Um casaco grosso de lã, vermelho e desgastado. A gola, grossa e quase sufocante, envolvia seu pescoço. Era algo aconchegante, naqueles tempos, naquele frio. Ainda sobre o casaco de lã, vermelho e desgastado, porém de gola materna, uma espécie de jaqueta azul escura. Reforçava qualquer dúvida deixada pela lã, antiga. Um short que pendia nos joelhos, por cima, calça jeans desbotadas. Sentia-se confortável no velho jeans que sempre usava. E nos pés, meias cobriam até o tornozelo, delimitavam o contato ao tênis. Apesar do frio, estava sentado no píer, com um dos pés próximo o suficiente da água, pra lhe gerar dúvidas do toque, ou não.
Pensava em tantas, tantas muitas coisas, mas em si, nada definido. As luzes do céu estavam em dúvida entre o semi-crepúscular sadio e o róseo deprimente pôr-do-sol. Vagueava em palavras, divagava. Milhões de palavras, milhões de pensamentos, nenhuma exatidão. Arqueava as costas de vez em vez, provavelmente tentando encontrar uma posição mais adequada. Respirava lentamente, seus cabelos negros, curtos, esvoaçavam como curtas rabiolas das pipas, uma pequena mecha caía-lhe sobre o olho, a mão esquerda saía do bolso, ao seu encontro. Voltava ao topo, esvoaçar ao vento. Respirava lentamente. Ainda sentia saudades dela, sua irmã. Tantos anos se passaram, a falta continuava tão recente quanto fora, tanto tempo atrás, próxima.
Seu rosto estava cansado, seu espírito mal estivesse ali. Não, estava sim. O ar que lhe saía das ventas, a dióxido congelado, o escape visível, era intenso. Por entre seus pensamentos, um monólogo incansável, também sem definição, sem sentido. Tirou as mãos dos bolsos, da jaqueta azul escura, de perto do grosso casaco de lã vermelho e sua gola maternal quase sufocante. Esticou os braços acima da cabeça, tateou como esquecesse o toque do ar, tentava encontrar as mãos, as encontrou, espreguiçou-se olhando ao horizonte. Estalou os dedos, as mãos, os braços, o pescoço. Voltaram, por fim, aos bolsos.
Sob o píer um lago de águas calmas, negras, de curto reflexo. Não fazia frio suficiente para que aquelas águas estivessem paralisadas, adormecessem, hibernassem no vazio da compressão absurda dos átomos. Congelassem. As margens não eram visíveis, tanto pela espessa bruma que inundava os olhos, quanto à falta de interesse de delimitar o que, naquele momento, não deveria ser delimitado. Em meio à torrente de pensamentos e palavras, uma lembrança. Uma memória, simples, curta. Não, não era uma memória qualquer, apesar de tão simplória.
Muitos anos antes, quando ainda era uma criança, nadara naquele lago. Não, não era inverno, não usava agasalho, não bebia cerveja, não ouvia Bob Dylan, não fazia sexo. Mal sabia o que era a maioria daquelas coisas, e caso soubesse, as ignorava. Não fazia sentido dar valor, ao que naquela idade, era por demais abstrato. A água fria coexistindo com sua pele, o céu azul perolado tomando posse de seus olhos de menino bravio. Isso e os mergulhos em busca das mil léguas submarinas. Naquele tempo, as frutas do caminho de casa estavam maduras, as flores, não todas, emergiam da escuridão de seus próprios caules, de suas próprias folhas.
Hesitou. Fechou os olhos, as mãos esgueiraram bolso afora, estava, agora, de pé. Lentamente permitiu o contato da visão com o invisível, da bruma que permeava o fim, e tornava-o indefinível, indescritível. Seus olhos contemplavam o universo à beira do lago. Os pensamentos pararam, o monólogo cessou. Seu espírito estava a lhe sair, talvez. Não, ainda estava ali. Ou melhor, tomou-lhe conta das funções, todas. Sua fisiologia era mais aquém que nunca, sua vida era inconsciente. Respirava lenta e pausadamente, fumaça tenra, vapor d’água, o dióxido era quase invisível, semi-indistinguível. Cerrou os olhos. Seus braços moviam-se sozinhos. A jaqueta caiu na madeira molhada, seus tênis estavam de lado, os meiotes sobrepostos logo ao lado. A cabeça sumiu por dentro da gola, os braços ergueram a lã. Milhões de alfinetes penetravam e percorriam seu corpo, o short não adiantava de muito. Jogou de lado. Abriu os olhos e contemplou a superfície do lago. Não via seu reflexo, não havia luz suficiente na existência de um espelho. Cerrou os olhos mais uma vez. Timidamente, dois passos para trás. Impulso, salto, mergulho.
Manteve-se submerso por algum tempo, acostumar-se à escuridão que lhe envolvia tenramente. Não, não era escuridão. O medo estava por debaixo dos meiotes, lembrou. Retornou à superfície. Olhou ao redor. Não havia píer, não havia margem. A bruma corrompeu-lhe os olhos. Mas o desespero estava no bolso esquerdo da jaqueta. Cerrou os olhos. O frio não lhe tirava mais o ar. Seus batimentos estavam tranqüilos mais uma vez, como de tantos anos atrás, como em algumas flores tímidas que arqueavam da sebe altitude, tocavam de leve o ar que constipava folhas.
A respiração atrasou dois segundos, o coração pulou uma batida. Qual a profundidade do lago? Não lembrava. Ou nunca soube? Tomou fôlego. Mergulhou, sobrevoou na escuridão gélida, desceu na semi-horizontal. Não descera na diagonal, o ângulo estava por demais perto da horizontalidade, sem ao menos sê-la. Retornou à superfície. Precisava de mais fôlego, de mais força. Não via mais o céu, a bruma estava sob posse de seus sentidos. Via o nada, ouvia o silêncio, sentia o gosto do inexistente, tateava a escuridão na qual estava imerso. A água não mais lhe era estranha, seu corpo a aceitava, e era mútuo.
Lembrou do artifício de alguns mergulhadores. Forçaria a respiração por um minuto e depois tomaria grande fôlego. O mergulhar seria repentino. Não tinha noção de tempo. Mas respirou o suficiente a seus pulmões tomarem nota da hora certa, fôlego, peito inflado, profundidade. Mergulhou no silêncio. Aprofundava-se mais e mais, nada mais existia. Nem água, nem bruma, talvez, sequer ele mesmo existisse. Bastante ar nos pulmões, poderia aprofundar-se mais e voltar sem problemas. Tocava o vazio, penetrava o vazio, existia no vazio.
Seus pulmões, seu coração, seus olhos, seus braços, suas pernas, seus cabelos, tudo havia sido tragado. Existia ao mesmo tempo da não existência. Enxergou a superfície, apesar não ter lembrado a decisão de voltar, muito menos o movimento necessário. O vazio agora era lago, mesmo ainda sem fundo. A água cercava sua existência, retomada no silêncio. Que não mais existia. As correntes, fluxos e seus próprios movimentos geravam sons abafados pela água, mas audíveis. Emergiu. O céu era azul perolado, não havia bruma. A água não estava tão gélida quanto lembrava. Olhou para cima, perplexo, com seus olhos de menino. Não nade pra muito longe, gritou-lhe a voz feminina infantil vinda do píer. Seus olhos eram azuis.
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