A imensa brigada de centauros
galopando sob a luz da meia noite;
Estrelas acocoradas no parapeito da janela
entreaberta
disputando espaço e há muito tanto espaço.
Como dando razão ao próprio nome,
fininho, fininho, os pequenos e
grandes e médios matos das beiras da
estrada, mata ciliar, margem ciliada,
do rio que vai do nada a qualquer lugar
não desatem os nós, não desmatem, não erodam
as esteadas escarpadas, as grutas não-finalizadas,
o leito dos rios, rios d'água, asfalto corre até
o mar, rios d'água, bosque de harpias, imensas,
e esfomeadas.
As portas e janelas e botas e panelas
todas escancaradas, jogadas, abertas e
atiradas
todas escandalosas, petrificadas
tudo deixado pelo hermitão de pés descalços
que caminha nas nuvens brancas e obscuras de
cascalho.
Sapos em contratempo, coacham,
e existem cigarras gemendo alto tenor
em alto teor de um sax fantástico
e fantasmagórico no pântano
raso e desmembrado.
O couro ultrapassa a relutância da não-carcaça,
mantém firme a consistência e supera a o leão
da Neméia, de impenetrável couraça, meu couro,
meu couro, meu nada.
O redemoinho louco, a passagem aberta
pelo kraken ao atravessar o semáforo fechado,
sob a marca dos centauros e penas abandonadas
por todas as estrelas mortas nas calçadas.
sábado, 24 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Gemini
Across the universe,
we used to play
in a vast dark canvas...
that old, old circus.
Full of dead spots,
road signs and milky ways
along the southern Cross.
and just near of
a bright forgotten meteor
passing by,
dark matter
that I loved to call
nebula inside
your eye.
we used to play
in a vast dark canvas...
that old, old circus.
Full of dead spots,
road signs and milky ways
along the southern Cross.
and just near of
a bright forgotten meteor
passing by,
dark matter
that I loved to call
nebula inside
your eye.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Os dentes da lua
Três quartos
de xícara branca.
que mingua
que cresce,
enche e
desaparece.
Negra constelação
de grãos de café,
e o sorriso de lua
estende a madrugada,
ilumina o coração
vagabundo que
sorri e pulsa
dentro da
nefasta nebulosa
com cheiro de chuva.
de xícara branca.
que mingua
que cresce,
enche e
desaparece.
Negra constelação
de grãos de café,
e o sorriso de lua
estende a madrugada,
ilumina o coração
vagabundo que
sorri e pulsa
dentro da
nefasta nebulosa
com cheiro de chuva.
sábado, 17 de abril de 2010
Pólis
Do alto de todas
as montanhas devassas,
nasce um curso d'água.
Brota caudalosa da terra
a fúria do avesso,
o imperativo perverso e a
ruína de pedra sobre pedra.
Desde vadias entregues,
a socorridas intempéries
de quaisquer civilizações.
Do alto de todas
as montanhas devassas
esconde-se o sorriso
sem vergonha e amarelo
do pôr do sol.
as montanhas devassas,
nasce um curso d'água.
Brota caudalosa da terra
a fúria do avesso,
o imperativo perverso e a
ruína de pedra sobre pedra.
Desde vadias entregues,
a socorridas intempéries
de quaisquer civilizações.
Do alto de todas
as montanhas devassas
esconde-se o sorriso
sem vergonha e amarelo
do pôr do sol.
Trem das onze
Mesmo através das roupas grossas, o contato com o metal do banco lhe provoca rápida contração de todos os músculos do corpo. Depois do choque, respira de olhos fechados, inflando o ar de forma penosa e aliviando o peito com a expulsão de toda e qualquer coisa que havia por dentro. Ajeita-se por dentro das roupas, sobe a gola até encobrir toda a nuca, colar no queixo, esconder o início das bochechas. Seus olhos pequenos flutuam calmamente, limitando o campo de visão ao ilimitado. Com o gorro cobrindo a cabeça e parte dos ouvidos. Seu cabelo negro descia por debaixo da lã, amontoava-se numa franja desajeitada e desarrumada, e, mesmo assim, charmosa. Observava o movimento das várias pernas por ali, às vezes, por limitar de altura, crianças entravam em seu campo de visão. Sorria gentilmente, sem mostrar os dentes.
Do bolso do casaco, retirou um pequeno livro, do qual escondia a capa com toda a mão, todos os dedos. Não se sabe se propositalmente. Nem ele mesmo sabe. Cruza as pernas levemente e curva o corpo. Abaixa a cabeça, reduz seu metabolismo numa quase-meditação em leitura. Respira mais algumas vezes. Antes da ocupação com o cheiro das páginas e das palavras impressas, observa o ar de sua respiração, condensado, saindo de seu nariz e de sua boca. E ouvia os passos das pessoas, ecoando seca e suavemente pelo chão encardido. Suas órbitas acompanhando as ondas sonoras que desenhavam silhuetas na atmosfera. Algumas coloridas, outras não. Mas de mesmo padrão espectral. Ou não. Passos longos, curtos, leves, pesados, traços, amplitudes e desenhos diferentes.
Concentrou-se no livro. Abriu, como se fosse braile, tocou suavemente suas páginas. Procurou pelo marcador, abriu na página ‘adequada’. Leu algumas palavras e retornou a toda diagramação do que ocorrera pouco tempo atrás, personagens, enredo, idéias, mensagens, metáforas, entrelinhas, tudo. Mergulhado ali, enquanto o frio corava sua face e seus olhos sumiam por entre as pálpebras: palavras transformavam-se em frases, que se transformavam em linhas, que se transformavam em estrofes, que se transformavam em páginas, que se transformavam em capítulos, que se transformavam em minutos. Vários deles. Por vezes, com rabo de olho, captava algum movimento próximo. Por vezes, com o impossível de ouvidos, captava algum ruído próximo. Levantava a cabeça e olhava ao redor, analisava rapidamente todo o cenário e retornava às profundezas do oceano.
Mais palavras, frases, linhas, estrofes, páginas, capítulos e minutos. Vários deles. E um cheiro inexplicavelmente doce. O suficiente para que nadasse incrivelmente rápido à superfície para respirar, e, quando em contato com o sol, no contrário do normal, seus olhos arregalados pulsaram por entre os raios de luz, enquanto o trajeto sutil desenhava o caminho abstrato, e com os olhos bem abertos, perseguia predatoriamente aquele perfume. Chuq-chuuuuuuuu..., os trens adormeceram. Dois trens pararam. Maquinistas, foguistas, guarda-freios, pessoas, pessoas demais, pessoas de mais. E enquanto tantas coisas aconteciam, o emaranhado estranho de traços era desmembrado e desembaraçado, fio por fio, enquanto ele seguia o perfume. Do outro lado, por alguns metros – que pareciam tantos mais – uma garota, aparentava o torno de sua idade. Também vestia roupas grossas. Assim como todas as pessoas dali. Inebriantemente frio.
Em contraste com suas roupas verde-musgo, azul apagado e branco, ela usava cores imitando o próprio cheiro, suaves rosa claros, azul bebê, amarelo-quase-branco. Nas maçãs do rosto encobria covinhas escondidas, impecáveis e ao pobre espectador desatento, imperceptíveis. Sorria mesmo sem esboçar sorriso, com olhos grandes, mas semicerrados, de órbitas amadeiradas, variante do mel ao castanho. O cabelo, escuro como há de se notar na ausência de luz, escapava por debaixo da touca rosa clara, também de lã. O fino pescoço no abrigo da gola alta – e também puxada até o início das bochechas. O livro já estava fechado, pousado no colo. Seus pequenos olhos agora estavam maiores, com os lábios levemente afastados, assim como os dentes, fazia-se boquiaberto em pequeneza. O ar gélido que saía de seus pulmões condensava ao sair da boca e das narinas. Tic, tac, tic, tac. Ela olhou o enorme relógio acima – alguns bons metros – da cabeça dele. Ele acompanhou o olhar, percebeu, em outra perspectiva, os ponteiros que decaíam lentamente, guilhotina armada, lâmina descendente, movimento friamente incalculável.
Pernas continuavam a passar. Pernas, pernas, pés, sons, crianças, e todos e quaisquer sentidos estavam concentrados nela, não no obstante resto do mundo. Quem passava e percebia o que acontecia ali, achava graça. Pouca gente, pouquíssima gente. Quase ninguém. Mas houve quem, de perceber, riu de forma abafada. Reunir coragem? Forças? O que dizer? o que dizer? o que dizer? Bom dia? Boa tarde? Boa noite? Acenar? Sorrir? A inércia o impedia de levantar-se do banco. A inércia, claro, claro. Mas é possível distinguir inércia de covardia. E covardia de vergonha e timidez. Mas nesse caso, somando tudo e adicionando frio congelante à equação, obtém-se a resposta. O que fazer? O que dizer? Contou os ladrilhos até lá. Quantos passos seriam necessários? Calculou, que, pelo tamanho de seu pé e de sua passada, caso fosse a passos curtos, demoraria tal tempo. Caso fosse a passos longos, demoraria outro tempo. Mas caso fosse lento demais, daria a impressão errada. E fosse rápido demais também.
Faltavam palavras, apesar de tudo. Palavras, frases, linhas, estrofes, capítulos. Mas não faltavam minutos. Muitos deles, na verdade. Apesar de protegido em suas grossas roupas, sentia arrepio, frio interno, vergonha, medo, timidez. E baixas temperaturas. Borboletas no estômago? Não, não. Eram libélulas pré-históricas, zunindo, batendo asas, chocando-se contra as paredes estomacais. Ela pensava em alguma coisa qualquer, mordendo os lábios de vez em quando. E, pensava ele, como era doce, não só o perfume, não só o conjunto de cores, mas aquele rosto, os lábios mordidos, os olhos e o, imaginável, corpo miúdo e frágil por debaixo de tudo aquilo. Minutos, minutos, minutos, a guilhotina pesava, pesava e pendia firmemente. O olhar dela foi até o relógio mais uma vez, ele a acompanhou. Na volta, tic, tac, tic, tac, os olhares encontraram um ao outro. Ela sorriu cordialmente, e mesmo assim, de forma – doce. Em êxtase diabético, ele não soube o que fazer, retribuiu com cara de bobo, semicerrou os olhos já miúdos e ficou em jeito. Ela desviou o olhar e cruzou as pernas. Ele descruzou, é agora, é agora.
Levantou-se. Não, não. Jogou o corpo pra frente, quase, inclusive, caindo no chão. Por precaução, havia segurado em uma das barras que ia do chão ao teto. Olhou os ladrilhos, o chão, as pessoas. Pré-determinou um caminho. Passo um. Pé esquerdo? Pé direito? Pé direito, pé direito! Na indecisão, tropicão de leve, riu de si mesmo pra disfarçar. Caminhou, caminhou, adquiriu velocidade e percebeu que ela estava de pé, recolhendo as próprias coisas do banco e do chão. Uma bolsa e uma sacola. É a chance. Agora, agora, agora. A tendência de todo corpo em movimento é permanecer em movimento, ande, ande, ande. Inércia, inércia, inércia. Ela olhou, acenou e entrou no trem. Seus passos, por motivos inexplicáveis, contorceram e diminuíram de ritmo.
Chuq chuq, chuuuuuuu.... chuq, chuq, chuq, chuq, chaaaaaa... maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. O trem tomou movimento, ela sorriu e voltou a seus próprios pensamentos. Cabisbaixo, enquanto o trem tomava incrédula distância, retornou lentamente ao seu banco. Olhou o relógio. Os ponteiros. Os ponteiros? Era o horário de seu trem. Seu trem... correu mais uma vez até a borda da plataforma. Apertou os olhos e viu o fundo do trem que acabara de partir, junto de maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. Alguns números. Recolheu seu bilhete do bolso. Os números batiam. Maldita diabetes.
Do bolso do casaco, retirou um pequeno livro, do qual escondia a capa com toda a mão, todos os dedos. Não se sabe se propositalmente. Nem ele mesmo sabe. Cruza as pernas levemente e curva o corpo. Abaixa a cabeça, reduz seu metabolismo numa quase-meditação em leitura. Respira mais algumas vezes. Antes da ocupação com o cheiro das páginas e das palavras impressas, observa o ar de sua respiração, condensado, saindo de seu nariz e de sua boca. E ouvia os passos das pessoas, ecoando seca e suavemente pelo chão encardido. Suas órbitas acompanhando as ondas sonoras que desenhavam silhuetas na atmosfera. Algumas coloridas, outras não. Mas de mesmo padrão espectral. Ou não. Passos longos, curtos, leves, pesados, traços, amplitudes e desenhos diferentes.
Concentrou-se no livro. Abriu, como se fosse braile, tocou suavemente suas páginas. Procurou pelo marcador, abriu na página ‘adequada’. Leu algumas palavras e retornou a toda diagramação do que ocorrera pouco tempo atrás, personagens, enredo, idéias, mensagens, metáforas, entrelinhas, tudo. Mergulhado ali, enquanto o frio corava sua face e seus olhos sumiam por entre as pálpebras: palavras transformavam-se em frases, que se transformavam em linhas, que se transformavam em estrofes, que se transformavam em páginas, que se transformavam em capítulos, que se transformavam em minutos. Vários deles. Por vezes, com rabo de olho, captava algum movimento próximo. Por vezes, com o impossível de ouvidos, captava algum ruído próximo. Levantava a cabeça e olhava ao redor, analisava rapidamente todo o cenário e retornava às profundezas do oceano.
Mais palavras, frases, linhas, estrofes, páginas, capítulos e minutos. Vários deles. E um cheiro inexplicavelmente doce. O suficiente para que nadasse incrivelmente rápido à superfície para respirar, e, quando em contato com o sol, no contrário do normal, seus olhos arregalados pulsaram por entre os raios de luz, enquanto o trajeto sutil desenhava o caminho abstrato, e com os olhos bem abertos, perseguia predatoriamente aquele perfume. Chuq-chuuuuuuuu..., os trens adormeceram. Dois trens pararam. Maquinistas, foguistas, guarda-freios, pessoas, pessoas demais, pessoas de mais. E enquanto tantas coisas aconteciam, o emaranhado estranho de traços era desmembrado e desembaraçado, fio por fio, enquanto ele seguia o perfume. Do outro lado, por alguns metros – que pareciam tantos mais – uma garota, aparentava o torno de sua idade. Também vestia roupas grossas. Assim como todas as pessoas dali. Inebriantemente frio.
Em contraste com suas roupas verde-musgo, azul apagado e branco, ela usava cores imitando o próprio cheiro, suaves rosa claros, azul bebê, amarelo-quase-branco. Nas maçãs do rosto encobria covinhas escondidas, impecáveis e ao pobre espectador desatento, imperceptíveis. Sorria mesmo sem esboçar sorriso, com olhos grandes, mas semicerrados, de órbitas amadeiradas, variante do mel ao castanho. O cabelo, escuro como há de se notar na ausência de luz, escapava por debaixo da touca rosa clara, também de lã. O fino pescoço no abrigo da gola alta – e também puxada até o início das bochechas. O livro já estava fechado, pousado no colo. Seus pequenos olhos agora estavam maiores, com os lábios levemente afastados, assim como os dentes, fazia-se boquiaberto em pequeneza. O ar gélido que saía de seus pulmões condensava ao sair da boca e das narinas. Tic, tac, tic, tac. Ela olhou o enorme relógio acima – alguns bons metros – da cabeça dele. Ele acompanhou o olhar, percebeu, em outra perspectiva, os ponteiros que decaíam lentamente, guilhotina armada, lâmina descendente, movimento friamente incalculável.
Pernas continuavam a passar. Pernas, pernas, pés, sons, crianças, e todos e quaisquer sentidos estavam concentrados nela, não no obstante resto do mundo. Quem passava e percebia o que acontecia ali, achava graça. Pouca gente, pouquíssima gente. Quase ninguém. Mas houve quem, de perceber, riu de forma abafada. Reunir coragem? Forças? O que dizer? o que dizer? o que dizer? Bom dia? Boa tarde? Boa noite? Acenar? Sorrir? A inércia o impedia de levantar-se do banco. A inércia, claro, claro. Mas é possível distinguir inércia de covardia. E covardia de vergonha e timidez. Mas nesse caso, somando tudo e adicionando frio congelante à equação, obtém-se a resposta. O que fazer? O que dizer? Contou os ladrilhos até lá. Quantos passos seriam necessários? Calculou, que, pelo tamanho de seu pé e de sua passada, caso fosse a passos curtos, demoraria tal tempo. Caso fosse a passos longos, demoraria outro tempo. Mas caso fosse lento demais, daria a impressão errada. E fosse rápido demais também.
Faltavam palavras, apesar de tudo. Palavras, frases, linhas, estrofes, capítulos. Mas não faltavam minutos. Muitos deles, na verdade. Apesar de protegido em suas grossas roupas, sentia arrepio, frio interno, vergonha, medo, timidez. E baixas temperaturas. Borboletas no estômago? Não, não. Eram libélulas pré-históricas, zunindo, batendo asas, chocando-se contra as paredes estomacais. Ela pensava em alguma coisa qualquer, mordendo os lábios de vez em quando. E, pensava ele, como era doce, não só o perfume, não só o conjunto de cores, mas aquele rosto, os lábios mordidos, os olhos e o, imaginável, corpo miúdo e frágil por debaixo de tudo aquilo. Minutos, minutos, minutos, a guilhotina pesava, pesava e pendia firmemente. O olhar dela foi até o relógio mais uma vez, ele a acompanhou. Na volta, tic, tac, tic, tac, os olhares encontraram um ao outro. Ela sorriu cordialmente, e mesmo assim, de forma – doce. Em êxtase diabético, ele não soube o que fazer, retribuiu com cara de bobo, semicerrou os olhos já miúdos e ficou em jeito. Ela desviou o olhar e cruzou as pernas. Ele descruzou, é agora, é agora.
Levantou-se. Não, não. Jogou o corpo pra frente, quase, inclusive, caindo no chão. Por precaução, havia segurado em uma das barras que ia do chão ao teto. Olhou os ladrilhos, o chão, as pessoas. Pré-determinou um caminho. Passo um. Pé esquerdo? Pé direito? Pé direito, pé direito! Na indecisão, tropicão de leve, riu de si mesmo pra disfarçar. Caminhou, caminhou, adquiriu velocidade e percebeu que ela estava de pé, recolhendo as próprias coisas do banco e do chão. Uma bolsa e uma sacola. É a chance. Agora, agora, agora. A tendência de todo corpo em movimento é permanecer em movimento, ande, ande, ande. Inércia, inércia, inércia. Ela olhou, acenou e entrou no trem. Seus passos, por motivos inexplicáveis, contorceram e diminuíram de ritmo.
Chuq chuq, chuuuuuuu.... chuq, chuq, chuq, chuq, chaaaaaa... maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. O trem tomou movimento, ela sorriu e voltou a seus próprios pensamentos. Cabisbaixo, enquanto o trem tomava incrédula distância, retornou lentamente ao seu banco. Olhou o relógio. Os ponteiros. Os ponteiros? Era o horário de seu trem. Seu trem... correu mais uma vez até a borda da plataforma. Apertou os olhos e viu o fundo do trem que acabara de partir, junto de maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. Alguns números. Recolheu seu bilhete do bolso. Os números batiam. Maldita diabetes.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Barreira de Corais
Como dentro do mar,
liberto em corpo
flutua junto da espuma
a também branca alma
que também é verde-mar,
que também é azul-oceano.
Mergulhando no semi-infinito
salgado das barreiras
de corais e de mãos entrelaçadas
a crosta submissa do resgate
que permeia a costa abissal da terra,
como dentro do mar,
errante em cestantes
e mergulhado nas marés sazonais
no soerguimento lunar e nas coisas
basais e intermitentes,
escravo das correntes perdidas
Como dentro do mar,
liberto em sonífera morte;
deságüe inconstante em delta,
em crisálida impermeável de luz
até o brilho luciferino
e inválido, que corrompe o silêncio
da superfície,
que também é verde-mar,
que também é azul-oceano.
liberto em corpo
flutua junto da espuma
a também branca alma
que também é verde-mar,
que também é azul-oceano.
Mergulhando no semi-infinito
salgado das barreiras
de corais e de mãos entrelaçadas
a crosta submissa do resgate
que permeia a costa abissal da terra,
como dentro do mar,
errante em cestantes
e mergulhado nas marés sazonais
no soerguimento lunar e nas coisas
basais e intermitentes,
escravo das correntes perdidas
Como dentro do mar,
liberto em sonífera morte;
deságüe inconstante em delta,
em crisálida impermeável de luz
até o brilho luciferino
e inválido, que corrompe o silêncio
da superfície,
que também é verde-mar,
que também é azul-oceano.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
O lado escuro do Sol
Como peste
convulsa, e
cura incrédula
atravessando o
Atlântico:
o miramar solstício
e o acalanto permanente
sol, exacerbação mirante
e putaria imensa
aos quase quarenta graus
e tanto tempo
sem gozo de nuvem
e esporro de chuva.
convulsa, e
cura incrédula
atravessando o
Atlântico:
o miramar solstício
e o acalanto permanente
sol, exacerbação mirante
e putaria imensa
aos quase quarenta graus
e tanto tempo
sem gozo de nuvem
e esporro de chuva.
És
Maior que o Caos,
titânide maior,
estrela de meia-noite,
mortal afável e
Dalva cristã
maior, maior
que o tudo
maior amor
maior coisa
qualquer, esplêndida,
despedida sonâmbula
Maior naufrágio
de pernas bambas,
de disritmia
de coragem desgraçada
do suor em calhas,
dos caldos, dos calos
das falhas
Maior, maior
amor do mundo.
titânide maior,
estrela de meia-noite,
mortal afável e
Dalva cristã
maior, maior
que o tudo
maior amor
maior coisa
qualquer, esplêndida,
despedida sonâmbula
Maior naufrágio
de pernas bambas,
de disritmia
de coragem desgraçada
do suor em calhas,
dos caldos, dos calos
das falhas
Maior, maior
amor do mundo.
Sílica
Como quando conquistei
a desesperada esperança
dormindo calcário e perdido
nas crateras da lua
de palavras mudas,
pele fria e coxas nuas,
pressionando o corpo contra
o corpo
como faz o vento
na retirada branda do fôlego
da superfície oceânica
do mar entrecostas
Como quando reaprender
a surdez fixa das estrelas,
seres gritantes em seus rastros
de luz morta do espaço
de cascos em cólera
marcando cada uma das conchas
na macia e úmida areia da
praia
quando descubro algas
planando sem razão aparente
o silício ferindo a membrana
do silêncio, tão terrível,
inevitavelmente amado,
Como quando conquistei
a desesperada esperança.
a desesperada esperança
dormindo calcário e perdido
nas crateras da lua
de palavras mudas,
pele fria e coxas nuas,
pressionando o corpo contra
o corpo
como faz o vento
na retirada branda do fôlego
da superfície oceânica
do mar entrecostas
Como quando reaprender
a surdez fixa das estrelas,
seres gritantes em seus rastros
de luz morta do espaço
de cascos em cólera
marcando cada uma das conchas
na macia e úmida areia da
praia
quando descubro algas
planando sem razão aparente
o silício ferindo a membrana
do silêncio, tão terrível,
inevitavelmente amado,
Como quando conquistei
a desesperada esperança.
Ligação
Que de mais
cismar com os pássaros
e asas que brotam branquinhas
na indiferença azul-celeste
na putice amarga dos cristais
brotados das folhas verde-vivo.
Que de mais
cismar com versos
e carinho intermitente do pudor
deslizando como gotas maliciosas
ao redor dos bicos dos seios
refazendo o caminho perdido
na distância insignificante
da partida.
Que de mais
cismar com os vermes e larvas
e coisas da terra barrosa
ou negra, ou vermelha, rubra,
esbranquiçada e obscura,
de raízes perfurantes buscando
os sais fundamentais
no suor e no gozo febril,
na inconstância terçã
do desejo.
Que de mais
cismar com cada significado
e impreterivelmente
com avacalhações
e passos errados de valsa;
incondicional no erro e na
discórdia
na conjunção disjunta, eterna
e brilhante dos elementos químicos
simples:
trans-mar
cis-mar
mar adiante,
não adiante, pontes de hidrogênio
rompidas na respiração
memorável das brancas espumas
do cis-mar:
a-mar.
cismar com os pássaros
e asas que brotam branquinhas
na indiferença azul-celeste
na putice amarga dos cristais
brotados das folhas verde-vivo.
Que de mais
cismar com versos
e carinho intermitente do pudor
deslizando como gotas maliciosas
ao redor dos bicos dos seios
refazendo o caminho perdido
na distância insignificante
da partida.
Que de mais
cismar com os vermes e larvas
e coisas da terra barrosa
ou negra, ou vermelha, rubra,
esbranquiçada e obscura,
de raízes perfurantes buscando
os sais fundamentais
no suor e no gozo febril,
na inconstância terçã
do desejo.
Que de mais
cismar com cada significado
e impreterivelmente
com avacalhações
e passos errados de valsa;
incondicional no erro e na
discórdia
na conjunção disjunta, eterna
e brilhante dos elementos químicos
simples:
trans-mar
cis-mar
mar adiante,
não adiante, pontes de hidrogênio
rompidas na respiração
memorável das brancas espumas
do cis-mar:
a-mar.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Ilha
Suas nobres mãos de areia
modelando tantas mil sereias
seu riso de malícia, seus olhos
fechados, a pele nua
e ao mesmo tempo escondida
num paraíso disforme de
lençóis freáticos, de orvalhos
de novelos de água salgada
Os castelos ressequidos e
os calabouços imersos em farpas,
abraçados aos dedos em coisa
qualquer do vento
cheio de maresia, incontestável
maré de silêncio e gozo,
as covas marítimas e
a intermitência sorrateira
do tempo
Suas nobres mãos de areia
suas pálidas e rosadas
bochechas
são praias, são praias
e todo o litoral perdido
banhado do penhasco
mortal da beira da cama
e te amo, amo, permito
a perfuração corpórea
no mergulho absurdo por entre
as obscuras marés de seus braços,
a superfície corada
a morte infiel dos ouriços
permanentes de vida e descrença,
o pêlo macio da relva perdida,
a mata escondida no soturno solavanco
crente ao desejo, sutil e pérfido
final
Suas nobres mãos de areia
modelando calabouços de frestas
e conchas dependuradas nos cabelos
as algas flutuantes e o peso
rememorável de cada um de nós
num paraíso disforme de
lençóis freáticos, de orvalhos
de novelos de água salgada
de praias, de praias,
de atóis.
modelando tantas mil sereias
seu riso de malícia, seus olhos
fechados, a pele nua
e ao mesmo tempo escondida
num paraíso disforme de
lençóis freáticos, de orvalhos
de novelos de água salgada
Os castelos ressequidos e
os calabouços imersos em farpas,
abraçados aos dedos em coisa
qualquer do vento
cheio de maresia, incontestável
maré de silêncio e gozo,
as covas marítimas e
a intermitência sorrateira
do tempo
Suas nobres mãos de areia
suas pálidas e rosadas
bochechas
são praias, são praias
e todo o litoral perdido
banhado do penhasco
mortal da beira da cama
e te amo, amo, permito
a perfuração corpórea
no mergulho absurdo por entre
as obscuras marés de seus braços,
a superfície corada
a morte infiel dos ouriços
permanentes de vida e descrença,
o pêlo macio da relva perdida,
a mata escondida no soturno solavanco
crente ao desejo, sutil e pérfido
final
Suas nobres mãos de areia
modelando calabouços de frestas
e conchas dependuradas nos cabelos
as algas flutuantes e o peso
rememorável de cada um de nós
num paraíso disforme de
lençóis freáticos, de orvalhos
de novelos de água salgada
de praias, de praias,
de atóis.
O Homem Que Não Sabia Morrer
Cor do céu, cor dos olhos, cor da pele, tons pastéis. Tudo se torna cego. O tempo apaga suas próprias cores. A cor do tempo é sem-cor. O infinito é o arco-íris que deixou de existir em si mesmo, e a morte é apenas uma das cores que se perdeu a quem não enxerga o óbvio à sua frente.
Apesar do ocorrido, o fluxo da cidade permanece inalterado. Às sete e meia da manhã, a massa trabalhadora já havia feito o deslocamento necessário, as aulas já haviam começado, os programas matinais haviam atingido um quarto de duração, as ruas ainda estavam movimentadas, ainda havia congestionamento, o ritual paisagístico do dia. O tempo pára, o mundo congela instantaneamente. Podemos fazer isso, temos de fazer isso. Só assim poderemos observar exatos detalhes e minúcias, o tempo com tempo do observável. O fluxo parou, as correntes sangüíneas foram interrompidas. Suas milhões de células estejam onde estiverem, estagnaram. Siderúrgicas, escritórios, apartamentos, escolas, lanchonetes, igrejas. Arquivamento, aula, solda, discussão, sexo, benção, nascimento, dor.
O tempo emudeceu. Concentremo-nos em um determinado ponto. No bairro, no conjunto, na avenida, na rua, no momento. Ele está ali, milésimos de segundo de sua morte. Ao menos, é o que se imagina. Um motorista bêbado avançou o sinal vermelho e trombou em sua moto, jogada bruscamente ao espaço, e seu corpo, inerte, contrariando o destino da sobrevivência, está a poucos centímetros do chão. O capacete foi arremessado junto da motocicleta. O impacto principal será ao longo de seu dorso, mas, por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir.
Percebemos, atentando aos detalhes, que talvez o tempo não tenha parado. Que o universo esteja funcionando em uma lentidão micrométrica, no locomover imperceptível da perpetuação. Não, o tempo não parou. Algumas faíscas provocadas pela colisão estão distanciadas de seus pontos dos segundos passados. E percebemos isso. Percebemos que os centímetros da morte tornam-se menos exatos e conjuntivos, os milímetros desatam da superfície da Terra. O acaso rolou seus dados naquele exato momento, em que tudo mudou. Cronometradamente, a medida do destino passa por diante das órbitas negras e abastadas daquele rapaz. Por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir. E mesmo pudéssemos, agora é tarde: uma multidão tumultuosa está reunida ali. Não há o matinal sem café, açúcar ou adoçante, coágulos.
Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida. Existe a regressão, a digressão, o firmamento, finalmente, o fim. Aos poucos percebe o desenlace da situação, as provas efetivas, a realidade inegável. O que esperava, ou não, era o torque cinético, o movimento frenético e o bater de pregos do caixão. Fosse qualquer maneira, morto. E ao mesmo instante, o mundo corre em círculos que inesperadamente levam a algum lugar. Seus olhos fechavam-se lentamente, a visão conhecia a cegueira gradativa, a língua acostumava-se com o gosto do sangue, que mais lembrava o nada. O cheiro era de incerteza, e a cor era do tempo. A cor era sem-cor.
Duas horas da manhã, e algo aconteceu. Um homem acorda com o suor escorrendo-lhe às faces. Presumimos que tenha em torno de cinqüenta e seis anos. Está ofegante. Sua mulher continua imóvel, como nada tivesse procedido. Talvez perguntasse o ocorrido, presumiria um sonho ruim, afagaria sua cabeça com um ou dois beijos. Nada disso aconteceu, a mulher estava mergulhada na distância de si mesma, na quase imobilidade: seu busto e barriga movimentam-se no respirar. O homem está ofegante, algo de errado. Ambos os olhos arregalados, o suor pingava nas cobertas e a podridão da morte embebia suas narinas. Um sonho? Não precisamos nos contentar com a dúvida. Nossa onisciência limitada permite o semi-exato da explicação. O mundo não está mudo. A rótula descompensada do tempo, agora, não passa de uma sombra. Em algum lugar, o qual, nossa onisciência limitada não nos permite definir com precisão, um jovem está morto. O sangue já não escapa por aberturas. O ângulo fatal de seu pescoço foi desfeito, sua funcionalidade foi comprometida, missão cumprida. Ali, onde o sangue derramado na rua ainda estava fresco, o tempo corria no viés das sete e trinta e cinco. Aqui, onde o homem respira penosamente, são duas da madrugada, e simultaneamente o relógio dá voltas, os segundos estão precisamente combinados em seu passar. Existe distância, grande distância, existe um fuso-horário. Ouvimos algo. Um grunhido aos poucos se torna uma frase sussurrada, surrada. Não morri? E o jovem motoqueiro suava frio por detrás das grossas cobertas. Sete e trinta e oito da manhã; duas e três da manhã. A cor do tempo é sem-cor.
Existe uma sincronia das nuvens que circundam o céu. A porta do quarto estava entreaberta. Em um ponto mínimo a cortina permitia a entrada de um pequeno filete, a luz da lua e a luz dos postes. Misturavam-se, contorciam, espremiam-se pela borda, pelo parapeito, serpenteavam pelo chão. O que aconteceu? Onde estou? Percebeu que alguém estava do seu lado. Mas aquela não era seu apartamento, muito menos seu quarto. Sentia-se estranho, também. Livrou-se lentamente das cobertas, tocou os pés no chão nu, frio. Tateou o corpo em busca dos recém-chegados ferimentos. Procurou por sangue, deslizou as mãos pelo corpo, sentiu os pêlos, pêlos do peito, que antes não tinha, pêlos. Que nunca tivera. Mas sangue, de sangue, só por dentro da pele, carne, vasos. E do mais, apenas suor, do sono afetado, suor, do susto, suor do corpo que já não era seu.
Por crer, imaginou que era sonho, ou pesadelo, ou uma coisa qualquer. Sabia quem era. Sabia de sua mãe, sua irmã, seus amigos, sua moto, seu contrabaixo, sua namorada, sua casa, sua vida. Mas aquele? Aquele não era seu corpo, sua vida. Tinha esposa, filhos, um netinho, era professor aposentado, ostentava orgulhosamente seus fios grisalhos. Estaria em coma? Num hospital, algo do tipo? De forma automática, sem ao menos compreender, atravessou a casa, foi até a cozinha, tomou um copo d’água. Foi até o banheiro, lavou o rosto. Lavou várias vezes. Olhou-se, finalmente, no espelho. Como? Como? Apertava, beliscava e tateava sua pele, seu rosto. Que não eram seus. Fez movimentos ao espelho, a imagem correspondia a todos.
Naquele exato momento, de forma inexplicável, existia vida? Esfregou os olhos. Nós? Nós não sabemos o que aconteceu exatamente. Semi-onisciência, limitações. Às informações que temos, pode-se inferir total veracidade e credibilidade. É a parte não-falha. Desde que haja conhecimento, ele é correto e inegável. Filhos de deuses onipotentes, onipresentes e oniscientes, somos, porém, filhos de humanos também. Semideuses, semi-humanos: invariavelmente limitados até que se descubra a verdade. Este senhor sempre existiu. Aquele rapaz, também. Reencarnação não explicaria, caso puséssemos em pauta. Não, não. Transferência de corpos? Troca? Não. O rapaz sempre foi o senhor. Mas nunca, realmente, viveu aquela vida. O relógio machuca a surdez do vento, tic, tac. Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida.
Apesar do ocorrido, o fluxo da cidade permanece inalterado. Às sete e meia da manhã, a massa trabalhadora já havia feito o deslocamento necessário, as aulas já haviam começado, os programas matinais haviam atingido um quarto de duração, as ruas ainda estavam movimentadas, ainda havia congestionamento, o ritual paisagístico do dia. O tempo pára, o mundo congela instantaneamente. Podemos fazer isso, temos de fazer isso. Só assim poderemos observar exatos detalhes e minúcias, o tempo com tempo do observável. O fluxo parou, as correntes sangüíneas foram interrompidas. Suas milhões de células estejam onde estiverem, estagnaram. Siderúrgicas, escritórios, apartamentos, escolas, lanchonetes, igrejas. Arquivamento, aula, solda, discussão, sexo, benção, nascimento, dor.
O tempo emudeceu. Concentremo-nos em um determinado ponto. No bairro, no conjunto, na avenida, na rua, no momento. Ele está ali, milésimos de segundo de sua morte. Ao menos, é o que se imagina. Um motorista bêbado avançou o sinal vermelho e trombou em sua moto, jogada bruscamente ao espaço, e seu corpo, inerte, contrariando o destino da sobrevivência, está a poucos centímetros do chão. O capacete foi arremessado junto da motocicleta. O impacto principal será ao longo de seu dorso, mas, por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir.
Percebemos, atentando aos detalhes, que talvez o tempo não tenha parado. Que o universo esteja funcionando em uma lentidão micrométrica, no locomover imperceptível da perpetuação. Não, o tempo não parou. Algumas faíscas provocadas pela colisão estão distanciadas de seus pontos dos segundos passados. E percebemos isso. Percebemos que os centímetros da morte tornam-se menos exatos e conjuntivos, os milímetros desatam da superfície da Terra. O acaso rolou seus dados naquele exato momento, em que tudo mudou. Cronometradamente, a medida do destino passa por diante das órbitas negras e abastadas daquele rapaz. Por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir. E mesmo pudéssemos, agora é tarde: uma multidão tumultuosa está reunida ali. Não há o matinal sem café, açúcar ou adoçante, coágulos.
Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida. Existe a regressão, a digressão, o firmamento, finalmente, o fim. Aos poucos percebe o desenlace da situação, as provas efetivas, a realidade inegável. O que esperava, ou não, era o torque cinético, o movimento frenético e o bater de pregos do caixão. Fosse qualquer maneira, morto. E ao mesmo instante, o mundo corre em círculos que inesperadamente levam a algum lugar. Seus olhos fechavam-se lentamente, a visão conhecia a cegueira gradativa, a língua acostumava-se com o gosto do sangue, que mais lembrava o nada. O cheiro era de incerteza, e a cor era do tempo. A cor era sem-cor.
Duas horas da manhã, e algo aconteceu. Um homem acorda com o suor escorrendo-lhe às faces. Presumimos que tenha em torno de cinqüenta e seis anos. Está ofegante. Sua mulher continua imóvel, como nada tivesse procedido. Talvez perguntasse o ocorrido, presumiria um sonho ruim, afagaria sua cabeça com um ou dois beijos. Nada disso aconteceu, a mulher estava mergulhada na distância de si mesma, na quase imobilidade: seu busto e barriga movimentam-se no respirar. O homem está ofegante, algo de errado. Ambos os olhos arregalados, o suor pingava nas cobertas e a podridão da morte embebia suas narinas. Um sonho? Não precisamos nos contentar com a dúvida. Nossa onisciência limitada permite o semi-exato da explicação. O mundo não está mudo. A rótula descompensada do tempo, agora, não passa de uma sombra. Em algum lugar, o qual, nossa onisciência limitada não nos permite definir com precisão, um jovem está morto. O sangue já não escapa por aberturas. O ângulo fatal de seu pescoço foi desfeito, sua funcionalidade foi comprometida, missão cumprida. Ali, onde o sangue derramado na rua ainda estava fresco, o tempo corria no viés das sete e trinta e cinco. Aqui, onde o homem respira penosamente, são duas da madrugada, e simultaneamente o relógio dá voltas, os segundos estão precisamente combinados em seu passar. Existe distância, grande distância, existe um fuso-horário. Ouvimos algo. Um grunhido aos poucos se torna uma frase sussurrada, surrada. Não morri? E o jovem motoqueiro suava frio por detrás das grossas cobertas. Sete e trinta e oito da manhã; duas e três da manhã. A cor do tempo é sem-cor.
Existe uma sincronia das nuvens que circundam o céu. A porta do quarto estava entreaberta. Em um ponto mínimo a cortina permitia a entrada de um pequeno filete, a luz da lua e a luz dos postes. Misturavam-se, contorciam, espremiam-se pela borda, pelo parapeito, serpenteavam pelo chão. O que aconteceu? Onde estou? Percebeu que alguém estava do seu lado. Mas aquela não era seu apartamento, muito menos seu quarto. Sentia-se estranho, também. Livrou-se lentamente das cobertas, tocou os pés no chão nu, frio. Tateou o corpo em busca dos recém-chegados ferimentos. Procurou por sangue, deslizou as mãos pelo corpo, sentiu os pêlos, pêlos do peito, que antes não tinha, pêlos. Que nunca tivera. Mas sangue, de sangue, só por dentro da pele, carne, vasos. E do mais, apenas suor, do sono afetado, suor, do susto, suor do corpo que já não era seu.
Por crer, imaginou que era sonho, ou pesadelo, ou uma coisa qualquer. Sabia quem era. Sabia de sua mãe, sua irmã, seus amigos, sua moto, seu contrabaixo, sua namorada, sua casa, sua vida. Mas aquele? Aquele não era seu corpo, sua vida. Tinha esposa, filhos, um netinho, era professor aposentado, ostentava orgulhosamente seus fios grisalhos. Estaria em coma? Num hospital, algo do tipo? De forma automática, sem ao menos compreender, atravessou a casa, foi até a cozinha, tomou um copo d’água. Foi até o banheiro, lavou o rosto. Lavou várias vezes. Olhou-se, finalmente, no espelho. Como? Como? Apertava, beliscava e tateava sua pele, seu rosto. Que não eram seus. Fez movimentos ao espelho, a imagem correspondia a todos.
Naquele exato momento, de forma inexplicável, existia vida? Esfregou os olhos. Nós? Nós não sabemos o que aconteceu exatamente. Semi-onisciência, limitações. Às informações que temos, pode-se inferir total veracidade e credibilidade. É a parte não-falha. Desde que haja conhecimento, ele é correto e inegável. Filhos de deuses onipotentes, onipresentes e oniscientes, somos, porém, filhos de humanos também. Semideuses, semi-humanos: invariavelmente limitados até que se descubra a verdade. Este senhor sempre existiu. Aquele rapaz, também. Reencarnação não explicaria, caso puséssemos em pauta. Não, não. Transferência de corpos? Troca? Não. O rapaz sempre foi o senhor. Mas nunca, realmente, viveu aquela vida. O relógio machuca a surdez do vento, tic, tac. Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida.
Arrastão
Pescador de
mãos morenas
de dedos marcados,
calos, colos, laços,
da madrugada, puxa,
a rede clarinha
enterrada
na areia da praia
areia fininha,
areia, de nada.
Os barcos, barquinhos
distanciados, corroendo ao longe,
as estrelas, do mar, presas,
às pressas, arrastadas pelo peso das
marés, e gaivotas dos pesares
dos mares, dos lares
dos ares, sem pares, sem pés,
sem lares ou quaisquer coisas
sem azul imensidão em verde
Velas ao vento,
o pano ex-branquiçado,
agora encardido, sal, o sal
dos fiapos de tudo
decapitados e perdidos
no mundo.
O pescador de
mãos morenas
arrebata molhado
e arrasta, puxa, resgata
o nascer do sol
de dentro das águas escuras
da madrugada.
mãos morenas
de dedos marcados,
calos, colos, laços,
da madrugada, puxa,
a rede clarinha
enterrada
na areia da praia
areia fininha,
areia, de nada.
Os barcos, barquinhos
distanciados, corroendo ao longe,
as estrelas, do mar, presas,
às pressas, arrastadas pelo peso das
marés, e gaivotas dos pesares
dos mares, dos lares
dos ares, sem pares, sem pés,
sem lares ou quaisquer coisas
sem azul imensidão em verde
Velas ao vento,
o pano ex-branquiçado,
agora encardido, sal, o sal
dos fiapos de tudo
decapitados e perdidos
no mundo.
O pescador de
mãos morenas
arrebata molhado
e arrasta, puxa, resgata
o nascer do sol
de dentro das águas escuras
da madrugada.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Tout le Monde
Nos dias que se passaram, havia saído com as garotas. Nos últimos, principalmente com a que havia conhecido há pouco tempo. Éramos três, inicialmente. O número reduziu-se a dois, eu e ela. E, no mínimo, éramos uma dupla interessante pelos caminhos da cidade. Eu, tendenciosamente brasileiro (negro/português/índio/espanhol/bretão). De costas largas e um tanto alto. Cabelos e olhos pequenos – castanhos; todos. Ela, tendenciosamente francesa, sem ao menos atingir a pronúncia correta de meu nome em português, terminava o fonema das palavras com sua voz falha, com o arrastar capcioso – e doce – da pronúncia. Não-tão-branca quanto se imaginava, mas, ainda sim, branca. Loira, cabelos compridos e com cachos nos finais, quase clichê; boneca mínima. Bochechas um tanto graúdas, covinhas, rosadas, enormes olhos azuis. Baixa, corpo pequeno – e por mesmo assim, ainda tinha o desenho dos quadris e certo volume de seios.
A terceira garota, antes da separação, era a dona da casa onde Antonie estava. Antonie. Antonie. Que eu soubesse, assim por ouvir seu nome, imaginei que era um homem, que seu nome era Antoine, que era algum engano. Mas não, era algum tipo de homenagem, composição de nomes próprios, algo do tipo. E por si, era seu segundo nome. Mas utilizava como apresentação, detestava ser chamada por Marie, quanto mais Marie Antonie (Marrí Antoní). A terceira garota era uma grande amiga, e por encontros e desencontros, acabei por ajudá-la no passeio pela cidade, como co-guia. Seu irmão estava na França, na cidade de Antonie. Intercâmbio, intercâmbio. Não se precisava saber mais. Saímos os três, vencemos a timidez da garota - que se mostrou ótima companhia – e garantimos apresentações nada convencionais à cidade.
Separamo-nos depois de alguns dias, quando Roberta gripou. Insistimos qualquer coisa junto dela. Não, não, teria de mostrar o resto da cidade e das coisas a Antonie. Foi exatamente o que fiz. O que fizemos. Livre de sua timidez, nós conversávamos bastante. Sobre praticamente tudo, feito amigos de tantos muitos anos, como, por acaso, nos tornamos mais tarde. Andávamos de braços cruzados, rindo, um ensinando a própria língua ao outro, verbalmente, claro. Aquela garota, um ano e meio mais nova, realmente fazia com que eu me sentisse bem. E apesar dos poucos dias, até permitíamos um ao outro o relance de certas intimidades. Contei-lhe sobre meu caso com uma garota muito mais velha, de como era complicado – e ao mesmo tempo tão simples. Contei-lhe de como e quando perdi a virgindade, de detalhes bobos, de detalhes importantes. Contei, inclusive, de minha sinestesia – primeira pessoa, a saber. E ela, contou-me do mesmo, de tudo.
Seu cheiro azul-claro me preenchia de torpor eterno, como se bêbado de éter, eu pudesse caminhar de forma estranha, incompleta, sem ao menos haver incômodo. Talvez, pelo contato tão constante e intenso entre a derme, talvez pela necessidade das células de experimentarem pontes citoplasmáticas, da troca intercelular, da troca extracelular, imprimimos um ao outro nas exceções do sistema imunológico, talvez, só talvez, o carinho preliminar nascia do contato distante e próximo. Até que ensinássemos, um ao outro, sua própria língua. Buscando ar a respirar, recostada a meu ouvido, dizia certas coisas, que ao mesmo tempo de não compreender seu francês, conseguia ler e sondar quaisquer coisas que me dissesse, desde seus significativos olhos azuis, até sorrisos maliciosos, quando escapávamos da companhia de terceiros, de Roberta, de seus pais. Tabelávamos beijos escondidos.
No final do intercâmbio – só a conheci perto de partir – depois de passar muito tempo nas aulas, e de conhecer muito da cidade, teria de voltar. Por mais algum tempo, o que se teria de fazer era a companhia à anfitriã, filmes em casa, longas conversas. E por esse ponto, as mãos dadas eram inconscientes e percebidas por todos – algo desnecessário a comentários. De tudo que houvera, até na troca de tantas outras coisas, no memorável sexo de um a outro, de por demais carinho, a amizade era algo totalmente diferente, sem fim, sem desestabilizações, confusões. Em partida, manteríamos por tempos o mesmo diálogo, as mesmas coisas, o mesmo tipo de carinho. Num misto de melancolia e felicidade, continuávamos cúmplices de algo que mais ninguém sabia, mesmo de que conhecessem ou notassem cada manifestação e por si, cada um dos enlaces. Mas o que acontecera, era algo que estaria em todo mundo – ou parte dele.
A terceira garota, antes da separação, era a dona da casa onde Antonie estava. Antonie. Antonie. Que eu soubesse, assim por ouvir seu nome, imaginei que era um homem, que seu nome era Antoine, que era algum engano. Mas não, era algum tipo de homenagem, composição de nomes próprios, algo do tipo. E por si, era seu segundo nome. Mas utilizava como apresentação, detestava ser chamada por Marie, quanto mais Marie Antonie (Marrí Antoní). A terceira garota era uma grande amiga, e por encontros e desencontros, acabei por ajudá-la no passeio pela cidade, como co-guia. Seu irmão estava na França, na cidade de Antonie. Intercâmbio, intercâmbio. Não se precisava saber mais. Saímos os três, vencemos a timidez da garota - que se mostrou ótima companhia – e garantimos apresentações nada convencionais à cidade.
Separamo-nos depois de alguns dias, quando Roberta gripou. Insistimos qualquer coisa junto dela. Não, não, teria de mostrar o resto da cidade e das coisas a Antonie. Foi exatamente o que fiz. O que fizemos. Livre de sua timidez, nós conversávamos bastante. Sobre praticamente tudo, feito amigos de tantos muitos anos, como, por acaso, nos tornamos mais tarde. Andávamos de braços cruzados, rindo, um ensinando a própria língua ao outro, verbalmente, claro. Aquela garota, um ano e meio mais nova, realmente fazia com que eu me sentisse bem. E apesar dos poucos dias, até permitíamos um ao outro o relance de certas intimidades. Contei-lhe sobre meu caso com uma garota muito mais velha, de como era complicado – e ao mesmo tempo tão simples. Contei-lhe de como e quando perdi a virgindade, de detalhes bobos, de detalhes importantes. Contei, inclusive, de minha sinestesia – primeira pessoa, a saber. E ela, contou-me do mesmo, de tudo.
Seu cheiro azul-claro me preenchia de torpor eterno, como se bêbado de éter, eu pudesse caminhar de forma estranha, incompleta, sem ao menos haver incômodo. Talvez, pelo contato tão constante e intenso entre a derme, talvez pela necessidade das células de experimentarem pontes citoplasmáticas, da troca intercelular, da troca extracelular, imprimimos um ao outro nas exceções do sistema imunológico, talvez, só talvez, o carinho preliminar nascia do contato distante e próximo. Até que ensinássemos, um ao outro, sua própria língua. Buscando ar a respirar, recostada a meu ouvido, dizia certas coisas, que ao mesmo tempo de não compreender seu francês, conseguia ler e sondar quaisquer coisas que me dissesse, desde seus significativos olhos azuis, até sorrisos maliciosos, quando escapávamos da companhia de terceiros, de Roberta, de seus pais. Tabelávamos beijos escondidos.
No final do intercâmbio – só a conheci perto de partir – depois de passar muito tempo nas aulas, e de conhecer muito da cidade, teria de voltar. Por mais algum tempo, o que se teria de fazer era a companhia à anfitriã, filmes em casa, longas conversas. E por esse ponto, as mãos dadas eram inconscientes e percebidas por todos – algo desnecessário a comentários. De tudo que houvera, até na troca de tantas outras coisas, no memorável sexo de um a outro, de por demais carinho, a amizade era algo totalmente diferente, sem fim, sem desestabilizações, confusões. Em partida, manteríamos por tempos o mesmo diálogo, as mesmas coisas, o mesmo tipo de carinho. Num misto de melancolia e felicidade, continuávamos cúmplices de algo que mais ninguém sabia, mesmo de que conhecessem ou notassem cada manifestação e por si, cada um dos enlaces. Mas o que acontecera, era algo que estaria em todo mundo – ou parte dele.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Mais um
Se você quiser
alimente-se da membrana de qualquer
pedaço do sol
Se você puder
entregue-se na
cama de qualquer constelação
fatal
Pondere,
recupere, faça e
desespere, dê um cheiro
no cangote
morra e dê a vida
num xote choque, choque
num pedaço de serrote,
corte o céu em dois, em meia lua e
em grão de arroz
coma depois de beber
suco de uva do espaço cheio
de bolhinhas estrelas
Se você quiser,
se você tentar na
curva da ursa menor,
na curva de algo melhor.
alimente-se da membrana de qualquer
pedaço do sol
Se você puder
entregue-se na
cama de qualquer constelação
fatal
Pondere,
recupere, faça e
desespere, dê um cheiro
no cangote
morra e dê a vida
num xote choque, choque
num pedaço de serrote,
corte o céu em dois, em meia lua e
em grão de arroz
coma depois de beber
suco de uva do espaço cheio
de bolhinhas estrelas
Se você quiser,
se você tentar na
curva da ursa menor,
na curva de algo melhor.
domingo, 4 de abril de 2010
Sozinho
é se estar em companhia
- que aparece
quando ninguém mais
está por perto -
envolvido por braços rotos,
de pensamentos recobertos
de uma amante fria
tão fria
- como o deserto.
- que aparece
quando ninguém mais
está por perto -
envolvido por braços rotos,
de pensamentos recobertos
de uma amante fria
tão fria
- como o deserto.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Terrar
Assim que eu sepultar meus dedos,
não! não tente reavê-los:
- eles estarão enterrados nas profundezas
de seus cabelos.
não! não tente reavê-los:
- eles estarão enterrados nas profundezas
de seus cabelos.
Verso
Meus sonetos são paredes Camonianas,
cheias de desejo
Mesmo ao perdê-los
quando a assimetria
puxa meus cabelos, ainda
imito Cabral de Melo,
construindo
letrinhas em paralelo
mil e um pilares,
na inconstância de Palmares
com jeitinho de Niemeyer.
cheias de desejo
Mesmo ao perdê-los
quando a assimetria
puxa meus cabelos, ainda
imito Cabral de Melo,
construindo
letrinhas em paralelo
mil e um pilares,
na inconstância de Palmares
com jeitinho de Niemeyer.
Brinquedo
Quero, sempre, ser
seu brinquedo preferido
que roda em sua mão
marcando seu caminho
me esconder no teu abrigo
debaixo do lençol, perto do
seu umbigo, ser seu companheiro,
seu passatempo preferido
correr no tabuleiro
arrastar rodas no azulejo,
corroer o tempo inteiro
e falar o que eu nunca disse
só por meninice,
só por diversão
ser também o seu amigo
te proteger do escuro
cravar garras no muro
agarrar o porto seguro,
e sempre te fazer sorrir.
Quero, sempre, ser
pião, boneco, cavaleiro,
pelúcia remendada,
soquete, lampião,
vara-pau, morteiro
sete diferenças,
moldar em seu polegar
ouvir seus soluços
te abraçar, quando de bruços
você quiser dormir,
desde que você
dê até seus sapatos,
desfaça e rasgue os
seus laços,
chore e enterre
e até esqueça de seus gatos
amasse ou amarele
em seus retratos
mas mesmo com os anos
nunca ache que é tão velha
demais pra me deixar de lado
num canto empoeirado
entre as mãos
ser atirado
nas palmas de suas mãos,
nas palmas de suas mãos,
rodopiar, ser seu pião,
seu companheiro,
vai-e-vem o tempo inteiro
iô-iô e
ser seu bem, e em
expresso desafio
embarcar no seu navio
e marcar em seu destino
enquanto você cresce
e não pára mais
sempre, quero, ser
ser, sempre, seu
herói, vilão,
mocinho, ser bandido
ser da corte,
ser mendigo,
ser bobo, dragão,
príncipe, rei
e feiticeiro,
pirata, prisioneiro,
o x que marca o segredo
e esconder cada um
de seus desejos
pra que ninguém mais
possa procurar,
ser pedaço
novo, velho, antigo,
te encontrar
e ao mesmo tempo
estar perdido
desde que
quando estiver comigo
você pare de sofrer.
seu brinquedo preferido
que roda em sua mão
marcando seu caminho
me esconder no teu abrigo
debaixo do lençol, perto do
seu umbigo, ser seu companheiro,
seu passatempo preferido
correr no tabuleiro
arrastar rodas no azulejo,
corroer o tempo inteiro
e falar o que eu nunca disse
só por meninice,
só por diversão
ser também o seu amigo
te proteger do escuro
cravar garras no muro
agarrar o porto seguro,
e sempre te fazer sorrir.
Quero, sempre, ser
pião, boneco, cavaleiro,
pelúcia remendada,
soquete, lampião,
vara-pau, morteiro
sete diferenças,
moldar em seu polegar
ouvir seus soluços
te abraçar, quando de bruços
você quiser dormir,
desde que você
dê até seus sapatos,
desfaça e rasgue os
seus laços,
chore e enterre
e até esqueça de seus gatos
amasse ou amarele
em seus retratos
mas mesmo com os anos
nunca ache que é tão velha
demais pra me deixar de lado
num canto empoeirado
entre as mãos
ser atirado
nas palmas de suas mãos,
nas palmas de suas mãos,
rodopiar, ser seu pião,
seu companheiro,
vai-e-vem o tempo inteiro
iô-iô e
ser seu bem, e em
expresso desafio
embarcar no seu navio
e marcar em seu destino
enquanto você cresce
e não pára mais
sempre, quero, ser
ser, sempre, seu
herói, vilão,
mocinho, ser bandido
ser da corte,
ser mendigo,
ser bobo, dragão,
príncipe, rei
e feiticeiro,
pirata, prisioneiro,
o x que marca o segredo
e esconder cada um
de seus desejos
pra que ninguém mais
possa procurar,
ser pedaço
novo, velho, antigo,
te encontrar
e ao mesmo tempo
estar perdido
desde que
quando estiver comigo
você pare de sofrer.
Sobre os 500m na chuva e a indefinição das palavras.
Hoje veio a chuva. A chuva que eu predisse. A chuva que eu sempre predigo. O céu estava limpo, a lua de sorriso branco e deitado na noite, dentes alinhados no deserto de escuridão, e estrelas feito milhões de oásis, quase um relance de miragens no infinito. Mas ela me fala numa língua inaudível a outros ouvidos. E seu perfume... Só eu posso senti-lo. Como bom animal, aprendo com o lobo deitado em minhas costas, instintivo, existencial. Conhecimento pré-existente, coisa que pai e mãe não ensinam, que é de clã de si mesmo. Levanto as orelhas, ouço, de longe, sua chegada. O presépio de massas de ar que se aproxima. Na pele, o toque, a presença ínfima e atmosférica de sua existência. Baixo as orelhas, fecho os olhos, aspiro o ar, várias e várias e várias vezes. Cheiro. Não, não, farejo o vento, inspiro, expiro. A chuva que eu predisse. A chuva que eu sempre predigo.
Fechei as janelas, reuni minhas coisinhas, meus pensamentos, minhas impressões, expressões, coisas bobas, simples e desconexas. Saí, experimentei o toque passageiro do suposto clima ameno, o cansaço, o mormaço, o suor. Movimentei meus pés pelas pontes de pedras por entre as placas tectônicas, caminhei sobre a lava, a rocha derretida, liquefeita, fundida. Encontrei meus amigos, o novo antigo, o resistente existir no que há de eterno, no que há de interno. Emiti grunhidos, sorri com meus brancos caninos expostos ao solstício noturno, ao equinócio soturno, à madrugada. Estiquei meu corpo, estalei minhas vértebras, conduzi planos, tiranos, sonhos humanos, planejei viagens, conquistei planícies, fui até Santos e nem saí do estado.
Na volta, guiamos o carro, um no volante e o outro no banco, funções inexistentes de forma separada, fibras têxteis do caminho de casa. Desfazendo o embaraço da neblina fajuta, neblina de mentira, aqui não há – de tão torpor e facilidade – uma neblina. A temperatura e a chuva embaçam o vidro. O céu é cinza, cinza abissal, cinza fundo de rio parado, gotas suicidam-se contra o vidro, gotas, gotas, gotas, insetos estranhos, capengas e redondos – oxigênios -, de suas asas de hidrogênio. Me despeço. Corro, disparo meus pés a tiracolo, soluço meus membros sempre em frente. Mas não há necessidade. Não é o corromper. Não é a obscuridade, a treva, o nefasto. Eu a predisse. Eu a predigo. E o enxame de insetos pousam gentilmente na derme fria.
E com tudo, algo novo. Até que eu percebesse, até que eu notasse. Na chuva, que eu predisse, o fim do deserto de coisas também boas: seu cheiro veio doce, como tantas outras coisas surgem, mas desaparecem na primavera. Mas ele não vai. Não vai embora. Amanhã a chuva estará longe, refazendo seu caminho, viajante eterna, cortejadora de distâncias. O lobo monta em minhas costas, desaba ao pé de cama, fecha os olhos, grunhe bem baixinho, defasa a própria essência. E você ainda estará aqui. Você sempre esteve aqui, eu só precisava reconhecer sua presença – até dormir e acordar, mesmo tão longe, sempre ao seu lado. Enquanto minha alma guarda sempre o seu sono.
Fechei as janelas, reuni minhas coisinhas, meus pensamentos, minhas impressões, expressões, coisas bobas, simples e desconexas. Saí, experimentei o toque passageiro do suposto clima ameno, o cansaço, o mormaço, o suor. Movimentei meus pés pelas pontes de pedras por entre as placas tectônicas, caminhei sobre a lava, a rocha derretida, liquefeita, fundida. Encontrei meus amigos, o novo antigo, o resistente existir no que há de eterno, no que há de interno. Emiti grunhidos, sorri com meus brancos caninos expostos ao solstício noturno, ao equinócio soturno, à madrugada. Estiquei meu corpo, estalei minhas vértebras, conduzi planos, tiranos, sonhos humanos, planejei viagens, conquistei planícies, fui até Santos e nem saí do estado.
Na volta, guiamos o carro, um no volante e o outro no banco, funções inexistentes de forma separada, fibras têxteis do caminho de casa. Desfazendo o embaraço da neblina fajuta, neblina de mentira, aqui não há – de tão torpor e facilidade – uma neblina. A temperatura e a chuva embaçam o vidro. O céu é cinza, cinza abissal, cinza fundo de rio parado, gotas suicidam-se contra o vidro, gotas, gotas, gotas, insetos estranhos, capengas e redondos – oxigênios -, de suas asas de hidrogênio. Me despeço. Corro, disparo meus pés a tiracolo, soluço meus membros sempre em frente. Mas não há necessidade. Não é o corromper. Não é a obscuridade, a treva, o nefasto. Eu a predisse. Eu a predigo. E o enxame de insetos pousam gentilmente na derme fria.
E com tudo, algo novo. Até que eu percebesse, até que eu notasse. Na chuva, que eu predisse, o fim do deserto de coisas também boas: seu cheiro veio doce, como tantas outras coisas surgem, mas desaparecem na primavera. Mas ele não vai. Não vai embora. Amanhã a chuva estará longe, refazendo seu caminho, viajante eterna, cortejadora de distâncias. O lobo monta em minhas costas, desaba ao pé de cama, fecha os olhos, grunhe bem baixinho, defasa a própria essência. E você ainda estará aqui. Você sempre esteve aqui, eu só precisava reconhecer sua presença – até dormir e acordar, mesmo tão longe, sempre ao seu lado. Enquanto minha alma guarda sempre o seu sono.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Um homem comum
Funcionário exemplar, aparência impecável, sorriso branquíssimo, dentes alinhados, cabelo devidamente repartido, mesa extremamente organizada, ambiente de trabalho limpo, eficiência total, perfeccionismo quase-que-inverossímil. Falava bem, portava-se melhor ainda. Boa relação com colegas de trabalho, comunicativo, crescia rapidamente em todas as funções às quais era indicado, promoções e mais promoções, alvo de algumas invejas – e paixonites das colegas de trabalho (inclusive as casadas). Era um rapaz atraente, charmoso e com uma capacidade de raciocínio incrível. E ainda por mais, solteiro. Saía pouco, as relações eram só as do trabalho, algumas no prédio onde morava.
No prédio onde vivia era morador exemplar; pagava tudo em dia, não fazia reclamações, não perturbava ninguém, era cumprimentado por todos, mantinha seu apartamento no mais completo e tranqüilo silêncio, tinha mania por limpeza, até mesmo a entrada, o corredor, a porta, eram limpos. Um dos moradores mais antigos, um dos mais respeitados. Dormia pontualmente às 20h45, acordava pontualmente às 4h15. Almoçava, pontualmente, ao 12h, jantava, pontualmente às 17h50. Nunca adoecia, nunca faltava ao trabalho, ganhava bem, muito bem, mas continuava na mesma vida, por capricho, talvez, quem sabe.
Fazia sucesso com as garotas, duas vezes ao mês, duas garotas diferentes, todos os meses. Entravam no apartamento no sábado à noite, e a quem batia a curiosidade de observar, na manhã seguinte, elas não mais estariam lá. Rapaz educado, jeitoso, bondoso, etc., etc. Eram os comentários pelos corredores, dos vizinhos, dos empregados, dos colegas de trabalho, das pessoas na rua. Tinha um pequeno jardim na janela, flores lindas durante o ano todo; excepcionalmente cuidadas, uma espécie pra cada estação. Geladeira sempre cheia, roupas lavadas e passadas, cuidados impecáveis. A mãe do garoto levado, do 203, dizia que seu filho teria de ser igual àquele homem.
Dia pesado de trabalho, aquele santo dia de quinta à noite. Subiu as escadas, sempre tomava as escadas. Não demonstrava, porém, cansaço ou desânimo ou fraqueza ou coisa alguma, além de um doce e sutil sorriso e seus gentis olhos castanhos mirados à alguma coisa em frente, que talvez, só ele poderia ver. Gotículas de suor, mínimas, concentradas no colarinho, desabotoou alguns botões, respirou fundo, mordeu os lábios, com chave em mãos abriu a porta. Caminhou lentamente porta adentro, posicionou os sapatos negros ao batente, à entrada. Meias dobradas, dentro dos sapatos, foi até a geladeira, abriu calmamente a porta cor-de-prata, serviu-se de um copo d’água, sentou em frente à geladeira aberta. E a nova tecnologia frost-free permite a observação geográfica de seu interior. Outro copo d’água. Tomou na outra mão um folheto, propaganda de uma loja, geladeiras em promoção.
Queria alguém pra conversar. Tentou: algumas palavras, interjeições, vocativos, chamamentos absurdos, grunhidos, nada. Ao menos sairia com outra garota no dia seguinte, e ela estaria ali, com ele, no sábado. Até mesmo, que as cabeças femininas dentro dos três freezers e da geladeira já não respondiam mais ao som de sua voz. Mas ainda olhavam fixamente em seus gentis olhos castanhos. Analisou os preços das geladeiras.
No prédio onde vivia era morador exemplar; pagava tudo em dia, não fazia reclamações, não perturbava ninguém, era cumprimentado por todos, mantinha seu apartamento no mais completo e tranqüilo silêncio, tinha mania por limpeza, até mesmo a entrada, o corredor, a porta, eram limpos. Um dos moradores mais antigos, um dos mais respeitados. Dormia pontualmente às 20h45, acordava pontualmente às 4h15. Almoçava, pontualmente, ao 12h, jantava, pontualmente às 17h50. Nunca adoecia, nunca faltava ao trabalho, ganhava bem, muito bem, mas continuava na mesma vida, por capricho, talvez, quem sabe.
Fazia sucesso com as garotas, duas vezes ao mês, duas garotas diferentes, todos os meses. Entravam no apartamento no sábado à noite, e a quem batia a curiosidade de observar, na manhã seguinte, elas não mais estariam lá. Rapaz educado, jeitoso, bondoso, etc., etc. Eram os comentários pelos corredores, dos vizinhos, dos empregados, dos colegas de trabalho, das pessoas na rua. Tinha um pequeno jardim na janela, flores lindas durante o ano todo; excepcionalmente cuidadas, uma espécie pra cada estação. Geladeira sempre cheia, roupas lavadas e passadas, cuidados impecáveis. A mãe do garoto levado, do 203, dizia que seu filho teria de ser igual àquele homem.
Dia pesado de trabalho, aquele santo dia de quinta à noite. Subiu as escadas, sempre tomava as escadas. Não demonstrava, porém, cansaço ou desânimo ou fraqueza ou coisa alguma, além de um doce e sutil sorriso e seus gentis olhos castanhos mirados à alguma coisa em frente, que talvez, só ele poderia ver. Gotículas de suor, mínimas, concentradas no colarinho, desabotoou alguns botões, respirou fundo, mordeu os lábios, com chave em mãos abriu a porta. Caminhou lentamente porta adentro, posicionou os sapatos negros ao batente, à entrada. Meias dobradas, dentro dos sapatos, foi até a geladeira, abriu calmamente a porta cor-de-prata, serviu-se de um copo d’água, sentou em frente à geladeira aberta. E a nova tecnologia frost-free permite a observação geográfica de seu interior. Outro copo d’água. Tomou na outra mão um folheto, propaganda de uma loja, geladeiras em promoção.
Queria alguém pra conversar. Tentou: algumas palavras, interjeições, vocativos, chamamentos absurdos, grunhidos, nada. Ao menos sairia com outra garota no dia seguinte, e ela estaria ali, com ele, no sábado. Até mesmo, que as cabeças femininas dentro dos três freezers e da geladeira já não respondiam mais ao som de sua voz. Mas ainda olhavam fixamente em seus gentis olhos castanhos. Analisou os preços das geladeiras.
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