Era algo novo, inexplicável. Talvez fosse um engano. Isso, um engano! Não... Além de inexplicável era incontestável. Mas como? No fim das contas, talvez nem importasse um por que. Mas sim o que fazer a partir daquele momento. Inspirou profundamente, recolhendo uma porção generosa daquele ar áspero, congelante, que lhe raspou as paredes dos pulmões. Fez uma pausa nas considerações, tossiu por alguns instantes e retomou a linha de pensamento. O mais importante, seja lá o que fizesse com aquilo, seria lidar com toda burocracia. Teria de informar-se a respeito, claro.
Cerrou os olhos. Sim, sim, departamento de informações. Levantou-se do banco. Caminhou por alguns metros e entrou no carro. Deu a partida, esticou o pescoço, examinando a rua. Estava parcialmente vazia. Ligou o rádio, mudou lentamente de estação, sem pressa alguma. Alguns ruídos. Regulou aleatoriamente o botão até ouvir a voz de Bob Dylan. Aumentou o volume, ouviu os acordes e cantarolou Mr. Tambourine Man. Passou a marcha e saiu lentamente, ainda preso às idéias de poucos instantes. Sinceramente, não havia se livrado daquilo em momento algum. Aquilo que se mantinha pulsante, vivo.
Mudou a marcha e avançou pela rua deserta. Apesar das janelas fechadas, o cinza quase vivo que pairava no ar, invadiu parcialmente o carro. O ar gélido irritara suas narinas. As pontas de seus dedos, mesmo socados nas luvas de lã, estavam levemente rijas e geladas. Inspirou um pouco do ar – ainda áspero – e continuou. Encaminhou-se ao departamento de informações. Fora pouquíssimos pedestres e alguns poucos carros, as ruas estavam efetivamente desertas. Diferente da cidade, seu interior estava movimentado. Seus pensamentos corriam alastrados, na tentativa de uma passível organização. Seus sentimentos, até então ocultos, fervilhavam de excitação.
Numa manutenção quase heróica, conseguia manter-se atento ao mundo prostrado ao seu redor. Inconscientemente, acompanhava a voz de Joni Mitchell cantando Little Green, imitando o toque do violão com seus dedos gélidos ao volante. Ligou a seta, reduziu a velocidade e entrou à esquerda. Parou o carro diante do prédio azul, Departamento de Informações Burocráticas. Desligou o rádio, desceu do carro e trancou as portas. Cumprimentou o porteiro, entrou no lugar, passando por um alto portão metálico.
Boa tarde. Como eu poderia legalizar uma idéia? O senhor terá de responder um curto questionário e então o encaminharemos ao departamento necessário. Certo, certo, podemos começar? Sim, podemos. Preencha esse formulário e começaremos.
Pronto, aqui está. Certo. Quando surgiu tal idéia? Hoje, algumas horas atrás. Certo. Onde surgiu? De fronte com o píer, à beira-mar. Explique a idéia. Bem, não é algo grandioso. Ora, não se acanhe. Certo, certo. Quando me vem essa idéia, é bem como algo frio espetando por dentro. Senhor. E impele a fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, ir atrás de alguém. Senhor, senhor! E tudo mais parece confuso, uma briga pra manter-me atento. E existe essa ânsia por algo, inexplicável e SENHOR! Perdão, diga. Receio que isso não é uma idéia. Não? Não. E agora? O senhor precisará de uma licença poética. Como assim? E então dará entrada nos papéis pra adquirir, de forma realizável, isso. Isso o que? O amor. Senti-lo e explicar dessa maneira, sem licença, é ilegal!
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