terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Prefácio

Cavando na areia fria
sem pás e sem pés

a manhã nasceu
de todas as coisas

e de todos os dias.

1/3 de ficção num encontro real

O tempo era curto. Na verdade mesmo que fossem vários dias o tempo ainda seria curto.  Marcaram um ponto e um horário, o trânsito não contribuiu e ele chegou uma hora atrasado. Não era tão ruim assim esperar, mesmo que fosse uma hora e que o tempo estivesse ainda mais curto. Os dois pediram com todo afinco possível que não chovesse, pelo menos por enquanto. mesmo ele, que não acreditava tanto assim. Alguém ouviu e decidiu atrasar um pouco a chuva, o resto dependia deles. Ele era meio impassível e tinha aquele quê de homem gélido, mas nem por isso a gastrite nervosa lhe pouparia do nervosismo. Ela não havia dormido o suficiente na noite anterior.

Caminharam um pouco e ele não se importava que ela fumasse, então tudo bem, mesmo que ele detestasse o gosto de cigarro. Ele entendia que era o nervosismo. Acabaram ironicamente em frente ao prédio dele, subiram e os dois concordaram que tomar café não seria bom pra gastrite nervosa. Ela apagou o cigarro no parapeito da janela e as cinzas pareciam pequenos grãos de pólen que polinizariam uma impossível flor-de-tabaco no meio da plantação de concreto e coisas frias. Eles brindaram com água porque não tinha vinho, nem champanhe. Ela acabou fazendo chá e decidiram ver TV até que esfriasse. Não tomaram nada e no meio de alguns beijos e o programa de auditório ele disse alguma coisa realmente significativa, transaram devagar e depois dele ter jogado a camisinha fora ficaram abraçados por algum tempo por cima do carpete e ouvindo a estática do programa fora do ar.

Cada um tinha exatamente pra onde ir, ele tinha um avião pra pegar, ela tinha um ônibus pra pegar e estavam ridiculamente amarrados aos seus próprios horários e tinham de voltar pra algum lugar que lhes esperava sem nenhum tipo de convalescência. Ficaram abraçados por mais algum tempo, até que ela foi tomar banho e ele desceu pra comprar antiácido. Ele voltou e ela estava fumando encostada no parapeito. ‘Agora eu vou apertar sua bunda’’Por quê?’’Não sei se é um bom motivo pra você’’Tente’’Ela é convidativa’. Ela gargalhou e ele encheu a mão em uma das nádegas. ’É um motivo razoável’.

Ele tomou banho enquanto ela ouvia Chet Baker mergulhada no sofá e comia o macarrão instantâneo que ele havia preparado. Ela colocou a calça, devolveu a camisa dele e colocou uma das que tinha na mochila. Ele se vestiu e foram até a rodoviária. Era uma longa caminhada, os dois mantinham as mãos atravessadas uma na outra e não falavam quase nada, a gastrite corroia o estômago dele e ela fumava outro cigarro. Tomaram o caminho mais longo, chegaram rápido demais e o ônibus já estava lá, a pouco de sair. Ela jogou o cigarro perto do meio fio e pisou com a ponta do tênis, tirou um pacote de balas da mochila e pôs algumas na boca, mastigou rápido e engoliu. Ele riu e ela corou de leve. Deram as mãos e o beijo durou alguns minutos, ele nunca havia beijado alguém com tanta vontade. Ela nunca fora beijada com tanta vontade por alguém. Não estavam satisfeitos o suficiente, mas estava bom assim.

Não se veriam mais. Pelo menos por um bom tempo e as coisas já não eram mais tão simples assim. Ela ajeitou a mochila nas costas e subiu no ônibus, ficou na janela e assim que a porta se fechou e o motorista deu partida e o motor fez um barulho terrível e intimidador a chuva começou a cair, uma chuva forte e praticamente cinematográfica. Não era um momento triste, não era uma chuva triste, era o toque necessário ao momento, mesmo que aquela fosse uma cidade cheia de chuva e de momentos tristes. Ele pegou o celular, digitou algumas coisas e mandou uma mensagem. Ela tirou o celular do bolso e começou a chorar com um sorriso bobo. Ele tinha um avião pra pegar.

Ela leu mais uma vez. ‘E no meio da chuva na cidade cinza, meu sol sorriu'

domingo, 16 de janeiro de 2011

Scrapple from the apple

Luz batendo em um único ponto do quarto e todo resto em penumbra. A luz vem da janela, as cortinas fizeram isso. Canalizar e centralizar esse feixe deprimente e delineado de luz numa geometria estranha. A mulher está deitada na cama, enrolada nos lençóis e completamente nua. Ele está sentado em frente a uma mesinha com uma máquina de escrever e batendo os dedos nas teclas.


- Por que você faz isso?
- Hm?


Ela pega um cigarro da bolsa, acende, veste a calcinha e a camisa dele. Ele toma um gole de café fumegante, está sem camisa de calça meio aberta e ainda batendo com os dedos nas teclas.


- Você tem um computador aí e prefere usar essa máquina velha. Por quê?
- Hm, acho que gosto do barulho e do peso das teclas.
- Você gosta de esforço?
- Depende.
- Digitar num computador seria mais fácil e as teclas são mais leves.
- Acho que pra maioria das pessoas é assim. Mas eu gosto desse som.
- Sei.


Ela traga o cigarro algumas vezes, abotoa parte da camisa, puxa as mangas e caminha até ele. Pega a xícara vazia, passa a mão nos cabelos dele e lhe dá um beijo na cabeça. Ele sorri e a cortina balança um pouco.


Ela volta com duas xícaras cheias, coloca uma delas na mesa da máquina e toma aos poucos da outra. ‘obrigado’. Ela passa a mão no rosto dele e senta mais uma vez na cama, procura a bolsa, tira outro cigarro. ‘você quer?’ ‘quero sim’. Acende dois cigarros e fica com um, entrega o outro, os dois desenham formas abstratas. Ambos permanecem calados, o som das teclas parece uma metralhadora.


- Você trabalha em quê?
- Numa firma, contabilidade.
- Pensei que você era jornalista. alguma coisa assim.
- alguma coisa assim.


Ela ri e fica muda por uns instantes.


- Quer comer alguma coisa?
- Você terminou esse texto?
- Texto?
- É, esse que você tá fazendo.
- Ah, eu não escrevo.
- E o que você tava fazendo?
- Só batendo nas teclas, eu gosto do barulho.
- Que cara estranho.
- Acho que sim.


Ele traga com força e toma mais uma xícara.


- Dizem que café com cigarro faz mal pra caralho.
- Pra caralho?
- É o que dizem.
- Quer outro? O seu já tá acabando.
- Claro. Vou fazer café.


Ela pega mais dois cigarros, acende, entrega um. Ele sai do quarto com as duas xícaras e ela senta em frente da máquina. Depois de alguns minutos ele volta com uma garrafa térmica e duas xícaras, enche as duas e entrega uma. Toma um gole demorado, traga com vontade.


- Você tem razão.
- Sobre os cigarros e café?
- Não, o barulho.


Ela bate os dedos devagar nas teclas, ele tira as calças e deita na cama.


- Acho que amo você.
- Como?
- Vem pra cama.
- Hmm, tá certo.


Eles transam por um tempo até que a luz que era branca e entrava fraca pela janela e pálida pelas cortinas se tornar amarela e forte o suficiente pra atravessar o tecido vagabundo. Os dois gozam, fumam mais e bebem mais café.


- Você devia largar seu emprego e começar a escrever.


Cá estamos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Pequenas Canções (parte 6) - Capítulo 2

O barulho da cobertura do ponto de ônibus era terrível, ameaçador. Passava impressão de que desabaria a qualquer momento debaixo da chuva pesada. Era madrugada e algumas ruas estavam parcialmente alagadas. Não era o melhor momento e nem horário pra se ficar sozinha na cidade. Muito menos esperar por salvação. Ela estava encolhida no ponto de ônibus com frio e com fome. Medo não. Talvez ela fosse excessivamente corajosa às vezes. O silêncio era cruel, ecoando por todos os lados. Tinha aproximadamente treze anos e a situação era a pior possível. Típico clichê pra todas as porcarias que aparecem nos noticiários/filmes de terror. Ser seqüestrada, estuprada, assassinada. Hipotermia, desmaio, ser atingida por um raio. Apesar de ser extremamente racional, tinha esperança de que alguma coisa acontecesse, que alguém bom o suficiente acontecesse e tudo fosse revertido. E ela salva. Fugir de casa sob aquelas circunstâncias não era, com certeza, confortador. Mas fazê-lo fora necessário.


Alguns carros passavam de vez em quando, mas ninguém via a garota encolhida no ponto e sentada no banco frio. Nenhum ônibus, nem mesmo a linha da madrugada. Encolhia-se cada vez mais abraçando as pernas e protegendo a mochila com a parte posterior das coxas. O cabelo derramado na frente do rosto e várias gotas d’água lhe escorriam pelas bochechas geladas. Os lábios estavam arroxeados e contraídos pelas mordidas que dava de cinco em cinco minutos. Estava ali por duas horas e mantinha-se firme, imóvel. e indefinidamente abandonada. Talvez por não conseguir sair graças ao frio e fome que tudo permanecesse daquele jeito. De qualquer maneira não seria inteligente sair. Era meio magra e aparentava certa fragilidade, apesar de parecer mais velha do que seus quase treze anos. Um dos braços magros de animal machucado entrou na mochila. Encontrou o pacote de biscoitos e teve certa dificuldade de tirá-lo lá. O último pacote. Roeu devagar cada biscoito. Tinham de durar.


Um raio cortou o céu. Encolheu-se mais. Frio. Centenas de agulhas invisíveis espetavam seu corpo e a aflição aumentava. a dor aumentava. Trovões. A chuva estava piorando e a água carregava muito lixo pela rua. Ouviu um barulho esganiçado e sentiu um arrepio na espinha. O barulho aumentava como estivesse cada vez mais perto. Outro raio cortou o céu, viu uma silhueta e soltou um gritinho assustado. O contorno respondeu com outro barulho esganiçado. Sentiu o coração disparado. Fechou os olhos com força. Com toda força possível. Esperava que qualquer fosse o mal que lhe acontecesse, que passasse rápido. Ou que o cérebro bloqueasse a dor, o trauma, como todos os casos extremos noticiados. Lembrou dos piores casos possíveis, logo agora esse tipo de merda vem na cabeça. O silêncio ficou pesado mais uma vez. Talvez fosse sua imaginação. Alguns segundos passaram.


Sentiu algo tremendo junto dos seus pés. Segurou o segundo grito colocando as mãos na frente da boca. O que faria caso fosse um animal selvagem? E se fosse um assaltante, estuprador, seqüestrador, tarado? Ou um pedófilo filho da puta? Ou tudo junto? O medo finalmente apareceu. E era visível. Mordia os lábios com tanta força que sentia gosto de sangue na ponta da língua. Levantou o rosto com cuidado, sem movimentos bruscos. Outro raio cortou o céu.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pequenas Canções (parte 5)

Saiu impassível e caminhou até o almoxarifado. Pegou uma caixa de papelão vazia e  foi até o cubículo. Ligou o computador e apagou algumas bobagens. Trancou mais uma vez as gavetas e saiu sob os olhares dos curiosos. Por mais discrição que houvesse a situação era óbvia. Havia poucos curiosos. Alguns estavam concentrados em seus trabalhos. Ou jogando campo minado. Olhou uma última vez pro gerente de departamento. O sorriso irônico extremamente convidativo. Foi até a porta do elevador e ouviu risadinhas. Colocou a caixa ao lado da porta e deu meia volta. Já estava demitido, tudo que acontecesse seria por sua conta. Caminhou a passos largos e tomou impulso. Cruzado direto no rosto do escroto. Em cheio. Arrebentou-lhe os óculos. Teria lhe partido o nariz também, mas já era partido. Mas as histórias eram verdadeiras, quem diria. Levou um na boca do estômago e urrou de dor. Defendeu o segundo que seria bem nas costelas, ouviu gritinhos empolgados vindos da platéia. O terceiro, um gancho medonho. Defendido uuuuuh. Numa brecha mínima falseou o corpo pra um lado e acertou uma joelhada na barriga do adversário. O quarto golpe recebido não foi em cheio, mas acertou-lhe o rosto. Que impacto desgraçado. Quase-nocaute.


Decidiram apartar. A barriga doía. A bochecha direita latejava e estava meio tonto. Respirou fundo, livrou-se dos ex-colegas de trabalho, pegou a caixa e entrou no elevador como se nada tivesse acontecido. O sobrinho babaca estava se vangloriando por ter, supostamente, ganho a briga. Esperou vinte minutos pelo próximo ônibus. Como tinha valido a pena... Provavelmente o desenho do punho no dorso. E o rosto inchado e provavelmente roxo. Mas sorriso no rosto. Quando chegou em casa, subiu as escadas com o maior gosto do mundo. Peito estufado sob os olhares de alguns vizinhos. Abriu a porta e jogou as coisas no canto. Tirou a roupa. Foi até a cozinha e abriu o uísque que havia ganhado. Era extremamente vagabundo. Talvez isso tornasse a situação ainda melhor.


Jogou as roupas numa bacia. Tomou um gole. – Putaquepariu, que gosto de merda. Dá pro gasto. Tomou mais um gole. O gosto continuava ruim. Por mais que fosse agradável beber aquilo e balançar o pinto pela casa, precisava muito de um banho. Desejava um banho. Merecia um banho. Era um herói. Um brinde ao herói desempregado. Repugnante. Colocou a tampa de volta e guardou o uísque e todo ressentimento no armário. Easy living.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pequenas Canções (parte 4)

- Ouça, hm, você é um dos mais jovens a trabalhar aqui. É um garoto, praticamente. Tem uma vida inteira pela frente. Me diga, garoto – puxou uma pasta da gaveta – você tem mulher?
- Hm, não senhor.
- Digo, não exatamente casado, mas noivo ou namorando? – abriu a pasta, tirou uma ficha, passou os olhos.
- Não senhor.
- Ahm, o senhor é homossexual? Sua ficha não diz nada sobre isso. Não que isso signifique algo de bom ou de ruim. Veja, garoto, não tem problema em gostar de pau. Somos todos colegas de trabalho. De trabalho. repetiu enfaticamente.
- Não senhor,  só solteiro.
- E bicha?
- Não, hétero.
- Sei. Bom, como eu tava dizendo... Você é um rapaz com vitalidade, jovem, provavelmente encontrará uma boa moça, casará, terá alguns meninos, meninas, ou os dois. E vocês terão um cachorro, essas merdas. Ou gatos. Sei lá.
- Senhor?
- Diga.
- Cometi algum erro?
- Bem, não, não, seu trabalho é muito bom. Eficiente e tudo mais. Poderia até lhe dar um aumento, sabe?
- Mas...?
- Aí é que está. Tem a crise.
- A crise?
- É a crise, a crise. E infelizmente ela tá ameaçando a empresa.
- Entendo.
- Bom, tivemos de remanejar muitas coisas, recalcular custos, reduzi-los... Você deve até ter deparado com algum serviço direcionado a isso.
- Hm, não lembro bem.
- Certo. Garoto... Bem que poderia te enrolar falando um monte, mas prefiro chegar ao ponto.
- Senhor?
- Uma das maneiras de enfrentar a tal crise na empresa foi redirecionando gastos. Por exemplo, as escadas estão com alguns degraus partidos e o corrimão está solto. E não pudemos pagar a checagem periódica do sistema elétrico do elevador. Tivemos de tomar algumas medidas drásticas pelo bem da companhia.
- Estou demitido?
- Isso.
- E quem mais?
- Por enquanto só você.
- Sei
- Peço pra que não tenha nenhum tipo de ataque. Controle-se. Quebrar as coisas do escritório causaria alguns prejuízos pra empresa. E estamos apenas com um dos seguranças, ele demoraria um pouco pra chegar até esse andar e... bem, acho que você entendeu.
- Não se preocupe, vou recolher minhas coisas discretamente.
- Mas olhe, não fique assim, daqui pro mês mais cabeças irão rolar.
- Isso me deixa aliviado – pensar que alguém que dependia mais ainda do salário estaria desempregado era uma idéia reconfortante. Especialmente alguém com filhos.
- Obrigado pela compreensão, garoto. Escute, seu salário do mês será depositado normalmente e você receberá a indenização. Hm, em partes.


Silêncio constrangedor. Estendeu a mão. Cumprimentaram-se.

- Boa noite.
- Boa noite, garoto. Boa sorte.
- Obrigado.
- Ahm, mais uma coisa. abriu o armário no canto da sala.
- Hm?
- Gostei de você garoto. Considere um presente de despedida.


Pegou a garrafa de uísque com uma das mãos e cumprimentaram-se mais uma vez.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Na beira do mar

As fagulhas e os pedacinhos de brasa flutuando no ar eram como insetos pequenos voando até desaparecer completamente, vaga-lumes que decidiam brilhar com força total antes de sumirem e sua casca se torne fria e se misture ao resto das coisas frias e sem vida que evaporam de um jeito imbecil pelo ar. Eu estava ali olhando pra língua de fogo subindo e descendo. pras línguas de fogo. Quando eu era mais novo toda a idéia de luau era extremamente atraente e empolgante, até que eu realmente descobrisse que as coisas não se parecem tanto assim com os filmes que eu costumava ver. E os luaus se tornaram uma coisa qualquer. Mas vez ou outro eu ainda pra algum.


Não com a mesma motivação, claro. Uma das melhores coisas que deve existir em um luau é a combinação dos fatores que quase ninguém percebe. Só os bêbados, os deprimidos e os bêbados deprimidos. Não era e ainda não é normal de se fazer tanto frio, mas eu também não tinha nada contra a noite daquele jeito. O mar estava mais distante e recolhido em maré baixa, e seu barulho pesado ecoava como a presença de uma legião de fantasmas de espuma escondidos em algum lugar. As nuvens cobrindo o pedacinho visível da lua. O vento fazia questão de maltratar até as bochechas como se estivesse cortando o rosto com uma lâmina fina e o desejo mais filho da puta de tortura.


Eu não estava bêbado, mas estava bebericando alguma coisa horrível, afastado do grupo maior e olhando pra fogueira. Na verdade eu estava sentado do lado dos bêbados derrubados, dos completamente fodidos e acabados que estavam dormindo ou prestes a vomitar ou prestes a entrar num coma alcoólico. Uma garota sentou do meu lado. Pediu um gole do que eu estava bebendo. Era sobrenaturalmente bonita e tinha o par de olhos verdes mais bonitos que eu já havia visto.


Depende. Você vomitou?
Não. Você não me daria caso eu tivesse?
Daria. Só que pegaria um copo.
Esperto.
Não. Só prático. entreguei a garrafa, ela entornou, respirou pesado por uns dois segundos e devolveu a garrafa.


Que merda horrível.
Eu sei. tomei um gole e estiquei as pernas na areia.
Serve pra esquentar pelo menos.
Acho que sim.
Você não é muito de falar, né? pegando a garrafa e tomando mais um gole.
Até que sou. Mas acho que não tô numa de falar.
Acho que te entendo.


Depois de pegar a garrafa mais uma vez nos apresentamos e nos mantivemos em silêncio por algum tempo. Tomei um gole doído e demorado. Um filete de suor desceu pela testa.


Caralho! Fez efeito!
É?
Caralho que sim. puxei as mangas do blusão e desabotoei a camisa que estava usando por cima.
Deixa eu ver. puxou a garrafa das minhas mãos e fez o mesmo. Limpou as lágrimas dos olhos e abriu o casaco – Porra!
Eu disse. rimos


Conversamos mais, até que a merda toda fizesse mais efeito e até que, pelo menos não sobrasse mais nada pra beber.


Ao ponto que bebíamos e o frio desaparecia nos livrávamos de algum jeito do agasalho. Ou puxando as mangas, ou desabotoando ou até tirando. Ela estava só com uma blusa curta e a calça jeans. Eu só com a camisa mal abotoada e as mangas puxadas até o começo dos antebraços. Bebi um gole mais longo e cuspi um pouco no chão.


Ela riu, mordeu os lábios e fez o mesmo. Depois desabotoou, puxou o zíper e se livrou da calça e da camisa. Há momentos em que nem mesmo estar alcoolizado serve de alguma porcaria pra determinadas situações. Todo homem sabe como é difícil ficar de pau duro estando bêbado. A concentração necessária, desviar o fluxo sanguíneo, sentir as pernas dormentes e ficar um pouco tonto só por uma ereção. Não tinha sido necessário. Assim que ela prendeu os cabelos e rebolou os quadris na calcinha e sutiã rosa claro à luz da fogueira, os deuses da ereção entraram em ação e fizeram valer anos e anos dos milênios antepassados e esquecidos de paganismo.


Ela riu e andou até que só uma metade do corpo ficasse iluminada. Sorriu e arrumou o cabelo mais uma vez.


Você vem?


Meu corpo reagiu automaticamente, fiquei de cueca e a ouvi rindo enquanto corria em direção ao mar. Joguei as roupas, juntas, em cima das coisas de um amigo e corri também. Eu não estava mais bêbado e muito menos deprimido. Só com a barraca armada e correndo no escuro até a água, rindo da situação e tentando enxergar alguma coisa na minha frente. Quando finalmente cheguei lá e entrei na água o mais rápido que pude e a ouvi rindo. Procurei por meia hora dentro d’água até que o pau baixou e eu me cansei da brincadeira. E parei de ouvir a risada, claro.


Voltei até a fogueira arrastando os pés, tremendo e batendo os dentes de frio. Que grande merda. Pelo menos o frio não fazia tanto efeito, por ter que dividir atenção com a decepção e o nervosismo. Coisas assim acontecem, verdade. Mas quem conhece coisas assim não deveria cair numa merda dessas. Continuei caminhando até a luz da fogueira que tremia distante. Eu não entendia bem o porquê dessas coisas acontecerem. Talvez ela estivesse junto do resto do pessoal, rindo da minha cara. Talvez fosse armação de algum amigo. Não fazia muito sentido além do sacanear por me foder o juízo. de graça, claro. O grande problema foi lembrar o nome da garota. Afinal, eu teria de perguntar pra alguém. Essas merdas preocupam. E se ela tivesse se afogado ou alguma merda? Percebi a seriedade da situação e saí correndo, vesti minhas roupas e perguntei pra todo mundo sobre.


Ninguém lembrava ter visto nenhuma garota com aquelas descrições. Bêbados inúteis de merda. Peguei um dos pedaços de madeira da fogueira e improvisei uma tocha pra procurar melhor. Saí correndo mais uma vez em direção ao mar. Tinha de lembrar o nome da garota, tinha de gritar por ele, chamá-la e esperar que nada tivesse acontecido. Quando cheguei perto d’água percebi que o pedacinho da lua havia reaparecido e as nuvens haviam desistido de encobri-la. Entrei n’água até os joelhos e comecei a andar desesperado. Pelo menos até lembrar o nome da garota e entender o que realmente havia acontecido.

Ouvi o som da risada de Nereida mais uma vez.

Pequenas Canções (parte 3)

Abaixou e puxou a canga que estava enrolada nas pernas, flamulando azul. Alguém vinha em sua direção. Entregou a canga à garota.


- Obrigada.
- Ahm, só veio voando. Não foi nada.


Ela sorriu apertando os olhos e depois virou e saiu caminhando. Ele retribuiu meio sem jeito. Cabelo preto. pintado. Olhos castanhos enormes e um corpo bonito. Nada de mais, nada de muita coxa, nada de muito peito, nada de muita bunda. Era proporcionalmente charmoso. A pele provavelmente era macia. Estava com a parte de cima do biquíni e saia que ia até a metade das pernas. Passou a mão nos cabelos e tragou um cigarro invisível. Baixou a cabeça. Enterrou os pés na areia e talvez fosse melhor deixar pra lá. Alguns minutos se passaram, o mar tinha barulho interminável de espuma.


- Escuta, quer um cigarro? levantou a cabeça. e fez que sim.


Ela tirou dois da bolsa junto de um isqueiro pequeno e quadrado enquanto ele caminhava em sua direção. Pôs na boca, protegeu com a mão e ela acendeu. Tragou com vontade e sentou. A merda toda que havia pensado sobre o vício deveria de ser reconsiderada. Conversaram até o fim do horário do almoço. Guardou o número no fundo do bolso. Prometeu ligar. Despediu-se e foi embora.


Limpou os pés, calçou-se e voltou pro escritório. fumando. Hm, agora teria de se limitar nessa de fumar. O grande problema é que nunca comprava. O universo conspirava continuamente pra que todos lhe dessem quantos quisesse/precisasse. Camisa pra dentro da calça. Pisou na bituca. Bateu o ponto, entrou no elevador. A música continuava deprimente, as correntes continuavam com o barulho estranho. Mas era mais suportável agora. Terceiro andar. Escovou os dentes e lavou o rosto. Sentou-se, recolocou a gravata. Eram dezoito fichários. Certo, até o fim do expediente. Trabalhou compulsivamente até terminar tudo. Poderia até sair mais cedo. Se todo porre levasse à praia. Se toda praia levasse a garotas com cigarro e todo cigarro levasse a um número de telefone, teria de estocar bebida por um bom tempo. Isso garantiria a salvação de suas tardes de trabalho.


O gerente do departamento foi até o cubículo. Usava óculos grossos. Acima do peso, ar de prepotência, cabelos ensebados. E tinha algumas cicatrizes. Voz irritantemente rouca e a cereja no topo do bolo era seu jeito completamente escroto. Um desses tarados enjaulados que socam uma no escuro pras todas as coisas mais nojentas que existem. Tinha um grande nariz torto, quase um desvio. Diziam que antes de começar no escritório era pugilista. Por alguns problemas teve de largar os ringues. E daí as cicatrizes e o nariz. Diziam.


- O chefe quer te ver. E tem de ser agora.
- Certo.
- Sou seu superior, moleque. Responda adequadamente.
- Sim senhor.
- Ele tá te esperando, anda.
- Hm, ok... senhor– não podia responder como queria. Independente do que diziam ser verdade ou não, apanhar seria o mínimo. Podia ser demitido. O escroto era protegido do chefe. Sobrinho dele, na verdade. – Estou indo, senhor.


Organizou a mesa, desligou o computador e trancou as gavetas. Levantou-se, alinhou a gravata e passou os cabelos pra trás com as mãos. Foi até onde acabavam os cubículos, em frente à porta envernizada. Bateu de leve algumas vezes, esperou um pouco e ouviu a voz de dentro que dizia pra que entrasse. Entrou e empurrou a porta de volta.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Invenção em 71/2

Faz algum tempo
e algum tempo nunca foi o suficiente. Algum

todo tempo do mundo. Antes

enquanto restavam soluços
todos os soluços do mundo eram convincentes e de todas as formas
o ar escaparia repentinamente.

Antes enquanto toda a invenção era abrupta e passageira

e o presente não escoasse devagar e dentre todos
os contratempos o silêncio brotasse

seco e enluarado

respirando fundo
em setenta e um por dois

soluçando tristeza ao
meu lado.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Argamassa

A parede me perdeu aos poucos
e todas as pedras tornaram-se

criptas e covas rasas. Aos poucos

a permanência tornou-se inconstante
e a presença da alguma coisa perdeu

seu sentido. O algum lugar não é
nunca mais agradável. A imobilidade
machuca e destrói. É

imensamente

preciso não parar.
Não há paredes na estrada.

sábado, 1 de janeiro de 2011