segunda-feira, 18 de julho de 2011

Seu Lino e a ordem do universo

Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. Ou o universo come seu rabo e deixa pior do que os anéis de Saturno. Por isso você só limpa depois que evacua, e não o contrário. E, bem, existe uma ordem de pertencimento e adequação nas coisas, como por exemplo, fazer a barba. Não adianta você pegar pra um imbecil qualquer fazer sua barba. Ou ele será um açougueiro com uma navalha na mão, ou ele será um inútil que deixará milhões de tufos pelo caminho, ou você fará a descoberta da sua vida.

Conheci uma garota legal há uns tempos, descendente de italianos, a Ruth (e até então não havia conhecido nenhuma Ruth, novidade deveras). Conversamos um pouco, ela estagiava numa firma e eu ainda no começo da faculdade, saímos algumas vezes e graças ao Maria Antonieta da Sofia Coppola, acabei ganhando a garota. Ambos odiávamos, achávamos um lixo, etc., rolou a química no desprezo. Não cabe a mim explicar as mecânicas do desprezo, só louvá-lo incondicionalmente. Uma das vezes apareci com a barba mal feita pra caralho e acabei reclamando que, por pressa, paguei um barbeiro muito ruim. Química do desprezo mais uma vez. Conversamos mais sobre o lance de barbearia, forças universais e o desprezo por açougueiros e inúteis.

Por acaso meu avô é barbeiro.
Seu avô é barbeiro?
Meu avô é barbeiro.
E como funciona, como é, onde é, quanto é?
Funciona assim: você chega lá e pede pra fazer a barba.
Genial.
Né?
Incrível.
Então, é lá no centro e é três e cinqüenta.
Tá de sacanagem, três e cinqüenta?
Não tô, juro.
Caralho! Vou lá amanhã.
Espera crescer a barba antes.
Ai, verdade.

Cultivei uma boa quantidade de pêlo na cara pra saber se o senhorzinho era realmente bom. Ela não reclamava. Talvez até entendesse o que eu estava fazendo e sentisse que era um desafio necessário pra que eu ficasse numa boa. Acordei cedo com ela me ‘expulsando’ de casa porque tinha de ir pro estágio. Tomei uma ducha rápida e comi na rua. Decidi que era hora. A hora. Tirei o cartão do bolso e fui atrás do lugar. E apesar do meu péssimo senso de localização, foi fácil de encontrar. Era um lugar pequeno, simples, arrumado e com cara de barbearia. Justo. Entrei, cumprimentei, expliquei a situação e disse que era amigo da Ruth, que ela havia indicado – essas coisas. Seu Lino abriu o sorriso, mostrou onde sentar. Apresentou-se, preparou a espuma, abriu um estojinho e começou.

Virei freguês fiel. Deixava a barba crescer só pra aparecer por lá, e, conseqüentemente, acabamos amigos. Ele descobriu, obviamente, que eu estava saindo com a neta dele. No assunto era um assunto completamente evitado. Depois seu Lino queria saber como estávamos, se estava tudo bem, quanto tempo estávamos juntos, mil coisas. Passei a freqüentar não só pra fazer a barba. Levava revistas e algum outro material que ele precisava. Pagava as contas, saímos pra lanchar e conversávamos infinitamente. O melhor barbeiro do mundo, faltava isso naquela parede de pisos azul-claros, do lado dos certificados brasileiros e italianos. Torcia pro Palmeiras, claro, time de descendentes de italianos. Outro ponto de identificação, conversávamos sobre títulos antigos, possibilidades de novos, escalações, ídolos, histórias, tudo. No aniversário dele dei o DVD do Pernalonga, Barbeiro de Sevilha (pra ele, o melhor desenho já feito) e uma placa da escalação de 1951 do Palmeiras. E nunca recebi um abraço tão apertado desde então.

Um dia o pseudorelacionamento com a Ruth simplesmente acabou. Decidimos que estava tudo bem e que fora sexo casual era melhor deixar o resto pra lá. Dormi o final de semana no apartamento dela, pedimos pizza, sexo, porcarias na TV, conversamos, sexo, jogo de futebol e segunda-feira fui embora. Ela saiu pro estágio, e eu pra casa. Mantivemos (e mantemos) contato, embora nunca nos encontremos casualmente.

Entrei em época de final de período e avisei ao meu amigo que não iria lá por algum tempo, mas que depois compensaria. Numa segunda à noite recebi a notícia que seu Lino havia falecido, complicações de uma doença antiga – nada esclarecido. Fiquei arrasado, claro. Não fui nem no enterro, nem no funeral. Não gosto de enterros e nem de funerais. Visitei a família dele, dei minha condolências, o que a prática social necessita às vezes (mesmo de mim). Decidi deixar a barba crescer como um tipo de homenagem maluca pro seu Lino, até que completasse certo período – e a barba chegasse no tamanho máximo que eu deixava antes de passar pela barbearia.

Quatorze dias atrás o melhor barbeiro do universo abriu firma em outro lugar e abandonou a barbearia dele no centro. Que por acaso, agora é um consultório minúsculo de um dentista completamente duvidoso (deve ser do tipo açougueiro). Fiz a barba no primeiro barbeiro/cabeleireiro que encontrei. Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. No final das contas o cara era um açougueiro iniciante: fodeu só um pouco meu rosto, e a pele ficou irritada pra caralho, alguns cortes, normal. Nem todo mundo sabe fazer barba. Nem todo mundo sabe como funciona o universo.

You'll realize you're totally full

and there’s no space left.

Your eyes full of visions
your mouth full of words
your skin full of touch
your ears full of sounds
your nose full of scent
your streets full of steps
your vaults full of deads
your foul sky of clouds
your mind full of nothing
your place full of nowhere.

Saturday Sun

Deixa eu anotar um negócio na sua mão, preciso pra lembrar de um negócio.
Por que não anota nas costas da sua? (e ela riscando a palma da minha mão).
Não dá pra escrever na minha pele, acho que essa caneta me odeia.
Tá certo. Mas e se eu suar vai sair…
Tá muito frio pra você suar.
Verdade. É pra lembrar que tem alguma coisa anotada na minha mão quando?
Quando você me deixar na porta de casa.
Vou te deixar na porta de casa?
Vai.

Ri e concordei. Peguei outras pessoas em outros lugares e dirigi até o outro lado da cidade pra uma festinha dos conhecidos de alguém. Deixei todo mundo no tal apartamento, voltei pelo retorno, coloquei um pouco de gasolina no canto e filei um cigarro enquanto conversava com o frentista. Fumamos e conversamos sobre o preço da gasolina e depois sobre a pensão que ele tinha de pagar pra ex.

Olhei pro relógio e decidi voltar pro apartamento e como havia previsto tudo estava em ares de merda. Grupos espalhados falando baixo e bebericando vinho seco, ouvindo músicas terríveis e rodopiando arrastando os pés e os olhos pelo carpete mal colocado. Desci e fui andando até o posto, conversei mais com o frentista e filei outro cigarro, fumamos e conversamos mais um pouco. Comprei três garrafas de vinho barato e voltei pra ‘festa’. Sentei no sofá espaçoso e quase vazio, abri um dos vinhos com a chave de casa e empurrando a rolha com o dedo.

Fiquei olhando pras pessoas e suas manias bêbadas e suas narinas dilatando aos suspiros, a fumaça de baseado escapando pelos quartos, suas camisas feitas sob medida e os movimentos lentos que faziam, algumas, só algumas, ao ritmo das músicas. Desci mais uma vez e trouxe o frentista pra cima, que acabara de largar seu turno. Concordávamos que não era um bom lugar pra se estar, mas que o vinho barato era doce e que enquanto pudéssemos diferenciar os tipos cambaleando pela sala e pelos corredores, tudo estaria bem.

Montamos um ninho das almofadas verdes do lado do aparelho de som e conversamos esperando até que todos estivessem devidamente bêbados pra não ligar mais pra trilha sonora – como se mesmo sóbrios notassem quaisquer diferenças. Passei pra rádio e procurei uma estação escondida entre os traços finos, rodando o botão bem devagar e atentando à mínima variação de estática e ruído de fundo. For the dreams that came to you when so young, told of a life CARALHO, Nick Drake, dissemos em uníssono. Ficamos em silêncio por muito tempo ouvindo as músicas – era uma espécie de programa especial.

Num dos comerciais ele explicou que o pai dele, que havia morrido quando ele tinha dezesseis anos, adorava Nick Drake por culpa do avô, que venerava o cara e tinha fitas e o caralho a quatro. Achei a história o máximo, apesar de tão curta e simples. Ele listou as melhores músicas, na própria opinião, e eu fiz o mesmo. Secamos a segunda e a terceira garrafas de vinho e prometi que o levaria em casa. Fui até o banheiro, enfiei o dedo na garganta e vomitei parte do vinho.

Escapei por alguns minutos, dei volta pelo balcão da cozinha, que beirava a sala e os limites do carpete manchado, passei por uma das janelas e fui até a piscina onde outras pessoas da ‘festa’ conversavam e tremiam de frio ouvindo as próprias besteiras. Fiquei de cueca enrolei as duas meias na mão direita, onde a garota havia escrito sabia lá o quê. E me joguei na água gelada enquanto meu amigo vomitava um pouco no jardim. Prendi a respiração e fui até o outro lado da piscina com o impulso do mergulho e flexionando o corpo, fiz o caminho de volta a braçadas, saí, peguei as roupas e me sequei na toalha de rosto do banheiro. Vesti as calças e a camisa, mal abotoada, joguei os tênis no banco de trás do carro e levei meu amigo em casa, ambos cantarolando Winter is Gone bebadamente, embrenhando o carro pelas ruas do bairro onde ele morava.

Filei o último cigarro e tomei uma xícara de café antes de voltar pra festa. Abotoei corretamente a camisa, desamarrei as meias da mão, calcei e recoloquei o tênis nos pés. Olhei pra mão e vi uma mancha de tinta borrada. Merda. É a merda da vida. Desengatei o freio de mão e olhei pelo retrovisor antes de passar a primeira, pra ver o céu começando a clarear. Saturday sun, came early one morning in a sky so clear and blue, saturday sun. Dei a volta no final da rua, que não tinha saída, e fiz a descida de volta na banguela, atravessando o bairro inteiro cortando pelas ruas embaralhadas e inclinadas até uma das avenidas principais, passei a segunda, acelerei, passei a terceira e cortei a curva machucando os pneus na curva mais imperfeita de toda a madrugada. Saturday sun, came without warning so no-one knew what to do.

Voltei pro lugar da ‘festa’ pra ajudar a recolher os cacos de todo mundo que eu ainda ‘teria’ de levar pra casa. Carreguei alguns pro carro, deixei outros pra lá em suas camas, sofás e manchas de porra no carpete. Última parada, a última pessoa. Abri a mão.

Então foi isso que aconteceu?
Foi exatamente isso que aconteceu.
Sei.
Bom, seja lá o que estava escrito na mão, espero que você lembre o que era.

Ela sorriu seu sorriso de cabelo em meio rabo de cavalo, seu sorriso das mechas soltas ao redor do rosto, da parte da maquiagem borrada e seu sorriso de como eu quisesse entender, e cantou so sunday sat in the saturday sun bem baixinho. Desliguei, engatei o freio de mão e respirei fundo.

Melhor você esperar domingo chegar. Quer tomar um banho?

Por que

Os dois deitados, lado a lado, nos bancos do carro, totalmente reclinados pra trás.

Por que mesmo você tem de ir embora?
Acho que nem eu mesma sei.
Então por que tá indo?
Você sabe bem o porquê.
Sinceramente?
Hm.
Não.

Ela vira o corpo pro banco do motorista e abre os dois olhos enormes, castanho-esverdeados, umedece os lábios e pisca algumas vezes. Respira pausadamente e talvez esteja insistindo pra que eu faça o mesmo.

Eu nunca fui embora.
Conversa.
Nunca. Desde que ainda existam livros do Neruda pra te mandar, nunca fui embora.
Mas um dia os livros do Neruda vão acabar e daí, mesmo com quaisquer outros motivos, talvez isso seja um prelúdio de merda.
Você sempre desaprende de beber, de tornar as coisas simples, de muitas coisas. Até que você aprenda definitivamente e sobrarem livros do Neruda, eu não vou embora.
Acho que isso tomou um rumo meio estranho, sabe?
Também acho. Lembra aquele bilhete que eu te deixei da primeira vez?
Lembro.
Lembra da última frase?
Lembro.

Virei pro banco do carona, abri meus olhos pequenos, castanhos-sem-graça, contraio o lábio seco e não pisco. Mantenho o olhar fixo. Prendo a respiração por alguns segundos e insisto pra que ela fale por mim.

“Nos veremos em outra vida quando formos gatos”.
Pois é. Mas daí que essa outra vida chegou e nos vemos uma vez ou outra e sempre tem isso de outra vez, outra vez. Pra mim, ir embora em movimento nunca foi problema. Foda mesmo é ir embora e me manter parado, no mesmo lugar. E isso me mata.
Como agora.
Como agora. Isso significa que essa outra vida acabou?
Sabe quantas vidas os gatos têm?
Sete, nove, sei lá, um monte.
Então não.
Ainda não?
Isso é um problema de tempo.
Porra, eu sei, eu sei
Quando você acha que as coisas acabam?
Coisas?
Ah, as coisas, você sabe, tudo.
Ah, todo momento.

Quando

Quando você acha que as coisas acabam?
Coisas?
Ah, as coisas, você sabe, tudo.
Ah, todo momento.
Explica melhor?
Explico.
Agora, nesse exato momento, tudo que existe tá desmoronando. Seja em algum lugar tão longe que nem dê pra entender como chegar lá, como num lugar tão próximo que não dê pra imaginar como estar ali.
Tudo?
Tudo.

Quase silêncio e a areia juntando nas beiradas do corpo e fazendo barulho de saleiro esvaziando devagar. Último gole da vodka e os olhos lacrimejam. Acabou? Acabou.

E quanto mais percebemos algo que não havíamos percebido antes, ou quando conhecemos algo novo, o infinito cresce ainda mais e ao mesmo tempo deixa de existir.
Agora não entendi nada.
Olha, chega uma hora que você sabe que existem infinitos grãos de areia que estão por aí, um por cima dos outros e entre as frestas, nas praias, nas dobradiças, na pele, nos cantos, balançando e fazendo curvas engraçadas por cima do concreto rachado e tudo desse tipo.
Certo, e?
Daí que você percebe que uma coisa que é infinita é composta por uma repetição absurda e simples, e mesmo que você vá até o nada e volte, as frestas, praias, dobradiças, pele, cantos e curvas engraçadas por cima do concreto rachado e tudo desse tipo estará repleto e grãos de areia.

Ela tirou um uísque numa sacola de papel de dentro da bolsa, abriu e tomou um gole, passou a garrafa pra mim e o sol ficou de frente pra nós dois. Colocamos óculos escuros, acendemos cigarros e nos abraçamos, porque no inverno de certas coisas e de certos lugares, até as manhãs são frias.

Acho que entendi.
Pois é. O infinito tá acabando.
Agora?
Nesse exato momento.

Silêncio. e a garrafa vai embora rápido.

Tá na hora de ir pro aeroporto, né?

Ela olha pro relógio, faz que sim e apaga o cigarro gargalo adentro.

E agora?
A gente procura outro infinito pra acabar.

Como

Como será que funciona?
Hm?
Como será que isso funciona?

Tomei um gole generoso de vodka no gargalo, algumas gotas caíram assim que eu afastei o vidro frio da boca morna e da garganta quente.

Quer dizer, um dia nada de realmente importante e grandioso vai ter alguma importância fodida e tudo vai acabar assim.
Sem mais nem menos?
Sem mais nem menos.

Ela tomou três goles curtos, limpou o canto da boca, respirou pausadamente e passou a garrafa de volta.

Como será que funciona?
Isso de existir, né?
É.
Talvez seja tudo uma viagem foda.
Como?
Uma viagem. Assim: antes as coisas que eu percebo que existem agora não existiam, pelo menos pra mim, pelo simples fato de que eu não as conhecia ou deixava tudo passar em branco.
Eu não existia.
Mais ou menos.
Mais ou menos?
É. Sabe quando a gente sabe que tem alguma coisa ali e não dá pra responder na lata?
Sei.
Meio que um lance de genialidade, porque essas respostas simples e óbvias são visíveis só pra quem é gênio. Como perceber que o detalhe mais simples torna numa pintura comum uma obra prima ferrada, é sacar o tempo chave de uma sinfonia, essas coisas.

Tomo dois goles curtos e limpo o canto da boca, cuspo no chão e a garganta contrai de leve e o sol aparece e parece que o fim do mundo, onde o mar cai no espaço, é cor-de-rosa.

E eu?
Não sou sequer inteligente. As coisas têm de cair no colo e com bilhete explicativo, de preferência bem claro e direto.
E será que é assim que funciona?
Não sei se é assim, mas onde eu moro tudo é feito de coisas assim.

A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.

Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.

sábado, 18 de junho de 2011

Onde

A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.

Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.
Não. Quero saber onde você mora.
Tá bom. Entendi. Fecha os olhos.
Pra quê?
Fecha.
Pronto.
O que você tá vendo?
Nada.
É aí que eu moro.
No nada?
Não. No infinito.
O infinito é grande demais.
Não dá pra ver, né?
Isso.
Qualquer lugar é o infinito?
Só quando ainda não der pra enxergar.
Fecha os olhos também.
Pra quê?

Ela sorri com o cabelo escondendo tudo que não é sorriso pra me obrigar a entender que não há nada no mundo além daquele sorriso.

Pra voltar pra casa.

E o resultado é exatamente igual a todos os anteriores.

Quando eu saí pra te encontrar

Subi devagar pelas escadas olhando pros degraus pra não errar os passos, e conforme me aproximava do andar certo ouvia um ruído cada vez mais alto que se transformou numa música que parecia estar debaixo d’água. Abri a porta do sétimo andar e encostei respirando forte na parede ao lado do elevador. Nada contra elevadores, mas escadas são boas o suficiente pra mim. Fui até o final do corredor como se estivesse mergulhando indefinidamente num lago escuro de superfície congelada, a música mais clara. Encostei o corpo, de lado, na porta. Senti as vibrações da madeira fria. Encostei o ouvido e ouvi Chain of Fools, Aretha Franklin. E sorri. A porta tá aberta.

Provavelmente ela me ouviu sorrindo, mesmo com I might be weak child, but I’ll give you strength tocando no mesmo instante. Virei a maçaneta, empurrei a porta e entrei no apartamento vazio. Vazio a não ser por um enorme colchão no meio da sala. E um notebook ligado a duas caixinhas de som, ligados à Aretha Franklin, todos ligados na tomada, com exceção de todas as luzes apagadas menos a do banheiro. Fechei a porta e passei a chave. Fui até a varanda e puxei a porta de correr, três carteiras de cigarro e uma caixa de fósforos sentados no canto oposto. Saio daqui a pouco do banho, acabei de entrar. Tá bom. Demorei um cigarro e meio até que ela saísse secando o cabelo e dissesse pra que eu entrasse.

Andou do quarto até o colchão, ajoelhou e pegou o celular ao lado de uma das caixinhas de som, foi até a varanda e conversou com alguém durante alguns minutos. Troquei de Aretha Franklin pra Billie Holiday, pura preferência. Deitei e fechei os olhos ouvindo These Foolish Things, braços debaixo da cabeça, como sempre, pernas semicruzadas e os pés roçando um no outro ao ritmo da música. A porta basculante abriu e fechou, ela deitou encostando o corpo na lateral do meu. Gostei do seu vestido. Acredita que foi um presente? Sério? Sério, minha irmã. Qual? Laura. A mais nova, né? Isso, você conheceu. Que graça… ela tá com quantos anos agora? Vai fazer nove. Cresceu muito? Esticou pra caralho. Vai ficar maior que você. Não sou alta, você que é baixinho. Billie’s Blues tocando.

Tive que colocar gasolina, você tem grana pra pagar sua entrada na festa? Tenho, mas que horas começa? Ah, já começou, mas não tem problema chegar depois, quer sair agora? Daqui a pouco, deixa acabar a música. Deixo. Ela fechou os olhos, encostou a cabeça no meu ombro e trespassou o braço até o outro ombro. Você fica bem de loira. e de vestido. Fico? Muito, mesmo eu preferindo você ruiva. Vou pintar de castanho escuro da próxima vez, que tal? Putz, não sei, não sei… Então me sugere uma cor. Vermelho. Vermelho não vale. Avermelhado então. Ela mordeu meu pescoço e riu. Castanho escuro e pronto, de acordo. Sou bem persuasiva. Olha… limpei a garganta e passei o braço pela cintura, obrigando-a a deitar com metade do corpo em cima de mim. Que foi? Tem um problema. Qual? Não vou mais pra festa. Por que não? Apontei pra uma das caixas de som, tocando Easy Living e cantei junto for you maybe I’m a fool, but it’s fun e segui até o final da estrofe, até que ela me interrompesse pra dizer que eu respondesse pela manhã.

Alguma coisa indefinida continuava tocando lá do fundo do lago de águas escuras e superfície congelada, as ondas por debaixo do gelo raspando suavemente. Quem se aproximasse de suas bordas e apertasse os olhos talvez enxergasse. Quem se aproximasse de suas bordas e fechasse os olhos talvez escutasse os peixes conspirando no fim do mundo.

domingo, 5 de junho de 2011

Dom Quixote

Meu amor
inquieto e profundo
mora no décimo terceiro andar e sozinho
bebe toda madrugada de sábado
depois de meia-noite fuma e vira os olhos
circula arrastando os calcanhares nas estradas

volta pra casa com bafo de cachaça
mergulha às quatro e meia no tédio final
e ama regurlamente de segunda a domingo.

Meu amor é banguelo
confinado, calado e confuso

e é tão narcisista
que só ama a si mesmo
e mais ninguém. Meu amor
é estrela cadente e eu sou remetente
escala, ortografia e destinatário

E não há nada que eu ame
mais que meus  próprios passos.

sábado, 4 de junho de 2011

Quando eu saí pra te buscar

Daí eu sentado junto duma lanchonete do aeroporto, esperando o avião chegar, pousar e as pessoas pegarem suas malas e saírem. Só pode ficar aqui se consumir alguma coisa. Tá bom, me vê o cardápio... hm, qual o tamanho da xícara? Caralho! desculpa, desculpa, me traz um puro então. Pronto. Daí eu sentado junto duma lanchonete dessas lanchonetes de aeroporto que vendem tudo custando o olho da cara tomando café numa xícara da Barbie, de fones no ouvido e Mutantes na cabeça, Não Vá Se Perder Por Aí. Veja como vem, veja bem, veja como vem, vai, vai, vem, veja bem, como vai, vem, veja como vai, veja bem, veja bem como vem, vai vem se ela vai também.

Olhando pro celular de dois em dois minutos pra saber a hora, desenhando dinossauros no guardanapo e de paletinha de plástico, dessas que se usa pra misturar o café e o açúcar, na boca pra lá e pra cá. Vôo atrasado. Ai, meu caralho. Tá, tá bom. Olha, me vê outro café, por favor? Todas as outras (poucas) mesas estão ocupadas, quem sabe de gente que também está esperando pelo mesmo aviãozinho que eu, ou outro antes, ou depois, ao mesmo tempo, quem sabe. Daqui a pouco todo mundo vai pra frente da porta pra se acotovelar e tentar ver a pessoa que está chegando, pra acenar, às vezes chorar, pular e soltar gritinhos, só pra mostrar prontamente: estou aqui.

Posso sentar aqui com você? Hm? É que as outras mesas estão ocupadas e com muita gente, você é o único que tá sozinho na mesa e, sei lá, se puder... Claro, senta. Obrigada. Quanto é esse café? Eu disse o preço. Caralho! desculpa. Eu falei a mesma coisa, não se preocupe. Bom, vou tomar um também. Qual seu nome? Prazer, o meu é Paula. Pra fingir educação eu tiro um dos fones e continuo com Mutantes na cabeça, mas baixinho, só de trilha de fundo, Não decida, nem pense, não negue, nem se ofereça, não queira se guardar, não queira se mostrar, queira, queira. Qualquer Bobagem. Ficamos um tempo em silêncio, ela puxou um notebook e começou a ler discretamente.

Não prestei muita atenção até quando o café dela chegou e eu vi que não era só uma leitura. Era O Estadão. Só por isso achei que valia uma conversa sobre nulidades, pro tempo passar e essas coisas – não que eu não continuasse olhando a hora no celular, mas agora era de cinco em cinco minutos. Questionário padrão das relações sociais. Você faz o quê? Estudo. Trabalha? Não.  Faz alguma outra coisa? Não muitas.. desenho dinossauros em guardanapos, serve? ela riu e fez que sim. Bom, escrevo. Escreve tipo escrever livros, etc? Não, não, quem dera, só escrevo mesmo. Então é escritor. Não, não, isso passa longe até da minha pretensão. Você disse que escreve, certo? Isso. Escreve bem? Normal, às vezes mal. Tem alguma coisa sua aí? Tem internet aí, né? Tem. Daí mostrei o blog, ela passou vinte e poucos minutos lendo, lendo muita coisa e muito rápido.

Terceira pessoa chega à mesa, encosta ao meu lado e sorri. Oi. Paula e eu olhamos pra cima. Era ela, a pessoa. Não tem muito o que pensar, levantei e segurei forte pela cintura e pelos ombros como se caso eu soltasse aquele corpo virasse pó. Senti a carótida pulsando forte com o nariz encostado no pescoço. Soltei depois de um tempo e apresentei as duas, sentamos e conversamos um pouco. Quanto é esse minicafezinho? Caralho! desculpa, desculpa. Me traz um!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pequenas Canções (parte 7) - Capítulo 3

Ele acordou aos poucos e ficou olhando o ventilador de teto girando pela fresta entreaberta dos olhos e do lençol cobrindo metade da cabeça. Levantou de cueca e camiseta e deu um pique até o banheiro pra vomitar, tropeçando e rebatendo o corpo pelas paredes pra chegar até o vaso e tossir dolorosamente e cuspir sem sequer o mínimo sinal de refluxo. Foi até a geladeira e pegou a penúltima e mais gelada cerveja pra tirar o gosto fantasmagórico da boca, pra acalmar a língua grossa e pastosa e começar a trabalhar na ressaca.


Ouviu os passos correndo do quarto pro banheiro do mesmo jeito que fizera, ouviu a tampa levantando do mesmo jeito que fizera e, pelo jeito, a mesma situação, só pra completar outra descarga fazia sem sequer descer quantidade aceitável d’água. Sentou no chão com as costas encostadas na parede e terminou a cerveja em mais dois goles longos, pegou a outra – a última – e dividiu com ela assim que se sentou na cadeira junto da mesa. Ela com a camisa dele semiabotoada e de calcinha, de cabeça baixa e terminando a outra metade da segunda garrafa. Abriu a mochila de cima da mesa e puxou uma cartela de comprimidos, tirou três e jogou dentro da cerveja, tomou alguns goles e entregou – É pra ressaca, toma.


- Posso tomar um banho? Tenho aula daqui a pouco e tenho uma roupa aqui na mochila.
- Tudo bem. Volto já.


Lavou o rosto, vestiu a calça que estava no chão do lado das garrafas de uísque e vinho, calçou o sapato sem meia. Pegou os óculos escuros dela, juntou alguns trocados da gaveta e saiu pra comprar pão e mais alguma coisa pra comer. Voltou uns minutos depois, fez omelete com queijo e um pouco de verdura picada, passou café com pouco açúcar e ficou encarando o teto enquanto fumava. Ela saiu arrumada, de óculos e cabelo preso e, diferente dele, com uma cara ótima


- Queria ter esse nível de recuperação.
- O que um banho e um doce não fazem. Ainda tem na mochila, se quiser.
- Fiz café e omelete. Comprei pão e tem cigarro. E a bala eu decido se tomo depois.


Ele cortou a omelete ao meio e dividiu cada metade em cada prato, encheu as duas xícaras, avisou que estava forte e que tinha um pouco de leite na geladeira. Ela pegou um cigarro da carteira, acendeu no fogão, comeu com pressa, escovou os dentes e disse que tinha de sair pra não perder a aula.


- Queria ter esse nível de café da manhã todos os dias.
- Eu também.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Enjoado

Não, eu não sou doce.

Até porque
se eu o fosse
o gosto azedo sempre
me faria mudar.

Carta ao Tom 74

Gravação minha  tocando e cantando a música Carta ao Tom 74 (composta por Toquinho e Vinicius de Moraes). [Ignorem a voz e a gravação ruins].

Carta ao Tom 74
(link externo)

domingo, 29 de maio de 2011

The song remains the same - The song remains the same.

Não tem trabalho pra agora. Já escrevi os artigos, mandei pra revisão e fui pago, tudo bem adiantado. Não há muito que fazer, contas já pagas e sobrou um bom dinheiro graças às bonificações em relação ao tempo e isso dá uma margem pra custear meus vícios. Porque a minha vida, e a de todas as outras pessoas embora não admitam, depende também desses vícios. Vício é vício e não importa se você fuma, joga compulsivamente, bebe feito um maluco – seja álcool, café, refrigerante, ou suco de laranja – ou é viciado em pornografia. Você precisa do silêncio mental constrangedor com o qual você não se importa. E não dá pra pensar sinceramente em colocar um ponto final e se enganar, porque o máximo a se fazer é enfiar uma vírgula e trocar um vício por outro. Nem que troque por um comportamento paranóico. E talvez, se não aprender a aceitar a si mesmo, acabará enrascado e realmente sozinho com as pessoas ao seu redor ou não.


Meu chefe atual tem uma coleção de isqueiros. Esse aqui acabei ganhando porque ele tinha dois. Uso em ocasiões especiais. Quase todas são e eu prefiro fingir que existirão melhores chances pra fazê-lo, mas acabo usando mesmo assim. Coloco o The Song Remains The Same pra tocar, acendo o melhor dos piores cigarros e sorrio no escuro. A porta do quarto destranca e ela sai rebolando de calcinha e com a minha camisa de botão preferida, pegou um baseado da bolsa e acendeu na ponta do meu cigarro. Vai até a geladeira e pega a minha jarra de suco de laranja, batiza com a vodka do armário e senta no chão pra ficar calada. O gato pára do meu lado, desloca as vértebras estirando o corpo, ronrona, mia baixinho (sarcasticamente) e desaparece no corredor.

- Como você quer que isso acabe?
- Eu quero que isso acabe?


Ela toma um gole demorado e suspira.


- Você quer me contar alguma coisa?
- Eu tive um sonho. Um sonho louco.
- Ahn?


Limpei a garganta e tossi um pouco - Ouça minha canção.


Ela terminou o suco e lavou a jarra, pegou um cinzeiro e colocou do meu lado, tirou a camisa e foi pro quarto pra colocar a própria roupa.


 - Você não vai ouvir agora? Cante junto.
- Você não vai mesmo dar o braço a torcer, vai?
- Não mesmo.
- Você não sabe o que está perdendo agora.
- A luz do Sol da Califórnia, na doce chuva de Calcutá, a Honolulu estrelada?


 Ela puxou a agulha da vitrola e eu parei de citar a música.


 - Olha, Diana, hm..
- Você prefere mesmo se manter sozinho?
- Eu sempre me mantenho sozinho. Ainda mais com coisas que não dão certo.
- Como relacionamentos?
- Isso. É o único vício que eu admito.


Coloquei a agulha na vitrola e respirei fundo.


- As luzes da cidade são brilhantes, enquanto vamos escorregando, escorregando, escorregando por completo...
- Você é... é...
- Sou...?
- Irreversível.
- Irreversível?
- Isso.
- Oh, mas eu sei que eu amo você assim.
- Não tente me conquistar citando as músicas de sempre.
- Por quê?
- Porque as pessoas às vezes mudam. Ou fingem que o fazem. Mas canções... as canções continuam as mesmas.

domingo, 22 de maio de 2011

What it takes

It takes a lot
to laugh, laugher
taking so blue
cryin' songs
it takes a lot
too.

The song remains the same - Presence (segunda parte)

Pouco tempo depois larguei a faculdade e todas as besteiras ligadas à ela (mas mantive a carteirinha pra comer os bandejões diários) e passei a trabalhar como freelancer da empresa, agenciado pelo meu antigo chefe, uma lenda do jornalismo e um ótimo amigo, que me ensinou a fumar descontroladamente e a escutar Bob Dylan de vez em quando. E conforme recebia propostas melhores pra projetos e textos melhores e mais importantes (e mais bem pagos), selecionava estrategicamente os de prazo mais apertado e guardava de pouco a pouco pequenas partes das comissões e pagamentos e bonificações mensais pra investir em alguma coisa. A primeira alguma coisa a se investir foi um carro pequeno, barato, usado e incrivelmente econômico, meu meio de transporte eterno, que eu talvez largue quando ele quebre de vez. Talvez.


Comprei um teclado antigo e voltei a praticar. Arrumei mais uma vez a discografia do Led, agora em CDs, e aos poucos voltava à velha forma. Ganhei do Augusto, filho do seu Vieira, agora dono da empresa do falecido pai, a discografia do Dylan que pertencia ao seu pai. Tornamo-nos bons amigos, principalmente de longas e duradouras noites nos bares pela cidade. Acabou que lhe apresentei Marina, uma antiga colega de faculdade e os dois namoraram por muito tempo até acabarem noivando. Depois, com outros dois ex-freelancers, Rômulo e Tereza, e finalmente um advogado homossexualíssimo, Beto ( que conhecemos tentando apartar uma briga séria entre ele e dois marmanjos bêbados que insistiam em chamá-lo de viadinho – que apanharam, claro, afinal pouca gente consegue não apanhar pra um mestre em artes marciais), juntamos, digamos, um grupo digno de bebedeiras inconseqüentes e freqüentes.

The song remains the same - Presence (primeira parte)

Como eu vivia metodicamente em relação às despesas conseguia manter tudo numa mesma média e pagar as contas, comer e comprar uma peça de roupa de vez em quando. Apesar de nunca dever aluguel ou qualquer outra coisa, não sobrava quase nada da grana pra comer bem ou pra sair pra tantos lugares e esbanjar o mínimo do possível. Sempre que podia comia os bandejões na faculdade (que quase sempre perdia por questão do horário) pra poder xerocar algum livro pra estudar. Graças ao ritmo da rotina acabei me demitindo do emprego e trancando algumas matérias pra não explodir. Os sábados, então, eram sagrados e se eu não arrumasse alguma garota pra voltar comigo pra casa, alguma garrafa voltaria comigo.


Por ter perdido o emprego mudei pra um apartamento num lugar perigoso e mais distante da faculdade – distância que eu compensava acordando razoavelmente mais cedo pra andar um bom pedaço do percurso só pra pegar o trem que parava duas quadras antes do campus. Passava mais tempo na faculdade pra pegar todas as refeições, aproveitava pra estudar na biblioteca e tomar porres na grama que engolia parte do meu corpo e escondia todas as minhas pretensões e mergulhava meu falso orgulho no verde molhado. Por estudar mais pras poucas matérias que eu pegava, acabei chamando atenção de alguns professores e acabei arrumando um estágio remunerado e voltar a morar no antigo apartamento, mas preferi continuar, mesmo assim, com a antiga rotina das longas caminhadas debaixo do sol. Perdi o aspecto de magreza e o branco maltratado da pele.


Acabei contratado na empresa onde estagiava, que depois de dois meses e meio se dividiu entre companhia de freelancers e redatores padrão. Recebi convite pra estagiar na agência de freelancer e deixei a proposta de molho por uns tempos. Trabalhei exaustivamente como redator e mal sobrevivia com o baixo salário e o tratamento fodido que a empresa dava aos empregados. Pedi demissão na segunda e, depois de pedir desculpas por ter demorado tanto pra responder ao convite, estagiei por seis meses com trabalho de revisão e de office boy até que me contratassem pra parte administrativa.


Nessa época achei um filhote de gato preto bem machucado jogado no terreno baldio ao lado do prédio onde eu morava. Levei ao veterinário e depois pra casa. Ele se manteve mudo, sem sequer um mínimo miado, por dois meses, até que em uma noite esqueci servir a ração. Suficiente pra que começasse a falar verborragicamente pra reclamar sobre os horários das refeições e o cheiro horrível dos meus sapatos e do meu hábito terrível de trocar as notas mais óbvias o possível na hora de tocar teclado. Demorei pra acostumar, claro. Ficou decidido, então, que ele não era mais ‘um bicho de estimação que morava comigo’, mas que era meu companheiro de apartamento. E que eu não deveria arrumar nenhum nome ridículo ou chamá-lo por apelidos bobos. Nunca me chamava pelo nome, mas de ‘você’ ou humano – sempre com um tom de desprezo amável na voz. Tendo o contrato de convivência firmado, ele não ligava pras garotas que eu levava pra casa ou pras vezes que eu caía de bêbado no chão e dormia até o dia seguinte. Desde que eu nunca esquecesse sua ração.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ayala (primeira parte)

Perto dos últimos dias de aula dei de cara com uma folha maltrada em um dos murais, sobre uma viagem com um grupo de estudantes até uma casa distante no interior do país, e que precisariam de mais pessoas pra ajudar a pagar algumas despesas. Liguei de última hora e viajei como membro extra do grupo, sem conhecer ninguém. Precisavam de um lugar pacífico e relativamente distante pra concluir um trabalho complicado e no caso de dois deles, relaxar e estudar pra defesa de suas respectivas teses diante de uma banca. E eu, longe de toda e qualquer finalidade parecida, achei que seria diferente. E só isso. Éramos gentis uns com os outros, mas no limite do necessário, trocando poucas palavras. Grande parte das conversas era sobre o tal trabalho e as tais teses a se defenderem, e por mais que eu sinceramente quisesse ouvir sobre tudo houve um momento em que não agüentava mais aquele tipo de contato.


E então, como estavam ocupados o suficiente com suas próprias tarefas, não foi nenhuma surpresa que eu me isolasse do resto do grupo e passasse a maior parte do tempo dormindo ou bebendo ou escrevendo ou caminhando cada vez mais distante da casa. Quando finalmente descobri a desembocadura de uma cachoeira fraca e baixa, que formava um pequeno lago dentro de uma clareira escondida depois de um terreno abandonado decidi que passaria a maior parte do meu tempo ali. Acordava mais cedo, tomava banho e um café da manhã bem reforçado, vestia meias grossas, calça e camisa de botão pra sair o mais rápido possível e chegar na clareira antes do almoço. Normalmente deitava na grama e rabiscava alguma coisa, esboçava as árvores ou tentava escrever, mas sempre era interrompido caindo no sono.


Na última semana decidi que tinha de terminar algum desenho e completar algum texto, que por mais agradável fosse dormir na beira do lago, deveria aproveitá-lo de outra maneira. Comi mais reforçadamente antes de sair e tomei várias xícaras de café. Guardei um energético na mochila velha onde levava o caderno, o estojo, o guarda-chuva e o casaco, alonguei-me durante algum tempo e saí.

Acrux

Na soleira do cruzeiro
mora na exaustão imprevisível

a Magalhães mais distante
de São Paulo no Pacífico.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

La Noyée (la manière qu'il devrait être)

Sentei nos primeiros degraus do lance de escadas do segundo andar, arregacei as mangas até a metade dos antebraços e me senti um pouco culpado por nem sequer ter vontade de chorar. E ao ponto de me sentir um pouco responsável sobre tudo. Apoiei o cotovelo na perna e segurei a cabeça, pelo queixo, com a palma da mão, respirando forçadamente pela boca durante alguns minutos enquanto um pouco da fumaça do frio ardia nas bordas dos lábios. Doía bastante, claro. Fechei os olhos pra lembrar o que havia acontecido. Uma discussão boba, as discussões sempre são bobas. Descobri que ela estava me traindo há umas duas, três semanas, e não havia nada de tão doloroso nisso depois de todo afastamento. Não havia muito que confrontar, só falar o que eu já sabia. Fazer cara de bravo (talvez) e esperar que tudo acabasse da melhor forma possível.


Nunca consegui fazer cara de bravo, ainda mais quando não faz a menor diferença, então, logicamente, apareci com um ar indiferente e decidi que não precisava de cerimônias pra lhe dizer a verdade, nem pra confrontar. Quando comecei a falar ela se deu ao trabalho de negar por algum tempo, pouco tempo, já que não era nada necessário. Fui até a janela e encostei contra o vidro frio e imenso, e as luzes dos bares, do shopping e dos carros refletiam no vaso de flores sem flores e no espelho de canto rachado. Você lembra daquele música do Gainsbourg? Qual? La Noyée. O que isso tem a ver? Acho que significa “a afogada”. Isso, mas o que tem a ver?


Você entrega os pontos sobre o rio das recordações, e eu, corrente sobre a margem, grito que reapareça, mas, lentamente você se afasta, e em sua rota desnorteada, pouco a pouco recupero um pouco de terreno perdido. Abri a janela e perguntei se poderia acender um cigarro. Ela fez que sim, acendi, traguei e continuei. De tempos em tempos você avança no líqüido instável, ou melhor, arrastando alguns galhos você hesita e me espera escondendo seu rosto em seu vestido levantado, por medo que não te desfigurem o medo e a vergonha e os lamentos. Você é apenas um pobre farrapo. Fiz uma pausa e expliquei que não a chamaria de cadela, apesar de que o houvesse na música. Fatigada em um fio d’água.


Respirei pesadamente enquanto ela enxugava inutilmente mais algumas lágrimas. O que você quer dizer com isso? O que você acha? Você não terminou a música. Eu sei. Cadê o “mas continuo seu escravo, e mergulhado no riacho quando a lembrança acabar e o oceano do esquecimento romper nossos corações e nossas cabeças, para sempre nos juntaremos”? Ele não está mais aqui.


Abri os olhos, ouvi alguns berros vindos do penúltimo andar, achei graça e sorri. Dei a volta no prédio e a vi atirando algumas coisas pela janela. O vaso vazio não caiu, foi atirado contra o outro prédio, ao lado, e espatifou com força na parede espalhando água e barulho. Depois um porta-retratos, dois livros (péssimos livros, ótimos presentes). Alguns dos outros presentes que eu havia lhe dado continuaram caindo. Por último alguns CDs saíram pela janela. Quando a confusão havia terminado e ela fechado a janela, recolhi o lixo do meio da rua e joguei numa lata de lixo. No meio de tudo havia um CD gravado, escrito Serge Gainsbourg de caneta de retroprojetor, que guardei no bolso do casaco, e então nadei até a superfície olhando a imagem da afogada na janela.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

The song remains the same - Physical Graffiti

Não havia vestígios tão claros de outra presença na casa além da bebida que acabava mais rápido que o normal. Ela e o gato se davam bem, mesmo que ele ainda não falasse com ninguém além de mim. E nós dois nos dávamos bem. Estigmas surgiram, pois é, o grande problema do convívio é que ele evidencia todas as coisas óbvias sobre qualquer outra pessoa. Eis um dos grandes problemas da existência de uma verdade, caso você considere a obviedade sincera um problema. Nunca soube brigar. Muitas vezes por não ver sentido em quase nenhuma briga. Quando mais novo, um grupo de garotos se reuniu à minha volta pra tentar me tirar do sério, desrespeitar, sei lá, acho que nessa idéia o conceito de respeito é mais pelo medo prático do que pela teoria. E lembro bem que eles xingavam desde o filamento mais simples do meu DNA até os fios de cabelo da minha mãe. Como não resultara em nada, passaram a cuspir. Eu me limpava e não era nada de mais. Uma hora, depois de dar alguns tapas no meu rosto, desistiam e saiam de perto do menino estranho. Meus amigos me cobravam alguma atitude e chegavam e me bater pra ver se eu esboçava alguma reação. É, eu sei, eu era realmente um garoto estranho. Em casa era praticamente igual.


Quando apanhava, eu só verbalizava dor pra não me machucar tanto apanhando, e eu confiava nos motivos pelos quais eu levava minhas surras. E tinha preguiça de revidar com argumentos. A única vez que revidei numa briga, na escola, foi pra defender um gato vira-latas de ser morto pelos moleques de sempre. Apanhei bastante, claro, mas lembro que, não fosse a amizade dos meus pais com a diretora da escola, teria sido expulso – e até ia dar rolo na polícia. Durante um mês meu pai demonstrou um misto de orgulho e decepção. Decepção pela situação, claro. Orgulho por eu ter quebrado os narizes de cinco garotos. Vai saber. Depois disso me tiraram do karatê e decidiram que eu deveria canalizar minha raiva de outra maneira, e meio que muitas coisas vieram a calhar. Herdei um piano do meu avô, um piano bem velho e vagabundo. Fora o som, que era bem estranho. Puseram-me em aulas de piano. Não me interessava pelos clássicos, mas os aprendia pra não criar grandes problemas.


Com quinze pra dezesseis me envolvi com a professora de piano, que era casada. E durou até perto dos meus dezoito, e toda conotação sexual das aulas só tornava tudo mais interessante. Não tocávamos mais clássicos eruditos, mas os clássicos do rock’n roll. Quando ganhei meu primeiro LP do Led Zeppelin, da minha tia Lúcia, o Physical Graffiti, gastei um mês e meio tirando as músicas de ouvido. A Zuzu (chamemos a professora de piano assim) marcava mais aulas só pra me ouvir tocar Led, que, segundo ela, era uma interpretação tão sincera e visceral, que nem mesmo intérpretes de música clássica poderiam tocar algo com tanta vontade. Ganhei o resto dos LPs da discografia da própria Zuzu. Passei-lhe minhas referências musicais de uma a uma, desde Iggy Pop ao Zeppelin e aos progressivos brasileiros que eram a grande onda underground da época. E ela ensinava coisas que nenhum garoto de quinze anos poderia saber sobre como trepar direito.


Numa quinta ela não apareceu. Nem na sexta, nem na semana seguinte e pra nunca mais dar as caras. Na época simplesmente conclui que sua consciência havia pesado. Claro que, com meus dezessete e meio, o fim daquela relação estranha havia me deixado bem ferrado. Só até eu entrar na faculdade, que era em outra cidade. Doei o piano, vendi a vitrola, levei os LPs comigo, que sobreviveram até invadirem a república e os roubarem junto de mais um monte de porcaria. Dia mais fodido da minha vida. Nunca chorei tanto. Nunca bebi tanto. O foda é que por culpa disso comecei a trabalhar depois da faculdade e juntei uma grana. Passei a morar sozinho, essas coisas. Coisas que fodem a visão de mundo de um cara com dezenove anos e uma libido inconseqüente.

domingo, 24 de abril de 2011

Quando o sol se põe vem o farol

O mar começou a quebrar contra as pedras perto do farol com suas ondas de fim de tarde, e por mais quente que o dia havia sido, logo logo os deuses soprariam ventos frios vindos das profundezas do horizonte. Vi uma garota de cabelos curtos e molhados na frente do rosto, de braços cruzados e olhando pro nada, fumando, com uma camisa branca meio molhada de letras garrafais WAY e canga enrolada na cintura feito saia dançando sozinha, como se possuísse um corpo independente e que a imobilidade da garota não fizesse juízo nenhum pra que parasse de flamular. Baden Powell tocava continuamente umas suítes na minha cabeça, bem baixinho, enquanto o sol descia vermelho e atravessava as ondas além dos barquinhos que voltavam do mar.


Não parece o farol da barra?
Hm?
Não parece o farol da barra? a garota segurava o cigarro nas pontas dos dedos e mantinha a mão no alto da testa, segurando os cabelos, de braços cruzados e caminhando descalça pra mais perto.


Dei uma boa olhada no farol. Era um cara bonito, imponente, claro. Mas não parecia, nem de longe, o farol da barra. Hesistei um pouco, cocei a cabeça e respondi sinceramente que não. Ela sorriu, como se já esperasse minha resposta, e caminhou em direção da fogueira, afastando-se de mim. Sorri sem graça e bebi um pouco d’água afundando a cabeça entre os ombros.


 Fuma?


 Olhei pra trás e vi a garota com um violão na mão e um cigarro aceso na boca.


 Você tem?


Ela tirou o cigarro da boca e colocou na minha, entregou o violão e perguntou se eu conhecia alguma música boa.


Conheço várias.
Sabe tocar alguma delas?
Quase nenhuma.


Ela riu e me puxou mais pra perto do farol, beirando as pedras e o mar. Baden Powell fez de silêncio e eu ouvi Pepeu Gomes tocando devagarinho. Acompanhei como pude no violão. Ela sorriu, deixou os cabelos molhados caírem por cima do rosto mais uma vez e começou a cantar ‘Farol da Barra’, mexendo o corpo com o vento e sorrindo por entre os lábios finos e pelas mechas que atravessavam na frente da boca.


Quando o sol se põe vem o farol iluminar as águas da Bahia, no farol da Barra o encontro é pouco a conversa é curta, tudo é tão rápido como se furta, como a luz bate nas águas, como tudo que se passa, quando o sol se põe vem o farol iluminar as águas da Bahia...


Qual seu nome?
Hm, qual você acha que é?
Não sei. Mas vou te chamar de Baby, que tal?


Ela riu e continuou a cantar.


Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do-sol, bem cabia uma profecia... até o ano dois mil o farol além de pôr-do-sol será o pôr-do-som, onde verás um realejo, onde verás um violão...

domingo, 17 de abril de 2011

270 ml

Nada realmente é de uma intensidade aceitável. Às vezes nada é demais, às vezes nada é pouco demais. O que você tem de fazer é se acostumar com isso, com a regularidade antes inaceitável. Nada é realmente proporcional até que você compare com alguma coisa, dores de cabeça, transas, porres, o silêncio que fica a última rua da última cidade à meia noite. Ou a falta de tudo isso. Daí eu me esforço, sinceramente, mas existem cervejas na geladeira e aquele livro que eu tenho de ler se torna uma merda tão insignificante que mesmo estando debaixo da luz branca e de pernas abertas em cima da cama não acontece. Não é qualquer tipo de coisa que dá tesão. À vezes não dá pra explicar. É a luz do sol que bateu de um jeito diferente enquanto você estava sentado no quinto banco do lado esquerdo do ônibus e o pau fica duro. Outras vezes... bem, de todas as outras vezes todo mundo sabe (até quem não tem pinto).


 O gosto de alumínio dá pra ignorar. Mas existe, e esse é o problema das latas pequenas. Uma hora o livro vai cansar e fechar as pernas. Peguei um Bukowski e comecei a ler, porque a melhor foda é aquela que escolhe você. Bach, no cello, por Pierre Fournier. Já me disseram que ele não é exatamente o melhor intérprete de Bach no cello. Acho o contrário. Até porque, se for isso mesmo, isso o torna, automática e realmente, o melhor intérprete. Assim como o gosto de alumínio nas latas pequenas. E a cerveja é tão boa que o alumínio torna-se irrelevante, ela não esquenta mesmo que você enrole escrevendo besteiras e perdendo tempo ao perceber que já é (ou ainda é) três e meia da matina. E não sei bem se isso já é tão aceitável assim.


 Bukowski, O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Prefiro manter a loucura padrão das coisas. Inclusive permanecendo calado até quando estou falando. Não tento parecer tão frio como o silêncio. Mas é inevitável permanecer inconclusivo, silencioso. O livro continua lá, não adianta. Acaba a bebida, a hora passa e chega um ponto em que por mais que você trabalhe já não dá pra render na mesma foda. Daí é o time out. Você toma um banho, estica as pernas, encosta na parede e paralisa todos os músculos relaxados debaixo d’água, risca obscenidades no box molhado, escova os dentes, coloca uma roupa e sai. E é aí que os marinheiros tomam conta do navio.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chocolate

Suas costas não são frias. Mas você tá com frio. Sua pele na verdade é morna e macia (isso sim eu já sabia). Sua voz, sua voz é desse jeito, bom, sou péssimo pra dizer como vozes são ou não são. Mas acho que ela é do jeito que tinha de ser, eu gosto. Não havia pensado, até então, como ela seria, estranho. Não consigo criar um ponto de referência, muita burocracia necessária. Isso pra não parecer irremediavelmente (acuado) confuso, definir um ponto e olhar fixamente pra ele. Aprendi, há muito tempo, que se não der pra olhar nos olhos de alguém, o truque é olhar pra sobrancelhas, ou pra testa e saber disfarçar. Merda de truque. Gosto de olhar nos olhos, de me entregar logo no primeiro ataque da artilharia, uma grande bosta.


Sua artilharia, massiva, é composta por dois eficientes batalhões, agindo com total eficácia em blitzkrieg. E então as trincheiras são desarmadas, os batalhões aniquilados, os homens, quando não mortos, tornam-se prisioneiros de guerra. Com o desmembramento imediato do exército, os batalhões marcham sobre suas terras e montam acampamento no terreno conquistado. Assim como são as suítes de Bach. Assim como a chuva fria que machuca devagarzinho na madrugada. Não há como escapar. Seus olhos estão na frente de todo o inferno, é inevitável. Minha curiosidade também é táctil pra caralho, compreenda. Preciso saber se não são só suas costas que não são frias, certo? Se eu me esforçar, talvez eu sinta o alguma coisa correndo por aí, pela carne, nas artérias, nas veias. Isso não significa que isso não seja mentira. Mas seria muito bom. Estar bêbado agora até que não cairia mal. Tá, certo, ligeiramente bêbado serviria. Vou te abraçar mesmo assim, você estando ou não com frio. Estando ou não bêbado.


Tenho culhões. Acho que tenho. Física e fisiologicamente falando, tenho culhões, tudo em ordem por aqui por baixo. Já psicologicamente... Bom, psicologicamente só pra discutir comigo mesmo, quietinho e disfarçando minha visível falta de culhões. Por que isso tudo? Ah, não é nada científico, nada filosófico, não é nada de merda nenhuma. Sabe quando a gente é criança e passa na frente do mercado, da mercearia, de uma loja especializada ou simplesmente perto de alguém comendo alguma coisa que a gente gosta e quer muito? Pois é, tá aí o problema. Vou usar um exemplo comum pra nós dois, que gostamos disso. Pra nós dois vírgula, essa é uma discussão mental particular. Você faz parte dela, mas não sabe. Queria muito que fizesse e soubesse, isso talvez resolvesse a falta de culhões (ou piorasse). Mas então, o exemplo. Chocolate. Imagina toda a história de ser criança, por não ter tanto auto-controle assim, e sequer ouvir falar de chocolate. Olha só que merda. Não dá só pra ver ou falar ou pensar em chocolate. Mas, sabe? É aquilo: vontade se tem de sobra. O que falta são os culhões.


Não tem como dizer, dizer mesmo. E, caramba, eu tinha (e tenho) tanta coisa pra falar. Dá pra perceber agora, né? Eu sei, eu sei. Mas, droga, você já tá indo embora. Se é embora, embora... embora meeeesmo, eu não sei. Mas tá indo. Se eu disser ‘até mais’ ou ‘até depois’, resolve? Você continua com frio, sua pele continua morna e macia. Deve ser a melhor superfície que existe pra se escrever alguma coisa. Você já percebeu isso e fez questão de não deixar o ‘caderno’ em branco, e eu gosto mesmo é assim. Se eu riscar alguma coisa com as pontas dos dedos automaticamente essa alguma coisa vai se tornar a melhor alguma coisa do mundo. Agora você já foi. Mas eu não disse tchau ou até depois ou até logo. Eu não disse nada. Quer dizer, nada além do que todo soldado indefeso e machucado poderia dizer. Eu me rendo.

domingo, 10 de abril de 2011

'O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente'

Chega um ponto que o silêncio não é nada mais que um mar de pálpebras, e tanto faz se permanecem abertas ou fechadas, elas simplesmente permanecem. Gole de cerveja. Sem querer, as pessoas que vivem sozinhas criam vários rituais (li isso alguma vez). O meu é sentar junto da janela e beber cerveja, de gole em gole. Na falta de tais rituais, nem eu e nem essas outras pessoas conseguiríamos sobreviver. Isso também está por aí, escrito junto com todo o resto. Mas é do tipo de verdade que já existe de qualquer maneira, tendo alguém a lido ou não. Permanecer assim me faz pensar que até minha inconstância tenha se tornado constante.

Não estou velho (estou?). Só cansado, cansado pra muitas das coisas das quais os dias são feitos, se é que isso faz algum sentido. Talvez eu esteja velho, mas só pra essas coisas. Talvez minhas pernas não sejam mais as mesmas e também não valha mais a pena caminhar certas distâncias pelos mesmos motivos de antes. Mas, bem, ainda existem bons motivos pra se correr por aí, afinal é isso que uma porção de gente faz, correr. Gole de cerveja. Não corro muito, só no mais urgente dos casos, raros. Um dia decidi que deveria demorar pra chegar em casa e que não haveria ninguém me esperando. E deu certo pra todos os outros dias, não como possível solução, mas, gole de cerveja, como sintoma da minha velhice opcional e intermitente... mas, sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

domingo, 3 de abril de 2011

Quase-parágrafo no.8 - The long paragraph on the tracks

Preciso cortar as unhas, fazer a barba, lavar o rosto e comer alguma coisa. Mas é bem mais cômodo deitar na cama e beber direto da garrafa. A grande sacada de um notebook é ser mais leve que uma máquina de escrever, não precisar de tinta, nem de tantos calos, nem de tantas folhas pros erros e nem riscar ou escrever por cima, e no lugar do som tiros de metralhadora antiga sai o disparo contínuo da semiautomática semisilenciosa que vale bem seu peso em suor. Às vezes o melhor é que só esse e o som dos corpos caindo por cima dos ombros ecoe nos ouvidos, mas trilha sonora é uma merda aceitável. Bob Dylan, Blood on the Tracks. Blood on the Tracks is the heartbreak soundtrack for shitty days, acho que algum personagem de alguma série disse algo parecido com isso alguma vez. Eu prefiro dizer que Blood on the Tracks is the heartbreak soundtrack for shitty everyday. E graças ao Dylan já gastei muita munição contra a contenção de guerra do meu próprio auto-controle. Coração partido é muito clichê, heartbreak é mais musical. Não por ser em inglês, não, mas tem um som que certas palavras devem ter e muitas vezes não têm. Mas às vezes os significados fazem palavras boas o suficiente pra encher o vernáculo dos desocupados, e são, na maioria das vezes, o que você precisa dizer nas piores e nas melhores situações, porra, o que se pode fazer? Preciso de um tempo pra decifrar, de vez, o significado por trás de tanta descontinuidade. E o amor, o amor é um cão dos diabos. Bukowski tinha seus cavalinhos e seus pileques, eles me renderam citações subconscientes nas minhas próprias frases. Não que eu vá ao hipódromo, não funcionaria pra mim. Prefiro concentrar esforços em me perder em um caminho desconhecido e não ter mais pra quê voltar. Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado, correndo de uma estrela cadente para a outra até desistir. Kerouac disse isso. Uma dessas coisas é você. Não que você tenha me dado Dylan ou necessariamente um coração partido (até porque corações partidos estão na moda, e eu sou démodé demais pra me importar). Mas faz parte da minha confusão. E exatamente como na gaita no final de ‘You’re a big girl now’, melhor mesmo é ficar em fade out. A change in the weather is known to be extreme, but what's the sense of changing horses in midstream?

sábado, 2 de abril de 2011

Caroline Says I

Os deuses mexeram seus pauzinhos e fizeram de tudo pra que eu preenchesse pelo menos uma linha com algumas coisas. Não que eu seja um herói, não, não, longe disso, mas como nas lendas em que algum deus envia alguma arma especial pra um cara em particular e as coisas mudam porque ele está fadado a alguma realização, alguém me apareceu com um desses (tão sonhados por mim) cantis de inox custando vinte paus, toma. E depois uma garrafa, toma também – literalmente. Juntei os dois mais dois e acaba que tudo é fruto de uma matemática simples.

Às vezes preciso mesmo sair. Não pra ir pra algum lugar, pra ir até um ponto mais ou menos distante e dar meia volta num ponto estranho, olhar pra trás e voltar. Olha, cada um com sua própria loucura pra espairecer. Numa dessas noites peguei o ônibus da esquina de casa e fui até o outro lado da cidade – que não é tão difícil nesses casos, seja dito.  A parte de trás tava cheia pra caralho, não ia passar ainda. Alguns pontos depois o ônibus parou e as mesmas pessoas de sempre entraram do mesmo jeito de sempre, a não ser por uma garota negra linda que, por ação sobrenatural, sentou na cadeira vaga do meu lado. Eu me mantinha em pé e sempre preferi assim, pediu licença e sorriu sem mostrar os dentes, já era um sorriso bonito, aprovado. Puxou uma garrafa d’água da bolsa e tomou um gole, secou os lábios e guardou, me senti motivado e fiz o mesmo com meu cantil (com vodka).

- Calor horrível, né?
- Verdade. terminei o gole.
- Também trago comigo uma garrafinha, não dá pra ficar sem beber água. (também? água na minha?)

Sorri pensando se era ou não doentio beber alguma coisa quente no calor – Acho que sim.

Disparou Shooting Star, do Lou Reed, do meu celular e era só (mais) um engano.

- Meu nome é Caroline, como na música.
- Música?
- Lou Reed. (uau!)

Menti meu nome e guardei o celular no bolso. Conversamos um pouco sobre bobagens e, bem, era estranho ela não ter descido ainda. Passamos pra trás do ônibus e partilhamos o cantil até esvaziar. Tudo bem que era 300 ml, mas ela tinha uma resistência respeitável.

Descemos na rua das putas, do outro lado da cidade, e caminhamos lado a lado falando sobre trabalho e bons álbuns.

- Vou beber com umas amigas, quer vir?
- Pode ser, mas acho que tô sem grana.
- Não tem problema.
- Onde é?
- Não teria a mesma graça se eu te dissesse.

Achei estranho. Seria pretensão achar que era alguma merda a mais, e paranóia demais imaginar que um grandalhão estaria me esperando em algum lugar pra me comer o cu de pancada quando percebesse que eu não tinha um puto. Beber alguma coisa na rua das putas não significaria tomar no cu, mas do jeito que as coisas se encaminhavam, era bem provável. E ela percebeu minha hesitação. Sorriu mostrando os dentes mais brancos que eu já havia visto na minha vida – claro que propositalmente.

- Hey, babe, take a walk on the wild side.

Sorri de volta.

- Você fuma?
- Depende.
- De quê?
- Se você tiver um pra me oferecer, fumo sim.

Entramos num prédio escuro e subimos as escadas dos corredores silenciosos fazendo bastante barulho nos degraus. Passamos por uma porta entreaberta, apartamento cheio de garotas bebendo e conversando.

Uma delas perguntou - Cliente?
- Não.

Pegou dois cigarros amarelos com uma loira de copo na mão e entregou um aceso pra mim. Fecharam a porta e fomos todos pra um quarto no fim do corredor de onde se ouvia uma música bem baixa. Eu era o último da fila indiana, passei e sentei no chão encostado na parede. Não tinha idéia do que ia acontecer até que uma por uma começou a contar as histórias mais estranhas de todos os programas, seguindo uma ordem num círculo – do qual eu fazia parte mesmo sem saber.

- Bom – puxei um trago – peguei uma garota num ônibus e ela me pagou com cigarros e bebidas, mas não rolou transa nenhuma, achei estranho pra caralho, mas tudo bem. Acabei num quarto estranho sem saber o que falar e me perguntando pra que merda eu não ando com um gravador.

Todas riram e perguntaram o que eu fazia.

- Eu? Eu invento muita merda e escrevo tentando deixar o menos estranho possível.

Carol encheu meu copo e perguntou se eu ia escrever sobre aquela noite.

- Não sei, não sei.

Insistiram pra que eu o fizesse.

- Tá bom, tá bom, eu escrevo.
- Foda vai ser alguém acreditar – disseram do outro lado do quarto.

 

E aí?

domingo, 20 de março de 2011

The song remains the same - IV

De olhos fechados ouvi barulho da chuva. Tateei ao lado da cama o copo no criado mudo e não achei nada. Nem copo, nem criado mudo. Não estava em casa. Sentei na beirada da cama com uma ressaca homérica. Estava de calça, camiseta e meias. A camisa estava numa cadeira e os tênis ao lado da cama. Caminhei com dificuldade até o que parecia ser o banheiro, lavei o rosto e bochechei um pouco do enxagüante bucal. Encarei minha cara de ressaca no espelho por algum tempo no meio das já conhecidas imperfeições. Não lembrava muita coisa. Voltei pro tal quarto, calcei os sapatos e decidi procurar pela dona da casa – os produtos no banheiro denunciaram que era uma dona. Ninguém respondia aos meus chamados, mesmo insistindo bastante. Vi um papel grande preso na geladeira, com letras garrafais.


Saí e volto depois das 11h.



Parei de ler e tirei o celular do bolso. Onze em ponto.


Se puder, me espera.


Joguei o bilhete no lixo e bebi um pouco d’água. Mentira. Bebi muita água, a boca estava completamente seca e eu sentia enormes dunas escaldantes na garganta. Puxei um cigarro amassado do fundo do bolso, acendi no fogão e fui até a janela. No caminho vi um mural com diversas fotos espalhadas, muitas pessoas. A única que estava em grande parte delas era uma garota de longos cabelos ruivos ondulados. Provavelmente pintados. Tinha vaga lembrança de uma garota com aquela descrição. Algo a respeito de um cigarro. Pra quem fuma tanto quanto eu, quase tudo diz respeito a um cigarro. Quanto mais eu me esforçava pra lembrar, mais a cabeça doía. Encostei na janela e fiquei olhando a chuva caindo, assobiando The Rain Song e tentando fazer círculos com a fumaça. Alguns saiam razoavelmente bem. Ouvi a porta fechando e alguém cantarolando, depois cantando bem baixinho, ‘It is to you, I give this tune, ain't so hard to recognize, these things are clear to all from time to time…’ Olhei pra trás e vi a garota da foto com algumas sacolas e fui ajudá-la, peguei algumas e a segui até a cozinha.


- Pode deixar aí.


Coloquei as sacolas na mesa e esperei que ela falasse alguma coisa.


- Dormiu bem?
- Uhum.
- Meu nome é Diana.


Apresentei-me e agradeci por tudo.


- Eu já sabia seu nome, conversamos muito ontem.
- Não lembro nada.
- Hahahaha mas eu lembro. Não precisa se assustar, não falou nada de tão constrangedor assim.
- É?
- Mais ou menos – falou rindo.


Almoçamos pizza fria, coca-cola e cigarros e conversamos sobre as coisas que eu não lembrava da noite anterior. Nos encontramos mais algumas vezes e um dia ela acabou se tornando a garota que acordava regularmente ao meu lado. Uma das vezes a vi dormindo nua com parte das costas cobertas pelo lençol, encolhida com a cabeça perto do joelho e as coxas grossas contraídas, uma das mãos cobrindo uma parte de um dos seios e o outro à mostra, a outra mão largada no interior de uma das coxas e tocando a panturrilha. A boca entreaberta e os dentes branquinhos aparecendo por entre os lábios vermelhos, o cabelo escorrendo do ombro ao colchão igual a um rio de sangue cheio de afluentes profundas e impossíveis de se navegar. Não era mais uma montanha perdida no meio de um horizonte estranho, apesar da luz e da poeira insistirem em descer devagar em sua direção. Tinha lá suas escarpas macias, claro, mas era idêntica a uma pintura sobre a qual eu escrevera há muito tempo, Danae, pintado por um simbolista austríaco chamado Gustave Klimt.

sábado, 19 de março de 2011

Bem-te-vi

Uma música bem bobinha que eu compus e gravei há uns três, quatro anos atrás.

Bem-te-vi
(link externo)

The song remains the same - III

Tentei não beber demais. Mas era uma questão de tempo, ou pelo menos de administrá-lo. Colocaram Parabelo, um álbum do Tom Zé e do Zé Miguel Wisnik, pra tocar e a noite desenrolou em madrugada e minha sobriedade pendia do alto da corda bamba. Todos haviam desistido da chegada da tal ‘amiga’. Menos eu, já que sequer pusera algum tipo de fé ou possibilidade de empenho caso ela chegasse. A grande sacada por trás da bebida pra um cara chato e introspectivo como eu é que ela torna todo o social mais aceitável. E toda a conversa se desenvolve incontrolavelmente, juntam-se mesas, surgem novos e velhos amigos, conhecidos, essas coisas. Um deles levou meu carro até a própria casa e eu acabei voltando de metrô, com uma garrafa de licor na mão, um cigarro preso na orelha e outro na boca, apagado. Não parei em casa. Sentei num banco três pontos antes pra beber e tentar acender o cigarro. Os bêbados e as crianças têm proteção e graça divina, era só esperar alguma alma caridosa passar com um isqueiro ou fósforos ou lança-chamas. Caminhei até um senhor com um violão que estava a uns dez metros de mim e coloquei uns trocados dentro do copo que estava ao seu lado. Ele sorriu e tocou algumas músicas pra mim. Dividimos licor por um tempo enquanto ele tocava e eu fumava meu cigarro apagado e o ouvia.


Quando terminamos a minha garrafa ele tirou um cantil de inox pequeno e voltamos a bebericar. Dessa vez vodka. A partir disso começamos a cantar juntos e havia quem desse dinheiro pros dois – e no final eu despejei tudo o que eu ganhara no copo dele. As portas abriram mais uma vez e mais algumas pessoas desceram. Ouvi passos se aproximando e puxei o comecinho de outra música, que meu fiel bardo-escudeiro tratou de acompanhar e cantar junto. Eu estava sentado no chão com as costas arqueadas e olhando pra baixo quando percebi os pares de pés e pernas donos dos passos, soltei fumaça imaginária e continuei cantando.


- Deixa eu te ajudar.


Click, click, click, click. E a ponta do meu cigarro amassado ficou vermelha e acendeu em brasa. Tsssss... Soltei fumaça real e olhei pra cima pra dar de cara com a boa samaritana. E então eu descobri que tinha olhado pra cima pra me deparar com meu limbo particular, dois olhos castanhos esverdeados me repartindo em milhões de pedaços.


- Posso? apontando pro cigarro na minha orelha.


Fiz que sim e ela o tirou de lá e colocou na boca, passou pro lado uma mecha do cabelo ruivo da frente do rosto e sorriu. Click, click. Tssss...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Valsa de Eurídice (violão)

Gravação minha feita há um tempo atrás, tocando a Valsa de Eurídice (composta por Baden Powell e Vinicius de Moraes).


Valsa de Eurídice
(link externo)


 


terça-feira, 15 de março de 2011

The song remains the same – II

[continuação...]

Dormi pelo resto da tarde até que o gato me acordasse. Minha pele já tinha certa resistência contra suas garras e já não me deixavam marcas nas costas. Exceção de quando ele fazia com uma dose controlada de sadismo e maldade, enfiando até que os pêlos de suas patas ficassem completamente rentes à minha pele e puxando devagar pra baixo. Normalmente é quando durmo demais e não lhe dou comida. Mas esse tipo de dor já se tornou um costume estranho e se esvai e some depois de uns minutos.


Enchi mais uma vez a vasilha com ração e completei a água até a borda.


- Vai sair hoje?
- Vou sim.
- Estava precisando, já não agüentava ver você trabalhando até tarde ou acordando de madrugada pra fazer alguma coisa e aparecer na minha frente com essa cara cheia de olheiras repugnantes.
- Bom saber, gato.
- Me assusta.
- Você se preocupa tanto assim?
- Também. Mas me assusta mesmo, você fica mais feio ainda.


Virou de barriga pra cima e eu ri. Fiz carinho até que ele ronronasse de satisfação e me liberasse de minha função pela noite. Não de dono. De amigo.


Jantei e liguei avisando que iria. Tomei um necessário banho demorado e vesti um dos meus jeans mais confortáveis enquanto escovava os dentes. Calcei o velho par de tênis escuros e vesti uma camiseta azul escura e uma camisa preta, aberta, por cima. Abotoei no primeiro dos botões do pulso, peguei as chaves do carro e saí. Tentei não fumar até que pelo menos chegasse, mas uma hora e quarenta minutos de trânsito me fizeram mudar de idéia. Depois descobri que outros dois amigos também se atrasaram. Era um acidente, nada de tão grave, mas essas coisas sempre atraem atenção dos curiosos que não têm muito que fazer. Despretensiosamente puxei um cigarro pro canto da boca e o mantive apagado por algum tempo. Liguei o rádio e ouvi uma versão de I Remember You, do Skid Row, feita por uma banda praticamente desconhecida, vocal feminino, um piano e violões ao fundo. Não que eu não gostasse da versão original, mas aquela era substancialmente mais bonita e melhor trabalhada. Acendi o cigarro e murmurei a música batendo com os dedos no volante e assim que os carros começaram a andar, coloquei uma bala terrível na boca e joguei o cigarro fora.


Todos falaram um pouco de seus trabalhos e da certa inveja que sentiam por mim. Nunca consegui falar de trabalho do mesmo jeito que as outras pessoas. Concordo, sorrio um pouco e bebo silenciosamente até que mudem de assunto. São velhos amigos, um deles é um desses conquistadores voláteis e estava com uma garota nova. Provavelmente se sentiria realmente sozinho se não tivesse outras pessoas ao seu redor. Mais dois casais, um deles noivo (Augusto e Marina) e o outro (Rômulo e Tereza) há pouco juntos. E outro, Beto, solteiro como eu pra completar. Não que fizesse diferença, ele era um dos meus amigos mais antigos. E gay desde os quatorze anos, mas mais macho que muito homem que anda por aí. Já o vi dando uma surra num garoto que levantou a voz pra chamá-lo de bicha. Isso raramente acontece, mas quando acontece é um espetáculo à parte, já que o sujeito é faixa preta em karatê e judô. Fora que compartilha comigo o mesmo gosto por cigarros e eu acabo filando dois ou três sempre que saímos. Queriam me arranjar uma garota, conhecida de todo mundo. Sempre diziam que eu parecia muito sozinho, que deveria arrumar alguém. E o Beto sempre dizia que esse lance de morar com gato era muito clichê de boiola enrustido.


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Contra-luz

Ela atravessou a rua batendo os sapatos nos cantos dos paralelepípedos segurando um cigarro entre o canto dos dedos com a fumaça escapando pela parte interna do braço enquanto eu me desesperava tentando desviar o olhar. Não era uma tarefa fácil, ninguém sequer se deu ao trabalho de dizer que seria. Nem mesmo eu. Estava frio e meus calcanhares batiam um contra os outros enquanto eu rezava pra todos os deuses pra que alguma coisa realmente boa acontecesse. Claro que eu não consegui desviar o olhar e em determinado momento a situação ficou bem constrangedora. Não que eu realmente me importasse muito, mas calculando melhor todas as variáveis seria bem melhor que eu não a encarasse. É impossível pra uma mariposa de asas chamuscadas parar de se jogar contra a luz e se incendiar aos poucos na superfície da lâmpada. Acendi meu próprio cigarro só pra me encher de desespero e calma sem sentido.


Quando ela sumiu na multidão achei que seria reconfortante olhar pro copo vazio, sem me dar ao trabalho de enchê-lo. Vi o gargalo transparente de uma garrafa saindo de um saquinho de papel e enchendo meu copo.


- Tem fogo?


Não dava pra mostrar desinteresse. Saquei o isqueiro de novo enquanto ela protegia o cigarro do vento usando as mãos em concha. Click, click, click. Olhei pro fundo do isqueiro verde-transparente, sem fluído. Ah, não, não, não... não faz isso comigo, seu putinho. Não agora. Vi a ponta do cigarro dela encostando na ponta do meu. E eu nunca tinha visto aquilo dando certo, mas os deuses estavam ao meu lado – mais uma vez – e aquilo funcionou. Ela sorriu quando percebeu minha surpresa. Quem fuma muito tem esses dentes amarelados, mas aquele era um genuíno sorriso de dentes branquinhos e perfeitamente alinhados. Não agüentei e acabei corando, essas coisas não se controla. Ela puxou forte, colocou uma mão no meu ombro e estendeu a outra.


- Meu nome é Luz.


E minhas asas começaram a pegar fogo bem devagar.

domingo, 13 de março de 2011

Quando me perdi em baixo curso do alto mar

Meus pés se desfizeram junto da areia
de grão em grão e
o mar distante invadiu minha alma pra
carregar as vidas enterradas pra outro
lugar.

Minha dívida era essa e
me transformava em sal e água e
espalhava meu corpo pra favorecer os
peixes e as gaivotas, mesmo
que parecesse tão estranho. Jogava
meus braços pra todos os lados

e saciava minha profunda fome
de oceano engolindo um terço do silêncio,
dos monstros marinhos, dos deuses submersos,
dos corpos mitológicos das nereidas e sereias
e tritões ainda vivos.

Lia as palmas das mãos cheias de
destino não-cumprido e me queixava
espaçosamente ao infinito,
mergulhado em mim mesmo
completamente arrependido.

sexta-feira, 11 de março de 2011

The song remains the same - I

[continuação...]


Sempre gostei do Charlie Brown. E do Woodstock, ainda mais pelo nome. Quando era moleque fui gamado na garotinha ruiva. Não que eu não seja mais moleque, acho que só esqueceram de manter minha aparência do jeito que era. E nem que eu não seja mais gamado na garotinha ruiva, mas ela não é mais de papel. O pastel quente pra caralho, e claro que eu queimei o céu da boca por falta de atenção. Depois de terminar de comer e fumar o restante do maço, voltei pra casa pra pegar todas as contas e por em dia. Por sorte havia chegado minutos antes do banco abrir. Paguei tudo e chequei o saldo. Dava pra agüentar até o próximo pagamento. Saquei um pouco pra comprar mais cigarro e uma garrafa de uísque. Esqueci de comentar sobre o uísque. Fora o dia do mês que acordo de madrugada pra terminar o serviço, sempre bebo do copo que fica ao lado da cama, no criado mudo. Antes de dormir coloco uísque com água pra beber assim que acordo, como num ritual próprio pra começar o dia. E café só depois de mijar, fazer a barba, tomar banho, escovar os dentes e abrir as janelas.


Às vezes uma mulher acorda do meu lado. Quase sempre vai embora antes mesmo que eu termine o banho. Nesses dias acordo mais cedo e fico olhando seu corpo como uma paisagem distante de montanhas e escarpas, enquanto o sol e a poeira que escorrega pela janela ilumina todas as curvas como se caminhasse por toda superfície. Meus olhos se tornam cinzentos e tentam fazer de conta que eu posso ver outra pessoa ali. Ela acorda, abre os olhos, sorrio timidamente. Seus olhos opacos sorriem carinhosamente em retorno e nós dois nos separamos como estranhos. Fui até o mercado comprar ração de gato e o uísque, depois almocei perto de casa. Ganhei um charuto de um senhor de grandes sobrancelhas brancas que lia Kafka na mesa ao lado. ‘Gostei de você’. Nunca gostei de charutos. Larguei no criado mudo até ter coragem o suficiente de passar adiante pro síndico do prédio. Quando chove desisto de levantar por umas horas, tomo mais de um copo e acabo meio bêbado olhando pro teto esperando que alguma coisa aconteça. Divido o apartamento com um gato preto, que se aninha no meu peito quando eu durmo e me tira da cama cravando as unhas nas minhas costas quando não consigo levantar. Ainda não me disse seu nome, apesar de estar a alguns anos comigo. Só o chamo de gato. E em resposta ele me chama de humano. Voltei pra casa depois das duas e levei bronca por ter demorado tanto com a ração.


- Próxima vez mostre mais consideração.
- Eu trouxe, não trouxe?
- Duas horas atrasado.


Troquei a água e despejei o almoço na velha vasilha vermelha arranhada.


- Obrigado, humano – disse petulante.

 

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terça-feira, 8 de março de 2011

The song remains the same – In through the out door

[...continuação]


O corredor abandonado lembra aqueles frames empoeirados dos filmes de terror, mas não há ninguém no elevador ou quando a luz apaga. Térreo. Ele dá uma sacudidela e começa a descer, dando o mesmo enjôo de sempre. Não, não me acostumei ainda. O zunido abafado descendo quatro andares até que o enjôo pára e a luzinha automática da entrada acende. Os sacos de lixo estão pesados, cheios de embalagens e potes de café. Ignoremos as garrafas vazias e as cinzas esfaceladas. O latão fez aquele barulho de quem realmente não gostou de alguém jogando lixo dentro dele. Eu também não gostaria, mas mesmo assim me ligam de madrugada. Ou me encontram numa casualidade invejável. Casualidade não funciona pra encontrar a mulher dos seus sonhos. A minha tem um par de coxas incrível. Coloco um cigarro na boca e atravesso a rua pra comprar jornal. E outro isqueiro.


Nunca é cedo ou tarde demais pra ser quase atropelado, e, olha, não é por falta de atenção que sempre quase-acontece comigo. Quem sabe seja carma? Tá, é um conceito fodido de carma, mas que continue assim mesmo que não faça muito sentido. Um dia alguém sai da zona do quase. Ou um infarto me derruba sem sequer o carro encostar em mim. Na próxima esquina tem uma lanchonete/bar com pastel, cinzeiro, café, discrição e pros meus dias mais sombrios, cerveja ou uísque às seis e meia da manhã. Abro o jornal, enfio a bituca no cinzeiro e acendo outro cigarro. Dois pastéis, queijo e carne, e suco de laranja por favor. Não, não, só o suco. Brigado, Seu Dorival. O dono colocou o nome de Suco Bonham no suco de laranja com vodka por eu ter contado a nóia do John Bonham e do jeito que ele morreu. Ele me disse que foi o excesso de vitamina C que o matou. Eu não discordo, ele faz o melhor pastel (que eu conheço) da cidade e o segundo melhor café. Qual o primeiro? Depois eu conto. Mas não, não sou eu. Por isso eu preciso batizar. Começa a tocar Sky Blue Sky, do Wilco pela caixinha de som remendada escondidinha por detrás do balcão. E eu abro nas tirinhas enquanto a comida não vem.


 


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domingo, 6 de março de 2011

The song remains the same - Houses of the Holy

[...continuação]


Falta uma frase pro último artigo. E o cliente foi bem claro quando pediu que terminasse com uma frase marcante. Quase uma kick line. De preferência na fuça. Eu enfrento todo e qualquer trampo como algo a ser bem realizado, merece essência. Se ficar vazio não convence, não informa, não porra nenhuma. O cinzeiro tá cheio e ficar enfurnado no quarto não vai me trazer a última frase de jeito nenhum. É assim que as coisas funcionam. Nunca ortodoxamente. Marca de suor na camisa e gosto de madrugada na boca. Falta pouco pra amanhecer e tudo o que o sol precisa agora é que eu tome um banho e saia de casa. Eu e o resto do mundo, Over The Hills And Far Away.



Acabei. Agora devia fazer alguma coisa. Talvez devesse tirar férias. Talvez devesse parar de fumar. Talvez devesse beber menos. A água pesava nos ombros enquanto tocava Sixteen no rádio. Relaxei os ombros e firmei o corpo contra a parede que deveria estar fria. E talvez estivesse. Iggy Pop na época do Lust For Life, mil novecentos e setenta e sete. Setenta e sete, repeti. O talvez é uma merda inconfundível. Tudo junto na mais escrota e incrível bola de neve já vista, mas o negócio não sobe nem desce. Fica no talvez. E talvez seja melhor assim. Show you my explosion, sweet sixteen, pãpã, pãnãnãnããã, a água escorre e leva metade do peso do mundo, Atlas agradeceria. Eu agradeço. O mundo recomeçou sua pane diária e os carros dos estacionamentos e do meio das ruas limpam suas gargantas secas. O sol aparece por detrás da janelinha apertada do banheiro, numa moldura tão pequenininha que caberia com folga na palma de uma só mão.


 


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terça-feira, 1 de março de 2011

The song remains the same - Coda

Toca o despertador. Não dá pra falar ‘mais cinco minutinhos, por favor’. Até porque não seriam cinco minutinhos. Levantei pra cumprir o prazo. Pra atingir a cota diária, a cota mensal. Pagar as contas, você sabe. Alguns dos artigos já estão prontos, faltam outros três pra fechar todos os pedidos. Trabalho como freelancer, escritor freelancer. Hoje em dia não-tão-freelancer assim, as mesmas revistas me pedem artigos e se aparece alguma coisa nova é por indicação. Meu emprego é tirar emprego dos outros, outros contratados pra fazer seu trabalho regularmente com sua coluna pré-determinada. Minha consciência não pesa e eu me sustento a partir disso.


Os lugares sempre parecem mais distantes quando se está com sono/cansado, e quando finalmente chegamos lá parece que o percurso foi apagado da nossa memória. Não se acorda sem dar uma bela mijada. E eu não lembro de ter chegado no banheiro, só de já estar lá, já no meio da mijada. E depois dando descarga, lavando as mãos e o rosto. Teletransporte. Agora na cozinha esquentando água pra fazer café. Depois de beber duas xícaras o poder foi embora e tenho de me contentar de ir até o computador a pé. Todo mundo tem suas manias pra trabalhar. Tem gente que ouve música clássica, eu até tento de vez em quando, mas não consigo trabalhar direito sem Led Zeppelin. Houses of the Holy, sétima faixa, No Quarter. Batizar a garrafa térmica com licor e acender um cigarro pra que tudo seja feito em paz.


 


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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

As mesmas coisas da cidade

Fazia um frio dos diabos nas ruas. Ela tirou as mãos dos bolsos e se livrou do capote escuro, dobrou-o cuidadosamente e colocou em cima da cadeira. Estava com um vestido aberto nas costas. Torceu o corpo por uns instantes e tomou cuidado pra não bater as asas no teto e na lâmpada ao espreguiçar. Ele voltou com uma garrafa de tequila e dois copos. O anjo estalou o pescoço enquanto contorcia o resto do corpo e mexia as asas, provavelmente dormentes.


- Ainda não acredito como você aceitou me trazer pra sua casa sem mais nem menos.
- Você não tinha pra onde ir.
- Achou que poderia transar comigo, é isso?
- Olha, você é muito atraente. Mas não, acho que hoje não estou a fim. E de qualquer maneira não seria possível, certo? Vocês não têm sexo e tudo mais...
- Até que temos, mas só na aparência.
- Faz sentido, você é bastante feminina.
- Tenho um nome feminino, até, pra um anjo.
- Ah, é?
- Anali.
- É um nome muito bonito. O meu é Luís.
- Você não deveria receber estranhos em casa.
- Você não é estranha. Ou estranho.
- ‘Estranha’ tá bom. Mas e se eu fosse algum tipo de psicopata?
- Sabia que não. Você não tem jeito de um.
- Você conhece ou já conheceu algum?
- Até agora não.
- Então como saberia caso encontrasse um?
- Você sabe bem das coisas pra um anjo, ser puro e tudo mais...
- Eu sou um anjo, não sou um anjo cego.
- Verdade.
- Obrigado.
- Amém.


Ela riu e encheu os dois copos. Tomou a dose de uma vez só e uma lágrima correu pelo seu rosto. Enxugou-a e encheu o copo mais uma vez.

- Esquentou agora?
- Tá muito frio. Minhas asas estavam congelando – tomou outra dose.
- Vai devagar. Você é um anjo, mas não é de ferro.
- Verdade. Mas já melhorou muito, já tô sentindo as pontas dos dedos.


Conversaram algumas horas sobre quase tudo. Nada que não se conversasse com qualquer outra pessoa normal. Ele não falou sobre nada espiritual, religioso ou nada do tipo. Ela mal tocou no assunto.


- Você não acha estranho um anjo ser negro? Vocês sempre nos botam de pele branca. É um branco tão enjoado...
- Eu acharia estranho se não houvesse anjos negros.


Decidiram parar com a tequila. Ela colocou o capote mais uma vez, acomodando as asas por baixo.


- Olha, tá ficando muito tarde e não quero incomodar mais.
- Tudo bem. Eu gostei da companhia.
- É, eu também. Eu trabalho num café perto de um inferninho, qualquer dia apareça por lá.
- Você trabalha?!
- Claro, tenho que pagar as contas.
- Pensei que você morasse no céu ou alguma besteira do tipo.
- Prefiro morar na cidade, ainda mais essa aqui.
- Tive de me segurar pra não xingar na sua frente.
- Da próxima vez não o faça. Melhor soltar uns palavrões sinceros que mantê-los pra você mesmo e mentir pros outros.
- Uau.
- Milênios de vida servem pra alguma coisa.
- Você nem parece ter tantos mil anos.
- Certeza que você não quer me traçar?
- Hoje não.
- Pô, foder um anjo?
- ‘Foder’?
- Espero que você tenha ouvido o que eu falei agora pouco.
- Só tô meio surpreso. Sei lá, porra, não esperava.
- Nem eu.
- Boa noite.


Ele saiu pela porta, acendeu um cigarro e acomodou as asas debaixo do capote descendo a rua das putas. Pegou o celular do fundo do bolso. Alô? Miguel? Tô precisando de uma grana pro aluguel desse mês. É, tô sem um puto. Eu sei que seu trabalho não dá tanta grana assim. Ah, com que eu gastei? Com o de sempre.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cartas na rua

- Olha, olha! Olha ali!
- O quê, homem?
- Aquele livro ali.


Ele apontou com o nariz sacudindo a cabeça feito um maníaco e depois decidiu apontar loucamente com o dedo.


- Esse? peguei um livro preto de tamanho mediano e mostrei.
- Isso, Bukowski!
- Por que você não disse o nome ou apontou de uma vez?
- Apontar é feio.
- Sei.


Ele pegou o livro das minhas mãos deu uma bela folheada, contou algumas páginas e parou num certo ponto. Saí de perto pra olhar alguma coisa pra mim. Dei a volta na prateleira e comecei a olhar do outro lado. Ouvi a risada esganiçada característica do meu amigo e seguida da já esperada tosse.


- Ah, esse velho filho da puta é demais! e tossia arranhando todo o percurso da garganta e fazendo barulhos estranhos.


Dei a volta na outra prateleira e deixei o homem se divertindo com o livro. Tinha de achar um pra mim. Era uma necessidade anormal. Na verdade ainda é, não consigo passar por uma livraria sem renovar o estoque de coisas-pra-ler. Raramente são revistas. Os livros mandam e desmandam e demandam espaço nas gavetas, no armário, nas bancadas e na minha vida. É uma influência escrota, eu sei. E não tão boa quando se é estudante e pseudoescritor e precisa bancar o vício. Três prateleiras depois alguma coisa finalmente me chamou a atenção. Gabeira. O Que É Isso, Companheiro? Já ouvira falar do livro. E bem. Até filme tem – que um dia quem sabe eu assisto. Abri e li rápido as primeiras páginas sobre o exemplar. Era uma das primeiras edições de tiragem e mesmo assim estava novinho. Fechei o livro e segurei contra a coxa, fazendo contato com o jeans.


-Você conhece esse cara?
- O Gabeira?
- Não, o Bukowski.
- Não.
- E o Gabeira?
- Também não. Escuta, vai levar esse?
- Vou sim. Quer tomar alguma coisa?
- Tem cafeteria aqui perto?
- Na parte dos fundos é cafeteria. Mas, porra, vai tomar café de novo?
- É o meu vício. O seu é o cigarro.
- Mas você também fuma de vez em quando.
- Aí é que tá. De vez em quando não é gastar caralhadas de dinheiro pra ter câncer de pulmão. Fora que eu roubo um ou outro de você.
- Eu li que bastam poucas tragadas pra você desenvolver certas doenças.
- Prefiro ficar doente de graça.
- Ou a custa dos outros.
- Exato. Quer um café também?
- Dizem que tomar café e fumar faz mal, pô...
- Ah, vai se foder.


- Bom dia, senhor. O que deseja?
- Dois cafés pra viagem, um puro e forte e o outro...
- Com leite.
- O outro com leite.
- A conta foi processada no computador e lá na frente o senhor paga.
- Qual o seu nome?
- Desculpe?
- Hm, Clara. Desculpe, não tinha visto o crachá.
- Ok.
- Clara, você acha que café com cigarro faz mal?
- Bom, senhor – disse meu nome e pedi que me chamasse por ‘você’ também.
- Olha, quem fuma já tem problemas o suficiente pra se preocupar em combinar com café.
- Obrigado. Viu só?
- É, acho que sim... Então cancela o café com leite e manda dois puros.
- E fortes.
- Isso.


- Cara, me dá um cigarro?
- Toma - entregou o cigarro e pegou um pra si.


- Mas, hm, quem toma tanto café assim também não devia se preocupar em misturar com cigarro. Mesma merda.


Ouvi uma risada esganiçada seguida da tossida característica. Ele se aproximou do balcão e soltou um ‘gostei de você’.


- Você prefere ser acordada com café ou com cigarro?
- Com os dois.


Ela entregou os cafés e o bilhete da saída.

- Acho que virei cliente.
- Eu também.


Clara corou de leve e sorriu um daqueles sorrisos sinceros e sem graça. Se eu pressionasse mais um pouco ela diria que talvez preferisse que eu tomasse no cu junto com o café.

- Bom. Obrigado, Clara. Bom trabalho.
- Valeu. Voltem sempre.


Tomamos o café no caminho até o caixa.


- Ah, merda, tenho de comprar ração.
- Você tem algum bicho, pô, não sabia. Achei que você não gostasse...
- Ué, por quê?
- Suas alergias.
- Dá pra conviver.
- Cachorro?
- Não, um gato meio vira-lata. Filhote, preto.
- Credo, gato preto?
- Você lê Bukowski, cara, não reclama.
- Porra, o que é que tem a ver?
- Nada, deixa pra lá.
- Não, você não gosta do Bukowski?
- Já disse, não conheço, não tem como gostar ou não.
- Então tá.

Pagamos os livros e os cafés.

- Como é o nome do gato?
- Buk.
- Buk?
- É, Buk, de Bukowski.


Guardei a ficha no fundo do bolso e desci a avenida a pé com meu amigo. Talvez ligasse pra Clara mais tarde.