.
Eram mártires, sabiam. Lembrados, eternamente, como símbolos inextinguíveis da revolução, da liberdade. O sol cegou seus olhos, despiu-se. Era o momento. Mãos dadas. Na verdade, não se separaram desde a chegada. Os torturadores faziam questão de levá-los juntos às sessões, de mãos dadas. Mostrar a dor de um ao outro. A porta destrancada ruidosamente. Homens de quase dois metros, roupas militares pretas e armas na mão. Escolta até a arena principal, sim, a execução seria pública, como forma de exemplo. Riram-se, ambos. Exemplo de um Estado falho.
Mãos dadas percorrendo o extenso caminho até o local delimitado. Enfileirados outros presos. Um a um caía diante da multidão, enquanto os fuzis estilhaçavam o silêncio. Alguns “Oh” eram deliberadamente ouvidos. E no momento final, as mãos soltaram-se e a morte foi individual. Duas balas, duas mãos, separadas, individuais. Não houve comoção, não houve aplauso, só o individual pitoresco. A morte liberta da prisão individual.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Desejo à gravidez
Amanhã
asso um croissant
com meu fogão
feito de pedaços
do coração.
Mas como não é assim
que se faz,
juro: corro atrás
de uma padaria aberta
às duas e meia da manhã.
(mas sem berros
dessa vez.)
asso um croissant
com meu fogão
feito de pedaços
do coração.
Mas como não é assim
que se faz,
juro: corro atrás
de uma padaria aberta
às duas e meia da manhã.
(mas sem berros
dessa vez.)
O Globo de Neve
Nunca havia percebido o mundo ao seu redor. Aos meros detalhes, às percepções de temperatura e tudo que, mesmo indiretamente, lhe afetava. Vivia como numa sombra, sem perceber a sensação da realidade que o cercava. Aos poucos, trancou-se mais e mais dentro de si. Um dia, simplesmente abriu os olhos, após cerrá-los contra a brisa que cortava seu rosto e abriu de forma diferente. Sentia-se diferente, enclausurado por uma cela invisível. Sem maiores explicações, notou um pouco do universo que não estava trancafiado a sua volta. Largou passos pesados no caminho, notando quão profundo pareciam. Inspirou o ar salgado da beira da praia, sentindo o gosto do mar. Que mundo seria aquele, tão diferente?
Com o passar do tempo, porém, seus passos não eram tão profundos e o ar não tinha gosto das gotas fugidas do mar. O céu não era tão azul e tão profundo. Inicialmente não deu importância, mas o desbotamento do céu pareceu-lhe um exagero sincero. Suficiente, ao menos, para atenção. Analisou a marca de suas pegadas, tão artificiais e falsificadas. Observou o ar, de semelhança industrial, plástica. O sol demonstrava uma fluorescência errática, um amarelo falso e infeliz. Algo estava errado. Mas o quê?
Apertou os olhos e olhou para o céu, procurando algum ponto incomum. Observou além das nuvens e dos aviões que riscavam o céu. Ultrapassou pássaros que voavam tão alto, que pareciam partículas esquecidas no espaço. Enxergando então, além de qualquer barreira, notou algo disforme, algo branco. Circundou toda abóboda celeste com os olhos, como lacrasse todo o globo de sua vista. Em todo percurso, percebia aquela marca esbranquiçada, que sugeria um reflexo. Sim, um reflexo. Este, que se tornava mais intenso ao aproximar-se do estranho sol falso amarelo. Seguiu, com os dedos, a linha do céu.
Sentou-se no píer, olhando o movimento do mar. Algo de estranho. O mar parecia mecânico e sem vida, como se movimentado em padrão, por pás e moinhos ocultos. Observou o horizonte. Ultrapassou o pequeno barquinho – que, no entanto, parecia imóvel – navegando ao longe. Ultrapassou grandes ondas e carneirinhos de lã sintética. E o horizonte não era mais horizonte, mas sim uma junção entre o céu e o mar. Desenhou com os dedos, mais uma vez, aquela limitação. Notou uma tênue camada de junção entre os dois, como fosse uma linha transparente, transpassada onde não se poderia chegar. Mas com os olhos e o movimento dos dedos, conseguira alcançar o suposto infinito. Algo estava errado.
Os segundos e minutos configuravam-se apertados, as horas corriam em ciclos fechados de repetição. Aos poucos, pôde observar o incrível: o encolhimento do universo. Mas não, tudo mais prosseguia de forma natural. As pessoas prosseguiam de forma natural. Mais alguém teria notado aquela estranheza toda, claro! Não conseguia explicar o mundo ao seu redor. Um mundo que até então era ignorável e passível da indiferença. Mas... Será que foi isso? Será que tudo ao seu redor cansara daquele tratamento de insignificância? Não sabia ao certo.
O tempo passava e tudo se tornava plástico. O céu era plástico, o mar era plástico, o sol era plástico. Por fim, a única plasticidade não reconhecida era a própria. Seus rastros eram pré-desenhados, como fosse prostrado de forma planejada, esculpida. Analisava mais e mais, cadenciando nas pontas dos dedos, todo o padrão do invólucro do céu, do mar e do horizonte. E toda a significância vertia mais nada. A vida subtraía-se ao artificial preso, enclausurado pelo infinito definível. E mais do que nunca, ele estava ali, preso.
O universo havia se voltado contra ele, diminuindo de tamanho só em seu aspecto individual. O resto permanecia inteiro. Ele não. O universo reduzira-se ao pouco que antes cabia na percepção atrasada daquele homem: um globo. Preso, sem movimentos a não ser o reflexo de um mundo fora dali. Um globo de neve.
Com o passar do tempo, porém, seus passos não eram tão profundos e o ar não tinha gosto das gotas fugidas do mar. O céu não era tão azul e tão profundo. Inicialmente não deu importância, mas o desbotamento do céu pareceu-lhe um exagero sincero. Suficiente, ao menos, para atenção. Analisou a marca de suas pegadas, tão artificiais e falsificadas. Observou o ar, de semelhança industrial, plástica. O sol demonstrava uma fluorescência errática, um amarelo falso e infeliz. Algo estava errado. Mas o quê?
Apertou os olhos e olhou para o céu, procurando algum ponto incomum. Observou além das nuvens e dos aviões que riscavam o céu. Ultrapassou pássaros que voavam tão alto, que pareciam partículas esquecidas no espaço. Enxergando então, além de qualquer barreira, notou algo disforme, algo branco. Circundou toda abóboda celeste com os olhos, como lacrasse todo o globo de sua vista. Em todo percurso, percebia aquela marca esbranquiçada, que sugeria um reflexo. Sim, um reflexo. Este, que se tornava mais intenso ao aproximar-se do estranho sol falso amarelo. Seguiu, com os dedos, a linha do céu.
Sentou-se no píer, olhando o movimento do mar. Algo de estranho. O mar parecia mecânico e sem vida, como se movimentado em padrão, por pás e moinhos ocultos. Observou o horizonte. Ultrapassou o pequeno barquinho – que, no entanto, parecia imóvel – navegando ao longe. Ultrapassou grandes ondas e carneirinhos de lã sintética. E o horizonte não era mais horizonte, mas sim uma junção entre o céu e o mar. Desenhou com os dedos, mais uma vez, aquela limitação. Notou uma tênue camada de junção entre os dois, como fosse uma linha transparente, transpassada onde não se poderia chegar. Mas com os olhos e o movimento dos dedos, conseguira alcançar o suposto infinito. Algo estava errado.
Os segundos e minutos configuravam-se apertados, as horas corriam em ciclos fechados de repetição. Aos poucos, pôde observar o incrível: o encolhimento do universo. Mas não, tudo mais prosseguia de forma natural. As pessoas prosseguiam de forma natural. Mais alguém teria notado aquela estranheza toda, claro! Não conseguia explicar o mundo ao seu redor. Um mundo que até então era ignorável e passível da indiferença. Mas... Será que foi isso? Será que tudo ao seu redor cansara daquele tratamento de insignificância? Não sabia ao certo.
O tempo passava e tudo se tornava plástico. O céu era plástico, o mar era plástico, o sol era plástico. Por fim, a única plasticidade não reconhecida era a própria. Seus rastros eram pré-desenhados, como fosse prostrado de forma planejada, esculpida. Analisava mais e mais, cadenciando nas pontas dos dedos, todo o padrão do invólucro do céu, do mar e do horizonte. E toda a significância vertia mais nada. A vida subtraía-se ao artificial preso, enclausurado pelo infinito definível. E mais do que nunca, ele estava ali, preso.
O universo havia se voltado contra ele, diminuindo de tamanho só em seu aspecto individual. O resto permanecia inteiro. Ele não. O universo reduzira-se ao pouco que antes cabia na percepção atrasada daquele homem: um globo. Preso, sem movimentos a não ser o reflexo de um mundo fora dali. Um globo de neve.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Refugo
O cais de naufrágios
repleto de ossos desiludidos,
tão brancos, tão roídos,
tão velhos, tão moídos,
de todo o sufrágio
do tempo que passou.
Minha sonora incompreensão
posta em gestos mudos,
tão calados e gritantes
em sua fiel reverberação.
Sua forma feminina
e sua nuance, tão franzina,
soltando passos aleatórios
nos traços incontroláveis,
absortos, confabulatórios
de simplesmente existir.
E no exílio sombrio do teus olhos,
meus elogios são o catalisador
do teu sorriso.
repleto de ossos desiludidos,
tão brancos, tão roídos,
tão velhos, tão moídos,
de todo o sufrágio
do tempo que passou.
Minha sonora incompreensão
posta em gestos mudos,
tão calados e gritantes
em sua fiel reverberação.
Sua forma feminina
e sua nuance, tão franzina,
soltando passos aleatórios
nos traços incontroláveis,
absortos, confabulatórios
de simplesmente existir.
E no exílio sombrio do teus olhos,
meus elogios são o catalisador
do teu sorriso.
Licença Poética.
Era algo novo, inexplicável. Talvez fosse um engano. Isso, um engano! Não... Além de inexplicável era incontestável. Mas como? No fim das contas, talvez nem importasse um por que. Mas sim o que fazer a partir daquele momento. Inspirou profundamente, recolhendo uma porção generosa daquele ar áspero, congelante, que lhe raspou as paredes dos pulmões. Fez uma pausa nas considerações, tossiu por alguns instantes e retomou a linha de pensamento. O mais importante, seja lá o que fizesse com aquilo, seria lidar com toda burocracia. Teria de informar-se a respeito, claro.
Cerrou os olhos. Sim, sim, departamento de informações. Levantou-se do banco. Caminhou por alguns metros e entrou no carro. Deu a partida, esticou o pescoço, examinando a rua. Estava parcialmente vazia. Ligou o rádio, mudou lentamente de estação, sem pressa alguma. Alguns ruídos. Regulou aleatoriamente o botão até ouvir a voz de Bob Dylan. Aumentou o volume, ouviu os acordes e cantarolou Mr. Tambourine Man. Passou a marcha e saiu lentamente, ainda preso às idéias de poucos instantes. Sinceramente, não havia se livrado daquilo em momento algum. Aquilo que se mantinha pulsante, vivo.
Mudou a marcha e avançou pela rua deserta. Apesar das janelas fechadas, o cinza quase vivo que pairava no ar, invadiu parcialmente o carro. O ar gélido irritara suas narinas. As pontas de seus dedos, mesmo socados nas luvas de lã, estavam levemente rijas e geladas. Inspirou um pouco do ar – ainda áspero – e continuou. Encaminhou-se ao departamento de informações. Fora pouquíssimos pedestres e alguns poucos carros, as ruas estavam efetivamente desertas. Diferente da cidade, seu interior estava movimentado. Seus pensamentos corriam alastrados, na tentativa de uma passível organização. Seus sentimentos, até então ocultos, fervilhavam de excitação.
Numa manutenção quase heróica, conseguia manter-se atento ao mundo prostrado ao seu redor. Inconscientemente, acompanhava a voz de Joni Mitchell cantando Little Green, imitando o toque do violão com seus dedos gélidos ao volante. Ligou a seta, reduziu a velocidade e entrou à esquerda. Parou o carro diante do prédio azul, Departamento de Informações Burocráticas. Desligou o rádio, desceu do carro e trancou as portas. Cumprimentou o porteiro, entrou no lugar, passando por um alto portão metálico.
Boa tarde. Como eu poderia legalizar uma idéia? O senhor terá de responder um curto questionário e então o encaminharemos ao departamento necessário. Certo, certo, podemos começar? Sim, podemos. Preencha esse formulário e começaremos.
Pronto, aqui está. Certo. Quando surgiu tal idéia? Hoje, algumas horas atrás. Certo. Onde surgiu? De fronte com o píer, à beira-mar. Explique a idéia. Bem, não é algo grandioso. Ora, não se acanhe. Certo, certo. Quando me vem essa idéia, é bem como algo frio espetando por dentro. Senhor. E impele a fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, ir atrás de alguém. Senhor, senhor! E tudo mais parece confuso, uma briga pra manter-me atento. E existe essa ânsia por algo, inexplicável e SENHOR! Perdão, diga. Receio que isso não é uma idéia. Não? Não. E agora? O senhor precisará de uma licença poética. Como assim? E então dará entrada nos papéis pra adquirir, de forma realizável, isso. Isso o que? O amor. Senti-lo e explicar dessa maneira, sem licença, é ilegal!
Cerrou os olhos. Sim, sim, departamento de informações. Levantou-se do banco. Caminhou por alguns metros e entrou no carro. Deu a partida, esticou o pescoço, examinando a rua. Estava parcialmente vazia. Ligou o rádio, mudou lentamente de estação, sem pressa alguma. Alguns ruídos. Regulou aleatoriamente o botão até ouvir a voz de Bob Dylan. Aumentou o volume, ouviu os acordes e cantarolou Mr. Tambourine Man. Passou a marcha e saiu lentamente, ainda preso às idéias de poucos instantes. Sinceramente, não havia se livrado daquilo em momento algum. Aquilo que se mantinha pulsante, vivo.
Mudou a marcha e avançou pela rua deserta. Apesar das janelas fechadas, o cinza quase vivo que pairava no ar, invadiu parcialmente o carro. O ar gélido irritara suas narinas. As pontas de seus dedos, mesmo socados nas luvas de lã, estavam levemente rijas e geladas. Inspirou um pouco do ar – ainda áspero – e continuou. Encaminhou-se ao departamento de informações. Fora pouquíssimos pedestres e alguns poucos carros, as ruas estavam efetivamente desertas. Diferente da cidade, seu interior estava movimentado. Seus pensamentos corriam alastrados, na tentativa de uma passível organização. Seus sentimentos, até então ocultos, fervilhavam de excitação.
Numa manutenção quase heróica, conseguia manter-se atento ao mundo prostrado ao seu redor. Inconscientemente, acompanhava a voz de Joni Mitchell cantando Little Green, imitando o toque do violão com seus dedos gélidos ao volante. Ligou a seta, reduziu a velocidade e entrou à esquerda. Parou o carro diante do prédio azul, Departamento de Informações Burocráticas. Desligou o rádio, desceu do carro e trancou as portas. Cumprimentou o porteiro, entrou no lugar, passando por um alto portão metálico.
Boa tarde. Como eu poderia legalizar uma idéia? O senhor terá de responder um curto questionário e então o encaminharemos ao departamento necessário. Certo, certo, podemos começar? Sim, podemos. Preencha esse formulário e começaremos.
Pronto, aqui está. Certo. Quando surgiu tal idéia? Hoje, algumas horas atrás. Certo. Onde surgiu? De fronte com o píer, à beira-mar. Explique a idéia. Bem, não é algo grandioso. Ora, não se acanhe. Certo, certo. Quando me vem essa idéia, é bem como algo frio espetando por dentro. Senhor. E impele a fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, ir atrás de alguém. Senhor, senhor! E tudo mais parece confuso, uma briga pra manter-me atento. E existe essa ânsia por algo, inexplicável e SENHOR! Perdão, diga. Receio que isso não é uma idéia. Não? Não. E agora? O senhor precisará de uma licença poética. Como assim? E então dará entrada nos papéis pra adquirir, de forma realizável, isso. Isso o que? O amor. Senti-lo e explicar dessa maneira, sem licença, é ilegal!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
O momento anti-romântico
Esplêndida é a morte de treva
que se consome.
Torpedos inteligíveis são
disparados da lua cheia,
invocando do sangue, da carne
o romantismo amargo
dos dias que devoram.
Existe uma única chance
em sair ileso
do paraíso de pedras
que desmorona.]
É desnudar a face que corrompe
o beijo
tragar o medo, trazê-lo à tona
junto ao desejo
que atordoa (desmonta)
e desencanta o peito
do seio, do pé
da cama.
Desalmar o corpo,
apagar a chama
desfazer o infiel traço
monótono do braço
que circunda o abraço
e deságua mortalmente
nas róseas rochas
da unidade
de uma separação.
que se consome.
Torpedos inteligíveis são
disparados da lua cheia,
invocando do sangue, da carne
o romantismo amargo
dos dias que devoram.
Existe uma única chance
em sair ileso
do paraíso de pedras
que desmorona.]
É desnudar a face que corrompe
o beijo
tragar o medo, trazê-lo à tona
junto ao desejo
que atordoa (desmonta)
e desencanta o peito
do seio, do pé
da cama.
Desalmar o corpo,
apagar a chama
desfazer o infiel traço
monótono do braço
que circunda o abraço
e deságua mortalmente
nas róseas rochas
da unidade
de uma separação.
Humanização
Despertava lentamente, sem mesmo dar conta do que havia acontecido. Uma fina cortina de poeira atravessava a janela e tocava o chão. O quarto escuro. A cidade iluminava a única fresta da janela, de onde descendia o feixe pueril. Um canto da lua cheia esgueirava-se, dividindo espaço com duas ou três estrelas, na tentativa de ser vista. Então, em uma fração de segundo, se deu conta da situação. Seu corpo não era o mesmo. Sentia-se como se todas as suas partes houvessem sido desmontadas, e inclusive, algumas substituídas. Não sentia dor, apenas estranheza. Estranheza do saber que aquele não era o seu recipiente conhecido. Estranheza de perceber-se destoado e confuso. Não entendia o que havia acontecido.
Esticou-se na cama, pretendendo em seguida, verificar o desconhecido. Esticou-se mais do que lembrava poder. Distanciando suas mãos e pés do dorso, de forma extraordinária, observou que sua flexibilidade aumentara assustadoramente. Repetiu o feito, prestando atenção aos mínimos detalhes. Ouviu o som de suas vértebras estalando, como no estalar de dedos. Voltou à posição inicial, fetal. Torceu o rosto em análise dos dados já reunidos. Analisou sua elasticidade e o estalar estranho das vértebras. O sentimento de troca de corpo, a falta de dor e o fato de, inclusive, sentir-se bem. Melhor do que antes. Antes, pensou, antes de cochilar. Mais ou menos vinte minutos atrás.
Analisou o feixe de poeira que flutuava até o chão, desaparecendo sem mesmo tocar o chão, como numa ilusão incrível. Torceu o rosto novamente, permitindo que seus bigodes sentissem um pouco a brisa que entrava pela pequena fresta da janela. Bigodes!? Bigodes! Sim, eram bigodes. Torceu o rosto de forma frenética e quase convulsiva, sentindo seus longos bigodes prateados tocando o ar quase congelado da noite. Sim, bigodes! Como? Começou a desconfiar de sua própria humanidade. Torceu o rosto mais uma vez, confirmando a presença dos bigodes. Decidiu ir além. Sentiu ter controle sobre algo além de seus braços. Eram as pernas, claro. Mas não, a sensação atravessava as pernas. Concentrou-se e sentiu algo mexendo por debaixo da coberta.
Concentrou-se num movimento tímido. Com o passar dos segundos, movimentava aquilo com mais vigor. Mas... Aquilo o quê? Enfiou a cabeça por debaixo das cobertas e percebeu sua nudez. Mas não era uma nudez igual a qual se lembrava de inquirir diante do espelho do banheiro. Observava, em desespero, uma camada de pêlos encobrindo seu corpo. Um pêlo branco, pálido, quase cor de neve. Em alguns pontos, detectou inclusive, a presença de pequenas manchas alaranjadas, como se surgissem do nada com o intuito de tornar inconstante aquela brancura felpuda. Foi adiante. Suas pernas não eram mais pernas, ou ao menos, não as mesmas as quais estava acostumado.
Pensou em fitar os braços. Seus braços também não eram os mesmos. Tudo havia mudado? Bigodes, pêlos e agora isso? Fora... Aquilo. O que seria aquilo? Lembrou-se de verificar a natureza ‘daquilo’. Sua visão direcionou-se às pernas. Foi além. Concentrou-se mais uma vez. Tentou novamente movimentar ‘aquilo’. Teve de analisar por certo tempo, até que realmente confirmasse. Não, não poderia ser. Mas sim, era. Era também peluda, branca e com uma mancha curta na ponta. Longa e felpuda, movimentando-se inconscientemente para os lados, de modo tímido, mas, respondendo à vontade quando assim era necessário. Era uma cauda.
Esticou-se mais uma vez até o estalar de suas vértebras. Não era mais humano, disso tinha certeza. Mas o que poderia ser? Tinha suposições, mas não queria trabalhá-las antes de adquirir mais provas. Observou seus pés e mãos. Que não eram seus. Notou a semelhança com uma pequena almofada, percebeu a concentração maior de pêlos e o número reduzido de dedos. Comandou a exposição de algo que sabia estar oculto. Garras afiadíssimas saltaram de seus dedos, onde antes havia o vão solitário do ‘apenas macio’. Não, humano não era. De jeito maneira. O que mais poderia analisar? Livrou-se das cobertas – com certa dificuldade – e tentou pôr-se de pé. Tombou diversas vezes, tentou diversas vezes e mesmo assim não obtinha sucesso. Como por reflexo, levantou-se sobre os braços e as pernas, que não eram seus. Firmou-se de quatro e caminhou por uma curta distância. A facilidade na locomoção era de fato algo interessante. Sentia mais facilidade naquele movimento quadrúpede do que a maneira como se mantinha normalmente de pé, ereto nas pernas.
Alongou seu corpo, tocando sua barriga na cama. Ainda surpreendia-se com sua elasticidade. Tornou à posição anterior. Caminhou mais um pouco, com elegância a qual nunca sentira em sua vida. Utilizava seu corpo de forma sutil e suave, não provocada ruídos. Sua própria respiração era sussurrada. Percebeu que seus sentidos eram aguçados. Ao menos a ponto de ouvir, com detalhes incríveis, sua própria respiração. Aquietou-se. Reduziu seu próprio ritmo cardíaco, respirava de forma silenciosa, quase inexistente. Antes de dormir, há mais ou menos vinte minutos, não conseguia ouvir ruído algum. Agora ouvia uma cidade desperta, que funcionava vividamente. Ouviu a circulação das ruas, passos ao longe, folhas fustigadas debatendo-se no ar e tanto mais. Ouvia o bater de asas de insetos que rodeavam a lâmpada. Escutou vagamente, o som da eletricidade concentrada na lâmpada. Incrível!
Sentia o odor da noite, com seu aspecto úmido contínuo. Sentia o cheiro dos corvos que haviam construído um ninho perto do telhado. Sentia o cheiro do assoalho gasto e o cheiro de queimado de algum dos insetos que tocara a luminária quente. Impressionante. Esticou-se mais uma vez, tocando a barriga no chão. Decidiu encaminhar-se até o sofá. Foi até a ponta da cama e percebeu, tardiamente, que tudo parecia maior. Ou simplesmente, ele mesmo diminuíra. Humano mesmo, não era, repetia para si mesmo. Passo por passo, aproximou-se do fim da cama. Observou a distância até o sofá. Teria de descer e escalar aquele sofá verde, gasto. Não... Poderia fazer algo mais. Algo humanamente impossível. Mas não haveria problemas, afinal, humano sabia que não era.
Calculou inconscientemente, de forma fria e voraz. Tomou distância e antes mesmo de dar por si mesmo, saltou. Um salto espetacular e suave. Sentiu-se como uma das partículas de poeira: uma ilusão que flutuava sem encontrar o solo. Finalmente, de forma sutil, alcançou o sofá. Nem mesmo quando mais jovem, conseguia saltar alguns palmos, quanto mais dois metros. Não. Humano não era. E que aterrissagem! Mal sentira o toque de seus pés e mãos – que não eram seus – com a superfície do sofá. Por alguns segundos, sentiu-se como na lua: quase sem gravidade atuando sobre seu corpo.
Desceu do sofá, sentindo um cheiro convidativo. Analisou mais uma vez a situação, com os novos dados. Tinha bigodes, uma cauda, um corpo pequeno e peludo, de coloração branca e de manchas alaranjadas. Seus sentidos estavam milhões de vezes melhorados. Eram totalmente aguçados. Possuía uma flexibilidade e capacidade física incríveis. Movia-se, acima de tudo, elegantemente. Tornara-se um gato. Um gato!? E no lugar da conhecida interjeição de surpresa, ouviu um miado. Um miado curto e agudo. Sim, um gato. Espantou-se com a falta de voz. Ao menos a voz a qual estava acostumado. Não, não era humano. Era um gato. Ronronou por alguns segundos.
Sentiu mais uma vez o cheiro convidativo, caminhou seguindo-o. Notou um grande pote verde, onde lia seu nome. Observou seu interior. Sentia fome. Todo processo de descobrimento lhe dera uma fome profunda e voraz. Saltou sobre a comida e devorou rapidamente. Um gato. Sim, um gato. Miou longamente. Um miado satisfeito e desconfiado de si mesmo. Voltou ao sofá, agora de posse da razão do ‘ser gato’. Claro, tudo aquilo poderia não passar de um sonho, ou alucinação ou qualquer outro tipo de loucura.
Sonho ou não, alucinação ou não, a verdade era uma só: a de ser gato. Torceu o rosto, balançando seus bigodes. Esticou-se mais uma vez, agora deitado. Ouviu o estalar das vértebras. Finalmente conseguira o que nunca, em sua vida, havia atingido. Finalmente sentia-se bem. Sentia-se dentro de si mesmo. Antes se sentia diferente e abandonado em sua condição. Mas agora, sabia. Sim, agora sabia: era finalmente, depois de tantos anos, o que nunca conseguira ser. Humano.
Esticou-se na cama, pretendendo em seguida, verificar o desconhecido. Esticou-se mais do que lembrava poder. Distanciando suas mãos e pés do dorso, de forma extraordinária, observou que sua flexibilidade aumentara assustadoramente. Repetiu o feito, prestando atenção aos mínimos detalhes. Ouviu o som de suas vértebras estalando, como no estalar de dedos. Voltou à posição inicial, fetal. Torceu o rosto em análise dos dados já reunidos. Analisou sua elasticidade e o estalar estranho das vértebras. O sentimento de troca de corpo, a falta de dor e o fato de, inclusive, sentir-se bem. Melhor do que antes. Antes, pensou, antes de cochilar. Mais ou menos vinte minutos atrás.
Analisou o feixe de poeira que flutuava até o chão, desaparecendo sem mesmo tocar o chão, como numa ilusão incrível. Torceu o rosto novamente, permitindo que seus bigodes sentissem um pouco a brisa que entrava pela pequena fresta da janela. Bigodes!? Bigodes! Sim, eram bigodes. Torceu o rosto de forma frenética e quase convulsiva, sentindo seus longos bigodes prateados tocando o ar quase congelado da noite. Sim, bigodes! Como? Começou a desconfiar de sua própria humanidade. Torceu o rosto mais uma vez, confirmando a presença dos bigodes. Decidiu ir além. Sentiu ter controle sobre algo além de seus braços. Eram as pernas, claro. Mas não, a sensação atravessava as pernas. Concentrou-se e sentiu algo mexendo por debaixo da coberta.
Concentrou-se num movimento tímido. Com o passar dos segundos, movimentava aquilo com mais vigor. Mas... Aquilo o quê? Enfiou a cabeça por debaixo das cobertas e percebeu sua nudez. Mas não era uma nudez igual a qual se lembrava de inquirir diante do espelho do banheiro. Observava, em desespero, uma camada de pêlos encobrindo seu corpo. Um pêlo branco, pálido, quase cor de neve. Em alguns pontos, detectou inclusive, a presença de pequenas manchas alaranjadas, como se surgissem do nada com o intuito de tornar inconstante aquela brancura felpuda. Foi adiante. Suas pernas não eram mais pernas, ou ao menos, não as mesmas as quais estava acostumado.
Pensou em fitar os braços. Seus braços também não eram os mesmos. Tudo havia mudado? Bigodes, pêlos e agora isso? Fora... Aquilo. O que seria aquilo? Lembrou-se de verificar a natureza ‘daquilo’. Sua visão direcionou-se às pernas. Foi além. Concentrou-se mais uma vez. Tentou novamente movimentar ‘aquilo’. Teve de analisar por certo tempo, até que realmente confirmasse. Não, não poderia ser. Mas sim, era. Era também peluda, branca e com uma mancha curta na ponta. Longa e felpuda, movimentando-se inconscientemente para os lados, de modo tímido, mas, respondendo à vontade quando assim era necessário. Era uma cauda.
Esticou-se mais uma vez até o estalar de suas vértebras. Não era mais humano, disso tinha certeza. Mas o que poderia ser? Tinha suposições, mas não queria trabalhá-las antes de adquirir mais provas. Observou seus pés e mãos. Que não eram seus. Notou a semelhança com uma pequena almofada, percebeu a concentração maior de pêlos e o número reduzido de dedos. Comandou a exposição de algo que sabia estar oculto. Garras afiadíssimas saltaram de seus dedos, onde antes havia o vão solitário do ‘apenas macio’. Não, humano não era. De jeito maneira. O que mais poderia analisar? Livrou-se das cobertas – com certa dificuldade – e tentou pôr-se de pé. Tombou diversas vezes, tentou diversas vezes e mesmo assim não obtinha sucesso. Como por reflexo, levantou-se sobre os braços e as pernas, que não eram seus. Firmou-se de quatro e caminhou por uma curta distância. A facilidade na locomoção era de fato algo interessante. Sentia mais facilidade naquele movimento quadrúpede do que a maneira como se mantinha normalmente de pé, ereto nas pernas.
Alongou seu corpo, tocando sua barriga na cama. Ainda surpreendia-se com sua elasticidade. Tornou à posição anterior. Caminhou mais um pouco, com elegância a qual nunca sentira em sua vida. Utilizava seu corpo de forma sutil e suave, não provocada ruídos. Sua própria respiração era sussurrada. Percebeu que seus sentidos eram aguçados. Ao menos a ponto de ouvir, com detalhes incríveis, sua própria respiração. Aquietou-se. Reduziu seu próprio ritmo cardíaco, respirava de forma silenciosa, quase inexistente. Antes de dormir, há mais ou menos vinte minutos, não conseguia ouvir ruído algum. Agora ouvia uma cidade desperta, que funcionava vividamente. Ouviu a circulação das ruas, passos ao longe, folhas fustigadas debatendo-se no ar e tanto mais. Ouvia o bater de asas de insetos que rodeavam a lâmpada. Escutou vagamente, o som da eletricidade concentrada na lâmpada. Incrível!
Sentia o odor da noite, com seu aspecto úmido contínuo. Sentia o cheiro dos corvos que haviam construído um ninho perto do telhado. Sentia o cheiro do assoalho gasto e o cheiro de queimado de algum dos insetos que tocara a luminária quente. Impressionante. Esticou-se mais uma vez, tocando a barriga no chão. Decidiu encaminhar-se até o sofá. Foi até a ponta da cama e percebeu, tardiamente, que tudo parecia maior. Ou simplesmente, ele mesmo diminuíra. Humano mesmo, não era, repetia para si mesmo. Passo por passo, aproximou-se do fim da cama. Observou a distância até o sofá. Teria de descer e escalar aquele sofá verde, gasto. Não... Poderia fazer algo mais. Algo humanamente impossível. Mas não haveria problemas, afinal, humano sabia que não era.
Calculou inconscientemente, de forma fria e voraz. Tomou distância e antes mesmo de dar por si mesmo, saltou. Um salto espetacular e suave. Sentiu-se como uma das partículas de poeira: uma ilusão que flutuava sem encontrar o solo. Finalmente, de forma sutil, alcançou o sofá. Nem mesmo quando mais jovem, conseguia saltar alguns palmos, quanto mais dois metros. Não. Humano não era. E que aterrissagem! Mal sentira o toque de seus pés e mãos – que não eram seus – com a superfície do sofá. Por alguns segundos, sentiu-se como na lua: quase sem gravidade atuando sobre seu corpo.
Desceu do sofá, sentindo um cheiro convidativo. Analisou mais uma vez a situação, com os novos dados. Tinha bigodes, uma cauda, um corpo pequeno e peludo, de coloração branca e de manchas alaranjadas. Seus sentidos estavam milhões de vezes melhorados. Eram totalmente aguçados. Possuía uma flexibilidade e capacidade física incríveis. Movia-se, acima de tudo, elegantemente. Tornara-se um gato. Um gato!? E no lugar da conhecida interjeição de surpresa, ouviu um miado. Um miado curto e agudo. Sim, um gato. Espantou-se com a falta de voz. Ao menos a voz a qual estava acostumado. Não, não era humano. Era um gato. Ronronou por alguns segundos.
Sentiu mais uma vez o cheiro convidativo, caminhou seguindo-o. Notou um grande pote verde, onde lia seu nome. Observou seu interior. Sentia fome. Todo processo de descobrimento lhe dera uma fome profunda e voraz. Saltou sobre a comida e devorou rapidamente. Um gato. Sim, um gato. Miou longamente. Um miado satisfeito e desconfiado de si mesmo. Voltou ao sofá, agora de posse da razão do ‘ser gato’. Claro, tudo aquilo poderia não passar de um sonho, ou alucinação ou qualquer outro tipo de loucura.
Sonho ou não, alucinação ou não, a verdade era uma só: a de ser gato. Torceu o rosto, balançando seus bigodes. Esticou-se mais uma vez, agora deitado. Ouviu o estalar das vértebras. Finalmente conseguira o que nunca, em sua vida, havia atingido. Finalmente sentia-se bem. Sentia-se dentro de si mesmo. Antes se sentia diferente e abandonado em sua condição. Mas agora, sabia. Sim, agora sabia: era finalmente, depois de tantos anos, o que nunca conseguira ser. Humano.
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