terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Então é Natal.

Natal. Não, não era bem Natal. Mas sim a época. Não importava, sinceramente, não importava. Desde a primeira peça de decoração no adiantamento das lojas, aos panfletos, às luzes, ao mês, à semana, à véspera, ao enfim Natal. Detestava tudo. E detestava o bico que arranjava todo ano: Papai Noel de shopping. E caso precisasse contar a alguém, explicar, explanar, o faria de uma só forma, desdém. Ah, só me enfiar dentro de uma roupa com cheiro de estofado de sofá e um gorro mofado. Meio quilo de talco na cara e uma cara de bobo alegre. Nossa! você é modelo? Quase. Esqueci da barba postiça com cheiro de queijo, sou Papai Noel de shopping.

Era desses que sentava em meio à decoração, o tempo passava, crianças dos mais variados tipos sentavam em seu colo, pré-adolescentes desocupados tiravam fotos e o dia passava devagar. Sempre se surpreendia com a variedade de crianças que existiam. Brancas, amarelas, negras, vermelhas, algumas meio azuladas. Muitas hiperativas, algumas magras, muitas pesadas. Sempre tinha de usar parte de seu pagamento pra dar um jeito nas pernas e nas costas. Pulavam, esperneavam, flatulavam, gritavam, aquietavam. Todo ano alguém melava as calças e vomitava. Típico. Por costume e preparo, carregava um segundo par de calças vermelhas e do resto da indumentária. E um frasco de perfume no bolso. Vagabundo, claro. Mas válido. Em síntese, fazia com que detestasse mais ainda o Natal.

Pelo bem de sua sanidade, desenvolveu técnicas de auto-distração. Algo como imaginar o seu lugar feliz, mas mais duradouro e virtuoso. A lei era pensar. Pensar em qualquer coisa, aleatoriamente, freneticamente, inesgotavelmente, inexoravelmente, incessantemente. Pensar, pensar, pensar, pensar, pensar. E através do treino mental, até o mínimo objeto desencadeava o big bang irrefreável de pensamentos. Um piso rachado era motivo pra pensar no grande terremoto que assolou a China, em comida chinesa, em filmes chineses, em filmes do Bruce Lee, em filmes de luta, em luta das classes, em Karl Marx e... Voltava à figura de um velho barbudo, gordo e fedorento. Precisaria de outra ‘inspiração’.

Buscando distração, leu um livro sobre pinheiros, aprofundou-se no assunto. Observava diferentes réplicas e autênticos, identificava os tipos, as características, o preço, o tempo que levou para desenvolver-se, a espécie da planta, o nome popular, popular, festa popular, enfeites. Tudo convergia ao Natal. Mozart uma vez quase foi pra fogueira, ainda jovem, graças a uma marcha natalina. Ou foi Chopin? Não, não Mozart. Mas sempre me lembro da Marcha imperial, aquela do Darth Vader. Pã, pã, pã, põ, pã, pã... Ok, chega. Luke, I’m your father. Mas então lembrava dos presentes de Natal. DVDs em promoção, Guerra nas Estrelas estava em promoção. Maldição.

Observava os enfeites, bolas redondas coloridas, brilhantes. Pareciam planetas. Descobriram que Plutão não é um planeta, mas sim um satélite de um suposto planeta que foi destruído. Nossa! então somos só alguns planetas. Mas plutão nunca fez diferença. Plutão, plutão. Nome engraçado! lembra glutão. Recebia crianças no colo de forma mecânica. Supostamente as ouvia, dava um doce, tratava-as bem e se mantinha distante. Seu lugar feliz era o hiperativismo mental.

Seria hilário se eu tirasse a roupa, pintasse minhas bolas de vermelho cintilante e me escondesse em uma árvore. E quando alguém chegasse perto, saísse de lá e gritasse “Essas são as bolas de Natal, feliz festas”. Seria doentio. Mas engraçado. E uma criança sentara no seu colo. Por um instante a linha de raciocínio sem sentido parou. O que fazer? Dar atenção. Mas estava cansado, dolorido, semi-emburrado. Qual seu nome?

Jesus. Ai, ironia. Mas é com G. Gesus! Isso. Certo, garoto.... E o que quer ganhar de Natal? Paz na terra. E um boneco do Max Steel? Com espada laser? Certo, certo. Como é o nome da sua mãe? Maria. Ta de brincadeira? Como? Nada, Gesus, nada. Não me diga que o nome do seu pai é Espírito Santo. Não, é Maicoun. Mas pensando bem, tinha algo do natal que teria a ver com Marx. Afinal a cor vermelha significa alguma coisa. Papai Noel? Seria uma conspiração do proletário? Papai Noel? Dizia o garoto com lágrimas nos olhos. Mas então o Papai Noel é um agente duplo? PAPAI NOEL? Que é, moleque? Acho que eu fiz xixi...

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