Sou o anti-romântico,
digo que amo
sem dizer que amo.
Divago sobre Bruxelas
e avenidas, ruelas,
coisas absurdas e vadias.
Sentimento sem os 'estes',
fizestes, chegastes, deixastes,
calastes, enrolastes, enchestes
língüiça em alexandrinos mal-amados.
Sou o anti-romântico
icógnito do desejo,
revelo a paixão não
em estrofes quilométricas, mas no beijo
das línguas que se abraçam
na sinceridade inexata de um filme vagabundo.
Não faço amor,
trepo, transo, faço sexo
bebo e falo tríplices trupes
sem nexo; revelo:
meus decassílabos são contados
a partir da vigésima sétima casa decimal.
Sou o anti-romântico,
amo nos seios, na bunda, nas coxas, entrecoxas,
não tenho medo de dizê-los
pêlos, vagina, cabelos.
Anti-simétrico
anti-estético
anti-estático
anti-patético
dos que amam na intensidade de um palavrão,
proferindo a dor angustiada na falta
do bem-amado,
caralho.
E estamos no século vinte e um,
e ainda preferem o lirismo exacerbado, caralho.
Sou a favor
do amor sem frangalhos,
sem vertentes, estrepes,
caixa de marcha, cigarro,
caralho.
Sou o anti-romântico,
e amo desempedido,
não preciso me segurar:
poesia é o orgasmo literário
dos que gozam intensamente.
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