O tempo havia passado. Era essa a nota mental que todos, ao entrarem ali, faziam e sublinhavam em ênfase. O tempo havia passado. As roupas eram outras, as expressões eram outras, as vozes eram outras, as idéias eram outras. As pessoas eram outras. O mundo mudara, sim, tanto tempo havia passado. Música ambiente circulava no ar, misturado ao ar antiquário do salão. Todos sentados, alguns cochichando entre si, outros cochichando para si, enquanto ainda outros, não falavam nada.
Haviam entrado ali pouco depois do jantar, na comemoração da terceira idade, na rememoração dos antigos amigos, dos antigos encontros, dos antigos bailes. E, ao contrário do que se queria, tudo mantinha um clima fúnebre. O silêncio era uma marcha disparada no vazio, carregando corpos parados. E pensar que poucos dias atrás, os cabelos eram menos grisalhos e em maior quantidade, os ossos e articulações eram mais fortes, o mundo era mais nítido e não tinha o tom sépia do passado fotográfico.
Do canto do salão, um senhor estendeu a mão esquerda diante dos olhos minúsculos. Minúsculos e escondidos por detrás de óculos grossos e, também, envelhecidos. Moveu todos os dedos imitando o debater de tentáculos. Observou o movimento tão antinatural daquilo. Cessou o movimento. Observou e analisou cada uma de suas rugas. Eram inúmeras, eram incontáveis, eram incansáveis. As unhas eram aos poucos encobertas também, adquirindo, ao seu modo, uma tonalidade própria: tempo passado.
Ventiladores tremiam de lado a lado, pendendo das paredes, circulando o ar cansado. Algumas fitas multicoloridas, amarradas às grades de suas estruturas, pairavam dormentes no espaço. Tosse, tosse, tosse. Se limpa garganta, pigarreia-se, cerram-se os olhos. O tempo havia passado, sim, havia passado tempo demais. O que fazer? Era impossível parar o tempo, parar a vida, parar o resto do que sobrara, o tempo restante, a vida restante, o quase nada. As discussões envolviam alergias, dificuldades para respirar – com devida ênfase na dificuldade de respirar ao articular palavras – e pausas nos profundos suspiros mudos.
A música ambiente cessou. O silêncio cessou. O tempo cessou. Todos se entreolharam. O sépia era granuloso e o chão tabulado era lustrado. O jovem que observava a robusta mão esquerda com seus penetrantes olhos, negros como a noite, cessou o movimento. Inspirou profundamente, esbravejou dentro de si mesmo, levantou-se relutante. Passo após passo seguia até o outro lado do salão, deixando seu canto absurdamente abandonado. Inspirou mais uma vez, relaxando, logo em seguida, junto a todo o ar de seus pulmões.
A música não era mais ambiente. Era profunda e realmente sincera. Uma orquestra quase aveludada tocou alguns traços da melodia. Sorrisos foram atirados de todas as partes, sapatos e saltos e sandálias e passos, ressoando por todo o tabulado lustrado, vermelho vivo. O ar pulsava, os passos pulsavam, os corações pulsavam. Mãos estendidas, casais formados de última hora, centro do salão.
A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.
O jovem das robustas mãos e de negros olhos, finalmente atingiu o outro lado do salão. Relutante, envergonhado, hesitante e semi-amedrontado. Olhos se encontraram e, um Oi lançado a esmo. Olá.
A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
Com licença... Mas... Aceitaria uma dança comigo?
You came, you saw, you conquered me
Nada mais precisou de ser dito. Um sorriso fora disparado em sua direção, seus profundos negros olhos, aprofundaram-se mais ainda. Agarrou aquela mão fina, mais fina e suave que toda e qualquer mão. Foram ao meio do salão. No centro do mundo, no coração amadeirado.
When you did that to me, I knew somehow
It had to be.
Braços dados e, de início passos desajeitados. Tudo se moldou na orquestração, os corações batiam juntos, não havia mais ninguém sentado. Tudo e todos estavam de braços, abraços e passos dados.
The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
O rapaz sorriu e foi retribuído. O tempo parado.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.
E por quatro minutos, não havia mais nada além de sorrisos e Frank Sinatra.
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