Havia motivo de preocupação.
Seus olhos eram perdidos em alguma coisa, jogados contra alguma coisa. Respondia a estímulos externos, até quem sabe quando. Chamavam seu nome algumas vezes, ele ouvia, balbuciava, respondia qualquer coisa. Dada por satisfeita ou desistente, iam embora. Quando o assunto pedia por resposta menos monossilábica, insistiam até que certa impaciência acobertasse qualquer traço de voz. Pigarreio, como fumasse constantemente, demorava alguns instantes até a fala, como precisasse lembrar como fazê-lo. Largava alguma coisa no ar, Oi, ríspido. Quem estivesse acostumado, persistia. De qualquer maneira, ele compunha uma resposta rápida, semi-mecânica, seu corpo era como vazio, o espírito talvez tivesse lhe deixado, caixa craniana sem cérebro, ou talvez simplesmente no uso não físico.
Não havia motivos praquilo. Ao menos, não os já discutidos, sanados. Tudo estava bem. Sua esposa preocupava-se, seus filhos não o reconheciam. Aposentado, sentado, aparentemente imóvel. Não. Movimentava-se displicente e independente de qualquer outra coisa. Lembraram um dia, seus irmãos, de quando era menino, e tinha cismado em sumir. A mãe sabia que era coisa de moleque, arte de menino. Foi à venda, comprou farinha fermentada, leite, ovos, fez bolo, deixado a esfriar na janela do quarto dos meninos, onde seu filho estava, imóvel, sentado no beliche. Mal deu tempo de ir lavar as mãos, voltou e não havia bolo, muito menos alguém ali. Menino estava na terra, Não brinca na lama, meu filho, como adiantasse de alguma coisa. Dizia por dizer, era alívio de mãe. O menino não tinha dormido e nem comido nos dois dias anteriores. Era manha de bolo.
Agora era macaco velho, sem lama pra se enfiar, sem gude pra tocar, gritaria e poeira de rastro de rolimã. Era macaco velho, tinha esposa, filhos. Sua mãe, Doracile, por complicações respiratórias, morrera alguns anos antes. Era ótimo funcionário na firma onde trabalhava. Pontual, exemplar, disciplinado, amigável, eficiente. Aposentou-se feliz, deu por satisfeito o tempo de emprego, sentiu que havia cumprido sua tarefa. E do mais, suas costas e visão não permitiam mais nada, e mesmo o pensamento lhe feria o corpo, por vezes. Perfurava o éter do ar, sabia-se lá com o quê. Justino ficava lá, parado, fitando alguma coisa, que talvez só existisse a seus olhos.
Chamaram médico, nada havia de errado, talvez fosse depressão, fadiga, stress. Era bem apessoado, brincalhão, simpático, paciente, compreensivo. Mas era possível, dizia o médico, era possível. Cria-se em demência repentina, pipoco do transformador da cabeça, curto circuito, fio queimado, idéias não se formavam e o corpo não respondia. O tempo passou. Comia de menos pra pior, antes que era carne magra, agora só pele em osso. Olhos recaídos, ainda perdidos em algum canto sabe-se lá onde. Os meninos já eram marmanjos, um casado, o outro terminando a escola, cabra-safado namorador.
Bença, Mãe. Deus bençoe, filho, gritava de dentro, enxugando a louça Seu pai tá na varanda, de costume, fazia-se ouvir aos berros. Dinha tá comigo, anunciando a presença da nora à sogra. O grito estarrecedor, o silêncio irrompido, o corte no vácuo, o soluço no espaço. A mãe vem correndo da cozinha, que houve meu Deus, aflita. E do batente viu a nora com as mãos na boca, o filho de olhos arregalados, pulou em passos, passou ligeira pela porta. E ali havia o nada. Na cadeira, só as roupas, vazias, sem dono. Não havia mais bolo de Doralice, nem lama, nem gude, ou rolimã. Apenas o vazio do tecido tocando tecido.
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