Mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo. Estava deitado no gramado, o sono talvez fora longo demais. Talvez fora longe demais. Com certeza, caso tivesse algum compromisso, estaria atrasado. Uma das mãos estiradas, roçando no mato. A outra de relance, o peso que pendia do pescoço deitava sobre a sua face. Lentamente, pata após pata, uma formiga, única, subiu-lhe pelo dedo indicador. O único que, encostado à grama, fazia parte do caminho pré-determinado daquele inseto. Suas minúsculas patas roçaram naquela derme esfriada, naquela superfície áspera de digitais. Não sendo por culpa da formiga, a consciência aturdida daquele rapaz escolheu aquele exato momento ao despertar. Seu tato, coincidentemente, concentrou esforços na determinação do movimento daquela criatura, mínima.
Inclinou sua cabeça, alguns segundos passaram até que suas órbitas, tontas, focalizassem o animal. Havia um pequeno pedaço de folha em suas costas. Seus pensamentos, perdidos entropicamente, reagruparam-se em alguma forma, um raciocínio. E, antes percebesse o ter acordado, observou o pequeno animal. Caminhava, parava por alguns instantes, tateava o ar com suas antenas e seguia em frente. Andava, de certo, lentamente. Aquela mão não era tão grande assim. Decidiu encostar-se na terra, permitir a passagem, sem pedágio. Não acanhada, seguiu seu caminho. Mal deu conta que aquela era a mão de um gigante.
Simplesmente passou ao contato do chão frio, terra. Alguns jurariam que ela voltou-se para trás numa espécie de agradecimento. E, ela então, teria percebido a derme do gigante. Hesitante, suas antenas arquearam, voltou a cabeça para trás e, em alguns segundos, tomou seu rumo. Logo aquele, o último ser humano do planeta. Não seria pra mais, não seria pra menos. Mas talvez, sejam apenas rumores. E logo, desprezando a presença das duas formigas, novamente, mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo.
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