Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma. Não há mais munição. Não a mesma munição que
eu guardava entre os dentes
esperando as cápsulas de mercúrio percorrerem
o céu. O céu deprimente.
Não há mais estrelas
o tempo está - realmente -
fechado e eu acho que
não faz a mínima diferença
qual o calibre das trombetas ou
se os deuses são bons de tiro,
morram-me os alvos, todos.
O que restou do meu coldre
sem armas de fogo
cabe no último suspiro
do duplo cano do meu próprio paraíso.
O que restará?
Vão cheirar todo o pó
e não vai sobrar pó
pra homem nenhum
retornar. O que será? Resta
a mim
estar comigo.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
Pequena
A boca que ela tinha
não era o suficiente
pra vontade que ela tinha
e da cacofonia que eu escondia
dentro da minha própria pretensão
tudo fazia sentido e
meus braços não eram o bastante
do jeito que eu a queria.
não era o suficiente
pra vontade que ela tinha
e da cacofonia que eu escondia
dentro da minha própria pretensão
tudo fazia sentido e
meus braços não eram o bastante
do jeito que eu a queria.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Bicolor
Em terra de idiossincrasia
meu silêncio é monocromático
porque eu não entendo
dos amores platônicos
no meu dicionário.
meu silêncio é monocromático
porque eu não entendo
dos amores platônicos
no meu dicionário.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Depois
Hoje cortei minhas mangas
e meus cabelos e os alfinetes não me
poem os cotovelos enquanto
eu disparo contra o céu
de olhos abertos.
Ainda parece setembro
e o outono é frio e abafado,
não há meio termo e
o céu é um campo aberto
os corvos estão famintos
e eu sinto pena do trigo
e dos cadáveres das nuvens
estirados todos azuis
contra o velho milharal sem cor.
O improvável me
condena e me destrói
enquanto eu
só consigo ser ambíguo e
imoral. Enquanto o depois
é mais uma mentira
absurda e descrente.
e meus cabelos e os alfinetes não me
poem os cotovelos enquanto
eu disparo contra o céu
de olhos abertos.
Ainda parece setembro
e o outono é frio e abafado,
não há meio termo e
o céu é um campo aberto
os corvos estão famintos
e eu sinto pena do trigo
e dos cadáveres das nuvens
estirados todos azuis
contra o velho milharal sem cor.
O improvável me
condena e me destrói
enquanto eu
só consigo ser ambíguo e
imoral. Enquanto o depois
é mais uma mentira
absurda e descrente.
Do sentido
Retirar de todos os excessos
das coisas que mal são minhas
e prescrever um cubismo estranho
aos meus calcanhares colados
que beiram abismos tristes e distantes
e perceber quão incrédulo e abandonado
é o eco do silêncio.
das coisas que mal são minhas
e prescrever um cubismo estranho
aos meus calcanhares colados
que beiram abismos tristes e distantes
e perceber quão incrédulo e abandonado
é o eco do silêncio.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Num dia qualquer
Fiquei dentro dela por mais alguns segundos. Esses, meus amigos, são momentos cruciais. Senti seu corpo tremendo devagar. Senti sua respiração ofegante. O coração batendo forte. De olhos fechados e boca aberta, suas pernas ainda tremiam um pouco. Ainda me segurava pelos braços com os dedos afundados na carne. Passei os dedos no seu rosto tirando a mecha de cabelo da frente do nariz e beijei uma das pálpebras fechadas e relaxei o corpo. Pálpebras fazem parte do conjunto nunca antes completamente numerado de partes altamente beijáveis no corpo de uma mulher. E as reações são variáveis. Mas sempre positivas, satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Passei a mão em seus cabelos. Ela relaxou o corpo, soltou meus braços e me abraçou pelo pescoço e pela cintura. Puxei os quadris pra trás e ela me soltou e se enrolou no lençol, abriu os olhos e sorriu. Levantei, fui até o banheiro, tirei a camisinha, dei o nó e joguei no lixo. Lavei as mãos, o rosto suado e voltei pro quarto. Estava de calcinha sentada no beiral da cama, fumando.
Cigarro? – mostrando a carteira pra mim.
Não, valeu.
Se quiser – tragou – pode fazer café.
Você também quer? vestindo as calças.
Claro – soltando fumaça.
Fui até a cozinha, abri o mesmo armário de sempre e peguei as mesmas coisas de sempre. Sempre gostei de café forte. Era o melhor jeito de se fazer e de se tomar. Meu pai me dizia que era café de homem de verdade. Não sei se quantidade de cafeína atesta masculinidade. Mas de qualquer maneira eu tomava muito café, forte. Não há muito segredo sobre como tratar pessoas, sobre como agir a respeito dos outros. Não foram muitas garotas. Na verdade foram pouquíssimas. Um ponto importante em todo e qualquer caso é saber fazer um bom café, caso ela goste. Não adianta ter pau e saber (ou não) usá-lo e saber dizer as coisas certas nas horas certas e escolher bem e tudo mais. Existem lições valiosíssimas que só uma xícara de café pode lhe ensinar. E que o café seja forte o suficiente pra tudo isso.
Não conheço ninguém que faça café tão bom quanto você. (eu disse. Não disse?)
Eu também não.
E também não conheço ninguém tão pretensioso.
É... – tomando um longo gole – eu também não.
Ela riu e encheu a xícara mais uma vez.
Cigarro? – mostrando a carteira pra mim.
Não, valeu.
Se quiser – tragou – pode fazer café.
Você também quer? vestindo as calças.
Claro – soltando fumaça.
Fui até a cozinha, abri o mesmo armário de sempre e peguei as mesmas coisas de sempre. Sempre gostei de café forte. Era o melhor jeito de se fazer e de se tomar. Meu pai me dizia que era café de homem de verdade. Não sei se quantidade de cafeína atesta masculinidade. Mas de qualquer maneira eu tomava muito café, forte. Não há muito segredo sobre como tratar pessoas, sobre como agir a respeito dos outros. Não foram muitas garotas. Na verdade foram pouquíssimas. Um ponto importante em todo e qualquer caso é saber fazer um bom café, caso ela goste. Não adianta ter pau e saber (ou não) usá-lo e saber dizer as coisas certas nas horas certas e escolher bem e tudo mais. Existem lições valiosíssimas que só uma xícara de café pode lhe ensinar. E que o café seja forte o suficiente pra tudo isso.
Não conheço ninguém que faça café tão bom quanto você. (eu disse. Não disse?)
Eu também não.
E também não conheço ninguém tão pretensioso.
É... – tomando um longo gole – eu também não.
Ela riu e encheu a xícara mais uma vez.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Ínfimo
Hoje eu parecia menor
enquanto eu lia Neruda e
dilatava minhas pupilas que ardiam diante da
minha velha máquina de escrever
de dez dedos tortos
e eu achava uma extrema babaquice
as coisas que eu costumo escrever
quando eu não sei exatamente o que
esperar de mim mesmo
e como tudo é estranho e infernal
o suficiente pra desaparecer na superfície de
qualquer coisa grande o bastante
e como hoje eu parecia menor
enquanto eu olhava pro mar e eu coração amarelo
não fazia mais tanto sentido
diante de mim.
enquanto eu lia Neruda e
dilatava minhas pupilas que ardiam diante da
minha velha máquina de escrever
de dez dedos tortos
e eu achava uma extrema babaquice
as coisas que eu costumo escrever
quando eu não sei exatamente o que
esperar de mim mesmo
e como tudo é estranho e infernal
o suficiente pra desaparecer na superfície de
qualquer coisa grande o bastante
e como hoje eu parecia menor
enquanto eu olhava pro mar e eu coração amarelo
não fazia mais tanto sentido
diante de mim.
Quase no.2
Eu me desfaço no infinito
porque eu não acredito
nas coisas que acabam e
insisto em achar que
as coisas não acabam e
minha fé acabou por nunca
ter existido
mas em compensação
tenho o acreditar
em substituição
e eu simplesmente
acredito nas coisas
que não sei por nem
entender o que não acaba
e não entender o que
não faz sentido e de
tudo que existe eu
não existo
porque
eu me desfaço no infinito.
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