terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bodoque

Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma. Não há mais munição. Não a mesma munição que

eu guardava entre os dentes
esperando as cápsulas de mercúrio percorrerem
o céu. O céu deprimente.

Não há mais estrelas
o tempo está - realmente -
fechado e eu acho que

não faz a mínima diferença
qual o calibre das trombetas ou

se os deuses são bons de tiro,
morram-me os alvos, todos.

O que restou do meu coldre
sem armas de fogo

cabe no último suspiro
do duplo cano do meu próprio paraíso.

O que restará?
 
Vão cheirar todo o pó
e não vai sobrar pó

pra homem nenhum
retornar. O que será? Resta

 a mim
estar comigo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pequena

A boca que ela tinha
não era o suficiente

pra vontade que ela tinha
e da cacofonia que eu escondia

dentro da minha própria pretensão
tudo fazia sentido e

meus braços não eram o bastante
do jeito que eu a queria.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Bicolor

Em terra de idiossincrasia
meu silêncio é monocromático

porque eu não entendo
dos amores platônicos
no meu dicionário.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Depois

Hoje cortei minhas mangas
e meus cabelos e os alfinetes não me

poem os cotovelos enquanto
eu disparo contra o céu
de olhos abertos.

Ainda parece setembro
e o outono é frio e abafado,
não há meio termo e

o céu é um campo aberto

os corvos estão famintos
e eu sinto pena do trigo

e dos cadáveres das nuvens
estirados todos azuis

contra o velho milharal sem cor.

O improvável me
condena e me destrói

enquanto eu
só consigo ser ambíguo e
imoral. Enquanto o depois

é mais uma mentira
absurda e descrente.

Do sentido

Retirar de todos os excessos
das coisas que mal são minhas

e prescrever um cubismo estranho
aos meus calcanhares colados
que beiram abismos tristes e distantes

e perceber quão incrédulo e abandonado
é o eco do silêncio.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Num dia qualquer

Fiquei dentro dela por mais alguns segundos. Esses, meus amigos, são momentos cruciais. Senti seu corpo tremendo devagar. Senti sua respiração ofegante. O coração batendo forte. De olhos fechados e boca aberta, suas pernas ainda tremiam um pouco. Ainda me segurava pelos braços com os dedos afundados na carne. Passei os dedos no seu rosto tirando a mecha de cabelo da frente do nariz e beijei uma das pálpebras fechadas e relaxei o corpo. Pálpebras fazem parte do conjunto nunca antes completamente numerado de partes altamente beijáveis no corpo de uma mulher. E as reações são variáveis. Mas sempre positivas, satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Passei a mão em seus cabelos. Ela relaxou o corpo, soltou meus braços e me abraçou pelo pescoço e pela cintura. Puxei os quadris pra trás e ela me soltou e se enrolou no lençol, abriu os olhos e sorriu. Levantei, fui até o banheiro, tirei a camisinha, dei o nó e joguei no lixo. Lavei as mãos, o rosto suado e voltei pro quarto. Estava de calcinha sentada no beiral da cama, fumando.

Cigarro? – mostrando a carteira pra mim.
Não, valeu.
Se quiser – tragou – pode fazer café.
Você também quer? vestindo as calças.
Claro – soltando fumaça.

Fui até a cozinha, abri o mesmo armário de sempre e peguei as mesmas coisas de sempre. Sempre gostei de café forte. Era o melhor jeito de se fazer e de se tomar. Meu pai me dizia que era café de homem de verdade. Não sei se quantidade de cafeína atesta masculinidade. Mas de qualquer maneira eu tomava muito café, forte. Não há muito segredo sobre como tratar pessoas, sobre como agir a respeito dos outros. Não foram muitas garotas. Na verdade foram pouquíssimas. Um ponto importante em todo e qualquer caso é saber fazer um bom café, caso ela goste. Não adianta ter pau e saber (ou não) usá-lo e saber dizer as coisas certas nas horas certas e escolher bem e tudo mais. Existem lições valiosíssimas que só uma xícara de café pode lhe ensinar. E que o café seja forte o suficiente pra tudo isso.

Não conheço ninguém que faça café tão bom quanto você. (eu disse. Não disse?)
Eu também não.
E também não conheço ninguém tão pretensioso.
É... – tomando um longo gole – eu também não.

Ela riu e encheu a xícara mais uma vez.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ínfimo

Hoje eu parecia menor
enquanto eu lia Neruda e
dilatava minhas pupilas que ardiam diante da

minha velha máquina de escrever
de dez dedos tortos

e eu achava uma extrema babaquice
as coisas que eu costumo escrever
quando eu não sei exatamente o que
esperar de mim mesmo

e como tudo é estranho e infernal
o suficiente pra desaparecer na superfície de
qualquer coisa grande o bastante

e como hoje eu parecia menor
enquanto eu olhava pro mar e eu coração amarelo

não fazia mais tanto sentido
diante de mim.

Quase no.2

Eu me desfaço no infinito
porque eu não acredito
nas coisas que acabam e

insisto em achar que
as coisas não acabam e
minha fé acabou por nunca
ter existido

mas em compensação
tenho o acreditar
em substituição

e eu simplesmente
acredito nas coisas
que não sei por nem
entender o que não acaba

e não entender o que
não faz sentido e de
tudo que existe eu
não existo

porque
eu me desfaço no infinito.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

As coisas que eu não sei

Provavelmente eu não saiba
conjugar todos os verbos
em todas as pessoas

Provavelmente eu não saiba
metrificar todos os versos
em todas as estrofes

Provavelmente eu não saiba
que todo dia tem vinte quatro horas
e que todas as horas são intermináveis e
que nunca há tempo o bastante.

Mas talvez - só talvez
eu saiba em você

as coisas que eu sei
que também são em mim.

sábado, 27 de novembro de 2010

Movimento

Eu me mexia
como setembro

ao encontro de outubro
e como as ruelas apertadas
às vezes levam pra algum lugar

e também levam pra lugar nenhum.

Eu me mexia
bem devagar no vazio

como às vezes

nem eu mesmo sei.

Pequenas Canções (parte 2)

Trabalhava num escritório organizando inventários. E digitando cartilhas e repassando informações. O tipo de trabalho que a maioria das pessoas acha que não existe. Bateu ponto. Escada interditada, ótimo. Mais três pessoas no elevador. Arrumou a gravata. Subiria até o terceiro andar com o barulho sufocante das correntes. Primeiro andar. Duas pessoas saíram e três entraram. Segundo andar. Todos saíram. Músicas de fundo deprimentes. Terceiro andar. No caminho até o cubículo passou por alguns colegas, cumprimentou, sorriu o mais amarelo dos sorrisos e disfarçou da pior maneira possível a cara de cachorro morto. Foi até o filtro com a placa ADOTE SEU COPO e pegou um pra si. Escreveu o nome com dificuldade usando uma caneta pra retroprojetor.


Já na mesa, sentou-se e ligou o computador. Abriu a gaveta e tomou as aspirinas estrategicamente posicionadas desde sexta à noite. Já havia uma pilha de fichários e requerimentos de várias cores diferentes, variando de verde até vermelho por departamento e por número no setor e grau de importância. Dez fichários, oito cores e nove números de múltiplos dígitos. Embrulho no estômago. É só mais um dia de trabalho. Concentrou-se por algum tempo no requerimento mais urgente, os dedos batendo rápido nas teclas e a vontade de botar tudo pra fora. Terminado. Afrouxou a gravata e saiu em direção ao banheiro. Final do corredor, à direita. Olhou-se no espelho.


Puxou as mangas da camisa e foi até o vaso pra vomitar. Se tivesse sorte não encontraria um cagalhão boiando. Levantou a tampa, sem cagalhões, all clear, vomitou. Era de se esperar. Fechou a tampa e deu descarga. Lavou as mãos e o rosto. Voltou à mesa, pegou a escova e pasta. Bochechou, cuspiu, escovou os dentes e voltou ao trabalho. Arrumou a gravata, ajeitou as mangas e guardou tudo. A fome apunhalava feito filha da puta, bem na base das costelas. Tomou mais dois comprimidos. Deu cabo dos outros fichários na hora exata. As tripas imploravam. misericórdia. Guardou a gravata na gaveta e puxou mangas pra cima mais uma vez. Elevador cheio, convidaram pra comer num lugar qualquer. Inventou uma porcaria indiferente e se livrou. Bateu o ponto. Precisava muito comer. Misericórdia.


Atravessou a rua puxando a camisa pra fora da calça. Lanchonete cheia. E era o normal daquele horário. A experiência lhe favorecia. Procurou pela tabela de preços. Sanduíche grande e café pra viagem. Separou o dinheiro exato e contou a uma das funcionárias que estava com pressa, que era uma emergência. Disse que tinha o dinheiro contado, tudo certinho. Abriu a mão apontando pras notas amassadas e pras moedas. Sete minutos depois estava mastigando o último pedaço e tomando o último gole sentado num banco em frente à praia. Tirou os sapatos e as meias, dobrou a barra da calça e saiu em direção ao mar. A areia fininha roçava macia nos pés. O barulho do mar era mais alto do que tudo, que os carros passando e que os gritos do futebol e do vôlei. Mais alto que as crianças que gritavam. Um cigarro não cairia mal. Continuasse daquele jeito poderia encabeçar num vício. Lembrou de Oswald de Andrade. Me dá um cigarro? sentiu algo roçando nos tornozelos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequenas Canções (parte 1) - Capítulo 1

Lavou o rosto e deu dois tapas. A garota, a garota... Aline. Isso, Aline. Ela fumava. E ele precisava de um cigarro. mesmo que não fumasse, mesmo que não quisesse fumar. Voltou pro quarto. Procurou no bolso da calça jogada ao lado da garota, acendeu o cigarro e pôs tudo de volta no lugar. Aline não era feia. Era loura dos olhos castanhos, de seios pequenos e quadris largos. Puxou o cigarro com vontade, que coxas! o perfume dela estava marcado em seus braços.  Deu-lhe um beijo no topo da cabeça, cobriu-lhe com um dos lençóis jogados no chão e arrastou-se descalço até a janela. Destrancou-a cuidadosamente, abriu pelas laterais, passou pro outro lado, perna de cada vez, fechou-a novamente.

Deu a volta na casa e o cachorro dormia com metade de seu tênis, estraçalhado, na boca. Agora preciso mesmo de um novo par. Pulou o portão. Catou os trocados no fundo dos bolsos enquanto caminhava até o fim da rua, espalhou as moedas na palma de uma das mãos. O suficiente, o suficiente. E o ônibus vinha dobrando a esquina. A fumaça do cigarro desenhava umas curvas estranhas diante de seus olhos e lhe lembravam as coxas de Aline. Deu sinal e jogou o cigarro no chão. Subiu, pagou, sentou-se no meio. Os trabalhadores que iam e voltavam e os bêbados dormindo e o de sempre, o de sempre: chegar em casa pra mais um dia. Sair domingo tendo de trabalhar no dia seguinte. Parabéns, garoto.

Subiu os degraus de chão áspero que parecia ainda mais áspero nas solas dos pés. Abriu a porta do terceiro andar com a chave do fundo do bolso remendado e calçou os chinelos jogados no batente. Correu até o banheiro e descarregou todo o prazer que só uma boa mijada é capaz de oferecer. Descarga. Lavou as mãos e o rosto inchado. Arrastou-se até a cozinha e fez um café forte e horrível, já que o céu já estava azul e precisava, definitivamente, acordar. Acendeu o segundo cigarro na chama do fogão, pó de café e água quente, açúcar e tinha de acordar. Mesmo mesmo. Precisava também se barbear. Tomou banho frio e toda aquela água gelada dava pontadas absurdas de doloridas e tirava todo cheiro da noite anterior. Fez a barba do melhor jeito possível, uma merda. O que era fazer a barba sem algumas gotas de sangue? Pão com manteiga quase vencida, mais café e o estômago embrulhado. Escovou os dentes, vestiu-se e pegou o crachá. Assobiando Easy Living, do Benny Golson e catando miúdo de trocados pro ônibus e pra comer alguma coisa mais tarde.

Trancou a porta, desceu as escadas. Preferia as escadas apesar do elevador em perfeitas condições. Esperou por algum tempo no ponto até que o ônibus chegasse. Ônibus cheio. Pagou e mergulhou na multidão espremida naquele espaço apertado e foi até o fundo. Sempre se perguntava se era algum tipo de fetiche que fazia com que se espremessem do meio pra frente e o fundo permanecesse praticamente vazio. Era um dos mistérios da humanidade. Todo mundo parecia ocupado demais pra qualquer outra coisa. Ele não. Não havia só a programação padrão, não conseguia funcionar daquele jeito. Mas tinha de pagar as contas de alguma maneira. Era uma grande merda, mas era sua própria grande merda. Era melhor não pensar muito naquilo. Concentrou-se na marca que a calcinha da mulher da frente fazia no vestido. Sentia-se um escroto por aquele tipo de coisa, mas pensar demais a respeito não era o tipo de lógica convincente. Easy Living.

London, London e As Pegadas na Areia - reescrito (parte 2/fim)

Mesmo com toda aquela merda estirada junto de todo mundo, apesar das pontas de cigarro, das garrafas fazias, da seda rasgada, era uma imagem doce. Um mar de inocência sobre os corpos estirados pelo chão do quarto e sobre os corpos espalhados pelo resto da casa. O sol dançava porentre as frestas da persiana e figuras engraçadas e cheias de luz rebolavam no chão. A cabeça doía menos. Todos eram anjos. Anjos nus e deitados nas mais diversas posições. As coxas e as nádegas e os peitos e as cabeças e os cabelos e os braços e os abraços e as pernas, algumas abertas e entreabertas e fechadas, e os entrelaces e os pêlos e as camisas e as camisinhas e os olhos, fechados e entreabertos, e as bocas e as narinas e as unhas e os dedos. Eram todos anjos.


Levantou-se. Estava tonto. Meio tonto. Muito tonto. Firmou os pés e as pernas e caminhou pelo chão coberto das penas dos anjos que dormiam na penumbra imunda. Depois de muitos quilômetros percorridos atravessou a porta e desviando por mais corpos chegou ao corredor. Mais corpos, a cozinha. Pegou o último e único sobrevivente de todos os copos completamente estilhaçados. Caminhou até o filtro. Água gelada no botão da direita, um dois três quatro cinco copos. Beber desidrata pra caralho. Puxou um banco e colocou o copo na pia. Apoiou os braços nas pernas. Virou a palma da mão para si. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Linhas, linhas, linhas.


Linha da vida. Era uma vida cheia de vícios, problemas, defeitos e trabalho de merda, reclamações e nenhum tipo de perspectiva decente. Fechou as mãos e encostou a cabeça nos punhos. A sensação era sempre a mesma. Reparou no barulho do mar. Firmou os pés e as pernas e caminhou até a porta. Virou a chave, abriu e ouviu com maior clareza. Não havia mais corpos de anjos jogados no chão. Só areia. E era tão cedo que o céu ainda não era azul. Pigarreou e cuspiu. Começou a cantar London, London com a pior voz do mundo. Foda-se a voz. I'm wandering round and round, nowhere to go. I'm lonely in London... Sentou na areia. Olhou pro mar e todas as nereidas penteavam seus longos cabelos longos. E viu Iemanjá e Poseidôn e alguns pescadores pequenininhos num barco verde e vermelho.


Virou a palma das mãos pra si. Não havia nada de errado. Havia tudo de errado. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Leu em sua própria mão que talvez pudesse ser feliz. Mas mesmo assim, por via das dúvidas, resolveu tomar mais um copo d’água.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quase

Eu sou um milhão de coisas
ao mesmo tempo e ao mesmo
tempo eu sou uma coisa só

e como existe em mim uma
indefinição de muitas coisas
e de muitos sentidos e de
todos os meus sentidos

tudo é relativo menos
as coisas que eu não sou
e eu sou o infinito.

London, London e As Pegadas na Areia - reescrito (parte 1)

Cabeça latejando. A consciência distante. O corpo implorava pra que voltasse. Cabeça latejando, pulsando dolorosamente. A consciência estava retornando das profundezas do limbo. Parecia ter saído de um longo período de hibernação. Acordou devagar. Olhos fechados. Os sentidos reapareciam devagar. Provavelmente todas as outras pessoas ainda estavam dormindo. Ouviu roncos baixinhos e todos os outros sons estranhos e todas as respirações e estalos sinistros que saíam das paredes.


Ouviu as gotas que caiam na pia. O velho ventilador de teto rangia e as pás da persiana batiam umas na outras. Sentiu a cueca e as calças. Estava descalço e sem camisa. Sentiu que havia mais pessoas por perto. Naquele lugar. Que lugar? Provavelmente um quarto. Um dos quartos. Sentia cheiro de álcool. Vinho e uísque e cerveja caprichosamente misturados. Que suicídio. Cheiro de cigarro. Maconha e cigarro normal. Alguns perfumes. E suor.


Passou os dentes na língua e sentiu gosto de cerveja e tequila. E... aquilo era gosto de cigarro. Alguém se mexeu do seu lado. Alguém lhe agarrou pela cintura e voltou a respirar baixinho. Ele não fumava. Nem mesmo quando bebia. Nem mesmo quando bebia muito. Talvez fosse o beijo da garota, aquele corpo pequeno. Provavelmente a chamara de pequena. Muitas e muitas vezes. Passou o braço ao redor do corpo dela. Não queria nem abrir os olhos e nem se mexer. Mais nenhum milímetro. Por enquanto. Procurou por mais gostos na língua pastosa. Desde o começo havia outro gosto. Forte e persistente e familiar. Mas de quê? Apertou os olhos. A cabeça ainda doía. E tinha o gosto. Gosto de quê? Colocou um dos braços debaixo da própria cabeça. O outro continuava abraçando a garota. O gosto era de boceta mesmo.


Sentiu uma gosta de suor descendo pela testa e escorrendo do lado esquerdo do rosto. Abriu os olhos. Não instantaneamente, claro. Abriu milimetricamente e permitiu que a luz fraca os invadisse aos poucos. Rodou os olhos pelo quarto. Respirou fundo o ar cheio de todas as porcarias que havia notado antes. Afundou a mão nos próprios cabelos. Os dedos procurando espaço no meio das mechas e fios. A garota era de no máximo vinte anos. bonita. Bonita. Não era linda. Tinha um charme natural, essas coisas que chamam atenção num lugar lotado. Livrou-se delicadamente do abraço. Alguns corpos estirados no chão, todos enterrados num sono cheio droga e sexo e muita merda. A garota estava com sua camisa e era só uma camisa. Provavelmente tinha outra na mochila, dane-se.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O dia d(e perceber)a criação

Desde a primeira vez que percebi as coisas funcionavam de outro jeito talvez já fosse tarde demais e já fosse o sétimo dia e o algum deus estivesse descansando depois de passar os seus seis mitológicos dias na superfície inóspita e sem sentido. A luz chegou ao último instante e eu percebi que as coisas que eu via em você não eram as mesmas que eu via antes e que as coisas que eu ouvia de você não eram as mesmas de antes, apesar de tudo supostamente permanecer da mesma forma. Na verdade, não, acho que não, mas loucuras sempre permaneceram definitivas demais e as incertezas sempre foram as mais indefiníveis e confiáveis possível. Enquanto eu seguia o movimento do mundo depois que você passava, eu percebia que até o mundo já não era o mesmo e que eu não era o mesmo e que todas as coisas que antes estavam no mesmo lugar, apesar de permanecerem, estavam reviradas e soterradas de tralhas e entulhos e idéias estranhas e fundações mal planejadas e maluquices e brainstorm com a dor de cabeça que só aparece às duas da manhã da quinta pra sexta porque ainda não chegou o final de semana.


Quando finalmente decidi falar alguma coisa as palavras pareceram complexas e inimagináveis e interrogações intermináveis apareciam entre todas as sílabas e as regras de pontuação desapareciam e conjugação desaparecia e versificação desaparecia e concordância não tinha importância e nem o instinto e nem os grunhidos tinham definição suficiente e eu voltava pro primeiro estágio, o estágio de só seguir os movimentos. Segui-los tão silenciosamente que o vácuo provocado entre as cordas vocais e os nervos que tilintavam cuidadosamente aumentava meu ritmo cardíaco e só me permitia umedecer a boca seca e secar as mãos suadas no jeans e estalar os dedos e ouvir o resto do mundo enquanto o algum deus estava ocupado demais descansando pra me dar atenção. E quando se fez luz a luz não era mais suficiente e faltava sangue nas extremidades, o que seria preocupante se eu precisasse de uma ereção. Mas eu não preciso de muita coisa, eu só preciso de uma delas. E não é de desespero.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações (continuação - terceira parte)

Tá tudo bem com a situação? Você consegue separar as coisas? E achava que podia. Mas, bem, esse lance de certezas absolutas nunca foi o meu forte. De cigarro na boca e olhando o relógio da parede pensar sobre tudo aquilo talvez não me desse nenhuma solução. Voltei até o quarto e peguei o caderno do projeto atual guardado debaixo da cama. Mônica continuava dormindo com o lençol cobrindo do umbigo pra baixo, os tornozelos de fora e parte do cabelo junto do seio esquerdo. Seus seios eram pequenos e firmes e cabiam com folga em minhas mãos e tinham o tamanho perfeito pra minha boca. Mas não era o suficiente, queria que ela sentisse pelo menos interesse em mim. Voltei pra cozinha e li tudo. O enredo estava provavelmente na metade. Tudo extremamente bem descrito e trabalhado. Real. Uma grande merda aquilo ser tão bom. Era material pra qualquer tarado regular socar uma no escuro e depois continuar com a história.


Coloquei o caderno no lugar e sentei na beirada da cama. Talvez fosse melhor continuar daquele jeito. Era uma garota ótima. Do que eu poderia reclamar? Até que eu não pudesse mais me conter a situação permaneceria a mesma. Ela continuava dormindo, na mesma posição e respirando do mesmo jeito. Era estranho que eu a amasse daquele jeito e que as coisas permanecessem as mesmas de antes e que só eu então percebesse quão incríveis elas sempre foram. Era estranho. Era estranho perceber que eu sempre fora um canalha solitário junto do céu alaranjado do centro velho e que minha disposição não era mais a mesma. Que minha predisposição pra cafajestagem já não era a de sempre. Coloquei as pernas pra cima do colchão e esfreguei os olhos. Duas da manhã. Deitei ao seu lado e encostei o rosto no pescoço morno. Melhor mesmo era não pensar em porra nenhuma. Fechei os olhos e decidi ir embora só no dia seguinte. O amor é mesmo um cão dos diabos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações (continuação)

Nossa parceria - chamemos assim- começou quando ela precisava escrever sobre sexo. Graças a nossa recém adquirida cumplicidade era bastante cômodo que me pedisse um favor daqueles. E eu não poderia negar já que ela precisava de material. E eu também, mesmo que em sentidos diferentes. Não era do tipo que acabava logo. Os dois aproveitavam bastante, cada um com sua devida preocupação. Durante uma de nossas conversas, Mônica comentou rapidamente sobre a necessidade. Depois de um tempo eu já sacava a situação. Já te chuparam? Já sim, mas acho que nunca bem o suficiente. E então ela me chupou como provavelmente uma chupada de verdade deve ser, mas nunca é. E enquanto fazia todo o trabalho e eu lhe segurava pelos cabelos pra que não lhe caíssem na frente, falei que estava combinado. E era a intenção dela.


O esquema era simples. e prático. Conversávamos como sempre fazíamos, bebíamos e fumávamos um pouco e depois fodíamos. Era a continuação de nossos encontros. Era comer bolo e tomar café na lanchonete da esquina, comprar cigarro, pagar as contas, entregar trabalhos e trepar e fechar as persianas pra beber um pouco e um dos dois ir embora. No começo tudo certo. Mas diferente de qualquer outro cafajeste que há por aí acabei me apaixonando. Nossos encontros continuaram e eu tinha de mascarar da melhor forma possível a satisfação que eu sentia junto e dentro dela. Não era mais a satisfação de um pau necessitado. Era a satisfação completa que não fazia o menor sentido. Era entrar em parafuso ao perceber que era amor.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações

Olhei pro relógio da parede e haviam se passado vinte minutos. Tinha enrolado uma toalha na cintura pra não andar de pau pra fora e pagar de voyeur pros vizinhos dela. Ela. Eu estava naquele território estranho e repentino com a garota por quem eu era maluco. pelo menos é o que eu acho. Mas esse lance de certezas absolutas nunca foi o meu forte. Tomei um copo d’água e peguei um dos cigarros que ela fumava e acendi na chama do fogão. Conheci Mônica dias antes na fila do cinema em uma sessão cancelada. Mesmo sendo um pouco egoísta e introspectivo quando estou sozinho acabamos conversando, já que o lugar comum que reúne as pessoas é indignação e palavrões. E no fim das contas eu tinha achado elegante e bonito o jeito que ela tinha mandado tudo à puta que pariu.


Entre o quer um cigarro e o quer beber alguma coisa as coisas andaram relativamente bem. Mônica escrevia muito bem, estudava Publicidade, tinha pernas grossas e gostava de Carlos Gardel. Já eu era mais simples, gostava de foder e de Rolling Stones. Acabei lendo metade do caderno que ela guardava debaixo da cama, e tudo era muito bom. Algum dia seria uma novelista conhecidíssima, talvez ganhasse prêmios e eu a reconhecesse numa coluna de domingo. E que a fama não estragasse aquilo que ela escrevia. Muito menos a maciez de sua pele. Tudo que eu lia era tão real que era impossível não acreditar que ela não tivesse vivido pelo menos metade daquilo. Talvez fosse neurose demais procurar marcas de pico em seus braços. Mas ela disse que se picou só pra saber como era e então escreveu. Não sabia mentir tão bem, precisava viver um pouco do que falava. Eu não me incomodava com aquilo. Era intenso o suficiente pra mim.

sábado, 13 de novembro de 2010

Torneira

Meu amor eclodiu de repente
e partiu três pratos na pia:

uma supernova silenciosa
explodindo no infinito do espaço
sombrio.

os copos no escorredor trincaram
e os lençóis embolados
desembolaram

sob o aspecto macio
de uma anã branca dissecando o céu

e o par de chinelos sobrepostos
juntos da porta.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Reabilitação

Quando se decide abandonar o sentimento por alguém as coisas se tornam um tanto complicadas. Pelo menos ao neo-romântico encubado que há dentro de todos nós. Outras até bem simples. Durante o processo de desintoxicação, assim como em qualquer outro, a abstinência provoca crises terríveis. Passar horas agarrado com cobertores forçando a memória mais infecunda possível, tentar sentir o cheiro lavado e esfregado dezenas de vezes depois de semanas. Abraçar os travesseiros e trazer de volta a memória de como era tê-la suando e respirando e gemendo e sorrindo e falando, mesmo quando todas essas coisas não tinham o menor sentido. E mesmo assim, no limite absurdo da neurose, sentir a presença na roupa de cama que na verdade tem cheiro de amaciante. As maratonas de músicas que você ouviria uma vez ou outra, mas precisa passar por sessões cheias de pieguices e repetições de estrofes. Talvez não fizessem nenhum sentido antes, mas na situação são tendenciosamente direcionadas ao seu caso, à sua história.


Jogar o lixo, arrumar a bagunça, adiantar trabalhos, resolver pendências, ler tudo aquilo que você queria há tempos. Talvez não imediatamente, mas em algum momento a grande explosão de percepção fará com que você perceba as coisas que tem de fazer. Que quer fazer. E compara seu caso com as maluquices que você vê por aí, em histórias, com amigos, com os casais que passam pela rua, nas explicações biológicas, nas letras das músicas que você não ouvirá por muito tempo. E é então que você precisa fazer a barba ou raspar as pernas e cortar o cabelo e as unhas e sair de verdade, ver a luz do sol de verdade sem enganar a si mesmo. Até lá, qualquer tipo de gozo forçado só remeterá ao corpo estremecendo no silêncio e os dois ofegando nus e jogados e debruçados e lado a lado como vítimas de um atropelamento amoroso. Você percebe que foi casual. Que não deveria ter levado as coisas tão a sério. Alguns pensam em se matar, mas usam só dois três comprimidos pras dores de cabeça ou a faca pra cortar um pedaço de bolo ou uma fatia de pão.


Em pouco tempo você usa de todo o sofrimento pra criar desculpas e bobagens pra dizer quando lhe perguntam sobre como você está e o que fará. Diz que não acredita nisso, naquilo, que atestado e comprovado é não cair no engano do apego. Dias depois está atracado com alguém e se pergunta o que acontecerá dessa vez. Talvez não imediatamente, mas em algum momento de muito tempo depois perceberá também que os dias e as semanas e os meses passaram rápido, que as tardes e madrugadas de dores no corpo e soluços fazem tanto tempo que são uma realidade distante do que você é. Mas sabe que faria tudo de novo. E que fará. Por enquanto você está a salvo, o romântico exagerado respirou e você está tranqüilo. Até pelo menos acreditar que ama o único amor que há por aí. Mesmo sabendo que mentir pra si mesmo é crueldade. E amar mesmo, você só ama o amar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Maré

Ela me amava,
amava profundamente

como quando se ama
a distância só por ser
triste. Tão profundamente
quanto o mar pode

e não pode ser.

Suas mãos eram duas
âncoras pesadas que me
mantinham no litoral
e próximo ao oceano.

Meus dedos lhe prendiam
os dedos e passavam fio
por fio várias criaturas marinhas

que eu mal ouvira falar.

Até então só conhecia
certas espécies de tartarugas
aquáticas e peixes e águas-vivas
de longe. Foi assim com

o amor, foi assim com a saudade,

tão profundamente e agora
respirando distante e longe de
casa

tão naufragado
tão fora d'água.

sábado, 6 de novembro de 2010

O cais está cheio

Cheio de amarugem e de
aninhagem. Cheio da noite

que se choca contra o mar
violento, rugindo apavorado.

Então o mar se choca
contra o silêncio dolorido
e inexplicável

que se debate no vazio.

cheio de envolvimento.
cheio de movimento.

Instinto

Todas as poucas coisas que o avô tinha foram deixadas à família. Uma delas foi o casal de passarinhos. Não eram de espécie rara nem valiam tanto assim. A ocupação do aposentado era tratar da melhor forma possível os animaizinhos. Ao morrer, junto do par de sapatos velhos, uma espingarda de ar velha, os álbuns de fotografia e algum dinheiro, deixara também a responsabilidade pelos pássaros. A idéia de ter os bichos presos na gaiola não agradava a todos, mas pelo amor e memória do avô era importante mantê-los por perto e permitir aquela situação. Certas obrigações como limpeza ou alimentação eram revezadas pelos membros da família. Mesmo não gostando da idéia, pai e filho decidiram ajudar.


A situação estava praticamente normalizada depois de planejamento e paciência. Não era uma situação confortável, algo bom ou algo ruim. Era simplesmente satisfatório. Conversaram sobre a responsabilidade de todos a respeito da herança do avô. O garoto era compreensível o suficiente. Fins decididos e assunto resolvido. O sapato seria reformado, a espingarda de ar seria do neto, os álbuns restaurados e os animais cuidados. As tarefas de criação revezadas, todos deveriam ajudar e com o tempo se acostumariam.


Um dos problemas da rotina é como as coisas passam despercebidas por pura mecanicidade e falta de atenção. Um dos membros da família havia deixado a gaiola acidentalmente aberta. Era a oportunidade perfeita. O gato que rondava o quarteirão decidiu agir. Subiu o muro vizinho em um único pulo. Rebolou o corpo magro de costelas à mostra varando o quintal, pulou algumas caixas e finalmente chegou até o segundo andar. Foi descoberto pela quantidade de penas espalhadas e o sangue escorrendo-lhe do focinho.


Convocaram nova reunião. A avó explicou ao garoto que era questão de instinto, de necessidade, de sobrevivência. O pai mantinha-se quieto, chateado. O instinto sobrepujaria qualquer coisa segundo a família. Conversaram durante algum tempo, repetiam o discurso e, tecnicamente, tudo estava resolvido. Família novamente em luto, mas em escala reduzida. O garoto planejava vingança. Não poderia deixar aquilo sem volta, mas teria de agir à surdina. Planejou tudo, preparou tudo. Foi até o armário e recolheu a espingarda de ar comprimido que era do avô. Separou palitos de churrasco e inseticida. Fez o teste. disparos perfeitos.


Espalhou o spray na ponta dos palitos, armou isca para o gato: prato de comida. Alguns dias haviam passado desde a última refeição, teria de voltar. Palitos na arma. Barulho ensurdecedor repentino. Uma explosão dentro da casa que ecoara por todos os cômodos e, provavelmente, por toda rua. A fumaça subiu pelo quintal. Todos desceram as escadas correndo. O pai com uma escopeta apoiada nas costas, rindo. Gargalhando. Os restos do gato estavam espalhados pelo chão. Meu Deus! O que você fez? Por que você fez isso? Instinto, instinto.


O garoto passou alguns dias sem dizer uma só palavra.  Perdera a oportunidade perfeita.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando

Quando eu morrer
hei de morrer em mim
e em mim solamente

apesar de enterrar meu
próprio corpo sem qualquer
hesitação, mas cheio de ternura
e aflição.

Quando eu morrer
hei de morrer em mim
e em mim solamente

crendo que em meus ossos
poderão residir silenciosamente
cada uma das porções impetuosas
dos sorrisos que ficariam pra trás.

Quando eu morrer
hei de morrer
só de amor.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Creación

Presente-mais-que-passado
presente-mais-que-futuro

meu presente passará no
tempo

meu tempo passará no
mundo.

As casas estão fechadas
as choupanas lacradas estão mudas
com suas portas umectantes nas beiras das estradas.

o que houve com o mundo?

encontro freqüentemente mudas vadias decepadas
de negras vegetações no meu canto

a esta altura
meu coração cheio de brumas
não arderá de novo. Onde estão as pessoas?
Onde estão os pronomes?

O silêncio nasce bruscamente
com a intensidade de centenas
de milhares de ruídos,

os trovões invadem os lares
e nada está a salvo. Não há abrigo. O amor é tão
banal que há mais sinceridade

no ódio amigo.

Há bombas e explosões e
os velhos deprimidos de caras amarradas
carpem longas campinas do fim do mundo

as mulheres permanecem mulheres
e seus corpos apedrejados são
ideais estupidamente respeitáveis
e interpretados.

A idéia corrompe o pensamento
e corrompe os sentidos
e corrempe a sensatez
e corrompe o juízo.

O umbigo do homem é do tamanho
do homem do umbigo.

Meu tempo é
tempo perdido.

Aurora

Quando voltou a si, tudo parecia novo e estranho. Mas não era normal sentir-se assim. A cadeira debaixo de seu corpo continuava a mesma cadeira de antes. Seu corpo era estranho, mas era o mesmo. Estendeu as mãos frente ao rosto. Perfeitamente normais, apesar da sensação desconfortável. A sensação era de como se tivesse adormecido sob efeito de alguma droga forte. As linhas das mãos ainda eram as mesmas, a cicatriz no anelar da direita ainda estava lá. Vestia uma camisa branca, alva e limpa. Não estava abotoada. Respirou fundo, o ar parecia estranho em seus pulmões. Esfregou os olhos. Levantou-se devagar. Apoiou os braços no encosto da cadeira, pôs-se de pé.

Olhou ao redor. Paredes brancas, cama simples de lençol, forro e fronha de travesseiro azul claro. Um móvel retangular de cor clara e um vaso de vidro reluzente com água translúcida, uma flor de caule verde escuro, folhas brilhantes e pétalas vermelho-fogo. Caminhou em sua direção e lhe tocou a superfície sentindo sua fragilidade. Abriu a porta única do móvel, alguns cadernos limpos, livros de botânica e um manual de instruções, que recolheu e colocou sobre a cama. Mexeu os dedos dos pés e sentiu o chão frio. Notou que havia um par de sapatos e de meias, ambos negros, ao lado da cadeira. Sentou-se e se calçou.

A porta a sua frente tinha enormes dobradiças de metal polido. Abotoou a camisa com certa dificuldade. Abriu o manual de cima da cama. A primeira página era revestida por papel alumínio. Passou o cabelo curto pra trás olhando-se no ‘espelho’. Estava pálido. Sua aparência era fria. Encostou a mão na testa, a temperatura estava baixa. Olhou pra cima, havia um ar condicionado portátil funcionando silenciosamente. Procurou por seu controle no móvel, debaixo do travesseiro, debaixo da cama, nos cantos. Não havia controle. Decidiu sair. Fechou o zíper do jeans, colocou o livro debaixo do braço, rodou a maçaneta e puxou a porta. Uma luz forte lhe cegou momentaneamente. Fechou os olhos e tateando a superfície externa puxou a maçaneta e se manteve rente à parede até que seus olhos se acostumassem com a luminosidade.

Ouviu barulho de mar. Mar. Nunca tinha visto o mar, mas sabia que aquele era o som vindo das ondas e da água na areia. Debaixo dos sapatos a superfície era dura e lisa. Caminhou por alguns metros. Checava com um dos pés na frente tateando e garantindo o próximo passo. O ar marinho encheu seus pulmões. Era definitivamente uma praia. Como havia parado ali? Todo aquele ambiente era completamente normal ao mesmo tempo de novo e estranho. Não entendia a situação. Esfregou os olhos e concentrou-se por alguns instantes. Readquiriu parte da visão, diferenciando formatos, limites e cores, apesar da falta de exatidão. Com andar mais seguro, desceu alguns degraus até uma pequena mureta que lhe separava da areia. Aproximou uma das mãos pra puxar uma das travas do portão. Sentiu uma leve pressão no pulso e ouviu um estalado seco vindo do portão, que abriu. Atravessou a passagem e andou em direção do mar.

Tirou os sapatos e as meias, seria melhor sentir a areia com a sola dos pés. A areia fria envolvia a pele. Passo a passo distanciou-se de casa. Sentou perto do mar, recolheu alguns grãos na mão, deixou com que caíssem rolando pela superfície dos dedos. No meio de tantas sensações estranhas, finalmente sentia-se bem, mesmo não reconhecendo mais nada ao redor. Abriu o livro no colo. Talvez tivesse realmente ingerido alguma droga. Passou as páginas das considerações do autor. Folheou rapidamente até encontrar alguma coisa. Eram letras garrafais. Modelo 15-AAC Asimov. Propriedade de R. Giskard, direcionado a R. Daneel Olivaw. Mais uma página. As letras tornaram-se mínimas mais uma vez.

Daneel leu sobre complexos sistemas de engenharia, esquemas, explicações específicas em várias línguas. Não entendia nada. Era humanamente incompreensível. Pelo menos aos olhos de um leigo, nada daquilo fazia qualquer sentido. Respirou fundo, deitou o livro na areia junto dos sapatos. Mais e mais perto do mar, sentiu a água morna. Era uma sensação incrível. O que estava acontecendo? Talvez devesse voltar ao quarto, esperar por alguém, procurar por algum telefone ou quaisquer indícios ou pistas do que estava acontecendo. Voltou ao livro e se sentou mais uma vez. Precisava manter a calma. A página estava marcada por uma pequena dobra. Adiantou a leitura do ponto em que havia parado até encontrar as letras garrafais mais uma vez.

  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

  • 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.


 

O mar ainda banhava a costa.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Azul

Como de praxe na época eu havia saído pra conversar e beber com dois amigos. Tive de dormir na casa de um deles. É engraçado perceber como parte dos meus textos começa depois de um surto alcoólico. Não, não. Não há nada em que me orgulhar disso, é uma constatação. Não me envergonho também. Fazia alguns minutos em que pensava sobre o alcoolismo literário. Era estranho. As pás do ventilador não se cansavam, meus olhos estavam vermelhos, meu corpo cansado. A língua pastosa. Em algum momento teria de levantar pra esvaziar a bexiga de todo o filtrado restando das cervejas e uísque e refrigerante e besteiras ditas e não-ditas da noite anterior. Ainda me restava algum tempo. Pela fresta da cortina eu via o sol desenhando o contorno do beiral da janela até o guarda-roupa. Dormir num colchão no chão é melhor que dormir numa cama propriamente dita. A grande merda é não poder fazê-lo sempre. Malditos ácaros. Será que nem mesmo colchões especiais escapam disso?

Esfreguei os olhos. O ventilador não cansa. Levantei sorrateiramente pra mijar. A porta não rangeu. Ressaca ferrada, pra mim, só em situações absurdas. O líqüido quente descendo e borbulhando e espumando e resolvendo todos os problemas do mundo naquele momento. Pelo menos os problemas de minha bexiga. Descarga. Pareciam que dez horas haviam passado desde que entrara no banheiro. Lavei as mãos, o rosto. Bochechar não adiantaria. Lavei o rosto mais uma vez, voltei pro quarto na ponta dos pés. Pés que me levaram de volta ao colchão no chão.

- Que horas são?

- Não sei.

- O relógio tá em cima da escrivaninha.

...

- Meio dia e...?

- Vai dormir. Nove e quarenta.

- Amém. Se quiser tem coca na geladeira.

O sangue voltava aos poucos às extremidades. Coca-cola. Deus, caso exista, há de abençoar minhas possíveis futuras úlceras causadas pelo consumo de coca. O alívio instantâneo no paladar. Lavei parte da louça. Nunca me livro de minha neura de educação na casa de outras pessoas. O único copo sujo na pia, ironicamente, era o que eu acabara de usar. Fui até a janela, queimar os olhos. Putaqueopariu. Eu tinha e ainda tenho lá meus problemas com excesso de sol. É um grande problema quando se vive num lugar onde sol é fração mais-que-dominante dos dias. Não havia nuvens. Nem rastros nem traços. Não havia fumaça de avião. O céu estava completa e sobrenaturalmente azul. Não existe, em lugar algum, céu azul com o azul que existe nessa cidade. Tenho meus problemas de logística com ela, admito. Nenhum deles diz respeito ao céu. O pedaço mais azul do céu.

Alguns minutos se passaram. Um garoto de dez, onze anos apareceu acompanhado de uma mulher de uns trinta e poucos. perto dos quarenta.O garoto de sunga caqui e camisa branca manchada. Eu estava no primeiro andar. Deus deu atenção especial às mulheres. Não há todas, claro. Mas perdeu alguns longos dias em determinadas espécimes. A quase-quarentona exibia em conjunto de biquíni um corpo fenomenal. Não era um corpo os chamados por aí de perfeitos. Não na concepção comum. Era um corpo de mulher de verdade. Tinha suas marcas, suas celulites, suas gordurinhas salientes, suas rugas facilmente localizáveis. E, como em poucos casos, aquilo lhe garantia o tipo de beleza que é difícil de encontrar. O biquíni era amarelo forte. Graças ao banho no chuveiro próximo à piscina o tecido estava levemente transparente. Os bicos negros dos seios despontavam parcial e delicadamente. Deitou-se numa dessas cadeiras de sol. Olhei pra cima mais uma vez. O céu continua azul, não há risco.

Barulho grotesco. Putaqueopariu, o quê agora? Olhei pra baixo. O garoto havia tomado distância e se jogado de barriga na piscina, desgraçando a superfície d’água. A provável mãe continuava deitada. Sem preocupações, todo moleque faz isso. O pai apareceu com latas. Uma de refrigerante, duas de cerveja. Saco de salgadinho. Deitou ao lado da mulher, beijou-lhe rapidamente. Abriu a cerveja, tomou um gole e o gole infiltrou-se por sua garganta e a sensação de maciez espalhou-se pelos músculos. Primeiro os da face. Em seqüência pescoço, caixa torácica e barriga. A mulher fez o mesmo. Não havia mais ninguém no mundo. Todos os vizinhos faziam alguma coisa dentro de suas casas. Eu ouvia algumas pancadas no andar de cima, ou sexo ou uma surra. Ou os dois. Sentia cheiro de alguma coisa no fogo no apartamento ao lado. Poucos carros passavam na rua. Poucos pássaros nos fios.

A mulher arrumou a parte superior do biquíni. Não se preocupe, falei-lhe telepaticamente. Todo topless será bem vindo. Ela sorriu. Logo eu que não acredito em telepatia, logo eu que acredito também nas coisas sem sentido. Respirei fundo, fui até o banheiro. Lavei o rosto mais uma vez. Voltei até a cozinha pra beber água.

- Que horas são?

- Onze e meia. eu acho.

- Ok - com a garrafa de coca-cola na mão

Voltei pro beiral.

- Ressaca?

- Bem pouco. E você? – olhando pra baixo.

- Mais ou menos.

Repeti a mensagem telepática, ela sorriu mais uma vez. Logo eu que mal acredito no céu azul.

Yes

Já foram passos demais. Ok, talvez não até o limite do suportável, mas foi o bastante dentro dos meus próprios limites. Meu próprio código moral não permite a violação dos termos auto-impostos. Além disso, não há garantias. Observar de longe imaginando a consistência que seu corpo assumiria. Que meu corpo assumiria. Com que tipo de coisas eu realmente lidaria depois do primeiro contato real? A boa dissimulação permite manter tudo no mais inquieto dos silêncios. Talvez haja quem desconfie. Talvez. Serão suposições perfeitamente negáveis. No meio tempo observações e comparações estranhas têm de abastecer o limite necessário. Não há outra maneira.

Restam dias contados até que não a veja mais. Até que eu não a veja jamais. Faz duzentos e trinta e nove anos que eu não exagero, juro. Dou essa colher de chá. O inevitável é, sem via de dúvidas, imperfeito. A cidade é pequena. O mundo é pequeno demais. O tempo é curto e ultimamente só me contento com o presente. Ela tem alguém, eu sei, eu sei. Sei exatamente como as coisas funcionam, e mesmo não sendo o melhor dos caras que há por aí, não sou dos piores. Entre toda e qualquer situação o meio termo é sempre cabível. E por isso afundo meus braços e deixo minhas próprias marcas absurdas, agarro com toda força todas as coxas e seguro cada uma das cinturas. O gozo é sempre o gozo e cada ruído é subalterno de uma decisão mal tomada. E ao mesmo tempo bem tomada.


Enxergo-a parecidíssima com algo entre Audrey Hepburn e Zooey Deschanel. Imperceptivelmente estranho. Mantenho contato com meu subconsciente vinte e quatro horas por dia, só lhe falta o par de olhos verde-azulados. Só me falta descobrir que nenhuma delas é o que eu preciso. Acontece. Me viro com neurose e toques dulcíssimos de auto-ironia, elas adoram. Fingir também que está tudo bem é uma decisão. Não a melhor de todas, não a pior de todas. É só uma decisão. Acreditar que enquanto estou de cabeça baixa ou ouvindo Cure imaginando se mais alguém sequer suporta os gritos do Smith, que ela furtivamente olhe como quem não quer nada nem ninguém. Minhas comparações e fixações e observações não são lá as melhores. Mas me mantém na ativa.


- Você gosta de Cure?
- Como?
torce o rosto e sorri.
- The Cure. “Just say yes, nanana, do it now, let yourself go, hum, hm, hm”.
- Gosto.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dois

Seus olhos são
esses dois barquinhos
de velas negras, cheios
de espuma branca invadindo
o convés. E flutuam fechados
(ou abertos) na escuridão de
um oceano macio distante
do litoral.

Rota 42

Talvez não fosse a mais indicada das refeições no cardápio, mas a torça de maçã e as xícaras de café à beira da estrada foram nutritivas e baratas o bastante pra encher a barriga de uma forma espetacular. Saiu do banheiro depois de escovar os dentes, com a mochila nas costas. Pagou, pegou um único cigarro com o dono, cantou a garçonete e lhe sorriu antes de sair. Fez alguns alongamentos rápidos. Apesar de não fumar acendeu unzinho e fez com que durasse o bastante. Sentou-se em sua Harley WLC, 1943 e calçou as luvas prestando atenção no ruído que o couro sintético fazia ao ser esticado. Última filada no cigarro antes de jogá-lo no chão. Girou a chave e deixou o motor roncar por alguns segundos. Colocou capacete e óculos e acenou para a garçonete que lhe assistia através da vitrine. Saiu.


Puxava um grande caderno de capa escura sempre que parava nos beirais das estradas. Ou em motéis, hotéis, pousadas, casas de conhecidos, lanchonetes e quaisquer outros lugares. A idéia original era a de um diário irrestrito, mas as páginas estavam preenchidas de histórias semi-desconexas, poemas esquecidos e rascunhos de qualquer coisa que chamasse sua atenção. Escrevia também com notas de viagem sobre bons lugares. Preenchera algumas páginas na lanchonete. Boa refeição, bom lugar. Rabisco do rosto da jovem que trabalhava lá. Mais tarde, cada vez que se deparasse com aquela página sorriria também. Assim como sorria para cada um dos outros rostos mal desenhados ali. Não havia Rota 66 no Brasil. Não faltavam, no entanto, estradas e vias e rotas que também levavam o nada ao lugar nenhum. Não havia um lugar de onde partir e nem aonde chegar.


Carregava uma semi-automática por dentro da jaqueta. Pura precaução, que no final das contas era paranóia. Surpreendentemente infundada. Apesar de importante o contato com o resto do mundo não era o principal motivo da incansável e interminável viagem. Aproximava-se, interagia, enxergava e sentia tudo ao seu redor à sua própria maneira. Mantinha as pessoas de sua vida próximas sem que entendessem o que significava aquela maneira tão estranha e aparentemente paradoxal de fazê-lo. Um belo dia largaria inclusive daquela velha moto amarela que chamava de Woodstock, batismo graças ao pássaro das tirinhas Peanuts. Apesar de descascada e de aparência incrivelmente antiga, era cuidada como uma continuação vital de seu próprio corpo. Através das estradas não poderia atravessar diretamente aos vales e florestas e rios e montanhas e o resto daquilo que sabia existir em um lugar próximo e distante de si. Um dia Woodstock encontraria seu próprio cachorro mudo e branco, afinal a companhia daquele lobo calado e solitário não era lá a melhor. Mas funcionava.


Os retângulos amarelos e tortos corriam por debaixo dos pneus e refletidos pelos óculos escuros. Acelerava nos trechos incrivelmente retilíneos e suaves de estrada, e recebia satisfeito o vento que lhe cortava o corpo. A cada pôr-do-sol e surgir-da-lua ouvia a mesma voz que sempre chamava por seu nome. Um nome que mais ninguém sabia. E até ouvi-lo pela primeira vez, nem mesmo ele sabia qual era. Jack London lhe dissera que aquele era o Chamado da Floresta. Mais cedo ou mais tarde não resistiria. Até lá buscava conhecer a si mesmo através de tudo, e fugia de determinadas verdades enquanto percorria as várias estradas. Ele que sairá da estrada pra conhecer e mapear outro caminho. Não sabia quando. Mas sabia que estava perto da próxima cidade. Mais xícaras de café e outra torta de outro sabor.


 


 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Peru.

Hoje eu vou me decepcionar. Na verdade estou a caminho dessa decepção. Prometi a mim mesmo não transformar isso em algo tão decisivo. Existe um conselho pra isso. Na verdade existem muitos conselhos pra situações como essa, mas minha avó só falava um. ‘Não dê uma de peru, que morre na véspera’. Pois bem. Acender um cigarro, que cigarros são cigarros e não há nada de errado em empurrar o abandono ao vício com a barriga. Com os pulmões. O caminho parece mais longo, a distância parece mais distante. Tudo de propósito, claro. O subconsciente de qualquer um que ama é suicida nas palavras e no pensamento. Tem também péssimo senso de direção e terrível mania de exagerar nas distâncias. O isqueiro não presta mais. Muito esforço, conseguir acender o cigarro e jogar o altamente descartável no lixo. Em sua visão de plástico ainda há muito fogo. Há muito que fazer. Há muitos fogões, muitas fogueiras, muitos cigarros, muitos papéis. Em sua visão de plástico ainda há o que fazer. Mas por tão pouco, vale mais arrumar outro isqueiro depois.

Amália Rodrigues tem uma voz tão bonita. E a garota tem aquele mesmo tipo de voz, sotaquezinho charmoso de quem é e não é do Brasil. Claro. Envolvimento se dá das formas mais complicadas, é o melhor jeito que se há de envolver. Certo, certo, não consigo fazer círculos de fumaça no ar. Ainda. Amália Rodrigues é um nome bonito também. Hm, Amália - chamemo-la assim - precisa se mudar pra longe. Não fisicamente entrecidades, estados, países, continentes. Precisa se mudar, fisicamente também, de onde e como está. E eu sou onde está. O ônibus prefere sempre a demora. Presto tanta atenção nas coisas e insisto em ignorar algumas delas. A espera torna a maioria das pessoas, atrasadas, menos aconchegantes e susceptíveis ao contato o humano. e isso é necessário pra se andar de ônibus hoje em dia. Pra mim é indiferente. As pessoas estranham mesmo é ver um chester rechonchudo pegando ônibus e, no lugar do costumeiro ‘bom dia’ ao motorista, deixa só o cigarro apagado no beiral da calçada e um sonoro ‘gluglu’.

Dos Olhos da Amada

Enquanto carpia aquela densa mata de silêncio presente no ar e separava os barcos perdidos ao longe que sopravam contra quaisquer tentativas do vento, olhava-a cuidadosamente. Em cada curva via dunas e mais dunas de uma areia branca e macia. No meio do mar sombrio dos cabelos surgia a face. Imperceptivelmente emerso das profundezas inexploráveis do oceano despontavam as maçãs subaquáticas, seus dentes como pequeninas conchas alvas da boca que tremia suavemente ao mais sutil e improvável dos toques. Mas por mais que em todas as noites lhe vigiasse todas as praias absurdas, jamais se acostumaria com aqueles olhos.

O quarto era só uma parcela da noite escura. Longe do breu trilhavam em par misterioso as luzes das docas mansas e cais noturnos cheios de adeus. Quantos saveiros, quantos navios, quantos naufrágios? Aqueles olhos perdidos num galgar febril e inescrupuloso, a visão perdida e o horizonte tão mais distante. Aqueles dois olhos tão descrentes, tão irremediáveis, tão ateus. Pudesse um dia, quem dera Deus, ver um olhar mendigo da poesia, enquanto ela sorria e chorava, sem a menor alegria visível, sem o menor desespero distinguível. O ar finalmente foge sorrateiro.

- O que foi Vinicius?
- Oh, minha amada, que olhos os teus.

 

 

[Poema dos Olhos da Amada - Vinicius de Moraes



Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus]



 

domingo, 17 de outubro de 2010

Emblema

Meu amor é antiplano estranho
e pedaço inerte da matéria

como todo e qualquer movimento
que antecende o momento
final.

Como toda e qualquer incerteza
que influencia direta
ou indiretamente sobre

os corpos perdidos no espaço.

Meu amor é crer que dois e dois
são cinco e achar que o absurdo
é não existir a possibilidade

do resultado ser qualquer número
que eu quiser. Meu amor é vago,

abstrato, concreto e, obstante,
meu amor

é equidistante
-  como a

maré.

sábado, 16 de outubro de 2010

Como quando se controlar.

Por enquanto eu prefiro guardar um silêncio irremediável. E simplesmente fingir que tudo continua como sempre foi. A consciência só chegou minutos depois de já estar acordado. Olhos fixos naquele feixe de luz que descia pela fresta da persiana torta e mal fechada. Os grãozinhos de poeira flutuando e o corpo jogado na cama em posição de queda-do-décimo-oitavo-andar. Levantar, lavar o rosto, escovar os dentes e voltar pro quarto. Por enquanto a mudez é mais que suficiente. Sento no chão pra colocar os livros dentro da mochila, piso frio e o ventilador faz barulho de tempestade tropical. Encontro O Chamado da Floresta no meio dos cadernos do chão. Perturbador.

Café quente, a fumaça me cegando e a superfície escura queimando afavelmente a língua. Enterro tudo, fecho o zíper. Tomo banho, como alguma besteira e há tempo suficiente pra vadiar antes da aula. Mas não há tanto sentido assim. Mais tropeços que o normal pelo caminho e o controle difícil dos pés que querem continuar andando. O limite, por exemplo, é o ponto de ônibus. atravessar a rua, ou melhor, as ruas, é impensável. Existe um percurso chave, uma linha uma razão um dever a ser cumprido. Faltam roupas na mochila. Sobram reticências e páginas em branco. O Chamado da Floresta continua no meio dos cadernos. Ele realmente existe. e insiste.

Acabar caminhando na praia com as barras da calça puxadas até a altura dos tornozelos é uma boa opção. O vento continua como deixei da última vez, cheio de sal e de chamego. A água continua do mesmo jeito. Todo mundo se surpreende com o primeiro toque da água do mar na situação, quando avançam as ondinhas ou quando se avança nelas. É irremediável o efeito desconexo. E continuar em frente, a água cobrindo os pés, calcanhares, tornozelos, joelhos, cintura peito e a falta absoluta de chão. Andando, andando, andando. Talvez eu chegue ao Marrocos daqui pro mês que vem.

O problema é me importar em chegar atrasado à aula fedendo a peixe e encharcado de água do mar. Pior é chegar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Certas coisas

Nome: Paola Ortega Idade: 23 anos. Apresentação: Loira de medidas perfeitas; sensualidade e muito carisma são apenas algumas das qualidades da incrível Ortega.

Acha que ficou bom o suficiente?

Hm... Acho sim. E o telefone?

Boto depois. Tô achando que falta mais alguma coisa sabe?

Oral, anal, essas coisas, botou?

Caramba! é verdade. Pronto.

Como ficou?

Oral incluso. Mas não sei anal. Que eu faço?

Você é liberal?

A-acho que sim. Por quê?

Ah, Paolinha, o significado da palavra “liberal” é referente ao seu atendimento, uma mulher liberal faz anal.

Sei. Meio que depende então.

Algumas usam “A combinar”. Mesmo por que elas não vão saber o tamanho do pinto de quem contrata.

Caramba, você tem razão.

Mas dá pra levar numa boa em certas situações, meu bem.

Do tipo?

Veja só, se o cara tiver sobrenome asiático é bem na vista.

Mas, porra, se for japonês brasileiro

Não entendi.

Japonês brasileiro é foda, poxa! Ele tem cara de asiático, é amarelo e tudo mais, tem até sobrenome de asiático.

Ainda não entendi.

Mas como todo bom brasileiro é uma mistura infeliz, acaba que tem uma pica vinte e sete centímetros e quer me comer o cu.

Hahahahaha acho que sim.

E aí? O que eu faço? Perco o cliente só porque ele quer me foder as tripas?

Deixa o “a combinar” pra hora certa. E se ele perguntar, você tenta disfarçar.

Perguntar tamanho de pau pode até afastar, você sabe.

Nada assusta mais que vinte e sete centímetros de pau e uma lavagem intestinal pelo rabo.

Concordo. Melhor tirar o “a combinar”.

E boto o quê no lugar?

“Pau grande paga o dobro”.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Avenida

Hoje vou me render ao silêncio
e abafar meus ruídos

fazer festa de egoísmo
e comemorar só pra mim mesmo

porque hoje
hoje é dia que não merece
e mesmo assim ganha proporções

monumentais. Dane-se, a lua tá
uma beleza. Cantem os grilos que
hoje é carnaval.

domingo, 10 de outubro de 2010

E eu gosto.

A verdade é que foi melhor mandar à merda as porcarias agregadas e obstáculos. Por uns tempos, claro. Empurrar tudo com a barriga é uma solução terrível, verdade, mas as coisas são desse jeito. Fosse por escolha a situação estaria resolvida, completamente resolvida. Não depende ainda de nós dois. Precisávamos, quer dizer... Precisamos de muito tempo. Quanto é muito tempo? Demorou muito tempo pra perceber o que estava acontecendo, eu acho. Talvez não, tô sempre enganado. Quanto é muito tempo? São só alguns dias e precisamos mais que alguns dias.

Ontem entre uma ocupação e outra eu tentei imaginar como seria sua presença não-holográfica diante de mim. Esse primeiro momento que eu sequer havia me concentrado com exatidão. No momento eu nem tinha pensado. Ainda. Desde então o gosto raro do cigarro e do álcool, da comida e das porcarias que eu falava e ouvia só remetiam à identidade você. E até agora fazem isso. Essa tentativa de melhorar meus pensamentos e meu jeito pra parecer alguma coisa melhor. Bastante manutenção necessária, diga-se de passagem.

Quais coisas que eu vou te dizer? Como eu posso dizer o que eu quero? Esse monte de confusões enlatados por entre minhas órbitas junto de tanta porcaria que é tão não-necessária. Quanto é muito tempo? Insistência sempre foi meu forte e lidar com ela, bem, sempre foi minha fraqueza. Bom pra mim. Posso dizer que todo esse papo e neurose levaram só a um único pensamento, mais uma vez. Você. Algo mais específico em você que talvez me piore esse ar de excentricidade, claro.

Entrelaçar os braços por debaixo de sua camisa e encostar minha pele morna na sua pele fria. E meus dedos escorrendo de lado e os polegares desenhando círculos malfeitos e praticamente incalculáveis nas costelas. Chegar até suas costas e saber que são suas costas e que a diferença de temperatura é real, que talvez eu não solte mais. Não. Não vou soltar mais. Minha pele está em frangalhos, tenho umas cicatrizes e marcas e uns pêlos nos braços. Mas quando houver esse contato nem eu que faço tanta questão de fingir que não me importo vou me importar de verdade. E não. Não vou mais soltar. E como eu sei que sua pele é fria? Talvez eu só precise te mostrar que tenho razão.

Quanto tempo é muito tempo? acendo um cigarro raro sabendo que não deveria fazê-lo. Mas é daqueles que até você gosta. E eu gosto.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

I met someone

'Se está lendo isso significa que finalmente tive coragem de enviar. Bom pra mim. Você não me conhece bem, mas quando o fizer verá que tenho a tendência de falar e falar sobre como escrever é difícil pra mim. Mas isso, isso é a coisa mais difícil que eu já tive de escrever.

Não há um jeito fácil de falar isso, então vou só falar: Conheci alguém.
Foi acidental, não estava à procura. Eu não estava à caça. Foi uma tempestade perfeita. Ela disse uma coisa, eu disse outra. Em seguida eu soube que queria passar o resto da vida naquela conversa. Agora tenho essa sensação no peito, pode ser ela.

Ela é totalmente louca de um jeito que me faz sorrir, altamente neurótica. Bastante manutenção necessária. E é você. Essa é a boa notícia. A má é que não sei como ficar com você agora. E isso me assusta pra caralho. Porque se eu não ficar com você agora tenho a sensação de que vamos nos perder por aí.

É um mundo grande, malvado, cheio de reviravoltas e as pessoas tendem a piscar e perder o momento. O momento que podia ter mudado tudo. Eu não sei o que está acontecendo com a gente, eu não sei te dizer por que você deveria arriscar um salto no escuro pra gostar de mim, mas, porra, você cheira bem. Como um lar. E você faz um café ótimo, isso deve contar pra algo, certo?'

domingo, 3 de outubro de 2010

Amor como terceiro minuto

Pois há de existir
até que o fim da aurora
se revele em dia.

Dharma

Sagrada incerteza:
ninguém me há de tirá-la,
nem eu de perdê-la.

Ciclo

Há em todo novo fim
um futuro recomeço
no estorvo do hoje.

Duas garrafas de cerveja (e incontáveis outros passos).

Os olhos continuam fechados e o apito do trem sobe pelas bordas do abismo. É exatamente isso que distingüe ao olhar pra parte inferior com os olhos fechados os globos tremendo e as córneas apontadas pra cavidade da própria cabeça.

- Hm, uhum, claro, claro.

-Você tá ouvindo?

-Claro que tô, relaxa. Só tô com os olhos meio irritados.

-Mesmo?

-Porra, relaxa.

-Tá ardendo?

-O que?

-Os olhos, cacete.

-Ah, sim, sim. Continua com a história.

-Onde eu parei mesmo?

-Ele ligou pra ela de madrugada e...

-Ah, sim... Então começaram a discutir e

Ouvir tudo mesmo sem dar qualquer importância. Fingir importância. É tão errado assim inventar mentiras e acreditar que elas são reais? Convencer inclusive a si mesmo é uma condição menos trabalhosa. E sincera.

Tão longe, tão longe, não sabia nem a distância, de tão longe.

-Acredita nisso?

-Maior sacanagem.

-Não é?

Não que não se importasse. Prefere acreditar que se importa a concordar que é egoísta.

-Se estivesse nessa situação o que você faria?

-Iria embora.

Abre os olhos e está a quilômetros de distância.

Sua consciência diz o passado não lhe pertence mais.

-É mais fácil se convencer que coisas assim dão certo.

-Credo. Pior que pensando bem até faz sentido. O que você vai fazer agora?

- Me convencer disso.

domingo, 26 de setembro de 2010

A vida do pré-Buddha

Surge o cachorro-homem antes
ou então o homem-cachorro
Bodhisattva futura-flor.

Rímel, ecce rímel

Tenho quase certeza que todas as pessoas da minha geração já foram a, pelo menos, um circo uma vez na vida. Provavelmente grande parte da geração de agora também já foi. E um circo que se preze não precisa de equilibristas incríveis, engolidores de espadas, cuspidores de fogo, motociclistas no globo da morte ou quaisquer outras atrações. Circo que é circo precisa de pipoca e palhaço. Palhaço: eis essa figura, no mínimo, importante na formação da história de cada um de nós e em diversos níveis traumáticos – ou não.

Há os que tiveram contato com a época do programa do Bozo. Há também os que sofreram o assédio da mãe, da tia, das primas mais velhas, da vovó, da vizinha desocupada e parentes adjacentes: receber aquela melequeira de guache/óleo no rosto pra tirar uma foto como arlequim (pra ser guardada do no mesmo álbum em que você posa empunhado trajes tipicamente ridículos dos estúdios de fotografia). Há quem passou pela experiência de ler/assistir It, do Stephen King. E todas essas memórias te garantem duas coisas: o choque ao descobrir que a Vovó Mafalda era homem e coulrofobia em diferentes níveis.

Pra quem não sabe, coulrofobia é medo de palhaço. A literatura científica chega a descrever casos em que desmaiam ou sofrem de ataques nervosos quando na presença de um simples nariz vermelho. Vocês provavelmente estranharam a alta freqüência em que a palavra ‘palhaço’ apareceu até agora, certo? É uma técnica subliminar pra que o leitor/espectador/ouvinte mantenha uma idéia fixa a fim do foco, sem que haja necessidade de concentração direta. Pois bem, agora estão devidamente envenenados pelo palhaço. Eis a grande questão por trás de tanta preparação psicológica: O excesso de maquiagem.
Muitas mulheres, a esse ponto, estão prontas dispostas a me amarrar num tronco de madeira e recriar o hábito de queimar infiéis em praças públicas. Peço que se contenham. O papo manjado de que esse tipo de opinião é conversa machista já não funciona mais. Então peço que reprimam suas mentes hiperativas e sedentas por sangue por mais algumas linhas.

A moda é uma representação curiosa e estranha do comportamento humano quando avaliado em conjuntos. Existe moda regional, nacional e até mundial – cada uma em seu contexto. Desde cortes de cabelo, tamanho e cor de unhas, marcas de roupa, construção de estilo, até ornamentos faciais. E nada mais estranho do que sair pra balada, pra jantar, pra seja-lá-o-que-fores-fazer e se deparar com uma encenação de Kabuki em proporções dantescas. Não sacaram? Kabuki é um tipo de expressão da cultura oriental, principalmente japonesa, em que o teatro é representado por uma série de movimentos, músicas, marcas folclóricas, máscaras e pinturas únicas. Aí é que está. Nunca que um cara imaginaria encontrar personagens de um espetáculo milenar caminhando por aí. Subtraindo-se todo o valor cultural e histórico da coisa, pergunto-lhes (retoricamente): o que falta? A pipoca.

Existe a grande e real possibilidade de que vocês sejam rejeitadas pelas toneladas de porcarias cosméticas colocadas no rosto. Quer atrair alguém? Mesmo? Então perceba que homens de verdade gostam de algumas imperfeições (e não sentem atração por desenvolver múltiplos cânceres ao beijar seu rosto).

Não, não, isso não está certo. Essa não é uma crítica à maquiagem, compreendam. Garotas que cuidam do visual e recorrem a uma maquiagenzinha ficam até charmosas. Nesse caso, porém, não existe uma linha tênue entre o pitoresco e o aceitável. É uma fileira de caminhões emparelhados que separa os extremos. De um lado temos aquele ar sensual e austero de elegância. Exemplos disso? Cleópatra usava maquiagem! As mais belas sacerdotisas gregas também usavam maquiagem. Do outro lado temos a equipe de maquiadores responsável por um dos prêmios da Academia dado a O Exorcista (1973) pela aparência de Linda Blair como Regan. Can I get an aleluia?


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Do potencial do homem-foguete

O homem foi à lua e
não foi a fundo
no oceano, relativamente

acocorado e coaxando
no brejo do universo.

Subamos, subamos! berra
o sapo-boi, foi, não foi.

e sejamos olimpianos e
pretensiosos em terra firme.

Subamos, subamos! Marte
mora no litoral. A maré
é forte, o barco graceja
ao oeste, sejamos oníricos.

Subamos, subamos!
Subamos além do in-fi-ni-to,
esse combustível
dos girinos.

Saibamos do fim.
Saibamos do princípio.

Filtro

A madrugada é uma quimera
quase-derrotada. Talvez

seja só isso.
Mas não. não é só noite.
Nem manhã, nem indefinição
inconcebível.

São horas indispensáveis e
inextinguíveis essas partes

sem sentido e sem denominação.

A quem só resta o inexplicável.

- vide bula para:

o cachorro
barulhento, atropelamentos

e os carros que ladram
mas não mordem.

sábado, 18 de setembro de 2010

Quatro meios

Vou treinar em silêncio
pra não fazer ruído

meu corpo é palavra
meu nome é sentido.

Parágrafo-ensaio de pretensão ao silêncio e às garrafas atiradas na rua.

Como se o silêncio fosse classificável como outro tipo de hipocrisia. Um tipo novo de hipocrisia. Mas o silêncio em si é um pecado auto-sustentável. Não precisa de fígado, nem pau, nem estômago, nem falta de escrúpulos, nem coisa alguma. Ou melhor, só necessita a ausência momentânea do desespero – ou uma máscara que lhe sirva bem ao atual presente, que não lhe será possível no futuro-mais-próximo. O silêncio há de infectar cada uma das células conjecturáveis do corpo, destilar milhões de papuas obscuras e escorrer pelas frestas das portas, janelas, narinas, bocas e remendos nos lençóis. O silêncio tem pressa e consciência acuada, colhões, armadura quase-intransponível e modus operanti. E lhe perseguem, capturam, torturam, subjugam, espremem e sufocam inutilmente, como se fosse classificável como outro tipo de hipocrisia. E ainda há esperança. Porque há quem saiba que a hipocrisia reside não no silêncio, mas no hiato entre a falsa sinceridade e a sincera mentira.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Em dois

Eu me dissocio:

em áspero bem doce
e em amargo macio.

Cinco e meia

Diante de dezesseis mil
pores-do-sol

eis que em mim há de se
discernir o silêncio nascente
que oscila no horizonte
oriente não mais tão distante

dessa treva que se divide
em cardinales ambulantes
e trechos musicais despejados
nos absurdos dos abismos.

O céu
é uma citação incontínua
e emputecida do infinito;
a margem do rio
é o sorriso.

O azul é incolor,
o incolor é lindo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

About Midnight

É quando o tempo presente
torna-se sóbrio e sombrio,
e o próprio espaço vazio
não é mais o suficiente.

Quando o imóvel segue em frente,
rompe o silêncio vadio
e corrompe o vento frio
em solução permanente.

No movimento surpreso
dos braços beijando estrelas
- comum do amor indefeso -

E planejando mantê-las
próximas do corpo preso
ao chão, sem risco em perdê-las.

sábado, 28 de agosto de 2010

Moleque

Ele nasceu na eternidade
embora lhe tenham dito uma data
fixa a contragosto.

Pouco a pouco sentiu-se
engolido na ambigüidade
como que suas palavras fossem
pedaços mais distantes.

Decidiu fazer-se metódico,
mas cresceu descalço, levando pedrada,
chutando bola e roubando goiaba.

Entregou-se à vida e fingiu
que a entendia. Mergulhou num asfalto
imperioso e sem jeito, tocando-lhe
a superfície com a superfície.

Entregou os detalhes ao sal marinho
que lhe compunha, rendendo-se ao
vento.

E mal sabia, que
com as lágrimas do tempo
e a cal do seu dia
faria o cimento da sua poesia.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Lista de Supermercado

Numas letrinhas miúdas,
uma cacografia estreita e envergonhada

do lado dos pães, da manteiga,
ali, perto do açúcar, dos sabonetes,
embaixo do café (este item
importantíssimo),

na outra metade lambida
da folha de papel, intencionalmente
rasgada mais de uma vez:

um amor improvável e escrito,
consideravelmente indecifrável
pra qualquer um que não você.

domingo, 1 de agosto de 2010

Diamond Overview

From road to road
in vain, a new victim
of the parade

forget about the odd,
they say,

crash onto the streets
just like the surface
of the sun

A trail of light, so pale,
devouring my eyes
with a thousand
lightning rain, again

forget about the odd,
they say,

is comin' out
again.

domingo, 25 de julho de 2010

Dos homens

Queria coroar uma mágoa convincente
uma aurora silenciosa e tendenciosamente morna
cercar de alguma coisa tenra e maravilhosamente incerta.

Fazer cerimônia ao hiato facultativo,
a aranha miúda tece uma inconstância de dar dó, amiúde,
e há quem acredite na incompatibilidade dos homens,
nessa eterna separação

e eu, dizem que acredito só em mim mesmo,
mas não sabem:

em mim, não creio,
creio mesmo é na separação silábica.

sábado, 24 de julho de 2010

Calendário Termidoriano

Enquanto as paralelas pendem para os lados
e seu peso de intensa extensão as faz entortar
ao extremo oriente, o incontínuo se desfaz.

Por que não encurtar os calendários pessoais?
Queimá-los, subjugá-los

atirar suas grades insensíveis nas ruas,
promover a grande revolução sans-cullote dos
sans-patience. Derrubar o antigo regime
dos dias-que-parecem-não-passar.

Tudo isso porque, no meu egoísmo,
(Pra ser bem preciso) preciso.
Não preciso disso

nem daquilo, nem reinvidicações
outrém ao chegar ao poder. É por
certas defectividades verbais

que não se explicam, mas modificam
toda conjugação: pouca corda,
muito nós.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Décimo Segundo

Hoje, dormi ao som da chuva
esperando por dezembro.

Ninguém bateu à porta,
o telefone não tocou,
a telepatia estava muda
e não haviam pombos voando.

Acordei aos poucos do sono antrópico
esperando por dezembro.

Não haviam pegadas na entrada da casa,
os corpos e pratos e talheres permaneciam
inalterados, no armário,]
as luzes estavam todas apagadas
e a televisão estava fora do ar.

Ainda falta tempo pra dezembro
e chegam cartas, pessoas, mensagens,
vestígios
por toda a casa

quando, na verdade, esta,
estará vazia até a véspara do
dia primeiro

enquanto chove e se escutam sorrisos
na lateral das fotografias e xícaras
emborcadas, e o diagnóstico

é a espera incalculável.

Finalmente realmente dormindo,
o incansável não-insônie,

enquanto o quando
não for dezembro.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Estrada

Meu mundo é um pedaço
indispensável de retalhos
até o indefinível,

a guia de traços infalíveis,
meu único lugar

é o inextingüível.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Alguma mulher

Não te acho linda
por você simplesmente o ser, mas

no meio de tantas outras pessoas - tristonhas e felizes
por descobrir subitamente a expressão eterna
e não definitiva

que escondia não só entrepernas,
mas também entregengivas.

E perceber que a preferência errante
é insignificante e abstrata,
e no entanto, tão necessária, [ao menos

até] o surgimento real e imperativo
de observações intuitivas e desesperadas.

É por notar a melancolia
aflita que lhe escorre
em segredo [esse ar alegre
e sombrio de amor machucado].

notar, tão surpreso
que desde as curvas do corpo até
o compadecer de seus cabelos

emergem as Segundas Serpentes Aquáticas,
das quais, eu sei,

não pareces nada.

Sufrágio

Não há morte
ou vida

nos entremeios da

silente sacanagem
estamentária:

há apenas palavras vagabundas
olheiras profundas, porcarias

várias.

Reencontro

Não, não te direi
os suspiros repetidos por
sua própria boca

numa paisagem já vista
incansavelmente vista
requisitada sob uma voz rouca.

Não, não te farei
serenata de silêncio ao
reencontrar a memória mais aflita

numa paisagem já vista
incansavelmente vista
requisitada sob um templo de palavras

essa carta de suicida
desse mundo presente,
desse tempo de agora
desse agora de nada.

Seremos, quem sabe,
bons amigos, quem sabe, amantes,
desde que dissipada
a longa profundidade dos termos
anteriores.

E o amor, essa grande superstição cheia de seguidores,
continue em minhas orações

e que eu mesmo as ouça
e possa cumpri-las em silêncio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Repetição

Esse nascimento de coisas absurdas
e tendenciosamente inúteis

essas manias, essas ruelas, essas
vidas que mal vingam um entardecer
sobre pernas decaídas aos montes.

Vamos, seguiremos de mãos dadas
à entrega do distante destroço do navio de lata
que afundou mais uma vez do lado Pacífico sul

dos solutos olhos escuros que imitam o
silêncio absurdo. E que

nome dar aos homens que se perdem no
caminho, essas vidas que mal vingam

e afundam pela completa metade de
seus rostos, opostos e em movimento.

Vamos, meu amor, mãos dadas.

Arvensis

Não haverá provável certidão
nesses tramites legais ou
burocracias quaisquer,

em credibilidade afável
na distância sonora e inconstável,

porque meu amor não precisa
de palavras repetitórias

e angústias berrantes:

te amo porque te vejo,
e faminto de desespero, espero
que seja de provável pretérito floral

e imperfeito; como sou eu.
por que não?

sábado, 10 de julho de 2010

Soneto da Pipa ao Miramar

A sombra decapitada
encontra o raio oscilante
na luz encarapitada.
No fio escuro do barbante

A cruz enverga ao norte,
recortada, ao sul disposta,
quão recaída em falsa morte
levanta sã e recomposta

Atraca três em vôo pleno
corta o céu num só rasante
da mão miúda do infante

Derruba as três num só aceno
e então enrola o cordonete, e
volta ao chão por um sorvete.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Isaac (parte 1)

Quando voltou a si, do sono, percebeu-se sentado, de livro pousado no colo. O quarto, apesar de ser o mesmo de sempre, tinha um aspecto estranho, defectivamente estranho. Tomou o livro em mãos, dobrou-lhe a ponta da página. Fechou. Manual de Instruções e Utilização. Suas pernas estavam dormentes, decidiu levantar vagarosa e cuidadosamente, esticar o corpo, alongamento ou simplesmente caminhar até a porta. Quase de pé, sentiu fraquejo nas pernas, fosse normal por ter dormido sentado, cambaleou, falseou e apoiou-se na parede até que tivesse total controle do corpo. Na verdade, estava ligeiramente confuso. Mente perdida em concepções básicas, em redefinições estranhas, observações óbvias. Esticou os braços, que rangeram nos ossos até o alcance dos noventa graus juntos à coluna, e o alívio repentino.

Estava só de cueca, precisava colocar alguma coisa, algum tipo de roupa ou cobertura. Inicialmente estranho, mas depois compassadamente, andou até o guarda-roupa do outro lado do quarto, lambendo o chão com os pés. Puxou de lado a porta corrediça, num único cabide do móvel completamente branco, pendiam calça jeans e camisa branca, de botão. Vestiu-se naturalmente, mesmo estranhando os pêlos eriçados e a pele fria, e de tão súbita, a percepção da baixa temperatura. Serviam perfeitamente, e mal se lembrava da última vez de que roupas lhe serviam e lhe caíam tão bem. Abotoou habilmente, a camisa, endireitou a gola, ajustou e fechou o punho. Posicionou-se diante do espelho, ainda de pés descalços, mas sem incômodo.

Dois passos para trás e virou-se lentamente, observando o quarto como nunca houvesse posto olhos antes. Notou-lhe o piso branco, absurdamente limpo, as paredes brancas e lisas, que de tão alvas, brilhavam sutilmente. Notou a cama de solteiro, lençol e travesseiro brancos, a cadeira metálica, revestida de brancura tão-quase-leitosa. Ao lado da cama, um criado-mudo branco, sobre o qual jazia um vaso cilíndrico com uma única rosa, incrível e absurdamente vermelha. A luz, perfeitamente distribuída, partia das fluorescentes mais luminosas que já havia visto, duas. O Manual de Instruções e Utilização, de cor azul celeste, permanecia sobre a cadeira, página marcada e tudo mais.

A porta, de mesma cor das paredes e contorno tênue, resplandecia ao lado do espelho, em um canto adjacente, e sua maçaneta circular, pequena esfera translúcida e brilhante. De passo em passo, agora sob controle e vestido, completamente seguro de si, Isaac retornou à cadeira.

domingo, 27 de junho de 2010

All night long

Something suspicious is going on the air,
it fades, pretend to increase, attend,
and never grows.

It's a wicked lie,
told so many times, look out
look out, plain fields of your town
and it looks so right, iron rails and washed out skies,
people see me all the time

such a mess tonight.

Wander Fog

My mind is made up.

Countless spinnin' wheels and I can't rest this soul
in break, day or afternoon.

Sorry, a regardless action, maybe,
a problem with the automobile, snatched grasses
and glasses, traffic, sun glasses and no sun
at all.

My mind is made up, right
away, go on.

And something's bothering
all those vibrations, directions and hope on finding
nowhere to go. Now,  that's something brilliant, you know.

Unbearable sight and not so tight between us all.
I mean, regardless myself of us all.

Clean up the house, just like they told,
straight away, all human mess around
it complete risen sun, and I'll wont write it down. Those letters
with no name on it, those shells with no strain on it.

Those unbearable tasks and unfinished love,
it matters, I guess. Maybe for anyone so serious,
Real one, not just publicly serious like me, you know. It matters

in a certain way
I made it up. Is this correct?

sábado, 26 de junho de 2010

Land Balloonist

I don't wanna go like this,
reamed by sleeves and coins drop slips, permuted pages or something else
and all those crawling stupid sound passed the corner of the street, someone,
just like a perfect crowd, this

Breathe, just a drunken vibration
smooth  by the autumn tree,
loosen strip of solid

certitude on the wind, way to go,
this particle stolen from the outer world.

Just going to exist a universe for it,
some kind of verborragic
consumption or just a very short title
explanation,

a dragged skin, certain kind of it,
is this correct? Those mad shadows,
a foreign boat and it distant flags
on a distant shore.

The clouds, yes,
they're surely flaggin'
'round. By tomorrow, same time,
it'll all be some kind of expired expression,

different conclusions, it cries.

Sleeping every single day
in the countless late morning
while the fire
banged out a cup of coffee
'round some ten cold
finger nails on the street.

Must exist a world for it,
some kind of love or strange loneliness, the space between the eyes, a dragged skin
within the sound, waves or something else, fade.

A foreign boat
and it distant shore
right away sure, so sure in lips
crowded in red limiar strips of nowhere now
and the diving bell lost from a
pinch purple gray sunset ground,
then you can tell
it's dumb and it's quite serious and weird by the way wave stare your eyes
stuck on the flashing front side.

You can see me
staring all those things
actually written by telepathetic fingers
of yours tighten in my very own hands.

Right by my side
where it lies a suburban inconstant sad
madman blue sky keeper, and the always
ready flowers ride outside of the street.

Crisis adress the gods wrote on the backpaper
time, scrapped machine, man, they say, adept of something else besides
the yellow moon floating on shivering mines
they say, foaming against the clouds,
different conclusions and taken hands,

balloon man.

Casa

Hoje não saí de casa.
Deixei que ela saísse.

A que me desintoxicasse,
reiterasse o cal em minhas veias,
as dobradiças em meus braços,
os corredores nas
olheiras.

As portas que rangem
as janelas que ladram
pro quintal.

Enfim, embora
agora tão distante,

notasse que sou o terraço
soterrado aos montes,

onde ela que me mora
tão de longe.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Refrão do sofá e do restaurante

Como a música
silenciosa que se arrasta
na chuva, e todos os galhos das árvores
que vibram contra o vento,

Não existem respectivas lembranças
ou separativo passado-presente-futuro,
desastres naturais, concepções astronômicas
ou barreiras geográficas impossíveis.

Foi simplesmente, meu paletó e o seu vestido:
a descoberta irracional de uma capa de chuva
surpreendentemente ineficaz.

Foi simplesmente, meu toque macio
e a reação inesperada de um carinho
sutilmente desesperador.

Todas as coisas impossíveis
estavam lá e continuam aqui.

Foi a moldura do silêncio
enquanto ouvíamos o nada
e enxergávamos o então
presente.

O momento inimaginável
e a subversão incompreensível,
a criação, a destruição,
o norte defasado
a solidão irreversível.

Foi um balé uníssono
foi um caminho proparoxítono
foi um domingo de futebol
foi inverossímil.

domingo, 13 de junho de 2010

A outra margem

A decisão fora tomada durante uma daquelas tempestades repentinas e completamente rotineiras. Dessas entoadas trovejantes e bufões de cascos de touro latejando no céu, e os não-sei-quantos milímetros d’água de sempre. Olhando as gotinhas de chuva descendo vertiginosamente pelo vidro do quarto, a fumaça do café quente ondulando ao redor do seu rosto, criando algum complexo-avulso fumacê, rebolando perto das bordas da janela. Passou por planejamento, claro. Talvez não-tanto-planejamento-quanto-necessário, mas que se danasse, decisão tomada, tudo na ponta do lápis. Vendeu algumas besteiras, reuniu o dinheiro que tinha guardado na gaveta de meias, no pote de biscoitos, na carteira, debaixo da cama, nas calças recém-saídas da máquina de lavar, cédulas molhadas e moedas sobreviventes. Regras de três e pesquisa rápida de preços.

Arrumou a máquina de bombeamento e os tanques com alguns amigos. Gastou todo o fundo com comida desidratada, panelinhas e potes (com os quais poderia recolher água da chuva) e livros em algum sebo. Recolheu o estrito e necessário em sua mochila, roupas de baixo, meias, muitas meias, agasalhos que aqueceriam, inclusive, uma serpente raquítica em pleno inverno ártico. Reuniu tudo em uma mochila de viagens, compacta. Depois de tudo, desfez, refez e finalmente estava pronta por desistência de eliminação de bagagem. E, pode-se dizer, estava um quilo mais pesada do que sua primeira leva. Botas térmicas, capas de chuva, um caderninho e três canetas, uma de cada cor. Rádio AM/FM, algumas pilhas.

Foi até um terraço qualquer. Não avisou ninguém, saiu do trabalho no horário normal, comeu o de sempre no café, no almoço, no jantar. Cumprimentou as mesmas pessoas de sempre, tomou a mesma condução de sempre, esperou o mesmo tempo no ponto de ônibus, ouviu as mesmas músicas nos fones de ouvido, caminhou o mesmo número exato de passos tortos, barra da calça dobrada e camisa meio desajeitada. Acendeu um cigarro, tragou profundamente, cerrou os olhos a ponto de cortar a lenha em serragem entreposta entre as pálpebras. Muniu-se do casaco do inverno passado, luvas de lã e tudo mais. Respirou fundo, fumou mais um e outro e último, afinal, cigarro. Voltou ao apartamento, fez café, muito café. Juntou tudo em duas garrafas térmicas grandes, café forte e preto.

Todos eles estavam amarrados no terraço, presos àquela estrutura esquisita e, tendenciosamente, aconchegante. Foram muitos, muitos, muitos balões. Em caixas, muitas delas, agora vazias, esgotou tudo que tinha em moedas e cédulas amassadas e prescritas e molhadas, em supermercados, mercearias, lojas especializadas. Com milhares de desenhos e milhares de cores e milhares de frases e de formatos e de tamanhos, todos preenchidos de gás hélio, subiu na suposta cesta de transporte, jogou a mochila adentro, cortou os cabos, ligou os ventiladores, reunidos todos de sua casa, quatro ao todo. Unidos numa bateria grande, empurraram a figura dístone do horizonte contra todo fluxo da cidade.

Longe dos limites urbanos, já de sol posto e mais agasalho, observou as luzes quase distantes e as gigantes minhocas cintilantes do tráfego. Tomou café fumegante, direto da garrafa térmica, deu de ombros, provavelmente numa tendência de falso-blasé. Mas achou melhor tomar por questão abanar os braços, acenar sutilmente, curvando o corpo para os lados. Apesar do tamanho e da estranheza de tantos milhares de balões de tantas cores e tamanhos e desenhos e frases e formatos, poucos deram atenção. E, pois que quando uma massa suficientemente grande desse por inconcebível e/ou diferente, já estava distante, ao menos, o suficiente.

Agora, atravessando as bordas da fronteira, recostou na borda contrária à dos ventiladores barulhentos e sua incrível semelhança a enxames crepusculares de zangões sexualmente desesperados e famintos. Repuxou a gola sobre os ombros e envolvendo o pescoço. Acomodou o gorro, agarrou a mochila, que estava jogada do outro canto. As câmeras filmavam em distância segura, finalmente, com atenção necessária. A certo momento, perdeu-se na névoa do céu, misturou-se nas nuvens e desapareceu do alcance de, inclusive, pássaros que aproveitariam a carona.

Curiosamente, um a um, ploft, ploft, ploft, ploft, todos os balões estouraram irremediável e rapidamente, num tipo de efeito orquestrado. Ploft, ploft, ploft, ploft, ploft, e chegavam às dezenas, às centenas, aos milhares. E, pois que já estava tão longe e tão alto, que nem mesmo de cair, pôde chegar ao chão, desaparecendo nas câmeras da estação de TV local, e roncando suavemente no casaco remoído e levantado até o queixo, sem notícias e sem nada mais, inclusive certeza de um destino cruel ou verdadeiramente surreal.

sábado, 12 de junho de 2010

Percebido

Aqui eu te amo.
Sentado na beira do vazio
que realmente significa alguma coisa.

A luz passa rente a meus pés,
dançando na água que não está lá,
são peixes coloridos, imaginários, pulando
em busca da alga e da areia soterrada,
arcando o corpo no ar e revolvendo

a incontinência estranha d'água,
que mal percebe o que acontece,
continua rio abaixo, seu curso
fictício, anágua só desce.

Aqui eu te amo.
Espero pacientemente o pôr-do-sol
numa ravina silenciosa, que não está lá.
A grama transgride seu próprio espaço
vence o peso dos animais ali aninhados,
encaracolam e crispam e chacoalham
em seus pés, patas e cascos,

e isso realmente significa alguma coisa.

Já me creio esquecido e ao mesmo tempo
intensamente distante, meu tédio mede
forças com o descrente sorriso que,
em algum momento, é um tipo esquisito
de abandono, e é como eu te amo,

caminhando na borda da escuridão
desenhada nos cantos das paredes frias
do corredor, as perpendiculares macias
e as paralelas entranhas, concorrentes
e morbidamente translúcidas.

Aqui eu te amo, do alto de uma nuvem
que tem aquele formato, aquele,
aquele qualquer formato, que até mesmo
eu dissesse que parece o Arpoador,

ou um leão roncando por entre milhões
de carneirinhos no mar.

Nuvens que nem mesmo
estão lá.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Café

Hoje, e ontem,
e sempre,

há uma leveza no
escuro café escuro

e na espuma que flutua
indecisa entre a cisma
e a crisma absurda da

colher de açúcar.

Hoje, a fumaça explode
lenta e curta, convulsa

e desconexa.

O sol
cheio de leite até a borda,
derramando pelas beiradas.

Hoje, e ontem,
e sempre.

Nenhuma saudação

Enquanto você repete
o silêncio

existe um mantra
bem mais perverso

dessas coisas que o tempo
diz, acredite,

olá, o momento é
iminente e altamente
etéreo no ar,

olá, goodbye,
minhas apóstrofes redimidas,
prefiro não repeti-las

enqunato você repete
o silêncio que ecoa
suave em seus próprios
ouvidos sombrios,

enquanto sua espinha
contorce, talvez
exatamente como a minha,
talvez a exata antípoda

mas também é uma serpente
trocando de pele,

enquanto você repete
o silêncio, acredite,

é só o silêncio.

Cabideiro

O armário entrebaerto
subentende

que há o vazio
dentro de alguma roupa
que foi vestida,

lama na sola dos sapatos,
amarugem, cabelos molhados

bainha encardida.

O armário entreaberto
subentente

loção pós-barba que pulsa
como veneno injetado diretamente
num pós leito de uma outra
mulher que dorme imortalmente

pelo tempo suficiente.

Os olhos fechados, dois pares,
de meias, de olhos, de sapatos,
de amantes

separados:

dois, distantes, se amam,
dois, esculpidos em brasa,
não são amados,

num vitral na beirada
da janela de uma praia qualquer,

subentende-se
nada.

domingo, 30 de maio de 2010

De quem conta

Tenho absoluta certeza, em minhas plenas e totais faculdades mentais (que se tome de nota, que estão – supostamente – saudáveis), de que me acham louco. Biruta, insano, lelé, maluco. Não por qualquer tipo de episódio esquizofrênico ou tendências a tiques absurdos ou auto-tortura. Não, não, nada disso. Mas é um fato comprovado por vias quase acadêmicas, de que acham isso de mim. E até por vezes, questionei minha própria credibilidade e sanidade em prol de questões pessoais, o que não vem exatamente ao caso. Ao menos nesse caso, por esse motivo, nessa circunstância, posso dizer que não sou maluco.

Tudo isso, na verdade, graças a um simples hábito, costume mesmo. Não bem de quando iniciou, mas já faz tempo. Desde menino me pego, em flagrante delito, falando sozinho. Mas não o falar de mera discussão, de conversa com o inimaginável ou com amigos imaginárias, situações adversas. Mas como o simples e total solitário de fazer propagar minha voz, reverberar mesmo, soar tamborezinhos, gongos, estalar, estalidos, estalagmites, estalactites. Estalagmites e estalactites, palavras as quais, depois de pronunciar corretamente, arrumava uma maneira estranha de importá-la a todas as conversas, sentenças e até mesmo interjeições.

Ainda era menino, muito menino, e as adorava, as palavras. De comemorar gol gritando estalagmite e estalactite no lugar de um sonoro “GOOOOOOOOL”, ou xingar ou elogiar ou chamar alguém por estalagmite e estalactite. De responder em provas orais. De transformar em verbos e conjugá-los em eu estalagmito, eu estalactito, tu estalagmitas, tu estalactitas, e assim por diante. E levar surras urrando estalactite e estalagmite no lugar de um choro comum e urros abafados de dor. Quando de namoricos, de casos miúdos, de chamá-las de minha querida estalagmite, estalactite, estalagmitezinha, estalactitezinha, etc. E, inclusive, de algumas vezes que me masturbei, ao gozar, gozava oralmente com uma aliviada estalagmite ou estalactite. Até que abandonei, aprendi novas palavras e nunca mais as abandonei, todas.

E, pois, que voltando ao assunto principal: a acusação de minha loucura (e minha explicação a isso). Perdi a companhia de familiares, perdi amizades, trabalhos e algumas garotas. Tudo isso sob a tal acusação de loucura. Mas não o sou, dentro dessas circunstâncias, não, não sou. Cresci, desenvolvi por meio desse hábito, a entonação correta da minha voz, o bom desenvolvimento das cordas vocais, a boa dicção, o uso correto, pausas e intensificações necessárias. Co-habilidades desde a projeção da voz, como o uso de sua potência máxima, ou ser ouvido e compreendido mesmo aos sussurros absurdamente baixos.

Vivi minha vida, em delongas, completamente afastado, rondando os cantos e deixado de lado. Era o último garoto a ser escolhido pelos times nos mais diversos jogos. Era o último da fila na escola, e, por mais, ainda sofria certo desprezo das professoras e professores. Não, não foi nada fácil. Mas nunca baixei minha cabeça diante de quaisquer situações, como quando um namoro de muito tempo acabou como por motivo principal o fato de que eu falo só. Empregos dos mais diversos, oportunidades das mais variadas. E nesse meio tempo, de espera, de passagem e de tudo mais, o que eu fazia era falar, falar, falar, algo que me restara e que, conseqüentemente, sempre me fizera bem.
Pois que me tornei exímio debatedor e apresentava trabalhos e seminários como ninguém. Formei-me bem e não perdi nenhuma matéria na faculdade, e, apesar da aversão por meu suposto problema, várias pessoas admiravam essa habilidade, sobre a qual, já cheguei ouvir de que era uma tremenda perda de tempo incutir em alguém, algo tão majestoso e ao mesmo tempo lhe imprimir uma loucura sem precedentes. Minha família achou que era trauma de infância, mas logo depois deixou a idéia de lado. Bem como me deixou de lado. Por bem, nunca que minha relação com minha família foi por lá essas coisas de boa. Mas nem de ruim. Sempre comedida, necessária e, posso dizer, ou melhor, podem todos da família, dizê-lo: um relacionamento normal. Seja lá o que um relacionamento normal signifique.

O fato é que, isso, meu, só meu, é tão especial, especialmente e incrivelmente e solenemente especial que, problemas de garganta me incutem certo tipo de luto. Mal saio de casa, e quando saio, é de preto, abafado em pensamentos, calado. E não, não sou louco. Pronto! Ouvi agorinha pouco, uma senhora me chamando de doido. Já pensou? O negócio é que ninguém entende como é a vida de um contista-narrador: impossível agradar todo mundo.