Em algum lugar, ambos entraram mudos. Ela recostou os pacotes do supermercado na batente da porta da cozinha, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, xampu, enquanto ele despia o casaco. Fazia frio. Pensou em acender um cigarro, desistiu da idéia, jogou o isqueiro e o maço em cima da mesa, continuavam mudos. Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também, e não havia nenhum motivo em especial, além de que fosse aquele motivo.
Além de ser mais outro motivo, outro aquém entre vírgulas e um cochicho na cidade. O pensamento foi o mesmo, telepatia, letargia, consentimento, convívio, coincidência, providência divina, providência profana, clímax contextual, chame como quiser. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, ela olhou em seus olhos – ele já havia trancado a porta, bebido um copo d’água e roçado os pés descalços no chão. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, me coma. Ele já havia entendido. Com ou sem explicações, me coma no chão e despiu a saia.
Ele, como qualquer bom galã – sem ao menos ser tão bonito – folgou as calças, soltou os botões do colarinho, e a qualquer maneira digna – ou não – ela que lhe abrisse a camisa, enquanto os dedos dele se enrolavam pra abrir o sutiã. Não era uma cena de filme, não era um livro garboso, era a vida real, mais noir do que as estrelas do céu. Ela não teve paciência com os botões, costurasse aquela porra depois, ele embolou os dedos no sutiã, foda-se que depois a compro outro, ela rasgou a camisa, ele arrebentou os grampos.
Ele não tinha corpo escultural, não fumava cigarro de marca e muito menos tinha olhos azuis. Ela tinha longos cabelos negros –alisados – e de pontas duplas. Gordurinha localizada, quadris largos, seios médios – um consideravelmente maior que o outro. Ele tinha miopia e ficava horrível de óculos, ela tinha lábios finos e ficava horrível de batom, mas insistia em usá-lo. Ele fedia a perfume barato e ela a perfume francês vagabundo. Nele, considerável parte da cabeleira era rescindida por fios grisalhos, enquanto ela tinha uma cicatriz no joelho. As pernas dele eram cabeludas, tinha pança, seios masculinos e barba mal feita, ela tinha unhas roídas e calos nas mãos.
Despiram-se, derramaram-se lentamente no chão, trepavam antes com as línguas, corrompiam boca a boca, mordiam lábio a lábio, mordiscavam os queixos, os pescoços. Ela só de calcinha, ele de cueca. Ela assumiu o controle e beijou todo o corpo, segurou-lhe as mãos, descia mais e mais, mordia-lhe em pequenos pontos da barriga enquanto pressionava os pulsos, propositalmente. Os filhos estavam na casa dos tios pelo fim de semana todo, brincando com os primos, não haveria problema. Descendo pelo corpo dele, como lesse o braile, roçou o lábio por sua barriga avolumada. Baixou a cueca dele com a boca, o pau levemente entortado à direita balançou no ar, como mastro recém levantado, e até alguns dos pentelhos eram grisalhos. Removeu-lhe completamente a cueca, soltou-lhe as mãos e ousou olhar para seus olhos negros com seus olhos negros, como espreitasse carne fresca. Seguiu lambendo suas coxas firmando caminho até seu saco, deu uma mordiscada, ele sempre adorou, ele fisgou ar com o canto da boca. Ela agarrou aquele mastro, beijou-lhe em direção da cabeça, masturbou-lhe um pouco, até que, sedenta, pôs-lhe na boca.
Roçou os dentes de leve, provocou bastante, ele fisgava ar e gemia como quem queria meter naquele instante, e seu corpo lhe empurrava a estocar. Ela lambeu a cabeça, brincou, lambeu todo o comprimento, ele estava louco, de pernas deitadas e mesmo assim bambas. Chupou até notar que sua rijez estava melhorada e assegurada, ele quis vingar, também deixá-la ensandecida, engoliu o próprio tesão por tempo suficiente. De súbito agarrou sua cintura com força, suspendeu-a com força, tateou sua camisa e amarrou as mãos atrás das costas. Ela riu surpresa, mordeu os lábios, ele sorriu maliciosamente.
Lambeu-lhe o corpo todo, beijou suas saboneteiras, as adorava. Segurou-a firme pela cintura, mordeu sua barriga, sugou-lhe os seios e partiu em diagonal até os mamilos, perdidos de duros, escuros, e quando aproximava-se, ela arfava cheia de tesão, ele parava, apalpava-lhe as nádegas e repetia tudo. Enfim, mordiscou e chupou seus mamilos, ela gemia baixinho, contorcia-se de mansinho. Ele descia os dedos, um a um, por seu corpo, abriu suas pernas lentamente – mesmo demorando em seus seios, um maior que o outro. Desceu sem tirar a boca do corpo, mordiscou-lhe as virilhas, sugou-lhe as entrecoxas, cravou os dedos nas nádegas, já beliscadas de estrias. Ela sorria. Gemia mais ainda.
Expirou ar quente próximo a púbis, cruelmente ria com os hms e ais que ela deixava escapar. Separou-lhe os lábios e expirou de novo, ela revirou os olhos e riu. Ele lambeu rapidamente, ela enlouqueceu, abriu a boca, gemeu. Cuidadosamente, fez com que o clitóris saltasse, lhe cumprimentou aparentando suculência. Não necessitava emendas ou qualquer tipo de pré-apresentação, Fez bico e sugou devagar, enquanto ela beirava a morte, perdia o ar e a voz ao gemer sem rodeios. Assim como tudo mais, ela estava ensopada. Ele sempre amou aquele gosto de boceta, que toda boceta digna e toda mulher de verdade é obrigada a ter. Ela se perdia, contorcia, revirava os olhos, explodia, gozou uma, duas, e antes que gozasse terceira vez, ele parou. Ela respirou ofegante, tentando recuperação.
Sua boceta pulsava. Enfiou dois dedos bem devagar, viu que os olhos dela perderam-se nas órbitas e que seus pulmões haviam desistido de um ritmo, todo seu corpo pulsava, além da própria boceta. Masturbou-lhe lentamente, enfiou um terceiro dedo e passou a sugar-lhe o clitóris. Terceira, quarta, quinta vez. Com a força de uma mulher na ânsia da penetração, ela rasgou a camisa, o agarrou pela cintura e fez com que cedesse. Sem rodeios, sem enfeites, sem folia, ela queria aquele pau, duro e torto, dentro dela, cravando fundo, estocando descontrolado. Ele, provocando-a, penetrou somente com a cabeça, foda-se, agarrou-o pela cintura e puxou com força, foda-me. E gemeu, sexta vez. Ele também gemeu, soltou-se enfim.
Me fode mais forte, não adiantaria compasso, ritmo, sutileza, ambos queriam sentir o chão ralando seus corpos, o gozo, e o resto que fosse pro inferno. Ela gemia, ele também, as estocadas eram cada vez mais fortes, intensas, ele sentiu-se homem, ela sentiu-se mulher, ambos ensopados. E durante o terceiro ou quarto orgasmo – ela não saberia dizer – ele gozou, esporrou e a segurou com força, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, homem, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, mulher, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, porra e xampu espalhados pelo chão.
Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também. E de certo, ao menos agora, alguém também trepava no chão da cozinha, mesmo com seus trinta e pouco anos.
Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, casais estavam ensopados (também por dentro), os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.
E não há nada mais erótico do que esquecer a rúcula no porta-malas.
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