domingo, 29 de novembro de 2009

Os pés.

Pés em pares:
parem passos

permeiam espaços
permitem a um mundo
de movimentos escassos

a conquista incansável
de homens descalços

que caminham na lua
com os pés no chão.

Quando separados,
caminham apoiados

em longos cajados,
nunca cansados

marcando sempre
em um dos lados

cinco dedos
firmados, fincados,
qualquer situação.

Então pra cima
descansados das botas,
chinelos,alcovas

respiram aliviados:

bem aventurado
o momento da pausa

quando estirados,
os pés sentem falta
do chão.

Oca do mundo

Antes, obrigadas ao aborto silencioso pela não entrega de seus filhos à escravidão, mas o alvorecer chegara. Seus barrigões lisos eram acompanhados de sorrisos, esperança enfim. Os rituais foram retomados, as iniciações, os cânticos, as festas, a honra. A continuidade, expressa e infinda no honrar de seus antepassados, agora era possível. Não, nunca haviam esquecido. Em suas cabeças, varava uma enorme fogueira central, onde ritualisticamente faziam o necessário. Tudo acabara. Exteriorizaram as fogueiras, reuniram as brasas, as fagulhas: era enorme, um fogaréu lindo. Vermelho que ascendia brilhante, lambendo as estrelas e cuspindo cinzas.

 



O velho cacique, doente em outras épocas, mal parecia o homem moribundo de antes. Estava vivo. Seus pequenos olhos pulsavam fortes, vívidos como ele. Os jovens entendiam finalmente seu nome, Cacique Olhos de Sol. A caça, a pesca, a extração de tudo mais que precisavam. Agora sim, era o verde, o amarelo, o vermelho, o índio. Antes, nem suas próprias matas reconheciam. Em casa, enfim. Uma casa tão grande que enchia os olhos de vida. Enchia a vida de olhos. Noites e dias eram vivos, surgiam por vontade própria, sem hora marcada. Mas lá fora, distante das matas, algo acontecera. Algo de importante, algo de sinistro.

 



Um golpe. Um golpe militar. Era, afinal, o Brasil, 1970. A ditadura militar fora instalada há algum tempo. O resto da vida não existia, nem liberdade, nem voz. Pássaros que cantavam nas matas, não cantavam nas florestas de concreto, medo da prisão. Medo da tortura. Mas aquela, na verdade, era a pior tortura: não viver de verdade. O sangue escorria em segredo, as lágrimas também. Existia um aborto ideológico. As idéias, os ideais, não poderiam existir ali, seriam apenas escravos. Os rituais urbanos, em parte, foram revogados. Instaurado também, um toque de recolher. A noite dormia cedo, o dia acordava adiantado. O mundo em cinzas.

 



Nada daquilo, de quebranto, afetava a vida ali nas matas. Passado tempo, homens brancos andavam aos arredores da aldeia. Talvez, coletando informações. Quais? Não se sabia. Não havia receio, nada. Dias depois, um mensageiro, branco, extremamente caucasiano, chegou à aldeia. Trazia uma carta, leria em voz alta, claro. Aqueles índios, graças ao contato prolongado, passado, com outros homens brancos, tinham noção de português. Está determinado de forma estrita e direta, através das próprias palavras do excelentíssimo presidente general, que quaisquer tipos de rituais, reuniões e/ou demonstrações de aglomero, são considerados exemplos de conspiração, agitação política e heresia social. Caso insistissem em tais ações, seriam todos presos.

Na cidade, alguns dias depois, um pequeno reduto militar fora acionado, agitadores reunidos. Camburões, furgões e armas. Qual foi a denúncia, tenente? O de sempre, cabo. Alguém conspirando contra a nação.

 



Um ronco alto. Não, não era só um. Agora eram vários. Seriam os espíritos das matas?

O chão tremia. O que fazer? Esperar, explicava Olhos de Sol.

 



Onde estão? Siga por aquela clareira, cabo. Sim, senhor!

 



Estão com roupas estranhas. São mesmo os espíritos das matas?

 



São selvagens! São os malditos indígenas! O que fazer?

O que têm nas mãos?

 



Uma medida patriótica.



Parecem lanças de pedra preta. Mas não são afiadas.



Qual?



Eles pararam. Que bichos são aqueles em que estão montados?

 



Atirem.

 



Cinzas.

sábado, 28 de novembro de 2009

A quem escreve

Minha vida
não cabe num disco

num outdoor
num papelete

numa manchete
numa coluna de jornal

em contreau
em vinte e cinco de
março

em antigo carnaval
em passos largos

em lugares alagados
em metrôs movimentados

em serpentear
da areia que dança no
chão.

E tudo
são crostas absurdas
cortes suturados

palavras imundas,
queimaduras de sol,
unhas encravadas

farpas, espinhos,
fraturas, espadas

e bolas de papel.

Minha vida cabe
na plana palma

da alma plena
da minha
mão

Momento.

Dona de casa, teimosa, decidida, jeitosa, líder do movimento anti-homossexual de sua cidade, alta, loira, homofóbica, olhos azuis. Suas características, sua pura persona, era descrita assim, apenas assim. Quem ouvisse de falar das enumerações de fatos, sabia se tratar dela. Era, diz-se, conhecida. Através de uma polêmica indizível e inexplicável, expulsou três casais gays que moravam em seu bairro. Oratória impecável, vocabulário na medida. Não era chulo, não era garboso, mas na medida.  Todos entendiam, compreendiam e deixavam-se hipnotizar por aquele discurso preconceituoso, o qual, ela acreditava piamente. Juntou-se, inclusive, com uma igreja local. Tinha lá seus detentos motivos: demonizar, também de forma religiosa, aquelas pessoas inocentes.

Um tanto feminista, na medida certa. Conservadora por natureza. Tinha uma beleza estranha. Media lá pra seus um metro e oitenta, cabelos loiros, lisíssimos e longos, assoreando as nádegas, as quais, volumosas. Rosto afinado, olhos piscina, azul piscina. Vestia-se basicamente com o mesmo tom de roupa que de seus olhos, técnica de destaque, joguete de oratória e método de cativo de atenção. Irritava-se com facilidade, achava a homossexualidade um absurdo. Horrendo, nojento, depravado. Atirava suas cargas de chumbo verbal ao público, que, depois de quinze minutos, caíam na conversa, acompanhavam, gritavam junto.

Começara de baixo, antes, era apenas um membro qualquer. Galgando e trabalhando, atingiu a liderança. A líder anterior não era sequer metade do que ela era. Decidida, vontades impostas e expostas. Sempre de vestido, que esvoaçava ao ponto de uma necessidade de segurá-lo. Hitler preso em Marilyn Monroe, já fora dito. E não deixava de ser verdade. Era casada, muito bem casada. Ele era alto, forte, charmoso, bonito e rico. Sonho de consumo de qualquer uma daquelas mulheres, assíduas acompanhantes e fiéis do movimento. O sexo era bom. Tinha dois filhos.

A liderança, apesar de rotatória, concentrava-se em suas mãos. Não fora golpe de estado, não fora joguete político. Simplesmente, todos os membros concordavam que ela era a melhor, sem dúvidas. Era a Evita Perón do movimento, que, caso tudo corresse bem, alavancaria um partido homofóbico-conservador. Tudo em prol da suposta limpeza moral, releitura da decência, renovação da moralidade, coisas do tipo. E, pela enorme contagem, ao menos no grupo local, ganhariam em vitória esmagadora. Todos, antes, homofóbicos dentro do armário, com a força do grupo, assumiram suas posições, tornaram-na pública.

Abaixo dela, os restos dos cargos eram rotatórios, móveis. Várias referências, influência de amizade aqui, ali, aí então, joguetes de poder. E o movimento exercia seu ‘trabalho’ com força e disposição totais. Alguém tão ‘admirável’ quanto ela, galgava aos poucos postos mais e mais elevados. E os alcançava com louvor, fazia o trabalho com maestria. Tinha seus um metro e setenta. Morena, cabelos curtos, olhos escuros, profundos. Vestia-se casualmente, falava calmamente, mas tinha a mesma influência hipnótica da líder.

E tornaram-se amigas, grandes. Conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. E principalmente sobre o partido e sua repulsa. Quando necessário de palestras em locais mais distantes, dormiam no mesmo quarto de hotel, ou quase. Às vezes mal dormiam, conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. Ela estava decidida que, quando se candidatasse pelo futuro partido, aquela garota tomaria seu lugar, comandaria tudo. E o faria bem.

Tudo corria inegavelmente bem. Antes de um grande encontro, em uma cidade vizinha, marcaram uma reunião a fim de acertar os últimos detalhes. Tudo, obviamente, resolvido facilmente. Conversaram por horas, incessantemente, incansavelmente. Não existiam segredos entre elas, eram quase irmãs. Quase. Até então, o único motivo real, era o sangue, distinto, desigual. E conforme as horas passavam, conversavam mais e mais intensamente. E em súbito, o coração pulou uma batida. Não. Ambos pularam. Não só uma batida, mas um fluxo incontestável de batidas.

O que houve? Ela cerrou os olhos. Apertou forte a mão da garota. Beijou-lhe. Beijou-lhe com mais tesão, desejo, afinco e paixão do que jamais beijara seu marido. Por horas, incessantemente, incansavelmente.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Diminuendo.

Ainda me faço
tão quanto
e tanto pequeno

pra caber na miudeza
dos olhos serenos

que insistem em me olhar.

E ainda
solto em desafio
perdido num bolso de calça

escondido
junto da costura,
agarrado ferrenho e com raça

pra ninguém mais me encontrar.

são só moedas de centavos,
meu bem, só um cara
e um coroa

sem ciúme,
mais ninguém;

e o mundo
cabe num ticked de trem.

sábado, 7 de novembro de 2009

Individualismo

Nos preceitos
mais fundamentais

Somos átomos, distantes
e somente orbitais.

separados,
enclausurados
na distância de nós mesmos

numa auto-transcendência social
solitária da morte que nos
conserva.

Óculos blues.

Seus relacionamentos não funcionavam. Apesar aquela peculiaridade, era atraente. Charmoso, a palavra certa. Conquistava mulheres, lia os sinais, o morder de lábios, os sorrisos sutis, as mãos nos cabelos. Sabia o que dizer, quando dizer, como dizer. Mas não se relacionava de forma séria, não avançava de forma alguma. Tudo, apesar de ser a palavra certa, graças à peculiaridade. Quando perguntavam sobre, simplesmente respondia que não poderia tirá-los. Estariam grudados ou algo do tipo? Não, só não posso tirá-los, resposta. Mal talvez enxergasse o rosto de todas as mulheres com quem esteve. De todas as maneiras que esteve. Aquela peculiaridade, mesmo à noite. Lentes escuras, óculos escuros. E talvez nem ele mesmo soubesse a cor de seus próprios olhos.

Por uma vez, sentiu-se obrigado a explicar a situação, os motivos. O motivo, na verdade. Ela talvez não fosse alguém por quem estivesse apaixonado, mas não era alguém que mereceria ficar sem resposta. Qual a cor de seus olhos? Por que nunca tira os óculos? Dissertou, explicou todos os detalhes. O motivo. Ela riu, riu como nunca tinha rido. Vá embora, nunca mais se aproxime de mim. Que de outra maneira poderia ser? Agora eram lágrimas, não dentes brancos. Um dia, você se sentirá compelido a tirar estes seus óculos escuros. Nunca. Um dia, um dia. E perceberá que nada disso é uma brincadeira. Vá embora. Agora era solidão, não eram lágrimas, nem dentes brancos. Acima de tudo, óculos escuros.

O motivo, se é que você realmente importa-se em saber, é simples. Confuso, surreal. Mas simples. E risadas não adiantarão de nada, garanto. Os olhos são os espelhos da alma, dizem. E nesse caso, específico, porta aberta, sem tranca, sem trava, escape sem válvula. Esvoaçadamente perderia sua existência. E todo o surrealismo, desde que se entendia por gente, era presente em sua rotina. Óculos escuros, mais nada. Refeições, óculos escuros. Banho, óculos escuros. Dormir, óculos escuros. Sexo, óculos escuros. Nascimento, óculos escuros. E desde que conservasse os óculos escuros, Morte, óculos escuros.

Seria assim, uma vida por trás do semitransparente, na escuridão relativa, não fosse pela maldita praga. Aquela garota praguejara, amaldiçoara, rira. No fim das contas, coincidente ou não, tudo aconteceu, de uma maneira ou de outra. Alguma coisa, sem óculos escuros. Uma garota nova no trabalho, visivelmente interessada em seu jeito. Seu charme natural, a palavra certa. De forma incrível e inesperada, ele não se esforçou para tanto, era natural. Uma palavra mais-que-certa, desde que interpretada assim. Foi um encontro, ao amanhecer, talvez ela não estranhasse os óculos, desse tudo certo. Finalmente, Amor, óculos escuros. Ele gostava dela. Era mútuo, nós sabemos. Mas ele não se atreveu a ler.

Conversaram. Uma teórica troca de olhares. Os dedos juntos, aos poucos, óculos escuros. Tolices, óculos escuros. E então o beijo. O beijo apaixonado, nada além daquilo, óculos escuros. Mas tudo rápido demais, um grito na mudez, o silêncio permanente. Tudo está ali, diante de seus olhos. Dos olhos dela, dos nossos olhos. E palavras não são nada mais que olhos de uma realidade interpretável, óculos escuros. Restaram suas roupas, murchas, sem carne, sem vida, e uma fumaça branca, desvencilhou por onde órbitas fitariam os óculos escuros. Os óculos estavam na areia, praia. Eram verdes, óculos escuros.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A genética do acaso

O caso é um descaso
que me persegue e
me seduz

O acaso me acompanha
no lúme das entranhas
de meia em meia noite

e me desperta de cinco
em cinco de manhã
me reduz ao desacato
e me despede em montanhas

de caras e coroas
e bocas estranhas

numa aleatoriedade
que me antecede e
me reduz:

sou metade
da interferência
da prévia antecedência

do que o destino sempre
quis pra mim; sou um rebelde

na genética de concreto
dane-se o certo

o incerto
me conduz.

Incerteza

Existe então algum sentido em transar com uma garota diferente a cada dois dias, em média? É o tipo de coisa que nunca aconteceria, não a um cara como eu. Por outro lado sempre acontece. Exato. Enquanto acontecer, não existe um motivo concreto que me faça desperdiçar aquilo. O que?

 



Ele deu uma longa tragada no cigarro, retirou da boca, segurou para fora da cama, batendo as cinzas num cinzeiro de um banco próximo. Ela simplesmente continuou o que fazia. Acarinhava seus cabelos, cabelos lisos e jogados. De alguma maneira, estariam penteados, um charme incomum. E gritavam a súplica do afago. Eram atendidos, a mão sempre retornava àquela cabeça. Ele tragou mais uma vez o cigarro, repetiu todo o movimento.

 



Se uma mulher atraente, não vulgar, te beija... Você não pode fazer nada além de beijar de volta. ? Simplesmente, aquele beijo pode levar a algo. E você realmente acha que uma transa é tudo? No caso, não é uma transa, foram várias. Não estava falando disso. ? Daqui pra um minuto, um dia, uma semana, um mês, uma década. Tudo pode estar acabado. E um beijo faria a diferença? Depende. Sexo faria?

 



Apagou o cigarro, beijou o pulso, dono da mão que o acalantava nos cabelos. Ela sorriu. Talvez ele tenha percebido, talvez não. Mas, de forma sutil e quase imperceptível, ela sorriu. Nós percebemos, o foco era o rosto dela. Queríamos alguma reação. E tudo aquilo parecia surrado, dentro de um lugar inatingível.

 



Tudo pra você, então, depende de uma estranha relação vagina-coração? Não necessariamente, mas é algo que se deve tentar, atingir o fundo. Nojento. Seria assim, se tentasse com todas elas, sem restrições. E então você simplesmente beija? Nem todo beijo é O beijo. E então, caso nunca apareça, tudo será resumido nessa média de uma garota a cada duas noites? Não, a solidão só existe pra quem abre os braços quando ela se aproxima. Então me diga, como você imagina sua vida daqui pra dez anos?

 



Ele fechou os olhos. Ela insistiu.

 



Talvez eu não precise de mais dez anos pra me apaixonar ou achar o amor da minha vida.

 



Ela mordeu os lábios, Ele tragou um novo cigarro, repetiu todo o movimento. Dessa vez, nem mesmo eu, ou você, ou ele percebemos. Mas não precisamos, é um sorriso mudo.

 



Estou grávida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Outdoor

Há um retrocesso
no acesso das coisas
que se despedem no céu


ou há um sucesso
ou um regresso


sempre que existem
nuvens quaisquer
num mundo pelado:


cubram os anúncios!
(e todos os prenúncios
espalhados por aí ).

Perdido

Escuridão. A primeira coisa que viu. Não sabia onde estava, quando estava, muito menos como estava, apenas, estar mergulhado numa treva sem fim. E, de tão profunda, engolia aos poucos a chama de seus pensamentos. Percebeu o chão firme abaixo de seus pés. Passada em frente, lentamente. Quando a sola de seu sapato tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. Caso alguma criatura habitasse aquela treva, agora estaria ciente de sua presença. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. Suas estranhas garras musicadas apontavam a existência do indivíduo perdido na treva, a intrínseca visão das criaturas ali também perdidas, em suas órbitas cegas à imagem e afiadas ao som, centraram na carne pulsante, nos ossos estalantes e no coração aflito. E, aquela presa era simplesmente deliciosa, imperdível. Não tinha armas, não era gigante, não era perigosa. Deliciosamente indefesa.

 



As grandes notas difusas do estalar dos passos do homem, apesar de traíras de sua presença, também denunciaram uma das criaturas, que, na tentativa da aproximação furtiva, permitiu que uma gota de saliva de sua boca grotesca atingisse o solo. O alarme ecoou por toda a treva, o alarde recuou por todo o espaço. Não se podia ver o som, mas com aquele tipo de definição, deduzia-se que vinha da retaguarda. O homem pressentindo perigo correu, pesadamente, distribuindo garras musicais pelo espaço, uma trilha de pão viva e contínua. As bestas, não mais preocupadas com a esgueira, batiam caudas calamitosas por todo o assoalho de negrura, e, apesar do mar de treva invadir tudo, a movimentação era extraordinária, mesmo à visão cega.

 



Aflito, as pernas humanas moviam-se mais e mais, os passos debatiam furiosamente contra o chão, o homem corria do nada para o nada. Corria, não importava. As criaturas estavam a uma distância considerável, mas continuavam a caçada. Caso parasse num breve descanso, seria refeição. Sua respiração ofegava, já não tinha mais tanta força, mas o instinto de sobrevivência impedia a diminuição do ritmo, morreria do coração, mas não findaria a corrida, jamais POW, choque frontal, talvez tivesse quebrado o nariz. Alguma superfície que lembrava a madeira, a integridade do nariz estava mantida em sua percentagem total. E quase esquecera seus perseguidores, quando notou um orifício na parede amadeirada onde deu de cara. Um orifício tão mínimo que, talvez os olhos mal pudessem vê-lo. Só talvez, mas não, era real e por ele passava um ponto ínfimo de luz. Tateou a treva em busca do resto da parede amadeirada, mas notou, ao procurar bordas e continuações, que era apenas uma placa, solta no vácuo-espaço.

 



Olhou pelo orifício. Um enorme corredor, inúmeras portas, um corredor sem fim, portas e mais portas. Notou um vulto esbranquiçado correndo pelo corredor. Arregalou seu único olho ao máximo e tentou precisar o vulto. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era uma... RATAZANA?! Sentia agora o mau-hálito de seus perseguidores, distantes apenas um palmo de seu corpo, inerte e paralisado. Não pensou, agiu. Empurrou aquilo que parecia ser mais uma das portas do corredor sem fim, deslocou-a rapidamente e, quando caiu num chão esbranquiçado, no assoalho mais limpo que já vira em toda sua vida, a passagem por onde havia emergido, simplesmente não estava mais lá.

 



Nem criaturas, nem escuridão. Ouvia garras raspando contra a parede maciça, mas o som logo cessou. E o que havia, diante de si, era uma parede azul marfim, maciça, muda e gélida. Não havia escuridão, e, ao concentrar-se naqueles instantes anteriores, parecia algum tipo de alucinação, fruto de sua insanidade momentânea. Sentiu um arder leve em seu tornozelo esquerdo. Notou a calça rasgada em um ponto, um longo corte e muitos arranhões. Não, não fora uma alucinação. Tocou na perna, dor. Torceu a cara, observou a ponta dos dedos e notou sangue. Estava vivo, vivo. Vivo, por pouco. Mas vivo. Fazia questão de repetir mentalmente seu estado de vivacidade, na tentativa de provar, quantas vezes necessárias. Estou vivo. Vivo, por pouco. Respirou fundo, recuperou o fôlego, limpou o pó de suas vezes, Pó? Como assim Pó? Teve de ignorar suas próprias perguntas, teve de seguir em frente. Levantou-se, respirou fundo mais algumas vezes.

 



Olhou para o infinito estendido à sua fronte. E não conseguia definir limites ao horizonte do corredor e de portas. Até onde conseguia ver, as portas não findavam, as portas não mudavam. Talvez, por alguma diferença milimétrica, fossem diferentes, mas à olho nu, eram completamente idênticas. Através de alguns passos, certificou-se que não eram espelhos. Eram portas, todas. E todas idênticas. Formato, textura, cor, posição. Imaginou então, inúmeros cômodos ao longo do corredor, ou, simplesmente um exterior estranho, que necessitasse de milhões de portas para passagem. Caminhou o suficiente para que a parede maciça por onde havia caído, fugisse de sua visão. Contou seus passos, precisou aproximadamente dois quilômetros. Seu porte físico permitia facilmente exercícios, já que, pelas manhãs de todos os dias, caminhava até onde seu corpo suportava. Não estava cansado. Apenas algumas gotas de suor brotavam de sua face, um pouco mais corada, diante de sua perseguição, instantes passados.

 



Decidiu fazer o caminho de volta, retornar à parede. Andou mais. Dois, três, quatro, cinco, seis quilômetros. Não encontrava mais a parede, o cansaço já perseguia sua existência. Simplesmente sumiu? Qual seria a lógica disso? Se é que existe algum tipo de lógica em tudo acontecido até então. Sentou-se ao chão, desesperado. O que fazer? Voltaria pra casa? Tinha lágrimas nos olhos, milhares de pensamentos brotavam-lhe dos miolos, no entanto, o silêncio mortal machucava seus ouvidos, desviando completamente sua atenção. Era como se o mundo ruísse, e, de tão sonoro o barulho gerado a partir daquilo, o universo emudecera. Sua respiração, ritmada, era tiro de canhão atrás do outro, cortando o vácuo, desfazendo tudo. Gotas de suor pingando em suas vestes ecoavam por todo o corredor. Seu tímpano era papel manteiga, sua existência era em uma casa de cristal infinda. Por instinto, indução automática, arregaçou a manga direita, em busca do horário. Ponteiros fixos, imóveis, congelados. Tão perdidos quanto ele.

 



Ouviu, de súbito, o ruído de pequenos estalos. Não, eram passos. Pequenos passos. Pequenos passos que ecoavam de forma tão incrível! Não saberia dizer de onde vinham os estalos. Os passos, milhares deles. Sentiu medo, talvez fossem as criaturas de outrora. Levantou-se, não poderia correr, estava exausto. Empunhou-se, preparou uma posição de batalha, não tinha planos, não tinha armas. Os passos aproximavam-se, a tensão rompia o ar. Seus olhos eram globos perdidos no espaço, sua respiração era o mar bravo nas rochas. Vinha pela frente, a seu encontro. Músculos rígidos, boca cerrada, dentes rangendo, suor pingando, pupilas dilatadas. Era um vulto, nada mais. Aproximava-se mais e mais, conseguia precisar delimitações, cores. Era branco. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era a... RATAZANA?!

 



A ratazana de outrora! Na aproximação, notou algo peculiar. A ratazana possuía um pequeno relógio dourado, em um cordonete, ao redor do que seria seu pescoço. Possuía bigodes muitíssimo bem penteados, pelos lustrosos e, mas o quê? Seria possível? Uma pequena gravata borboleta, azul. Uma ratazana branca, deste tamanho, com um relógio ao redor do pescoço, em cordonete. Bigodes penteados, pêlo extremamente bem cuidado e, bem, a quase-confirmação do delírio: uma gravada borboleta azul. Pequena, mas estava ali, em perfeita simetria e alinhamento. E vais ficar aí, parado?

Como? Quem está falando? Aqui embaixo, mané! Deu de caras com aquela ratazana branca, em pé, apoiado nas patas traseiras, alisando os bigodes com as patas dianteiras. Como? Como assim “como?” Estou a falar com você, mané! Prestes a desmaiar, levou bofetões daquelas minúsculas patas. Se desmaiares, não será culpa minha. Você fala! Você também! Ainda não creio. Agora pouco estava mergulhado numa escuridão sem fim, atravessei uma parede, andei uns quilômetros nesse corredor e dei de cara com você. Essa ênfase em “você” significa exatamente o quê?



Você é uma ratazana! Mas que fique estritamente claro: um ratazana, não “uma”. E além do mais, que de tão estranho há  nisso? Tu és  um macaco e fala. Vendo por esse ângulo... Sim, sim, mas não tenho tempo. Deixe-me adivinhar: você está atrasado! Tenho certeza que essa é um sonho, esse é país das maravilhas e você é alguma parte doentia do meu subconsciente. Bom, estou com vontade de ir ao banheiro, não atrasado. Isso talvez seja sonho ou delírio meu. Significa que tenho de recobrar o juízo ou consciência logo. Caso contrário, molhar a cama. Esse não é o país das maravilhas e o único sujeitinho doentio aqui é você. Mas, mas, mas “Mas” nada, ou você vem, ou não vem. Vem? Pronde? Vem ou não? Vou.



Ambos, o homem e o ratazana seguiram pelo corredor. Torcendo o focinho, espalhando as tantas pontas de seus bigodes ao ar, piscando rápida e euforicamente, trincando suas pequenas patas no chão. Em seguida, vinha o homem, torcendo a cara, de narinas exorbitantes num respirar confuso, de órbitas palpitantes e extremamente abertas, tapteando em passadas confusas. Ambos pararam. ? Espere, espere. O ratazana parou entre duas portas, calou-se por alguns segundos. ? Já lhe disse para que esperes! Mas que impaciência é essa? Certo, certo, quietinho fico. Assim espero ou dou-lhe de dentadas e ainda te abandono. O homem fez que sim. O ratazana aproximou-se da porta a sua esquerda, cheirou-a por uns instantes. Raspou um canto da porta com um de seus pequeninos dedos, aproximou do focinho. Foi à porta da direita, repetiu todo o processo.

 



Empurre a porta da esquerda. Obedecendo, o homem deslocou a estranha fechadura, empurrou a porta e deu de cara com a mesma profunda escuridão que vira antes. Aqui não entro! Queres ir para casa? Claro que sim, mas não ir de encontro com aquelas criaturas. E você, não vem? Não, minha porta é a da direita. Mas como assim? Vou com você. Não, você não pertence a este lugar. Mas que lugar é esse? Não importa! Você simplesmente não pertence a ele. Certo, certo, mas vou com você. Não, não vai. E trate de passar por essa maldita porta antes que ela cerre. Mas cerrando, abrimo-la, certo? Não, macaco. A porta troca de lugar e seu acesso só é possível à sorte. E como conseguiu achá-la? Sorte. Não ouviu quando lhe disse da primeira vez? Ok, mas o que me espera do outro lado? Não sei. Só palpites.



O homem tentou empurrar a porta. Não conseguia. O vão por outro lado, diminuíra. Passe logo! Só não me incomode mais, certo? Mas e se eu voltar? Ou não conseguir sair realmente? Bom, ou você conta com a sorte de me encontrar ou de encontrar um fim rápido. O homem comprimiu-se ao máximo, passou com todo o corpo, exceto pela cabeça. Muito obrigado. Mas diga-me: o que você acha que me espera do outro lado? Talvez algo pior. PIOR? Tarde demais. Sua cabeça fora sugada pelo impossível vácuo, seu corpo jazia no vazio da escuridão. Mas a escuridão não o inundava, não o afogava, não o ameaçava. Era uma escuridão menos densa, infiel à originalidade comum. Percebeu que estava de olhos fechados desde que entrou. Através das pálpebras notava uma luz branca, dolorida, flutuando sobre seu corpo. Abriu os olhos, percebeu-se deitado. Piscou forte, a luz machucava seus olhos. Acostumou-se à brancura.

 



Ouviu o barulho de equipamentos, computadores, bips. Isso! eram bips. Eram seus sinais vitais. Estava em uma sala hospitalar? Apertou os olhos de leve, como tentasse readquirir algum lance de memória. Nada. Olhou à esquerda, notou os equipamentos. Olhou à direita, uma mulher estava dormindo. Limpou a garganta, sentou-se na cama. Tocou a mão da mulher, cuidadosamente. Janaína? Janaína? Hmm, hmm... Janaína? Apertou levemente os dedos de Janaína. Levantou a voz, Janaína? Abrindo lentamente os olhos, a mulher notou algo apertando sua mão. Algo? Algo... alguém? Acordou? Acordou? Não acreditava, cerrou os olhos lacrimejantes. Força na piscada. Torceu a cara, uma pesada gota despencou-lhe à face. Janaína? Abriu os olhos, abraçou forte o marido. Ele até então, não sabia o que acontecera. Mas sentia uma saudade inexplicável de sua mulher.

 



Alguns dias se passaram, não lembrara tudo, mas ao menos sabia do acontecido. A caminho do trabalho, um motorista bêbado invadiu a contramão e bateu contra seu carro. O bêbado, apesar da seriedade a batida, ileso. Ele, inconsciente e com alguns arranhões. Em coma por oito dias. Contou o sonho ‘comático’ à mulher. Rindo das próprias palavras, fazendo-a rir, absurdos, estranhezas. Beijaram-se demoradamente, não, não precisa ficar mais. Vá dormir em casa, amanhã me vê. Apago a luz? Não, não, acho que vou ler alguma coisa. Certo, boa noite, vê se acorda, hein? Acordo sim. Oito dias já foram demais. Não se sentia bem na escuridão, coma ou não, preferia assim.

 



O médico disse que você precisa descansar, apesar do coma, sua mente não estava em descanso. Claro, não se preocupe, mas não apague a luz. Certo, certo. Deixo este celular com você, caso precise de algo. Amanhã cedo estarei aqui. Te amo, também, até, até. Enquanto lia, ao meio da madrugada, ouviu um ruído. O ruído era ao lado de fora do prédio, no jardim. Caminhou até a janela, recostou ao vidro. Viu um vulto branco correndo por entre as flores. Levantou o camisolão, fitou o tornozelo, notou um corte. Notou arranhões. Do acidente, claro. Recostou-se no apoio da janela, sentou-se no criado mudo vazio. Ligou para a mulher, mesmo à madrugada. Pediu centenas de livros. Livros? Livros.

 



Cerrou os olhos, respirou fundo. Decidiu mover-se na escuridão dos próprios pensamentos. Quando a sola de seus pés tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. O telefone tocou mais uma vez, era ele. Será que algo de ruim havia acontecido? Aconteceu algo de ruim? Não, não. O que há? Só um detalhe sobre os livros. Sim, claro, diga. Nada de Lewis Carroll, por favor.