sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quatro quartetos de auto-explicação

Porque a boca é boca                     Porque a verdade é sincera
e tem gosto próprio                        e declarada tão esmera
que nenhuma outra                        que nenhuma outra
há de ter.                                        há de dizer.

Porque os olhos são mares            Porque o corpo é suave
e flutuantes marés estelares           e tem toque em conclave
que nenhum outro                         que nenhum outro
há de ser.                                       há de deter.

Alugue-se

Você pode amar e ser amado de maneira incondicional, ou ficar lamentando-se pela falta de gente à sua volta. É como realizar-se da maneira correta e sempre instável, insegura e falha. Ou simplesmente andar milhas e milhas sem considerar o efeito de qualquer intempérie no corpo, desconsiderar os tantos instrumentos vitais e presentes na vida, mas ter uma certeza séria, segura e austera: uma eternidade conformada e confirmada.
Atingir seus noventa e poucos anos com a aparência de um garoto ou garota de vinte e dois, sem nem ao menos ter vivido seus primeiros de vida. Morrer romântico por excelência, batendo forte no peito, assumindo seus berros contidos pelo travesseiro, na incondicional inexistência de um novo amor.

Que sempre vem, talvez meio que atraído por rugas invisíveis que apareçam lá na casa dos trinta. Traindo sua própria motivação do suicídio dos olhos que brilham sem que exista luz real em sua direção, apontando o caminho dito, redito, afirmado e confirmado: aluga-se. Alugue-se para o amor. Sem tempo determinado, com o aluguel de carinho e dedicação. Inquilinos vêm e vão. Nunca esquecer-se de reparar os estragos, afinal, ninguém alugaria uma casa com o banheiro de privadas arrancadas. De inquilino em inquilino, o imóvel ganha prestígio e tom colonial de peça conservada e resistente. O amor quer sempre novos quartos. Alugue-se, até que seja comprado de definitivo, ou vire memória inseparável de tantas outras residências.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O outro novo fim do mundo (dedicado a Carlos Drummond de Andrade).

Não se sabe ainda o dia exato do fim do mundo. E mal se sabe se de fato vai acabar. Pode ser que sim, e não será a primeira vez que isso acontece. A aparente falta de qualquer anunciação chamativa talvez seja a prova de que não acabou. Tantas foram as vezes – e tantas mais serão -em que o mundo pôs-se a acabar. Já dizia João que não passaríamos do ano 500. E Nostradamus deu o prazo de validade terrestre: ano 2000. A nova aposta é a do calendário maia, que nos dá a referência do fim do mundo no ano 2012. Em 1910 passou o Halley, convocado por todos os tablóides a fim de ser o carrasco do nosso planeta. Disseram que sua cauda passaria perto do planeta, desintegrando as formas de vida existentes. E assim foi em 1914, com o anúncio de mais uma guerra na Europa. E em 1939, com outra guerra, no mesmo lugar. Astrônomos, astrólogos, astronautas, argonautas e até agrônomos, envolveram-se em previsões do apocalipse. Nenhuma realizada, de fato.

Estendendo a atual crise econômica ao ano de 2012, o fim global poderá cair nas mãos dos investidores e especuladores em geral. O preço de tudo nas alturas, numa inflação indeterminada da falta de vergonha e salário. Os políticos prometerão passagens ao céu, caso eleitos. Uns apontando os dez dedos ao céu, outros, nove. Os meninos e meninas celebrarão o domingo livre de missa, a manhã e tarde sem aulas e o fim do castigo. Mas logo vão perceber que jogar bola ou brincar de boneca e, mesmo futricar ao computador, não serão opções válidas. O servente, coitado, tentará imaginar um jeito de limpar toda a sujeira do fim do mundo. Tanto entulho, poeira e pedaço de gente. Talvez, limpar só com sabão não dê conta. As senhoras esperarão consternadas que o fim da novela chegue antes do fim da Terra. E, claro, viagens até a lua tornar-se-ão o ápice mundano: a última moda da última estação.

No momento próximo ao derradeiro – como previu Drummond - em que todos nós admitiremos uma tragédia cósmica como ferramenta do fim, a Terra e os cometas estarão chacoalhando de medo dos homens, pensando então, que seremos os verdadeiros e derradeiros carrascos. Os preços irão elevar-se às alturas, de onde, irão assemelhar-se a anúncios espaciais de “vende-se”. E num suspiro próximo ao considerado final, pagaremos a taxa por utilização de oxigênio, imposta nas últimas instâncias político-civis, por dez ou nove dedos, agora apontados para o bolso das calças. Instituído feriado mais-que-nacional: ‘O dia em que a Terra parou’.

Então, no momento final, não será nada mais que outra flatulência solar, deixando um dia de semana nos seus aproximados quarenta e poucos graus de aquecimento global. Estaremos todos recolhidos em nossas humildes residências, enquanto a dona de casa, ainda em desespero, cairá em proximidade de prantos.

E não haverá mais grave do que a dilacerante dúvida:

- Como comprar 100g de feijão?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Forest

Apoiado no parapeito da janela, Roberto contemplava o falso horizonte daquele lugar. Seus olhos convergiam ao infinito impossível, procurando traços diferentes de tudo, até mesmo na Dalva estrela que surgia mais rente ao céu. Aproximava-se com os olhos, cerrando-os mecanicamente. Aquele lugar estava vivo. Estranhamente vivo, claro. Mas de fato respirava. Respirava fumaça de cigarro, dos automóveis, bafo de cachaça, perfumes dos mais vagabundos até os mais caros. E suor, e gozo, e sangue e lágrimas. Com sua polução vibrante, com cores abundantes e chamativas, gritava aos passageiros da vida: atenção! Como grita a cobra coral, em sua febril mudez.
Longas árvores de tronco férreo retorcido erguiam-se até o céu. E suas cascas eram cinza, como na gentileza da ausência da escuridão no branco: sem gosto. E tudo pulsava. Pulsavam as ruas, as avenidas, as nuvens, as estrelas, as paredes e seu peito. Mas este vibrava largamente, como na procura da afinação inexistente. Seu diapasão brutalmente ressoava. E passavam morcegos e corujas, como se respondessem ou zombassem.

Mesmo sendo comum aos seus olhos, algo naquela paisagem sempre convidava seu desejo a atirar-se sem medo pela janela. E então, observava por dentre as árvores de pedra, que tremiam uma seiva bruta de ossos pálidos e derme quente, ou não. Procurava por dentre a escuridão, seguindo a direção apontada por suas órbitas hiperativas e dormentes. Ali, ouvia o constante convite. Ao qual só respondia com sua retina fria e calculista, pormenorizando a textura das nuvens negras do céu.
Aquela voz o chamava. A escuridão embrenhava-se contundente em todos os cantos. Emaranhava em seus cabelos, sucumbia nos postes, repelia os mendigos e abandonava os vira-latas. Contudo, o som era perfeitamente profundo: atravessava todo o mar de indubitável cegueira. Seus olhos corriam de um lado a outro, por entre as grandes árvores de pedra trêmula. Deu um longo trago no cigarro, apagando-o logo em seguida na pedra do parapeito. Coçou a nuca. Tenho de parar com essa porcaria, cuspiu, atirando o maço de cigarros janela a fora.

A voz feminina o convidava continuamente. Seus olhos obedeciam atenciosamente, como um dócil animal faminto de paisagem. Aprofundava-se mais e mais naquele lugar denso de vida e pensamentos. Notou o brilho do sol que estava pra nascer. Resgatou do fundo da gaveta do móvel escuro, ali ao seu lado, um relógio de pulso sem pulseira. Quatro e meia. Agora realmente não adianta tentar dormir. Tarde demais. Sempre a mesma coisa: esse sono vagabundo de sabe-se lá o quê, que simplesmente não vem.

Sempre tarde demais. Correu os olhos uma última vez por aquela floresta. Correu os olhos para o nada, assim como todas as madrugadas: de novo e de novo e de novo. Na verdade, a garota em si, sempre esteve ali, mas nunca presente para Beto. Era simplesmente a cidade, que esticava seus braços ao céu e bocejava baixinho, no noticiário matinal de incontáveis televisões.

sábado, 25 de julho de 2009

O grande rupestre

Meu pasto estrelado,
imenso e vasto
e tão seguramente
maltratado por
tanta gente de mal-grado.

O bovino divino
comeu todo o capim celeste
e encheu um balde até a borda
com a Via Láctea
e coalhada Terrestre.

Conversa fiada: Movimentação

Em determinados ambientes uma das tarefas mais árduas de se realizar é a movimentação. Certos lugares contêm o que é conhecido como programa de índio. Como? Por exemplo, numa visita ao shopping. O programa de índio moderno é o passeio no shopping. Pior ainda se nos finais de semana. Local mais do que lotado, no qual só falta distribuição de senha para a utilização dos sanitários. A locomoção é praticamente impossível.

Transeuntes entram em algum tipo de transe, limitando-os a animais selvagens, na corrida pela sobrevivência. Mas, espere. Uma zebra correndo desesperadamente de uma leoa, que tem de alimentar sua fome ridiculamente grande e a de sua prole. Senhoras de idade, jovens sob o efeito de hormônios e solteirões de meia idade, não. E, se houver a necessidade de sentir-se nas ruas de Tóquio, às 7h de uma segunda, dirija-se à praça de alimentação. Não que exista algo realmente destinado à alimentação em si, mas são outros quinhentos.

Existiriam, talvez, algumas soluções. Circulação de pessoas com peças de roupa de tal cor em determinado horário, ou não. Mas com o jeitinho brasileiro, um descendente de alemães sem camisa poderia facilmente dispor de sua gama napolitana de cores: vermelho camarão, branco defunto e moreno mofo. Além claro, de sua camisa. Fora peças multicoloridas, que atravessariam os anos 70 inteirinhos até as vitrines, mais uma vez.

Então, o que fazer? Se no trânsito existe a via de circulação distinta, por que não tentar isso com a multidão de pernas de certos locais? Determinada faixa seria de uso das pessoas com compras e mais compras, ou seja, transporte de carga. Claro que grávidas, apesar de transportarem carga viva – quase como se escrito na lateral de um caminhão interiorano – teriam de utilizar outra faixa. Senhores e senhoras acima do peso teriam de seguir uma faixa de veículos pesados, assim como fazem ônibus ou caçambas vazias. Os jovens? Trânsito empacado e em diversas faixas. Quando uma adolescente frustrada pára no meio do caminho e retira o celular – não se sabe de onde – prepare-se para um engarrafamento.

Solteirões de meia idade? Trânsito rápido, claro. Existe a fiel necessidade de se manter uma rotatória devida. Se, ao acaso, encontrassem alguma parceira, mudariam ao transporte de carga. Casais andam, necessariamente devagar e, carregando ombro a ombro seus corpos. Idosos, uma faixa respeitosa para cada grau de senil locomoção, representando sua velocidade. Com superfície antiderrapante, claro. Passarela própria de deficientes físicos ou mentais, claro. Já os deficientes sociais, como vendedores que seguem seu passo e sua respiração nas lojas, poderiam reservar sua atuação a um pequeno círculo imóvel, num canto indefinido.

Depois de tudo isso, poderia você, leitor, perguntar-me:
E você, autor, onde fica?

Do lado de fora.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Crushed

Surely thing
of early spring

e os ventos carregam
devaneios sinestésicos e coloridos
até a ponta dos dedos - que tocam
o céu amargo.
e o âmago desfoque
e sagrado dos olhos doloridos,
retinas cansadas e amores perdidos
floresce lentamente,

as blomsson of  foreign live
dreamin' easy ways through the wave
of our hive:

catch, scrach and bite a cloud
feel how it taste,
haste, waste, dry,

sem tempo para despedida,
dores desmedidas e prolongamento
taciturno do adeus.

São todas feridas
são todas partidas
são todos os eus

and so much for goodbye
and truly blue skies
of far heaven

no toque suave
do último éden
que os lábios poderiam tocar.

Missão Pelourinho

A operação em si, seria simples. Ao menos na teoria. Assim pensava o comandante, que recebera as ordens há poucos minutos. Mandou convocar seu pelotão com urgência extrema. O presidente estrangeiro estava no hotel, descansando, quando a força tarefa policial foi convocada. Ordens diretas e estritas do governador em pessoa, dizia-se. Mas que diabos, faria o governador convocar uma força tarefa, às tantas da madrugada? pensavam alguns membros que mantinham um estado de semi-consciência. Todos a postos, totalmente acordados ou não, as ordens foram dadas.

Imediatamente quem não havia acordado, padeceu sob o efeito daquilo. Um balde de água fria? Não, algo um pouco mais estranho. As ordens foram repetidas uma, duas, três vezes. Da primeira vez, alguns achavam que era um tipo de piada de mau gosto e riram. Toledo, comandante daquele pelotão, manteve-se sério durante toda a explicação. Contou a todos o motivo de todo aquele alvoroço: a chegada do presidente estrangeiro, que depois de visitar três países africanos, estava ali para conhecer o Pelourinho.

Nenhuma pergunta? Ótimo. Adiantaram-se no serviço. De certo, repetir o que havia acontecido no ano passado, quando a secretária estrangeira havia visitado o Pelourinho, não estava de forma alguma nos planos. Seria um vexame internacional, comentava Toledo com seus homens. E aquelas eram palavras do próprio governador. Fazer o quê? Simplesmente respeitar as ordens e cumprir o serviço o mais rápido possível, voltar pra casar e tentar a sorte com um cochilo rápido.

Muitos dos oficiais não se sentiam à vontade ao realizar aquela ordem. Mas, missão é missão, concordavam. A ordem era clara e direta: limpar as ruas, calçadas, avenidas, vielas e qualquer tipo de acesso possível do Pelourinho, no Pelourinho, ao Pelourinho ou que lembrasse o Pelourinho. Recolher todos os bêbados, marinheiros, vagabundos, mães e pais-de-santo, prostitutas, mendigos, trançadeiras, vendedores ambulantes e, até as baianas do acarajé. Roque teve de inventar uma desculpa, fingir que estava passando mal. Não teria coragem pra negar o trabalho a sua mãe, vendedora conhecidíssima de acarajé daquelas bandas. Plínio conseguiu trocar com Augusto a tarefa de expulsar as prostitutas. Não faria aquilo com Doralice. Fora alguns percalços, tudo correu como planejado.

Duas baianas jogaram pimenta nos oficiais, um dos mendigos desmaiou de fome enquanto saía do local, uma mãe-de-santo recebeu uma entidade que deu trabalho até ser contida por três homens, fora outros probleminhas. Então, com o tempo, tudo estava na mais perfeita paz – ou não. O vento, não reconhecia mais o Pelourinho. Nem a lua, nem as estrelas, muito menos a noite e, muito menos o sol, que espiava de longe. O mar então: estranhou completamente aquele pedaço, visto de longe, por umas beiradas de onda. Mas não havia o que se fazer. Em poucas horas, o presidente e sua comitiva chegariam ali.

Contrataram uma carioca pra se vestir de baiana e cumprimentar o visitante. Limparam com tanta força as construções, que a tinta carcomida desintegrou-se mais ainda. Não havia capoeira, nem barulho dos pontos de terreiro, nem marujos voltando de alto-mar ou qualquer coisa do tipo. Não poderia ficar barato. E não ficou: a chuva fez greve e não apareceu. O sol, pra mostrar-se descontente, apareceu emburrado no alto do céu. As nuvens fugiram até o horizonte e o mar estava mais estranho que nunca. 31º C de um calor mais do que infernal, na greve de tudo que contornava a Bahia.

Visita terminada, o presidente esgueirou-se ao ouvido de um dos tradutores. O tradutor correu até um dos guias brasileiros. O que ele disse? O que ele disse? Bem, ele perguntou onde poderia tomar uma pinga, comer acarajé e levar uma defumada de um caboclo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ilusão

Minha torre
do alto do céu

tem vista pro mar,
sim sinhô

tem vista pra mar,
sim sinhá

mas só não tem
se visto
se o tempo passar.

Octávio

Abriu lentamente os olhos, livrando-se da visão embaçada pós-sono. Constatou, através da janela entreaberta, que era dia: fios dourados esgueiravam por dentro do quarto, revelando as milhões partículas de poeira. Esticou-se, ergueu seu corpo do leito, alongou seus braços, fazendo ecoar o estalo das articulações ainda dormentes. Seu colega de quarto ainda estava mergulhado num tipo de hibernação, que dava indícios de acabar bem depois do almoço. Festa na noite anterior, claro.

Às vezes sentia vontade de juntar-se ao colega, mas no fim das contas, desistia. Não havia, desde sua mudança até aquele local, saído do quarto. Simplesmente não se sentia a vontade. Na realidade, havia perdido longas noites pensando sobre aquilo. De certa forma, sim, lhe incomodava. Mas não fazia falta em sua vida. Tinha tudo o que precisava ali, ao alcance de seus braços. Fora a necessidade de mudar de posição durante a faxina, ficava quase que no mesmo local, trabalhando incessantemente. Comia ali mesmo. Recebia seu alimento, no que pode ser chamado de um “serviço em domicílio”. Nutria-se bem, no fim das contas, afinal detestava comer besteiras.

Recebia visitas periodicamente. Poucas, mas as recebia. Em sua vida – não muito longa e não muito agitada – só manteve um relacionamento considerado, ponderava, “sério”. Não gostava de comentar nada sobre aquilo, desde o acidente que havia provocado a morte de sua namorada. Quando, em sua mente, surgiam vagas lembranças de tudo aquilo, ocupava-se mais e mais com seu trabalho. Seu trabalho para muitos era inútil. Para outros desagradável e alguns achavam que era arte. Não dava importância pra nada do que se falava. Ou de bem ou de mal, simplesmente ignorava e, sem reluto ou procrastinação, continuava o serviço.

Extremamente perfeccionista. Era comum em sua família – com quem nunca teve muito contato. Era um dos mais novos de muitos irmãos, que desde a adolescência não se viam. Seu pai morreu muito cedo. Antes mesmo de que ele ou qualquer irmão nascesse. Na verdade, não ligava muito pra nada disso. Concentrava-se friamente em seu trabalho, até que finalmente desse resultado. Havendo falhas, desfazia por completo cada uma das infindas partes, nas quais gastou horas preciosas fazendo. Não se importava. O que pretendia, mesmo, era atingir a perfeição em sua atividade diária.

Dormia pouco e comia muito. Mesmo assim tinha um físico um tanto invejável. Sua flexibilidade e agilidade eram surpreendentes. Sabia defender-se. Não gostava de brigas ou qualquer tipo de violência. Em face de qualquer perigo, não demonstrava vergonha alguma de abster-se a um canto distante. Resolvia seus problemas de maneira prática e metódica. Mas, refletia profundamente sobre aquilo.

O que haveria de tão complicado na vida de uma aranha doméstica?

terça-feira, 7 de julho de 2009

Mangue

Os passageiros
passam ligeiros aos lados,
de lados, aos montes
nas fontes
de lama.

As tardias velhotas
levantam suas saiotas
e na ponta de seus pés
de madeira,
evitam o solo com salto

pulando a lamaceira,
em suas trancosas
dermes celulosas
de má fé.

E o mar vem de longe,
pra balançar um berço
que, há quem conte,
nem se precisa balançar.

E pomposas cheias
e tardes derradeiras,
inundam e diluem
toda a trama
que escorre de lá.

Piaçá, vem piar
e só pia na junqueira,
que só nasce na ribeira,
tronco da ribanceira
dos lados melados do mar.

E o mar vem de longe,
pra balançar um berço
que, há quem conte,
nem se precisa balançar.

Soldado

Os trilhos cantavam metalicamente ao contato das várias rodas do trem. Era fim de tarde, pôr-do-sol no horizonte, nuvens diurnas indo embora e, vagarosa, uma noite exatamente igual a todas as outras noites aproximava-se. Pra ser exato, fim de tarde do dia 22 de agosto de 1945. Vinha no vagão nº 4, que embora fosse um vagão destinado aos civis, lhe agradava por certa distinção. A viagem estava no fim. E já era tempo, depois de tantas noites naquele trem, percorrendo um longo caminho até que estivesse em casa. Casa. O que realmente seria sua casa? Deixou de pensar besteiras, apoiou-se com o cotovelo e dormiu por um tempo.

Acordou repentinamente, no meio da noite, ofegante e suado. Mais uma vez aquele pesadelo. Podia rever mentalmente cada cena daquilo, que na verdade, eram lembranças. Homens feridos, mortos, enlameados, arrastando-se pelo chão. Muitos só continuavam por puro instinto. Foi aquele tipo de motivação que o tornou um soldado exemplar. Havia sido condecorado em diversas oportunidades, nos diversos países por onde passara. Ao menos, pensava, não terei mais de me preocupar. O maldito Hitler estourou os miolos, então não teria de passar por nada assim de novo. Não conseguia esquecer nenhum dos momentos da guerra. Perdeu companheiros, amigos e um dos dedos. Contou mentalmente os anos que esteve fora de casa.

Sofria, assim como tantos outros soldados das mais diversas partes, de nostalgia. Lembrou de algo que havia lido sobre a Guerra Civil Americana. Sobre soldados que foram diagnosticados tarde demais. Lembrou de seu amigo italiano, que havia enlouquecido gradativamente. Conseguia manter-se firme com lembranças de sua cidade natal. O cheiro doce do ar, os grandes rios negros que corriam indefinidamente e os vastos campos na primavera. Lutava talvez, por uma chance de ver tudo aquilo. Sentir, cheirar, tocar e viver tudo aquilo, mais uma vez.

Tempos difíceis os que antecediam a guerra. Sua esposa morreu em trabalho de parto, com grave hemorragia, seguida de seu filho, que entrou em contato com o mundo por alguns minutos, antes que partisse. Dizia que o filho tinha a curiosidade de ver seu rosto. Tentava animar-se, mas nada realmente o agradava. Foi obrigado a lutar na guerra. Seus pais estavam mortos, sua esposa e seu filho também. Nada o salvaria do alistamento e convocação obrigatória. Inicialmente sentiu-se mal. Nunca havia dado real importância ao que estava acontecendo no mundo.

Agora estava de volta. Ou ao menos, regressando. Aos poucos reconhecia nuances na paisagem. Tudo havia mudado muito. O ar tinha um cheiro espesso de fumaça. Os rios estavam cheios de dejetos e restos de embarcações. Aproximava-se dos antigos campos. Soube que uma divisão do exército havia invadido a região para tirá-la do controle do exército alemão. O que não sabia era o quanto o domínio daquela área havia a afetado. A grama alta e as flores amarelas não estavam mais lá. Só havia um longo campo cinza de torres em destroços, arame farpado e flores mortas. Umas empilhadas, outras expeliam vida em carvão, com os resquícios da fumaça no céu cinza.

Desceu na estação. Caminhou lentamente, estalando com seu coturno no chão, passo a passo. Percebeu que sua casa estava do mesmo jeito que havia deixado e, apesar da visão caótica do resto, seu lar, que era afastado da cidade, estava intocado. Um fino fio d’água passava por seu quintal. Flores nasciam à borda e, o sol se punha por detrás de nuvens tímidas, que corriam em seu telhado. Entrou em casa, livrou-se das roupas, tomou um longo banho e foi deitar-se. Mas por algum motivo não conseguia dormir. Não conseguia simplesmente deitar-se ali como se nada tivesse acontecido.

Percebeu que aquele não era mais seu lar. Não se sentia à vontade ouvindo o zumbido dos insetos passando perto da janela, ou do vento roçando na cortina. Sentia-se deslocado. E antes que pudesse sequer refletir sobre o assunto, conseguiu entender. Estava com nostalgia daquilo que realmente pode acostumar-se enfim: a morte.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Celeste

Num céu azul,
uma lua coroa
a corona radiata

pra parir a noite
num mar mijado de prata

de algum querubim
que passou baixo demais.

Dentro de mim,
em cada manhã

um Orfeu levanta o sol
sem nem saber.

O incerto

Choque. Talvez essa não seja a melhor descrição, mas de fato, é a mais curta e direta. Seca, assim como a garganta que retém palavras sem sentido.
Agora tinha provas, pensava. Olhava fixamente para a porta, sentado na velha poltrona cor de sangue, movida vagarosamente de sua posição original. Sua expressão petrificada enraizava a sala de estar em um ambiente hostil, louco, pragmático. O sol que se punha lentamente lançava deveras seus últimos tentáculos cor de laranja por entre as frestas descuidadas da janela manchada. O mundo acontecia normalmente. Carros passavam ruidosos pela avenida, pessoas conversavam, gritavam e gargalhavam. De vez em quando, pássaros passavam em bandos no alto do céu, furtivos da noite. O mundo acontecia, percebia atônito. Apesar de seu interior congelado em murmúrios, de suas vagas idéias e lembranças.

Recolheu a pequena carta do chão e a releu. Queria ter total certeza da existência daquelas palavras. E por mais que as lesse, letra por letra, não assumiam em súbito, o fingimento ou uma piada de mau gosto. Observou a assinatura. Sim, era a assinatura de seu amigo. Sabia que sim, já que aquela rubrica em garranchos, digna do médico que era Paulo, seria impossível de se copiar. Largou mais uma vez o papel ao chão. Claro que suspeitava ao longo do tempo! mas nunca passou de um ciúme bobo. Sentia-se um tanto incomodado pelo fato de sua esposa e seu grande amigo andarem juntos. Mas logo dava uns tapas mentais em si mesmo. Afinal não havia cabimento pensar que havia algo entre os dois! Eram amigos de infância, oras! Quase irmãos. E pensando bem, tinha receio por esse “quase”.

Teve a idéia de surpreender a esposa no trabalho, levá-la para jantar no novo restaurante que ficava à beira-mar. Fez as reservas, foi até a repartição mais cedo e adiantou sua parte do serviço. Conseguiu terminar tudo em menos tempo que havia imaginado! pensou. Saiu do prédio, aproveitou para passar na floricultura. Atravessou a cidade inteira para chegar até seu destino. Ligou algumas vezes no celular de Aline. Nenhuma resposta. Perguntou por ela na recepção.

Ela saiu mais cedo com um amigo. Mas você não tem idéia pra onde foram? Ah, ele deixou essa carta aqui, mais cedo. Ela leu, mas acabou esquecendo. Quem sabe o senhor não consegue descobrir?

Foi até o local citado na carta. Era um mirante abandonado, perto do restaurante onde havia feito as reservas. Chegou lá em alguns instantes. Em tempo de ver Aline traindo-o com Paulo. Entrou imediatamente no carro e foi pra casa.

O que fazer? O que fazer? Realmente não sabia. Arrastou lentamente uma velha poltrona na sala de estar. Sentou-se de uma vez só, num baque de desconstrução. Choque. Talvez não fosse a melhor descrição, mas de fato, é a mais curta e direta. Seca, assim como a garganta que retém palavras sem sentido.
Agora tinha provas, pensou. Olhava fixamente para a porta, esperando a chegada de sua esposa. Esperou durante horas. Por mais que o sol tentasse manter-se no alto, segurando com seus últimos longos tentáculos naquele apartamento, foi em vão. A noite chegou depressa e fria.

Não posso perdoá-la. Mal consigo, na verdade. O que fazer? O que fazer?
Levantou-se lento da poltrona. Caminhou até o outro lado da sala, até o móvel colonial, de madeira escurecida pelo tempo. Abriu a última gaveta.

Tateou por algo por alguns instantes, até que sentiu uma superfície levemente áspera. Retirou a pesada caixa da gaveta. Caminhou até a poltrona, sentou-se novamente, pousou a caixa em seu colo e a abriu. Olhou atentamente, ainda em choque. E, apesar de não haver melhor descrição, preferia contentar-se com ela. Seu corpo não respondia com exatidão. Retirou uma pequena arma de dentro da caixa. Verificou as balas. Duas balas ao todo. A fria luz da lua cheia entrava aos poucos ali, iluminando o rosto assombrado do homem. Esperou mais. Pesadas nuvens iam e vinham por todo o vasto céu da janela de seu apartamento. Esperava asfixiado com as palavras entaladas em sua garganta seca.


Clique.  A maçaneta girou lentamente.

Levantou-se da cadeira, pegou a carta em uma das mãos e enfurnou o revólver no bolso. A silhueta de sua mulher entrou em casa, pousou o casaco no descanso, acendeu a luz e fechou a porta. Virou-se lentamente. Observou a expressão horrorizada de Lúcio.

Lu? O que houve? Notou a carta na mão de seu marido.Aproximou-se lentamente e deu um abraço, derramando lágrimas pesadas na camisa azul turquesa de Lúcio.