sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pescando Palavras

Sem aqueles momentos, não poderia fazer nada além do desejo vazio. Sentar-se na cama e manter a ânsia paralisada dentro de si, muda, querendo gritar aos quatro ventos algo que não sabia o que dizer. Não firmava residência fixa senão nos tantos seios desamparados e braços escancarados deixados pra trás. O vazio do silêncio, aquilo que roubava num crime ideal de si mesmo. Precisava, indubitavelmente, daquilo, era onde encontrava a palavra e o sentido, estampados na pele, na extensão promíscua e tão macia da pele.

Não era especificamente bonito, ou charmoso ou inteligente, mas, de alguma maneira, sempre terminava na cama com alguma mulher. E ali, era onde lia de todas as formas, senão no braile do tato desejo, a literatura de sua vida. Era escritor, e dos bons. Nunca escrevia, sequer, uma palavra, sentado de cara com o computador, com a máquina datilógrafa ou um bloco de folhas em branco. Pescava, de forma infinda e contínua, todo o material gráfico de seus textos. Retirava de cada centímetro de pele o tão aclamado parágrafo, verso, linha, estrofe, capítulo, livro. Sonhava alto e ria de si mesmo. Não havia saída senão aquela.

Encontrava nas coxas, inconcebíveis e loucas, palavras estiradas e contorcidas, necessárias de transcrição, fotografia mental, era o que fazia. E o quarto escuro da presença dos dois corpos, revelava as fotos imensuráveis, os fatos inacreditáveis. Nos dedos, nas mãos, nos cotovelos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nos seios, na barriga, nas pernas abertas e severas, na genitália, no infinito, na precária maneira de descrever suas próprias palavras em sua maneira impessoal de ser.

Levava-as à cama, despia seus corpos contra a luz da possível lua ou dos postes da rua, marcava com os olhos, sublinhando a pele fria com o corpo, reescrevendo pontos imprecisos, relendo sinais indecisos, estirando-os página por página na cama. E eram letras alvas de brancas, médias de morenas e obscuras de negras, palpáveis, inegáveis, irrefutáveis, desenfreadas. Emborcava o rosto no retoque esplêndido, na arte final de movimentos bruscos.

E a fina camada de lençol, recobria o corpo tragado pela madrugada. Estavam sozinhas no quarto. Ele já havia descido as escadas, cigarro na boca, canção na cabeça, camisa desabotoada, livro pré-escrito, pronto à prensa de seus dedos, fosse ao lápis ou não. E sentava sozinho, com o resto do mundo, no ponto de ônibus, esperando o circular da madrugada. Respirava fundo, baforava longamente com o cigarro. Apagava-o no meio fio, pisando firmemente. Acendia outro até que pudesse chegar em casa.

Em meio às marcas de unha e mordidas, colhia Ilíadas, Lusíadas e Infernos. E seu possível e único momento de prazer, em branco, em gozo, em finalle, era o abandono das páginas, prefácio, notas do autor, dedicatória, dedico à libido, inibido; insatisfatória pontuação final. Best-Seller, e sua vida, uma vida sem mais, estampada em Times New Roman, capa dura, acabamento artístico.

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