terça-feira, 30 de novembro de 2010

As coisas que eu não sei

Provavelmente eu não saiba
conjugar todos os verbos
em todas as pessoas

Provavelmente eu não saiba
metrificar todos os versos
em todas as estrofes

Provavelmente eu não saiba
que todo dia tem vinte quatro horas
e que todas as horas são intermináveis e
que nunca há tempo o bastante.

Mas talvez - só talvez
eu saiba em você

as coisas que eu sei
que também são em mim.

sábado, 27 de novembro de 2010

Movimento

Eu me mexia
como setembro

ao encontro de outubro
e como as ruelas apertadas
às vezes levam pra algum lugar

e também levam pra lugar nenhum.

Eu me mexia
bem devagar no vazio

como às vezes

nem eu mesmo sei.

Pequenas Canções (parte 2)

Trabalhava num escritório organizando inventários. E digitando cartilhas e repassando informações. O tipo de trabalho que a maioria das pessoas acha que não existe. Bateu ponto. Escada interditada, ótimo. Mais três pessoas no elevador. Arrumou a gravata. Subiria até o terceiro andar com o barulho sufocante das correntes. Primeiro andar. Duas pessoas saíram e três entraram. Segundo andar. Todos saíram. Músicas de fundo deprimentes. Terceiro andar. No caminho até o cubículo passou por alguns colegas, cumprimentou, sorriu o mais amarelo dos sorrisos e disfarçou da pior maneira possível a cara de cachorro morto. Foi até o filtro com a placa ADOTE SEU COPO e pegou um pra si. Escreveu o nome com dificuldade usando uma caneta pra retroprojetor.


Já na mesa, sentou-se e ligou o computador. Abriu a gaveta e tomou as aspirinas estrategicamente posicionadas desde sexta à noite. Já havia uma pilha de fichários e requerimentos de várias cores diferentes, variando de verde até vermelho por departamento e por número no setor e grau de importância. Dez fichários, oito cores e nove números de múltiplos dígitos. Embrulho no estômago. É só mais um dia de trabalho. Concentrou-se por algum tempo no requerimento mais urgente, os dedos batendo rápido nas teclas e a vontade de botar tudo pra fora. Terminado. Afrouxou a gravata e saiu em direção ao banheiro. Final do corredor, à direita. Olhou-se no espelho.


Puxou as mangas da camisa e foi até o vaso pra vomitar. Se tivesse sorte não encontraria um cagalhão boiando. Levantou a tampa, sem cagalhões, all clear, vomitou. Era de se esperar. Fechou a tampa e deu descarga. Lavou as mãos e o rosto. Voltou à mesa, pegou a escova e pasta. Bochechou, cuspiu, escovou os dentes e voltou ao trabalho. Arrumou a gravata, ajeitou as mangas e guardou tudo. A fome apunhalava feito filha da puta, bem na base das costelas. Tomou mais dois comprimidos. Deu cabo dos outros fichários na hora exata. As tripas imploravam. misericórdia. Guardou a gravata na gaveta e puxou mangas pra cima mais uma vez. Elevador cheio, convidaram pra comer num lugar qualquer. Inventou uma porcaria indiferente e se livrou. Bateu o ponto. Precisava muito comer. Misericórdia.


Atravessou a rua puxando a camisa pra fora da calça. Lanchonete cheia. E era o normal daquele horário. A experiência lhe favorecia. Procurou pela tabela de preços. Sanduíche grande e café pra viagem. Separou o dinheiro exato e contou a uma das funcionárias que estava com pressa, que era uma emergência. Disse que tinha o dinheiro contado, tudo certinho. Abriu a mão apontando pras notas amassadas e pras moedas. Sete minutos depois estava mastigando o último pedaço e tomando o último gole sentado num banco em frente à praia. Tirou os sapatos e as meias, dobrou a barra da calça e saiu em direção ao mar. A areia fininha roçava macia nos pés. O barulho do mar era mais alto do que tudo, que os carros passando e que os gritos do futebol e do vôlei. Mais alto que as crianças que gritavam. Um cigarro não cairia mal. Continuasse daquele jeito poderia encabeçar num vício. Lembrou de Oswald de Andrade. Me dá um cigarro? sentiu algo roçando nos tornozelos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequenas Canções (parte 1) - Capítulo 1

Lavou o rosto e deu dois tapas. A garota, a garota... Aline. Isso, Aline. Ela fumava. E ele precisava de um cigarro. mesmo que não fumasse, mesmo que não quisesse fumar. Voltou pro quarto. Procurou no bolso da calça jogada ao lado da garota, acendeu o cigarro e pôs tudo de volta no lugar. Aline não era feia. Era loura dos olhos castanhos, de seios pequenos e quadris largos. Puxou o cigarro com vontade, que coxas! o perfume dela estava marcado em seus braços.  Deu-lhe um beijo no topo da cabeça, cobriu-lhe com um dos lençóis jogados no chão e arrastou-se descalço até a janela. Destrancou-a cuidadosamente, abriu pelas laterais, passou pro outro lado, perna de cada vez, fechou-a novamente.

Deu a volta na casa e o cachorro dormia com metade de seu tênis, estraçalhado, na boca. Agora preciso mesmo de um novo par. Pulou o portão. Catou os trocados no fundo dos bolsos enquanto caminhava até o fim da rua, espalhou as moedas na palma de uma das mãos. O suficiente, o suficiente. E o ônibus vinha dobrando a esquina. A fumaça do cigarro desenhava umas curvas estranhas diante de seus olhos e lhe lembravam as coxas de Aline. Deu sinal e jogou o cigarro no chão. Subiu, pagou, sentou-se no meio. Os trabalhadores que iam e voltavam e os bêbados dormindo e o de sempre, o de sempre: chegar em casa pra mais um dia. Sair domingo tendo de trabalhar no dia seguinte. Parabéns, garoto.

Subiu os degraus de chão áspero que parecia ainda mais áspero nas solas dos pés. Abriu a porta do terceiro andar com a chave do fundo do bolso remendado e calçou os chinelos jogados no batente. Correu até o banheiro e descarregou todo o prazer que só uma boa mijada é capaz de oferecer. Descarga. Lavou as mãos e o rosto inchado. Arrastou-se até a cozinha e fez um café forte e horrível, já que o céu já estava azul e precisava, definitivamente, acordar. Acendeu o segundo cigarro na chama do fogão, pó de café e água quente, açúcar e tinha de acordar. Mesmo mesmo. Precisava também se barbear. Tomou banho frio e toda aquela água gelada dava pontadas absurdas de doloridas e tirava todo cheiro da noite anterior. Fez a barba do melhor jeito possível, uma merda. O que era fazer a barba sem algumas gotas de sangue? Pão com manteiga quase vencida, mais café e o estômago embrulhado. Escovou os dentes, vestiu-se e pegou o crachá. Assobiando Easy Living, do Benny Golson e catando miúdo de trocados pro ônibus e pra comer alguma coisa mais tarde.

Trancou a porta, desceu as escadas. Preferia as escadas apesar do elevador em perfeitas condições. Esperou por algum tempo no ponto até que o ônibus chegasse. Ônibus cheio. Pagou e mergulhou na multidão espremida naquele espaço apertado e foi até o fundo. Sempre se perguntava se era algum tipo de fetiche que fazia com que se espremessem do meio pra frente e o fundo permanecesse praticamente vazio. Era um dos mistérios da humanidade. Todo mundo parecia ocupado demais pra qualquer outra coisa. Ele não. Não havia só a programação padrão, não conseguia funcionar daquele jeito. Mas tinha de pagar as contas de alguma maneira. Era uma grande merda, mas era sua própria grande merda. Era melhor não pensar muito naquilo. Concentrou-se na marca que a calcinha da mulher da frente fazia no vestido. Sentia-se um escroto por aquele tipo de coisa, mas pensar demais a respeito não era o tipo de lógica convincente. Easy Living.

London, London e As Pegadas na Areia - reescrito (parte 2/fim)

Mesmo com toda aquela merda estirada junto de todo mundo, apesar das pontas de cigarro, das garrafas fazias, da seda rasgada, era uma imagem doce. Um mar de inocência sobre os corpos estirados pelo chão do quarto e sobre os corpos espalhados pelo resto da casa. O sol dançava porentre as frestas da persiana e figuras engraçadas e cheias de luz rebolavam no chão. A cabeça doía menos. Todos eram anjos. Anjos nus e deitados nas mais diversas posições. As coxas e as nádegas e os peitos e as cabeças e os cabelos e os braços e os abraços e as pernas, algumas abertas e entreabertas e fechadas, e os entrelaces e os pêlos e as camisas e as camisinhas e os olhos, fechados e entreabertos, e as bocas e as narinas e as unhas e os dedos. Eram todos anjos.


Levantou-se. Estava tonto. Meio tonto. Muito tonto. Firmou os pés e as pernas e caminhou pelo chão coberto das penas dos anjos que dormiam na penumbra imunda. Depois de muitos quilômetros percorridos atravessou a porta e desviando por mais corpos chegou ao corredor. Mais corpos, a cozinha. Pegou o último e único sobrevivente de todos os copos completamente estilhaçados. Caminhou até o filtro. Água gelada no botão da direita, um dois três quatro cinco copos. Beber desidrata pra caralho. Puxou um banco e colocou o copo na pia. Apoiou os braços nas pernas. Virou a palma da mão para si. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Linhas, linhas, linhas.


Linha da vida. Era uma vida cheia de vícios, problemas, defeitos e trabalho de merda, reclamações e nenhum tipo de perspectiva decente. Fechou as mãos e encostou a cabeça nos punhos. A sensação era sempre a mesma. Reparou no barulho do mar. Firmou os pés e as pernas e caminhou até a porta. Virou a chave, abriu e ouviu com maior clareza. Não havia mais corpos de anjos jogados no chão. Só areia. E era tão cedo que o céu ainda não era azul. Pigarreou e cuspiu. Começou a cantar London, London com a pior voz do mundo. Foda-se a voz. I'm wandering round and round, nowhere to go. I'm lonely in London... Sentou na areia. Olhou pro mar e todas as nereidas penteavam seus longos cabelos longos. E viu Iemanjá e Poseidôn e alguns pescadores pequenininhos num barco verde e vermelho.


Virou a palma das mãos pra si. Não havia nada de errado. Havia tudo de errado. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Leu em sua própria mão que talvez pudesse ser feliz. Mas mesmo assim, por via das dúvidas, resolveu tomar mais um copo d’água.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quase

Eu sou um milhão de coisas
ao mesmo tempo e ao mesmo
tempo eu sou uma coisa só

e como existe em mim uma
indefinição de muitas coisas
e de muitos sentidos e de
todos os meus sentidos

tudo é relativo menos
as coisas que eu não sou
e eu sou o infinito.

London, London e As Pegadas na Areia - reescrito (parte 1)

Cabeça latejando. A consciência distante. O corpo implorava pra que voltasse. Cabeça latejando, pulsando dolorosamente. A consciência estava retornando das profundezas do limbo. Parecia ter saído de um longo período de hibernação. Acordou devagar. Olhos fechados. Os sentidos reapareciam devagar. Provavelmente todas as outras pessoas ainda estavam dormindo. Ouviu roncos baixinhos e todos os outros sons estranhos e todas as respirações e estalos sinistros que saíam das paredes.


Ouviu as gotas que caiam na pia. O velho ventilador de teto rangia e as pás da persiana batiam umas na outras. Sentiu a cueca e as calças. Estava descalço e sem camisa. Sentiu que havia mais pessoas por perto. Naquele lugar. Que lugar? Provavelmente um quarto. Um dos quartos. Sentia cheiro de álcool. Vinho e uísque e cerveja caprichosamente misturados. Que suicídio. Cheiro de cigarro. Maconha e cigarro normal. Alguns perfumes. E suor.


Passou os dentes na língua e sentiu gosto de cerveja e tequila. E... aquilo era gosto de cigarro. Alguém se mexeu do seu lado. Alguém lhe agarrou pela cintura e voltou a respirar baixinho. Ele não fumava. Nem mesmo quando bebia. Nem mesmo quando bebia muito. Talvez fosse o beijo da garota, aquele corpo pequeno. Provavelmente a chamara de pequena. Muitas e muitas vezes. Passou o braço ao redor do corpo dela. Não queria nem abrir os olhos e nem se mexer. Mais nenhum milímetro. Por enquanto. Procurou por mais gostos na língua pastosa. Desde o começo havia outro gosto. Forte e persistente e familiar. Mas de quê? Apertou os olhos. A cabeça ainda doía. E tinha o gosto. Gosto de quê? Colocou um dos braços debaixo da própria cabeça. O outro continuava abraçando a garota. O gosto era de boceta mesmo.


Sentiu uma gosta de suor descendo pela testa e escorrendo do lado esquerdo do rosto. Abriu os olhos. Não instantaneamente, claro. Abriu milimetricamente e permitiu que a luz fraca os invadisse aos poucos. Rodou os olhos pelo quarto. Respirou fundo o ar cheio de todas as porcarias que havia notado antes. Afundou a mão nos próprios cabelos. Os dedos procurando espaço no meio das mechas e fios. A garota era de no máximo vinte anos. bonita. Bonita. Não era linda. Tinha um charme natural, essas coisas que chamam atenção num lugar lotado. Livrou-se delicadamente do abraço. Alguns corpos estirados no chão, todos enterrados num sono cheio droga e sexo e muita merda. A garota estava com sua camisa e era só uma camisa. Provavelmente tinha outra na mochila, dane-se.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O dia d(e perceber)a criação

Desde a primeira vez que percebi as coisas funcionavam de outro jeito talvez já fosse tarde demais e já fosse o sétimo dia e o algum deus estivesse descansando depois de passar os seus seis mitológicos dias na superfície inóspita e sem sentido. A luz chegou ao último instante e eu percebi que as coisas que eu via em você não eram as mesmas que eu via antes e que as coisas que eu ouvia de você não eram as mesmas de antes, apesar de tudo supostamente permanecer da mesma forma. Na verdade, não, acho que não, mas loucuras sempre permaneceram definitivas demais e as incertezas sempre foram as mais indefiníveis e confiáveis possível. Enquanto eu seguia o movimento do mundo depois que você passava, eu percebia que até o mundo já não era o mesmo e que eu não era o mesmo e que todas as coisas que antes estavam no mesmo lugar, apesar de permanecerem, estavam reviradas e soterradas de tralhas e entulhos e idéias estranhas e fundações mal planejadas e maluquices e brainstorm com a dor de cabeça que só aparece às duas da manhã da quinta pra sexta porque ainda não chegou o final de semana.


Quando finalmente decidi falar alguma coisa as palavras pareceram complexas e inimagináveis e interrogações intermináveis apareciam entre todas as sílabas e as regras de pontuação desapareciam e conjugação desaparecia e versificação desaparecia e concordância não tinha importância e nem o instinto e nem os grunhidos tinham definição suficiente e eu voltava pro primeiro estágio, o estágio de só seguir os movimentos. Segui-los tão silenciosamente que o vácuo provocado entre as cordas vocais e os nervos que tilintavam cuidadosamente aumentava meu ritmo cardíaco e só me permitia umedecer a boca seca e secar as mãos suadas no jeans e estalar os dedos e ouvir o resto do mundo enquanto o algum deus estava ocupado demais descansando pra me dar atenção. E quando se fez luz a luz não era mais suficiente e faltava sangue nas extremidades, o que seria preocupante se eu precisasse de uma ereção. Mas eu não preciso de muita coisa, eu só preciso de uma delas. E não é de desespero.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações (continuação - terceira parte)

Tá tudo bem com a situação? Você consegue separar as coisas? E achava que podia. Mas, bem, esse lance de certezas absolutas nunca foi o meu forte. De cigarro na boca e olhando o relógio da parede pensar sobre tudo aquilo talvez não me desse nenhuma solução. Voltei até o quarto e peguei o caderno do projeto atual guardado debaixo da cama. Mônica continuava dormindo com o lençol cobrindo do umbigo pra baixo, os tornozelos de fora e parte do cabelo junto do seio esquerdo. Seus seios eram pequenos e firmes e cabiam com folga em minhas mãos e tinham o tamanho perfeito pra minha boca. Mas não era o suficiente, queria que ela sentisse pelo menos interesse em mim. Voltei pra cozinha e li tudo. O enredo estava provavelmente na metade. Tudo extremamente bem descrito e trabalhado. Real. Uma grande merda aquilo ser tão bom. Era material pra qualquer tarado regular socar uma no escuro e depois continuar com a história.


Coloquei o caderno no lugar e sentei na beirada da cama. Talvez fosse melhor continuar daquele jeito. Era uma garota ótima. Do que eu poderia reclamar? Até que eu não pudesse mais me conter a situação permaneceria a mesma. Ela continuava dormindo, na mesma posição e respirando do mesmo jeito. Era estranho que eu a amasse daquele jeito e que as coisas permanecessem as mesmas de antes e que só eu então percebesse quão incríveis elas sempre foram. Era estranho. Era estranho perceber que eu sempre fora um canalha solitário junto do céu alaranjado do centro velho e que minha disposição não era mais a mesma. Que minha predisposição pra cafajestagem já não era a de sempre. Coloquei as pernas pra cima do colchão e esfreguei os olhos. Duas da manhã. Deitei ao seu lado e encostei o rosto no pescoço morno. Melhor mesmo era não pensar em porra nenhuma. Fechei os olhos e decidi ir embora só no dia seguinte. O amor é mesmo um cão dos diabos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações (continuação)

Nossa parceria - chamemos assim- começou quando ela precisava escrever sobre sexo. Graças a nossa recém adquirida cumplicidade era bastante cômodo que me pedisse um favor daqueles. E eu não poderia negar já que ela precisava de material. E eu também, mesmo que em sentidos diferentes. Não era do tipo que acabava logo. Os dois aproveitavam bastante, cada um com sua devida preocupação. Durante uma de nossas conversas, Mônica comentou rapidamente sobre a necessidade. Depois de um tempo eu já sacava a situação. Já te chuparam? Já sim, mas acho que nunca bem o suficiente. E então ela me chupou como provavelmente uma chupada de verdade deve ser, mas nunca é. E enquanto fazia todo o trabalho e eu lhe segurava pelos cabelos pra que não lhe caíssem na frente, falei que estava combinado. E era a intenção dela.


O esquema era simples. e prático. Conversávamos como sempre fazíamos, bebíamos e fumávamos um pouco e depois fodíamos. Era a continuação de nossos encontros. Era comer bolo e tomar café na lanchonete da esquina, comprar cigarro, pagar as contas, entregar trabalhos e trepar e fechar as persianas pra beber um pouco e um dos dois ir embora. No começo tudo certo. Mas diferente de qualquer outro cafajeste que há por aí acabei me apaixonando. Nossos encontros continuaram e eu tinha de mascarar da melhor forma possível a satisfação que eu sentia junto e dentro dela. Não era mais a satisfação de um pau necessitado. Era a satisfação completa que não fazia o menor sentido. Era entrar em parafuso ao perceber que era amor.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações

Olhei pro relógio da parede e haviam se passado vinte minutos. Tinha enrolado uma toalha na cintura pra não andar de pau pra fora e pagar de voyeur pros vizinhos dela. Ela. Eu estava naquele território estranho e repentino com a garota por quem eu era maluco. pelo menos é o que eu acho. Mas esse lance de certezas absolutas nunca foi o meu forte. Tomei um copo d’água e peguei um dos cigarros que ela fumava e acendi na chama do fogão. Conheci Mônica dias antes na fila do cinema em uma sessão cancelada. Mesmo sendo um pouco egoísta e introspectivo quando estou sozinho acabamos conversando, já que o lugar comum que reúne as pessoas é indignação e palavrões. E no fim das contas eu tinha achado elegante e bonito o jeito que ela tinha mandado tudo à puta que pariu.


Entre o quer um cigarro e o quer beber alguma coisa as coisas andaram relativamente bem. Mônica escrevia muito bem, estudava Publicidade, tinha pernas grossas e gostava de Carlos Gardel. Já eu era mais simples, gostava de foder e de Rolling Stones. Acabei lendo metade do caderno que ela guardava debaixo da cama, e tudo era muito bom. Algum dia seria uma novelista conhecidíssima, talvez ganhasse prêmios e eu a reconhecesse numa coluna de domingo. E que a fama não estragasse aquilo que ela escrevia. Muito menos a maciez de sua pele. Tudo que eu lia era tão real que era impossível não acreditar que ela não tivesse vivido pelo menos metade daquilo. Talvez fosse neurose demais procurar marcas de pico em seus braços. Mas ela disse que se picou só pra saber como era e então escreveu. Não sabia mentir tão bem, precisava viver um pouco do que falava. Eu não me incomodava com aquilo. Era intenso o suficiente pra mim.

sábado, 13 de novembro de 2010

Torneira

Meu amor eclodiu de repente
e partiu três pratos na pia:

uma supernova silenciosa
explodindo no infinito do espaço
sombrio.

os copos no escorredor trincaram
e os lençóis embolados
desembolaram

sob o aspecto macio
de uma anã branca dissecando o céu

e o par de chinelos sobrepostos
juntos da porta.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Reabilitação

Quando se decide abandonar o sentimento por alguém as coisas se tornam um tanto complicadas. Pelo menos ao neo-romântico encubado que há dentro de todos nós. Outras até bem simples. Durante o processo de desintoxicação, assim como em qualquer outro, a abstinência provoca crises terríveis. Passar horas agarrado com cobertores forçando a memória mais infecunda possível, tentar sentir o cheiro lavado e esfregado dezenas de vezes depois de semanas. Abraçar os travesseiros e trazer de volta a memória de como era tê-la suando e respirando e gemendo e sorrindo e falando, mesmo quando todas essas coisas não tinham o menor sentido. E mesmo assim, no limite absurdo da neurose, sentir a presença na roupa de cama que na verdade tem cheiro de amaciante. As maratonas de músicas que você ouviria uma vez ou outra, mas precisa passar por sessões cheias de pieguices e repetições de estrofes. Talvez não fizessem nenhum sentido antes, mas na situação são tendenciosamente direcionadas ao seu caso, à sua história.


Jogar o lixo, arrumar a bagunça, adiantar trabalhos, resolver pendências, ler tudo aquilo que você queria há tempos. Talvez não imediatamente, mas em algum momento a grande explosão de percepção fará com que você perceba as coisas que tem de fazer. Que quer fazer. E compara seu caso com as maluquices que você vê por aí, em histórias, com amigos, com os casais que passam pela rua, nas explicações biológicas, nas letras das músicas que você não ouvirá por muito tempo. E é então que você precisa fazer a barba ou raspar as pernas e cortar o cabelo e as unhas e sair de verdade, ver a luz do sol de verdade sem enganar a si mesmo. Até lá, qualquer tipo de gozo forçado só remeterá ao corpo estremecendo no silêncio e os dois ofegando nus e jogados e debruçados e lado a lado como vítimas de um atropelamento amoroso. Você percebe que foi casual. Que não deveria ter levado as coisas tão a sério. Alguns pensam em se matar, mas usam só dois três comprimidos pras dores de cabeça ou a faca pra cortar um pedaço de bolo ou uma fatia de pão.


Em pouco tempo você usa de todo o sofrimento pra criar desculpas e bobagens pra dizer quando lhe perguntam sobre como você está e o que fará. Diz que não acredita nisso, naquilo, que atestado e comprovado é não cair no engano do apego. Dias depois está atracado com alguém e se pergunta o que acontecerá dessa vez. Talvez não imediatamente, mas em algum momento de muito tempo depois perceberá também que os dias e as semanas e os meses passaram rápido, que as tardes e madrugadas de dores no corpo e soluços fazem tanto tempo que são uma realidade distante do que você é. Mas sabe que faria tudo de novo. E que fará. Por enquanto você está a salvo, o romântico exagerado respirou e você está tranqüilo. Até pelo menos acreditar que ama o único amor que há por aí. Mesmo sabendo que mentir pra si mesmo é crueldade. E amar mesmo, você só ama o amar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Maré

Ela me amava,
amava profundamente

como quando se ama
a distância só por ser
triste. Tão profundamente
quanto o mar pode

e não pode ser.

Suas mãos eram duas
âncoras pesadas que me
mantinham no litoral
e próximo ao oceano.

Meus dedos lhe prendiam
os dedos e passavam fio
por fio várias criaturas marinhas

que eu mal ouvira falar.

Até então só conhecia
certas espécies de tartarugas
aquáticas e peixes e águas-vivas
de longe. Foi assim com

o amor, foi assim com a saudade,

tão profundamente e agora
respirando distante e longe de
casa

tão naufragado
tão fora d'água.

sábado, 6 de novembro de 2010

O cais está cheio

Cheio de amarugem e de
aninhagem. Cheio da noite

que se choca contra o mar
violento, rugindo apavorado.

Então o mar se choca
contra o silêncio dolorido
e inexplicável

que se debate no vazio.

cheio de envolvimento.
cheio de movimento.

Instinto

Todas as poucas coisas que o avô tinha foram deixadas à família. Uma delas foi o casal de passarinhos. Não eram de espécie rara nem valiam tanto assim. A ocupação do aposentado era tratar da melhor forma possível os animaizinhos. Ao morrer, junto do par de sapatos velhos, uma espingarda de ar velha, os álbuns de fotografia e algum dinheiro, deixara também a responsabilidade pelos pássaros. A idéia de ter os bichos presos na gaiola não agradava a todos, mas pelo amor e memória do avô era importante mantê-los por perto e permitir aquela situação. Certas obrigações como limpeza ou alimentação eram revezadas pelos membros da família. Mesmo não gostando da idéia, pai e filho decidiram ajudar.


A situação estava praticamente normalizada depois de planejamento e paciência. Não era uma situação confortável, algo bom ou algo ruim. Era simplesmente satisfatório. Conversaram sobre a responsabilidade de todos a respeito da herança do avô. O garoto era compreensível o suficiente. Fins decididos e assunto resolvido. O sapato seria reformado, a espingarda de ar seria do neto, os álbuns restaurados e os animais cuidados. As tarefas de criação revezadas, todos deveriam ajudar e com o tempo se acostumariam.


Um dos problemas da rotina é como as coisas passam despercebidas por pura mecanicidade e falta de atenção. Um dos membros da família havia deixado a gaiola acidentalmente aberta. Era a oportunidade perfeita. O gato que rondava o quarteirão decidiu agir. Subiu o muro vizinho em um único pulo. Rebolou o corpo magro de costelas à mostra varando o quintal, pulou algumas caixas e finalmente chegou até o segundo andar. Foi descoberto pela quantidade de penas espalhadas e o sangue escorrendo-lhe do focinho.


Convocaram nova reunião. A avó explicou ao garoto que era questão de instinto, de necessidade, de sobrevivência. O pai mantinha-se quieto, chateado. O instinto sobrepujaria qualquer coisa segundo a família. Conversaram durante algum tempo, repetiam o discurso e, tecnicamente, tudo estava resolvido. Família novamente em luto, mas em escala reduzida. O garoto planejava vingança. Não poderia deixar aquilo sem volta, mas teria de agir à surdina. Planejou tudo, preparou tudo. Foi até o armário e recolheu a espingarda de ar comprimido que era do avô. Separou palitos de churrasco e inseticida. Fez o teste. disparos perfeitos.


Espalhou o spray na ponta dos palitos, armou isca para o gato: prato de comida. Alguns dias haviam passado desde a última refeição, teria de voltar. Palitos na arma. Barulho ensurdecedor repentino. Uma explosão dentro da casa que ecoara por todos os cômodos e, provavelmente, por toda rua. A fumaça subiu pelo quintal. Todos desceram as escadas correndo. O pai com uma escopeta apoiada nas costas, rindo. Gargalhando. Os restos do gato estavam espalhados pelo chão. Meu Deus! O que você fez? Por que você fez isso? Instinto, instinto.


O garoto passou alguns dias sem dizer uma só palavra.  Perdera a oportunidade perfeita.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando

Quando eu morrer
hei de morrer em mim
e em mim solamente

apesar de enterrar meu
próprio corpo sem qualquer
hesitação, mas cheio de ternura
e aflição.

Quando eu morrer
hei de morrer em mim
e em mim solamente

crendo que em meus ossos
poderão residir silenciosamente
cada uma das porções impetuosas
dos sorrisos que ficariam pra trás.

Quando eu morrer
hei de morrer
só de amor.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Creación

Presente-mais-que-passado
presente-mais-que-futuro

meu presente passará no
tempo

meu tempo passará no
mundo.

As casas estão fechadas
as choupanas lacradas estão mudas
com suas portas umectantes nas beiras das estradas.

o que houve com o mundo?

encontro freqüentemente mudas vadias decepadas
de negras vegetações no meu canto

a esta altura
meu coração cheio de brumas
não arderá de novo. Onde estão as pessoas?
Onde estão os pronomes?

O silêncio nasce bruscamente
com a intensidade de centenas
de milhares de ruídos,

os trovões invadem os lares
e nada está a salvo. Não há abrigo. O amor é tão
banal que há mais sinceridade

no ódio amigo.

Há bombas e explosões e
os velhos deprimidos de caras amarradas
carpem longas campinas do fim do mundo

as mulheres permanecem mulheres
e seus corpos apedrejados são
ideais estupidamente respeitáveis
e interpretados.

A idéia corrompe o pensamento
e corrompe os sentidos
e corrempe a sensatez
e corrompe o juízo.

O umbigo do homem é do tamanho
do homem do umbigo.

Meu tempo é
tempo perdido.

Aurora

Quando voltou a si, tudo parecia novo e estranho. Mas não era normal sentir-se assim. A cadeira debaixo de seu corpo continuava a mesma cadeira de antes. Seu corpo era estranho, mas era o mesmo. Estendeu as mãos frente ao rosto. Perfeitamente normais, apesar da sensação desconfortável. A sensação era de como se tivesse adormecido sob efeito de alguma droga forte. As linhas das mãos ainda eram as mesmas, a cicatriz no anelar da direita ainda estava lá. Vestia uma camisa branca, alva e limpa. Não estava abotoada. Respirou fundo, o ar parecia estranho em seus pulmões. Esfregou os olhos. Levantou-se devagar. Apoiou os braços no encosto da cadeira, pôs-se de pé.

Olhou ao redor. Paredes brancas, cama simples de lençol, forro e fronha de travesseiro azul claro. Um móvel retangular de cor clara e um vaso de vidro reluzente com água translúcida, uma flor de caule verde escuro, folhas brilhantes e pétalas vermelho-fogo. Caminhou em sua direção e lhe tocou a superfície sentindo sua fragilidade. Abriu a porta única do móvel, alguns cadernos limpos, livros de botânica e um manual de instruções, que recolheu e colocou sobre a cama. Mexeu os dedos dos pés e sentiu o chão frio. Notou que havia um par de sapatos e de meias, ambos negros, ao lado da cadeira. Sentou-se e se calçou.

A porta a sua frente tinha enormes dobradiças de metal polido. Abotoou a camisa com certa dificuldade. Abriu o manual de cima da cama. A primeira página era revestida por papel alumínio. Passou o cabelo curto pra trás olhando-se no ‘espelho’. Estava pálido. Sua aparência era fria. Encostou a mão na testa, a temperatura estava baixa. Olhou pra cima, havia um ar condicionado portátil funcionando silenciosamente. Procurou por seu controle no móvel, debaixo do travesseiro, debaixo da cama, nos cantos. Não havia controle. Decidiu sair. Fechou o zíper do jeans, colocou o livro debaixo do braço, rodou a maçaneta e puxou a porta. Uma luz forte lhe cegou momentaneamente. Fechou os olhos e tateando a superfície externa puxou a maçaneta e se manteve rente à parede até que seus olhos se acostumassem com a luminosidade.

Ouviu barulho de mar. Mar. Nunca tinha visto o mar, mas sabia que aquele era o som vindo das ondas e da água na areia. Debaixo dos sapatos a superfície era dura e lisa. Caminhou por alguns metros. Checava com um dos pés na frente tateando e garantindo o próximo passo. O ar marinho encheu seus pulmões. Era definitivamente uma praia. Como havia parado ali? Todo aquele ambiente era completamente normal ao mesmo tempo de novo e estranho. Não entendia a situação. Esfregou os olhos e concentrou-se por alguns instantes. Readquiriu parte da visão, diferenciando formatos, limites e cores, apesar da falta de exatidão. Com andar mais seguro, desceu alguns degraus até uma pequena mureta que lhe separava da areia. Aproximou uma das mãos pra puxar uma das travas do portão. Sentiu uma leve pressão no pulso e ouviu um estalado seco vindo do portão, que abriu. Atravessou a passagem e andou em direção do mar.

Tirou os sapatos e as meias, seria melhor sentir a areia com a sola dos pés. A areia fria envolvia a pele. Passo a passo distanciou-se de casa. Sentou perto do mar, recolheu alguns grãos na mão, deixou com que caíssem rolando pela superfície dos dedos. No meio de tantas sensações estranhas, finalmente sentia-se bem, mesmo não reconhecendo mais nada ao redor. Abriu o livro no colo. Talvez tivesse realmente ingerido alguma droga. Passou as páginas das considerações do autor. Folheou rapidamente até encontrar alguma coisa. Eram letras garrafais. Modelo 15-AAC Asimov. Propriedade de R. Giskard, direcionado a R. Daneel Olivaw. Mais uma página. As letras tornaram-se mínimas mais uma vez.

Daneel leu sobre complexos sistemas de engenharia, esquemas, explicações específicas em várias línguas. Não entendia nada. Era humanamente incompreensível. Pelo menos aos olhos de um leigo, nada daquilo fazia qualquer sentido. Respirou fundo, deitou o livro na areia junto dos sapatos. Mais e mais perto do mar, sentiu a água morna. Era uma sensação incrível. O que estava acontecendo? Talvez devesse voltar ao quarto, esperar por alguém, procurar por algum telefone ou quaisquer indícios ou pistas do que estava acontecendo. Voltou ao livro e se sentou mais uma vez. Precisava manter a calma. A página estava marcada por uma pequena dobra. Adiantou a leitura do ponto em que havia parado até encontrar as letras garrafais mais uma vez.

  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

  • 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.


 

O mar ainda banhava a costa.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Azul

Como de praxe na época eu havia saído pra conversar e beber com dois amigos. Tive de dormir na casa de um deles. É engraçado perceber como parte dos meus textos começa depois de um surto alcoólico. Não, não. Não há nada em que me orgulhar disso, é uma constatação. Não me envergonho também. Fazia alguns minutos em que pensava sobre o alcoolismo literário. Era estranho. As pás do ventilador não se cansavam, meus olhos estavam vermelhos, meu corpo cansado. A língua pastosa. Em algum momento teria de levantar pra esvaziar a bexiga de todo o filtrado restando das cervejas e uísque e refrigerante e besteiras ditas e não-ditas da noite anterior. Ainda me restava algum tempo. Pela fresta da cortina eu via o sol desenhando o contorno do beiral da janela até o guarda-roupa. Dormir num colchão no chão é melhor que dormir numa cama propriamente dita. A grande merda é não poder fazê-lo sempre. Malditos ácaros. Será que nem mesmo colchões especiais escapam disso?

Esfreguei os olhos. O ventilador não cansa. Levantei sorrateiramente pra mijar. A porta não rangeu. Ressaca ferrada, pra mim, só em situações absurdas. O líqüido quente descendo e borbulhando e espumando e resolvendo todos os problemas do mundo naquele momento. Pelo menos os problemas de minha bexiga. Descarga. Pareciam que dez horas haviam passado desde que entrara no banheiro. Lavei as mãos, o rosto. Bochechar não adiantaria. Lavei o rosto mais uma vez, voltei pro quarto na ponta dos pés. Pés que me levaram de volta ao colchão no chão.

- Que horas são?

- Não sei.

- O relógio tá em cima da escrivaninha.

...

- Meio dia e...?

- Vai dormir. Nove e quarenta.

- Amém. Se quiser tem coca na geladeira.

O sangue voltava aos poucos às extremidades. Coca-cola. Deus, caso exista, há de abençoar minhas possíveis futuras úlceras causadas pelo consumo de coca. O alívio instantâneo no paladar. Lavei parte da louça. Nunca me livro de minha neura de educação na casa de outras pessoas. O único copo sujo na pia, ironicamente, era o que eu acabara de usar. Fui até a janela, queimar os olhos. Putaqueopariu. Eu tinha e ainda tenho lá meus problemas com excesso de sol. É um grande problema quando se vive num lugar onde sol é fração mais-que-dominante dos dias. Não havia nuvens. Nem rastros nem traços. Não havia fumaça de avião. O céu estava completa e sobrenaturalmente azul. Não existe, em lugar algum, céu azul com o azul que existe nessa cidade. Tenho meus problemas de logística com ela, admito. Nenhum deles diz respeito ao céu. O pedaço mais azul do céu.

Alguns minutos se passaram. Um garoto de dez, onze anos apareceu acompanhado de uma mulher de uns trinta e poucos. perto dos quarenta.O garoto de sunga caqui e camisa branca manchada. Eu estava no primeiro andar. Deus deu atenção especial às mulheres. Não há todas, claro. Mas perdeu alguns longos dias em determinadas espécimes. A quase-quarentona exibia em conjunto de biquíni um corpo fenomenal. Não era um corpo os chamados por aí de perfeitos. Não na concepção comum. Era um corpo de mulher de verdade. Tinha suas marcas, suas celulites, suas gordurinhas salientes, suas rugas facilmente localizáveis. E, como em poucos casos, aquilo lhe garantia o tipo de beleza que é difícil de encontrar. O biquíni era amarelo forte. Graças ao banho no chuveiro próximo à piscina o tecido estava levemente transparente. Os bicos negros dos seios despontavam parcial e delicadamente. Deitou-se numa dessas cadeiras de sol. Olhei pra cima mais uma vez. O céu continua azul, não há risco.

Barulho grotesco. Putaqueopariu, o quê agora? Olhei pra baixo. O garoto havia tomado distância e se jogado de barriga na piscina, desgraçando a superfície d’água. A provável mãe continuava deitada. Sem preocupações, todo moleque faz isso. O pai apareceu com latas. Uma de refrigerante, duas de cerveja. Saco de salgadinho. Deitou ao lado da mulher, beijou-lhe rapidamente. Abriu a cerveja, tomou um gole e o gole infiltrou-se por sua garganta e a sensação de maciez espalhou-se pelos músculos. Primeiro os da face. Em seqüência pescoço, caixa torácica e barriga. A mulher fez o mesmo. Não havia mais ninguém no mundo. Todos os vizinhos faziam alguma coisa dentro de suas casas. Eu ouvia algumas pancadas no andar de cima, ou sexo ou uma surra. Ou os dois. Sentia cheiro de alguma coisa no fogo no apartamento ao lado. Poucos carros passavam na rua. Poucos pássaros nos fios.

A mulher arrumou a parte superior do biquíni. Não se preocupe, falei-lhe telepaticamente. Todo topless será bem vindo. Ela sorriu. Logo eu que não acredito em telepatia, logo eu que acredito também nas coisas sem sentido. Respirei fundo, fui até o banheiro. Lavei o rosto mais uma vez. Voltei até a cozinha pra beber água.

- Que horas são?

- Onze e meia. eu acho.

- Ok - com a garrafa de coca-cola na mão

Voltei pro beiral.

- Ressaca?

- Bem pouco. E você? – olhando pra baixo.

- Mais ou menos.

Repeti a mensagem telepática, ela sorriu mais uma vez. Logo eu que mal acredito no céu azul.

Yes

Já foram passos demais. Ok, talvez não até o limite do suportável, mas foi o bastante dentro dos meus próprios limites. Meu próprio código moral não permite a violação dos termos auto-impostos. Além disso, não há garantias. Observar de longe imaginando a consistência que seu corpo assumiria. Que meu corpo assumiria. Com que tipo de coisas eu realmente lidaria depois do primeiro contato real? A boa dissimulação permite manter tudo no mais inquieto dos silêncios. Talvez haja quem desconfie. Talvez. Serão suposições perfeitamente negáveis. No meio tempo observações e comparações estranhas têm de abastecer o limite necessário. Não há outra maneira.

Restam dias contados até que não a veja mais. Até que eu não a veja jamais. Faz duzentos e trinta e nove anos que eu não exagero, juro. Dou essa colher de chá. O inevitável é, sem via de dúvidas, imperfeito. A cidade é pequena. O mundo é pequeno demais. O tempo é curto e ultimamente só me contento com o presente. Ela tem alguém, eu sei, eu sei. Sei exatamente como as coisas funcionam, e mesmo não sendo o melhor dos caras que há por aí, não sou dos piores. Entre toda e qualquer situação o meio termo é sempre cabível. E por isso afundo meus braços e deixo minhas próprias marcas absurdas, agarro com toda força todas as coxas e seguro cada uma das cinturas. O gozo é sempre o gozo e cada ruído é subalterno de uma decisão mal tomada. E ao mesmo tempo bem tomada.


Enxergo-a parecidíssima com algo entre Audrey Hepburn e Zooey Deschanel. Imperceptivelmente estranho. Mantenho contato com meu subconsciente vinte e quatro horas por dia, só lhe falta o par de olhos verde-azulados. Só me falta descobrir que nenhuma delas é o que eu preciso. Acontece. Me viro com neurose e toques dulcíssimos de auto-ironia, elas adoram. Fingir também que está tudo bem é uma decisão. Não a melhor de todas, não a pior de todas. É só uma decisão. Acreditar que enquanto estou de cabeça baixa ou ouvindo Cure imaginando se mais alguém sequer suporta os gritos do Smith, que ela furtivamente olhe como quem não quer nada nem ninguém. Minhas comparações e fixações e observações não são lá as melhores. Mas me mantém na ativa.


- Você gosta de Cure?
- Como?
torce o rosto e sorri.
- The Cure. “Just say yes, nanana, do it now, let yourself go, hum, hm, hm”.
- Gosto.