sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

As mesmas coisas da cidade

Fazia um frio dos diabos nas ruas. Ela tirou as mãos dos bolsos e se livrou do capote escuro, dobrou-o cuidadosamente e colocou em cima da cadeira. Estava com um vestido aberto nas costas. Torceu o corpo por uns instantes e tomou cuidado pra não bater as asas no teto e na lâmpada ao espreguiçar. Ele voltou com uma garrafa de tequila e dois copos. O anjo estalou o pescoço enquanto contorcia o resto do corpo e mexia as asas, provavelmente dormentes.


- Ainda não acredito como você aceitou me trazer pra sua casa sem mais nem menos.
- Você não tinha pra onde ir.
- Achou que poderia transar comigo, é isso?
- Olha, você é muito atraente. Mas não, acho que hoje não estou a fim. E de qualquer maneira não seria possível, certo? Vocês não têm sexo e tudo mais...
- Até que temos, mas só na aparência.
- Faz sentido, você é bastante feminina.
- Tenho um nome feminino, até, pra um anjo.
- Ah, é?
- Anali.
- É um nome muito bonito. O meu é Luís.
- Você não deveria receber estranhos em casa.
- Você não é estranha. Ou estranho.
- ‘Estranha’ tá bom. Mas e se eu fosse algum tipo de psicopata?
- Sabia que não. Você não tem jeito de um.
- Você conhece ou já conheceu algum?
- Até agora não.
- Então como saberia caso encontrasse um?
- Você sabe bem das coisas pra um anjo, ser puro e tudo mais...
- Eu sou um anjo, não sou um anjo cego.
- Verdade.
- Obrigado.
- Amém.


Ela riu e encheu os dois copos. Tomou a dose de uma vez só e uma lágrima correu pelo seu rosto. Enxugou-a e encheu o copo mais uma vez.

- Esquentou agora?
- Tá muito frio. Minhas asas estavam congelando – tomou outra dose.
- Vai devagar. Você é um anjo, mas não é de ferro.
- Verdade. Mas já melhorou muito, já tô sentindo as pontas dos dedos.


Conversaram algumas horas sobre quase tudo. Nada que não se conversasse com qualquer outra pessoa normal. Ele não falou sobre nada espiritual, religioso ou nada do tipo. Ela mal tocou no assunto.


- Você não acha estranho um anjo ser negro? Vocês sempre nos botam de pele branca. É um branco tão enjoado...
- Eu acharia estranho se não houvesse anjos negros.


Decidiram parar com a tequila. Ela colocou o capote mais uma vez, acomodando as asas por baixo.


- Olha, tá ficando muito tarde e não quero incomodar mais.
- Tudo bem. Eu gostei da companhia.
- É, eu também. Eu trabalho num café perto de um inferninho, qualquer dia apareça por lá.
- Você trabalha?!
- Claro, tenho que pagar as contas.
- Pensei que você morasse no céu ou alguma besteira do tipo.
- Prefiro morar na cidade, ainda mais essa aqui.
- Tive de me segurar pra não xingar na sua frente.
- Da próxima vez não o faça. Melhor soltar uns palavrões sinceros que mantê-los pra você mesmo e mentir pros outros.
- Uau.
- Milênios de vida servem pra alguma coisa.
- Você nem parece ter tantos mil anos.
- Certeza que você não quer me traçar?
- Hoje não.
- Pô, foder um anjo?
- ‘Foder’?
- Espero que você tenha ouvido o que eu falei agora pouco.
- Só tô meio surpreso. Sei lá, porra, não esperava.
- Nem eu.
- Boa noite.


Ele saiu pela porta, acendeu um cigarro e acomodou as asas debaixo do capote descendo a rua das putas. Pegou o celular do fundo do bolso. Alô? Miguel? Tô precisando de uma grana pro aluguel desse mês. É, tô sem um puto. Eu sei que seu trabalho não dá tanta grana assim. Ah, com que eu gastei? Com o de sempre.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cartas na rua

- Olha, olha! Olha ali!
- O quê, homem?
- Aquele livro ali.


Ele apontou com o nariz sacudindo a cabeça feito um maníaco e depois decidiu apontar loucamente com o dedo.


- Esse? peguei um livro preto de tamanho mediano e mostrei.
- Isso, Bukowski!
- Por que você não disse o nome ou apontou de uma vez?
- Apontar é feio.
- Sei.


Ele pegou o livro das minhas mãos deu uma bela folheada, contou algumas páginas e parou num certo ponto. Saí de perto pra olhar alguma coisa pra mim. Dei a volta na prateleira e comecei a olhar do outro lado. Ouvi a risada esganiçada característica do meu amigo e seguida da já esperada tosse.


- Ah, esse velho filho da puta é demais! e tossia arranhando todo o percurso da garganta e fazendo barulhos estranhos.


Dei a volta na outra prateleira e deixei o homem se divertindo com o livro. Tinha de achar um pra mim. Era uma necessidade anormal. Na verdade ainda é, não consigo passar por uma livraria sem renovar o estoque de coisas-pra-ler. Raramente são revistas. Os livros mandam e desmandam e demandam espaço nas gavetas, no armário, nas bancadas e na minha vida. É uma influência escrota, eu sei. E não tão boa quando se é estudante e pseudoescritor e precisa bancar o vício. Três prateleiras depois alguma coisa finalmente me chamou a atenção. Gabeira. O Que É Isso, Companheiro? Já ouvira falar do livro. E bem. Até filme tem – que um dia quem sabe eu assisto. Abri e li rápido as primeiras páginas sobre o exemplar. Era uma das primeiras edições de tiragem e mesmo assim estava novinho. Fechei o livro e segurei contra a coxa, fazendo contato com o jeans.


-Você conhece esse cara?
- O Gabeira?
- Não, o Bukowski.
- Não.
- E o Gabeira?
- Também não. Escuta, vai levar esse?
- Vou sim. Quer tomar alguma coisa?
- Tem cafeteria aqui perto?
- Na parte dos fundos é cafeteria. Mas, porra, vai tomar café de novo?
- É o meu vício. O seu é o cigarro.
- Mas você também fuma de vez em quando.
- Aí é que tá. De vez em quando não é gastar caralhadas de dinheiro pra ter câncer de pulmão. Fora que eu roubo um ou outro de você.
- Eu li que bastam poucas tragadas pra você desenvolver certas doenças.
- Prefiro ficar doente de graça.
- Ou a custa dos outros.
- Exato. Quer um café também?
- Dizem que tomar café e fumar faz mal, pô...
- Ah, vai se foder.


- Bom dia, senhor. O que deseja?
- Dois cafés pra viagem, um puro e forte e o outro...
- Com leite.
- O outro com leite.
- A conta foi processada no computador e lá na frente o senhor paga.
- Qual o seu nome?
- Desculpe?
- Hm, Clara. Desculpe, não tinha visto o crachá.
- Ok.
- Clara, você acha que café com cigarro faz mal?
- Bom, senhor – disse meu nome e pedi que me chamasse por ‘você’ também.
- Olha, quem fuma já tem problemas o suficiente pra se preocupar em combinar com café.
- Obrigado. Viu só?
- É, acho que sim... Então cancela o café com leite e manda dois puros.
- E fortes.
- Isso.


- Cara, me dá um cigarro?
- Toma - entregou o cigarro e pegou um pra si.


- Mas, hm, quem toma tanto café assim também não devia se preocupar em misturar com cigarro. Mesma merda.


Ouvi uma risada esganiçada seguida da tossida característica. Ele se aproximou do balcão e soltou um ‘gostei de você’.


- Você prefere ser acordada com café ou com cigarro?
- Com os dois.


Ela entregou os cafés e o bilhete da saída.

- Acho que virei cliente.
- Eu também.


Clara corou de leve e sorriu um daqueles sorrisos sinceros e sem graça. Se eu pressionasse mais um pouco ela diria que talvez preferisse que eu tomasse no cu junto com o café.

- Bom. Obrigado, Clara. Bom trabalho.
- Valeu. Voltem sempre.


Tomamos o café no caminho até o caixa.


- Ah, merda, tenho de comprar ração.
- Você tem algum bicho, pô, não sabia. Achei que você não gostasse...
- Ué, por quê?
- Suas alergias.
- Dá pra conviver.
- Cachorro?
- Não, um gato meio vira-lata. Filhote, preto.
- Credo, gato preto?
- Você lê Bukowski, cara, não reclama.
- Porra, o que é que tem a ver?
- Nada, deixa pra lá.
- Não, você não gosta do Bukowski?
- Já disse, não conheço, não tem como gostar ou não.
- Então tá.

Pagamos os livros e os cafés.

- Como é o nome do gato?
- Buk.
- Buk?
- É, Buk, de Bukowski.


Guardei a ficha no fundo do bolso e desci a avenida a pé com meu amigo. Talvez ligasse pra Clara mais tarde.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ring, Brother, Ring

O interfone tá tocando. Nunca gostei de falar no telefone ou no interfone ou em qualquer coisa assim. Celular pior ainda. Consigo falar umas besteiras e segurar aquele ah, vai se foder bem no fundo da garganta e enrolar por mais alguns minutos. Sou vinte e cinco por cento tímido e vinte e cinco por cento anti-social. Mas quando tudo isso desaparece a máscara cai eu exagero. Exagero falando, falo muito. Daí às vezes falo muito pouco e mostro o inconstante extremado que eu sou. Não, não vou atender o interfone. Se o barulho dele te incomoda, atende você. Ele me incomoda também, mas eu aprendi a ignorar e viver de mansinho e na ponta dos pés. Parou, viu só? Daqui a pouco começa a tocar de novo. Agora descobri coisas mais interessantes pra fazer. ‘E se fosse o amor da sua vida no interfone?’ Ah, se fosse o amor da minha vida não usaria interfone. Eu deixaria de amá-la no mesmo instante e automaticamente tudo acabou.


Acho lindos esses marcadores de página, mas quase nunca ando com eles por aí dentro dos livros e coisa e tal. Às vezes me empurram aos milhares e às vezes mesmo implorando não me entregam unzinho. Tá, eu não imploro. E nem uso tanto assim marcador de página. Ultimamente tô exercitando a memória, mas só com alguns dos livros, não todos. É, sou daqueles maníacos que lêem mais de um livro por vez – se você não o faz, deveria. Daí eu procuro exatamente onde eu parei e tem aquela palavrinha marcante que eu usei como deixa pra parar/continuar. Não funciona com todos os livros, óbvio. Comprei um do Burroughs, O gato por dentro, e tô usando uma moeda de dez centavos pra marcar onde parei. Depois fico puto por nunca achar minhas moedas de dez centavos. Especialmente quando preciso. Ih, o interfone de novo. Bom, já disse, deixa tocar. Quem sabe eu perco menos tempo escolhendo um próximo amor desse jeito.


O gato tá roçando na minha perna. O nome é Buk, Buk de Bukowski. É um gato magrelo, preto e quietinho. Que gosta bastante de Smiths. Por exemplo, agora tô ouvindo This Charming Man, acabei de colocar pra tocar. E o magrelo apareceu rebolando como se viesse dançando. Ele tem um bom gosto musical. É um filhotinho, desses mínimos. É magrelo porque é desses típicos gatos pretos que ninguém gosta por achar que dá azar. Tem olhos amarelos, parece gente. Tá enrolado no meu pé e escrevendo junto de mim. A mãe dele era uma gata enorme, parecia uma mini-pantera. Gata-sem-nome. Não era uma gata gorda, era simplesmente enorme e, reza a lenda, vivia brigando com todos os cachorros grandes que encontrava. Morreu atropelada, uma tristeza. E o trolho eu peguei pra criar. Ou melhor, ele se instalou e firmamos nosso espaço comum numa boa. Talvez eu devesse treiná-lo pra atender o interfone pra mim.


What Difference Does It Make? Preciso fazer café. Talvez devesse comprar uma cafeteria dessas mais simples, pra facilitar todo o processo. Não estou sozinho, talvez eu devesse fazer mais café que o normal. Uma das melhores coisas de se fazer/beber café é ficar com o cheiro dele nos dedos. O gato tá dormindo do lado do computador, embrulhadinho porque tá chovendo. E parece uma bolinha preta de pelúcia, mesmo sendo magrelinho. O interfone parou de novo. Talvez eu deva arrumar uma cama maior. Some Girls Are Bigger Than Others. Juro que são. Essa aqui, deixa ver... deve ter uns 1,78 e é uma mulher grande. Não é gorda, só grande. Duas pessoas numa cama de solteiro por maior que ela seja não dá certo. Mas pra mim e pro Buk serve. Quando chove e a temperatura baixa um pouco ele enrosca na minha mão e talvez tente fingir que é uma luva. Ainda mais quando eu tô com cheiro de café nos dedos. Ele funga por uns dez minutos e depois começa a lamber carinhosamente.


Puta que pariu! é por isso que amor verdadeiro é difícil de se achar hoje em dia. Olha só o interfone tocando! Quando eu tava do lado ele ficou em silêncio. Demorei com a água esquentando e tudo mais. E ele de bico fechado. Deve ser sacanagem. Bom, perdeu uma boa oportunidade de ser atendido. Hand In Glove. Tá, tá, chega, vou botar Billie Holiday. Aiaiaiaiaiai, What A Little Moonlight Can Do. Buk acordou, deu duas reboladas e voltou a dormir. Sinal que gostou. Bom gosto o safado.


Hm, oi, bom dia.
Oi.
Dormiu bem? ela esfrega os olhos e me dá um beijo rápido.
Desmaiei.
Eu sei. Toma, café. Não sei como você gosta, daí fiz forte do jeito que eu sempre tomo.
Ah, brigada. Nossa, tá muito bom.


Nossa, Billie Holiday?
Billie Holiday.
Bom gosto.
Hahaha acho que sim.


Swing, Brother, Swing. E o interfone continua tocando.


Não vai atender?
Não mesmo.


Isso mesmo, Ring, Brother, Ring.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Seis (segunda parte)

Chovia bastante, desses pingos largos e galopantes. Levantei devagar, coloquei a calça e o blusão branco puído. Arrastei os pés no chão pra sentir o frio machucando a pele passo a passo até a cozinha. Puxei o celular do fundo do bolso, quatro e dezessete. Não parava de chover desde sexta à noite. Não voltei pra casa desde sexta à noite. Todo mundo achava que eu estava em casa desde que cheguei da aula, inclusive meus pais. Por um momento até eu achei que estava em casa, simples falta de credibilidade. Peguei uma cerveja do fundo da geladeira, quatro e vinte. Encostei na janela da sala pra sentir o cheiro de terra molhada e o vento frio machucando o rosto. Eu tinha dezessete anos na época. Algumas coisas mudaram desde então. Ainda não sei muita coisa sobre o mundo. A chuva continua uma das melhores coisas dele. Ouvi o barulho abafado da descarga. Ouvi a geladeira abrindo e fechando, e com o canto dos olhos vi luzes acendendo e apagando. Senti o cheiro da fumaça e dei espaço na janela, praticamente impassível e estranhamente acostumado. Encostou do meu lado e soltou um largo anel de fumaça. Quatro e meia, o céu quase vermelho. De vez em quando algum relâmpago iluminava o mundo inteiro por meio segundo. Passei a mão em volta da cintura e puxei pra perto. Cedeu sem resistência, encostou parte do corpo no meu e permaneceu em silêncio enquanto terminava de fumar. Estava com minha camisa branca abotoada até o topo, as pernas descobertas e a pele fria à mostra. Jogou a bituca apagada dentro da minha garrafa vazia, passou a mão por minhas costas devagar.


- Vai ficar o feriado inteiro aqui?
- Não sei. Você quer que eu fique?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Espuma

A noite iça a branca
vela da lua e o mar
de escuridão carrega os pescadores

no saveiro de bordas nuas.
O farfalhar das ondas
incapazes do infinito,
o infinito povoado de sereias-cadentes,
carregando seus seios soltos
no espaço. O infinito de es-feras mortais,
dos pentes cheios de dentes

e as estrelas tortas
na proa e no leme. A madrugada

fria e seu sal abstêmico,
as redes jogadas no mar

e o mar diluído no mundo
até que o arrastão traga de volta

o dia dos homens
e os homens dos peixes.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Seis (primeira parte)

Desci da garupa e encostei no muro. Ela encostou a moto, desligou e me olhou como se estivesse estudando meu próximo movimento. O sinal abriu e os carros continuaram passando como se nada daquilo fosse realmente importante. E não era, não pra nenhum deles. Meu universo e constelações adjuntas e planetas em suas órbitas, os rabos dos cometas e a poeira das estrelas cadentes e tudo mais. Só pertencia a mim. Todos os outros telescópios e todas as atenções e apreensões estavam voltadas pra lugares distantes. Eu me sentia mal por aquilo. Tudo continuava do mesmo jeito. Ela desceu da moto, sentou na calçada e me puxou pra que eu fizesse o mesmo. Olha, vamos esquecer que eu parei de fumar. Fiz que sim. Ela acendeu um Marlboro. Olha, vamos esquecer que eu não fumo. Ela sorriu e fez que sim, acendeu outro e me entregou. Ela sabia que eu não me importava de perder vinte minutos iniciais da aula. Eu não me importaria de perder o dia inteiro de aula. Quando o semáforo fechava nas duas ruas, conseguíamos ouvir a ponta do cigarro queimando, estalando baixinho e rápido. Que barulhento. Ela riu. Parece baseado. Acho que sim. Ficamos em silêncio de novo. Mesmo com o som do trânsito, do vento, das pessoas, das máquinas, da pizzaria e dor bar da esquina, o mundo estava em silêncio. Como num clichê imprestável, o tempo parou.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Abrigo

Vou me omitir devagar pra
morar em você

enquanto não preciso pagar
condomínio pras suas pernas

e me mudar de vez
soluçando baixinho
às quatro da manhã.

Sobre peixes e monólogos inventados na terceira pessoa

Se pudesse me dizer alguma coisa agora, o que seria?


Hm, provavelmente eu não diria que gosto de você.


Por quê?


Não seria capaz de uma coisa dessas. Fora que eu sou tímido.


Pera lá. quer dizer que sua não capacidade de me dizer que gosta de mim não depende só da sua timidez? É isso?


Menos da metade depende da timidez. Sei lá, uns trinta por cento.


É alguma coisa comigo? O que é?


Não é nada com VOCÊ. É mais pelo tipo de coisa que sempre acontece.


Explique.


Você tem qualidades. e defeitos. É bonita, tem um corpo bonito. É inteligente, sabe se comunicar bem, essas coisas.


Sei.


Mas é meio manipuladora, fria, mesquinha pra caralho.


Merda, sei.


Pois então. Você é uma garota atraente pra caralho, sabe? Nossa, sei de caras que ficariam loucos por você. Sei de caras que são.


Exemplo?

Hm, eu.


Sei. Mas...?


Eu gosto mais do gostar de você do que de você.


Não entendi porra nenhuma, explique melhor.


Certo, certo. Esse sentimento de não saber o que fazer, essa ansiedade maluca e esse comportamento de adolescente perdido, essas porcarias visivelmente sintomáticas como boca seca e pupilas dilatadas, extremidades um pouco frias e, nossa, peixes no estômago.


Peixes o quê?


É, peixes no estômago.


Não seria ‘borboletas no estômago’?


Bom, sei lá, nunca funcionou pra mim. Sempre foram peixes, um cardume organizado que nada dentro da minha barriga como se não houvesse tripas e nem porra nenhuma, só esse oceano estranhamente grande e limitado por carne.


E os ossos?


Parece que nem estão lá. E esse cardume se mexe como naquelas cenas do Globo Repórter sobre vida marinha, biodiversidade, saca?


Tipo no Procurando Nemo?


Como?


Aquela animação do peixinho que perde o filho e tudo mais.


Mas tem uma cena com cardume?


Não lembro, acho que tem sim. Todo desenho ou filme ou documentário ou animação que se preze tem de colocar um cardume zanzando por aí, hm, cardumeando, fazendo essas coisas que os cardumes fazem.


Concordo.


Pois é. Mas continue.


Onde eu tava?


Peixes no estômago...


Ah, sim! então, peixes no estômago. E... bem, essa sensação de...


Você perdeu o ponto, né?


Perdi sim. Deixa eu lavar o rosto e tomar uma xícara de café.


Tá.


Quer uma?


Não, obrigado. Mesmo que quisesse, não poderia aceitar, sou só reflexo da sua necessidade de dizer alguma coisa pra... bem, pra o meu ‘eu’ real.


Pra ELA.


Isso.


Hm, justo.


 


Telefone toca, ele vem da cozinha segurando uma xícara branca de fumegante, não há ninguém na sala.


Alô? Oi, certo, certo. Claro, vou me arrumar e te encontro aí daqui – olha no relógio de pulso – uns vinte e poucos minutos? Pode ter trânsito e tal. Então tá bom, até – desliga e toma um gole. O café faz todo o percurso até o oceano e seu cardume.