sábado, 28 de novembro de 2009

Momento.

Dona de casa, teimosa, decidida, jeitosa, líder do movimento anti-homossexual de sua cidade, alta, loira, homofóbica, olhos azuis. Suas características, sua pura persona, era descrita assim, apenas assim. Quem ouvisse de falar das enumerações de fatos, sabia se tratar dela. Era, diz-se, conhecida. Através de uma polêmica indizível e inexplicável, expulsou três casais gays que moravam em seu bairro. Oratória impecável, vocabulário na medida. Não era chulo, não era garboso, mas na medida.  Todos entendiam, compreendiam e deixavam-se hipnotizar por aquele discurso preconceituoso, o qual, ela acreditava piamente. Juntou-se, inclusive, com uma igreja local. Tinha lá seus detentos motivos: demonizar, também de forma religiosa, aquelas pessoas inocentes.

Um tanto feminista, na medida certa. Conservadora por natureza. Tinha uma beleza estranha. Media lá pra seus um metro e oitenta, cabelos loiros, lisíssimos e longos, assoreando as nádegas, as quais, volumosas. Rosto afinado, olhos piscina, azul piscina. Vestia-se basicamente com o mesmo tom de roupa que de seus olhos, técnica de destaque, joguete de oratória e método de cativo de atenção. Irritava-se com facilidade, achava a homossexualidade um absurdo. Horrendo, nojento, depravado. Atirava suas cargas de chumbo verbal ao público, que, depois de quinze minutos, caíam na conversa, acompanhavam, gritavam junto.

Começara de baixo, antes, era apenas um membro qualquer. Galgando e trabalhando, atingiu a liderança. A líder anterior não era sequer metade do que ela era. Decidida, vontades impostas e expostas. Sempre de vestido, que esvoaçava ao ponto de uma necessidade de segurá-lo. Hitler preso em Marilyn Monroe, já fora dito. E não deixava de ser verdade. Era casada, muito bem casada. Ele era alto, forte, charmoso, bonito e rico. Sonho de consumo de qualquer uma daquelas mulheres, assíduas acompanhantes e fiéis do movimento. O sexo era bom. Tinha dois filhos.

A liderança, apesar de rotatória, concentrava-se em suas mãos. Não fora golpe de estado, não fora joguete político. Simplesmente, todos os membros concordavam que ela era a melhor, sem dúvidas. Era a Evita Perón do movimento, que, caso tudo corresse bem, alavancaria um partido homofóbico-conservador. Tudo em prol da suposta limpeza moral, releitura da decência, renovação da moralidade, coisas do tipo. E, pela enorme contagem, ao menos no grupo local, ganhariam em vitória esmagadora. Todos, antes, homofóbicos dentro do armário, com a força do grupo, assumiram suas posições, tornaram-na pública.

Abaixo dela, os restos dos cargos eram rotatórios, móveis. Várias referências, influência de amizade aqui, ali, aí então, joguetes de poder. E o movimento exercia seu ‘trabalho’ com força e disposição totais. Alguém tão ‘admirável’ quanto ela, galgava aos poucos postos mais e mais elevados. E os alcançava com louvor, fazia o trabalho com maestria. Tinha seus um metro e setenta. Morena, cabelos curtos, olhos escuros, profundos. Vestia-se casualmente, falava calmamente, mas tinha a mesma influência hipnótica da líder.

E tornaram-se amigas, grandes. Conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. E principalmente sobre o partido e sua repulsa. Quando necessário de palestras em locais mais distantes, dormiam no mesmo quarto de hotel, ou quase. Às vezes mal dormiam, conversavam por horas, incessantemente, incansavelmente. Ela estava decidida que, quando se candidatasse pelo futuro partido, aquela garota tomaria seu lugar, comandaria tudo. E o faria bem.

Tudo corria inegavelmente bem. Antes de um grande encontro, em uma cidade vizinha, marcaram uma reunião a fim de acertar os últimos detalhes. Tudo, obviamente, resolvido facilmente. Conversaram por horas, incessantemente, incansavelmente. Não existiam segredos entre elas, eram quase irmãs. Quase. Até então, o único motivo real, era o sangue, distinto, desigual. E conforme as horas passavam, conversavam mais e mais intensamente. E em súbito, o coração pulou uma batida. Não. Ambos pularam. Não só uma batida, mas um fluxo incontestável de batidas.

O que houve? Ela cerrou os olhos. Apertou forte a mão da garota. Beijou-lhe. Beijou-lhe com mais tesão, desejo, afinco e paixão do que jamais beijara seu marido. Por horas, incessantemente, incansavelmente.

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