O velho cacique, doente em outras épocas, mal parecia o homem moribundo de antes. Estava vivo. Seus pequenos olhos pulsavam fortes, vívidos como ele. Os jovens entendiam finalmente seu nome, Cacique Olhos de Sol. A caça, a pesca, a extração de tudo mais que precisavam. Agora sim, era o verde, o amarelo, o vermelho, o índio. Antes, nem suas próprias matas reconheciam. Em casa, enfim. Uma casa tão grande que enchia os olhos de vida. Enchia a vida de olhos. Noites e dias eram vivos, surgiam por vontade própria, sem hora marcada. Mas lá fora, distante das matas, algo acontecera. Algo de importante, algo de sinistro.
Um golpe. Um golpe militar. Era, afinal, o Brasil, 1970. A ditadura militar fora instalada há algum tempo. O resto da vida não existia, nem liberdade, nem voz. Pássaros que cantavam nas matas, não cantavam nas florestas de concreto, medo da prisão. Medo da tortura. Mas aquela, na verdade, era a pior tortura: não viver de verdade. O sangue escorria em segredo, as lágrimas também. Existia um aborto ideológico. As idéias, os ideais, não poderiam existir ali, seriam apenas escravos. Os rituais urbanos, em parte, foram revogados. Instaurado também, um toque de recolher. A noite dormia cedo, o dia acordava adiantado. O mundo em cinzas.
Nada daquilo, de quebranto, afetava a vida ali nas matas. Passado tempo, homens brancos andavam aos arredores da aldeia. Talvez, coletando informações. Quais? Não se sabia. Não havia receio, nada. Dias depois, um mensageiro, branco, extremamente caucasiano, chegou à aldeia. Trazia uma carta, leria em voz alta, claro. Aqueles índios, graças ao contato prolongado, passado, com outros homens brancos, tinham noção de português. Está determinado de forma estrita e direta, através das próprias palavras do excelentíssimo presidente general, que quaisquer tipos de rituais, reuniões e/ou demonstrações de aglomero, são considerados exemplos de conspiração, agitação política e heresia social. Caso insistissem em tais ações, seriam todos presos.
Na cidade, alguns dias depois, um pequeno reduto militar fora acionado, agitadores reunidos. Camburões, furgões e armas. Qual foi a denúncia, tenente? O de sempre, cabo. Alguém conspirando contra a nação.
Um ronco alto. Não, não era só um. Agora eram vários. Seriam os espíritos das matas?
O chão tremia. O que fazer? Esperar, explicava Olhos de Sol.
Onde estão? Siga por aquela clareira, cabo. Sim, senhor!
Estão com roupas estranhas. São mesmo os espíritos das matas?
São selvagens! São os malditos indígenas! O que fazer?
O que têm nas mãos?
Uma medida patriótica.
Parecem lanças de pedra preta. Mas não são afiadas.
Qual?
Eles pararam. Que bichos são aqueles em que estão montados?
Atirem.
Cinzas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário