terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sinceridade

Não sabia exatamente o que fazer, ao menos conscientemente. Decidiu deixar tudo por conta de seus instintos, seu corpo guiaria sua mente, suas intenções. Talvez fosse a primeira vez dela também – ou não. Sua cabeça ameaçava explodir, seu corpo estava prestes ao despedace – se entregue. Quem sabe caso analisa-se melhor a situação, repensaria – se entregue – no que fazer, ou não fazer. A cidade, aos poucos, corrompia a madruga, era possível ouvir seus gemidos, seus grunhidos. Não seria nada demais, ou fosse escandaloso – se entregue. Não adiantaria lutar, resistir seria bobagem. Baixou a guarda, ouviu a voz com mais clareza, ofegante, quase que ao pé de seu ouvido. Mas estava dentro de si. Se entregue.

As venezianas do banheiro impediam que a cidade observasse qualquer detalhe do que se passava ali. Não era necessária a presença de mais ninguém, no entanto. Olhou-se no espelho, apoiou as mãos na pia. Tinha cabelos longos, livrou uma das mãos do apoio, reuniu as mechas, tufos e fios, enrolou-os e prendeu com um elástico, antes abandonado ao lado da torneira, agora separava os cabelos da face. Ainda olhava-se no espelho, notou as maçãs do rosto. Notou as falhas, os olhos, as olheiras, a boca, os lábios, o queixo, a cicatriz da infância. Tocou-os lentamente, passava seus dedos, sentia a textura da existência, da sua existência, que por algum motivo parecia distante de si.

As roupas estavam no quarto, no chão. Ela também. As roupas dela também. O chão abraçava todos, o chão queria, mas não poderia engolir nada além da gravidade dos corpos nele jogados. Respirava lentamente, de um jeito ansioso. Talvez fosse sua primeira vez. Sua existência, por algum motivo, parecia distante de si. A ponta de seus dedos tocava sua face, mas era como se estivesse dormente, latência. Olhou seu corpo. Não era um corpo escultural, muito menos o que pudesse dizer bonito. Mas inspirava alguma coisa. Era estranho, mas sim. Inspirava sensualidade, charme pelo simples fato de existir. Mordeu os lábios. Tocou a maçaneta, fria. Seu corpo, antes dormente, agora estava intensamente sensível.

Uma descarga elétrica percorreu seu braço, chegou à espinha. A maçaneta fria havia eriçado os cabelos de sua nuca. Sentiu, de forma inesperada, vontade de se masturbar. Não, espere mais um pouco. Decidira seguir seus instintos, sua verdadeira voz, que lhe sussurrava ao ouvido, por dentro. A mão já estava no fim da barriga. Pressionou os dedos contra a palma, girou a maçaneta. Abriu a porta, o ranger revelou a passagem para o quarto. Lá estava ela, no chão. Ela e as roupas abandonadas, sem vida. Sua respiração tornou-se mais profunda, ainda sentia vontade de masturbação. Pressionou os dedos ainda mais. E ela ainda estava lá.

Sentiu o sangue fluindo por todo corpo. As cortinas, brancas como ela, debruçavam sobre o espaço, chacoalhavam, acusavam a presença do vento. Olhou em seu rosto, um sorriso malicioso. Como não bastasse sua nudez e a noite fria, o sorriso malicioso. Não, vá devagar. Custosamente, obedecia. Passo ante passo aproximou-se. Ela estava deitada sobre um lençol branco, longo, talvez não achasse fim. Inclusive, usava uma das beiradas pra encobrir as pernas. Inclinou o corpo, lentamente deitou-se ao lado dela, de sua pele macia, e por algum motivo, sua existência parecia distante de si.

Hesitou por um instante, não se segure, não o fez. Esticou o braço, ela fechou os olhos, mascarou o sorriso em satisfação, movimentou-se por debaixo da beirada de lençol, os contornos tornaram-se significativos. A mão encontrou um seio, a respiração dela soou ofegante, um quase-gemido abafado. Não se segure. Com a outra mão, agarrou-a pela cintura, firme. Apertou seu corpo contra o dela, não havia resistência. Notou os mamilos endurecidos, a boca entreaberta, a respiração mudada. Não se segure. Prendeu-a mais forte em seus braços, pressionou sua cintura, beijou-lhe, agarrou sua boca com a própria, penetrou seus gemidos e abraçou-lhe a língua, uma curta convulsão no corpo dela. Beijou-a devagar, mas intensamente. Ouvia gemidinhos dentro de sua boca. Mordeu seu lábio e soltou seu corpo por um instante. Ela trançou seus braços por sua nuca, puxou-lhe, submeteu boca, à boca, percorreu sua língua.

Não precisava mais de avisos, de significativas advertências, sabia exatamente o que fazer sem ao menos sabê-lo. Tomou o peito em sua mão, agarrou de leve, pressionou, manteve o mamilo entre os dedos, imprimiu-lhe certa pressão, sentiu o corpo dela contorcer de tesão, a boca escapou do beijo e gemeu baixo. Roçou o pescoço com os lábios, respirava firmemente, o ar quente fazia com que ela ficasse mais arrepiada, contorcesse mais. Com a ponta da língua percorreu todo o pescoço, várias vezes, até que pudesse sugá-lo, mordê-lo, sentir as vibrações do corpo dela e as do seu. Foi com a mão até o outro seio, contornou-o com os dedos, em espiral, até que apertasse o mamilo, endurecido ao centro. Pressionou seu corpo com mais força, um novo espasmo, mais gemidos que esvaeciam. Desceu pelas saboneteiras, roçando os dentes na pele.

Crava seus dedos em suas costas, ela aprova, geme mais forte. Arranha com suas unhas curtas, deixa marcas vermelhas em sua pele branca, ela geme, se contorce, pede mais sem ao menos proferir uma palavra. Sua língua desce ao encontro do seio, mas pára. Ela não entende, pensa em perguntar, o que houve. Não, não houve oportunidade. A mão das costas agarrou sua nádega, apertou, ela adora, ri desconcertada. A língua lambe o seio, a boca chupa a carne e em espiral aproxima-se do rubi cravado na pele. Respira firme, sabe o que está fazendo, o ar quente que expele faz com que ela contorça mais e mais. Não há pensamentos, ações. Por algum motivo, sua existência parecia distante de si. O gosto daquela pele era incrível.

Tocou o mamilo com os lábios, ela provou parte do êxtase, gemeu mais forte, agarrou-lhe as costas e cravou as cumpridas unhas. Não havia porque se segurar, e nem mesmo a voz se fazia presente. Mordiscava rapidamente, lambia, sugava, o corpo perdia-se sobre o lençol, as unhas trilhavam o caminho nas costas. Agarrou a bunda com maior firmeza, cravou os dedos na nádega, envolveu-a com fome, com desejo. Em espiral, repetiu o mesmo no outro seio, sugou-lhe com força, com tesão. Queria mais. Queriam mais. O corpo pedia mais, o lençol pedia mais, a noite pedia mais, as venezianas do banheiro pediam mais, o chão pedia mais, as roupas pediam mais. Os corpos pediam mais.

Com a outra mão, agarrou-lhe a coxa. Desceu sentindo as costelas e a pele com o queixo, logo em seguida provocando o corpo com a ponta da língua, fazia de labirinto e se perdia consciente. Vagava, mordeu de leve, ela riu, ela gemeu, ela não agüenta mais. Agarrando-a, agora, pelos quadris, puxa com a boca o lençol, lentamente. O lençol branco, de alguma forma inexplicável, mais branco que sua pele, desliza suave por entre as formas. Finalmente, nua. Por alguns instantes observa. Lê sua pele, suas pernas, as coxas. Nota os pêlos, roça uma das mãos, sente na palma, ela tem um espasmo intenso, contorção de todos os músculos do corpo. Abriu suas pernas lentamente enquanto lambia suas coxas, deslizava para entrecoxas. Subia à virilha, via a boceta. Não havia querer, só o fazer. Não precisou querer tocá-la, simplesmente a tocou.

Comprimiu os dedos, roçou suavemente, ela perdeu o ar por alguns segundos. Afastou-lhe os lábios, estava molhada, loucamente molhada. Com seu indicador percorreu o caminho até o clitóris, ela gemeu e logo perdeu a voz. Mordendo-lhe a coxa, afastou mais as pernas. Queria sentir seu gosto, gosto de mulher, gosto de boceta. Aproximou-se, respirou firme e expeliu o ar quente nos lábios afastados, o coração dela explodia para fora do peito, soltava gritinhos, e gemidos, e contorcia minúsculas partes do corpo, até então desconhecidas. Encostou os lábios nos lábios, usou-os no afastamento, lambeu. Ela não agüentou, colocou as mãos em seus cabelos, puxou. Não era satisfação completa, queria mais. Queriam mais, todos e os dois.

A língua encontrou o clitóris, deslocou-se por cima, ela gemia com a voz que lhe restava. E o gosto de boceta lhe preenchia, como que uma nova existência, real, segura, diferente de qualquer outra que já tivera. Chupou por entre os lábios, pressionou a língua, expeliu o ar quente. Mal começara e ela estava a ponto de gozar. Seu corpo tremia. Sua voz não tinha mais controle gemia loucamente. E ali, experimentando o gosto de mulher, finalmente sentia-se bem. E só de lhe chupar, de lhe penetrar com a língua, estava bem. E por algum motivo, que não importava mais, tanto ao espelho ou à maçaneta que deixara pra trás, sentir o corpo de outra mulher a fazia real.

2 comentários:

  1. "Ostensivamente pornográfico". Ficou melhor do que o que eu imaginei.

    ResponderExcluir
  2. Demorei pra perceber do que realmente se tratava e o porquê da existência dela parecer tão vaga, mas quando captei sobre o que eu estava lendo, achei realmente... fantástico.
    Parabéns, Felipa, eu adorei.

    ResponderExcluir