domingo, 23 de agosto de 2009
A bruxa de Drummond
tão quieto, tão quieto demais.
Pordemais, sussurros valeriam
como trovões de tempestade
e uma estrela miúda valeria
como raio rasante,
desfoque, paralizante.
Numa solitária ascenção
de nem tantas 2 milhões
de pessoas.
As nuvens afastam-se
e aos poucos um estranho céu azul
aparece na negrura da noite:
em degradê,
em sabe-se lá o quê.
É possível ouvir
o farfalhar obscuro do silêncio e,
nele percebemos a bruxa,
não tão menos bruxa por si só,
mas era a bruxa de Drummond.
O baque não era na porta
o estalo não era beijo
o sopro não era vento
o sorriso não era desalento
o ruído não era voz
era só um descontentamento
individual]
de todos nós.
The Cure
Deu alguns tapinhas em sua própria face. Não é possível. Não poderia ser possível, de forma alguma. Tornou a observar os resultados das anotações, a folha de papel e a foto. Sim, era verdade. Acabara de descobrir a cura daquela horrível doença que havia dizimado mais da metade da população. A depressão era o mal do século passado. Aquela horrenda peste era o novo mal, que não distinguia nada nem ninguém. Matava todos os tipos de animais em todos os locais do globo. Ganharia de certo o Nobel e entraria pra história. Não, não era o mais importante.
O mais importante era que tudo aquilo, todo o sofrimento, finalmente teria um fim. Limpou os olhos no jaleco, vedou cuidadosamente a lâmina da amostra. Guardou suas anotações, as fotos e a folha de papel com a fórmula. Era algo simples e, de tão simples, inimaginável! Impensável! Mas, era finalmente aquilo! Todos os pequenos ratos contaminados estavam curados. A lâmina estava parcialmente limpa do vírus, justamente onde aplicou manualmente o remédio, em proporções microscópicas. As anotações continham a evolução do medicamento: simples e totalmente eficaz. A foto dividia-se em três partes: o vírus antes da aplicação do medicamento; o vírus durante a aplicação do medicamento; o vírus destroçado, após o efeito do medicamento. Incrível!
Reuniu tudo em uma pasta, a protegeu dentro de uma mochila vedada, cuidadosamente segurou-a com as duas mãos. Projetou aquilo no futuro. Como seria? Como tudo aquilo seria desenvolvido? Pensou na possibilidade do uso comercial daquilo, do monopólio de algum país, do laboratório ou de alguma rede de pesquisas. Ficaria quieto, registraria o remédio em seu próprio nome e sob responsabilidade de sua esposa. Mas uma conspiração poderia silenciá-los, retirar o remédio de suas mãos e o utilizar como produto. Como método de lucro garantido. Um boom incrível da economia...
Não, poderia entrar com um recurso junto ao parlamento, obter direitos totais sobre o medicamento. Mas o parlamento poderia, em conclave, tornar aquilo como bem do Estado, confiscá-lo e... Não, não faria daquela forma. Projetou milhões de possibilidades, gastou a madrugada imaginando maneiras de tornar aquela salvação pública e gratuita. Que todos pudessem salvar-se. De todas as formas, aquilo se tornaria um produto. Sua descoberta, feita com tanto afinco, dedicação e carinho, com intuito de acabar com aquele sofrimento... Tudo seria em vão.
A minoria seria salva momentaneamente, as massas extinguir-se-iam gradativamente. O vírus sofreria mutação, a casta superior seria atingida e extinta. Com sua cura, poderia extinguir o vírus e impossibilitar sua evolução e mutação, já que o tornaria incapaz de reproduzir-se. Mas as ações em nome do lucro acabariam com o homem. E então? O que fazer? O que fazer?
Abriu a mochila, retirou a pasta. Abriu-a. Retirou do armário um frasco escuro. Despejou todo o líquido dentro da pasta, fechou-a. Agitou um pouco. Jogou a pasta no lixo, apagou as luzes, foi pra casa. No caminho ligou pra sua esposa, vamos morar naquela casa de praia, amor. Isso, aquela que tanto queremos. O frasco ainda jazia em cima da mesa, onde se lia “CUIDADO: HCl – Ácido Clorídrico”. A humanidade definhava aos poucos, porém, com tempo suficiente pra salvar-se de si mesma.
sábado, 22 de agosto de 2009
A Lua
um pedaço escuro do sul,
aflita de sua ternura
precedida no escuro azul,
Acordou a dócil criatura
que me dormia no peito nu
e tão próxima à ruptura
de um firme sentimento cru.
No respaldo que em mim jazia
bem como em algas dormentes
flutuam calmas n'água fria
Nas superfícies cadentes
suas suaves mãos de poesia
enraizavam - em torrentes.
Nova velha infância
O apartamento tinha lá seus encantos. Em um dos cômodos, jazia um baú antigo (provavelmente dos primeiros donos, dada a impressão pós-colonial recente), empoeirado e encardido pelo tempo. Fora incontáveis camadas de poeira e teias de aranha, a única presença incontestável ali, era o cheiro de mofo. Deu um jeitinho e o vendeu a um antiquário no Bronx, próximo ao escritório onde trabalhava. Não conseguiu uma quantia muito alta, mas ao menos se livrou daquele incômodo. Aproximar-se do baú era render as forças a um ataque de alergia, na certa.
Inicialmente mobilhou o lugar com apenas o básico: uma poltrona antiga, uma cama, duas cadeiras e uma mesinha de café. Aos pouquinhos adicionaria mais elementos ao conjunto. Era o necessário a sua vida no novo velho apartamento. Decidiu explorar cada pequena fresta, cada detalhe e pedacinho do lugar. Seria bom familiarizar-se com tudo, gravando todos os detalhes em sua memória. Deu-se conta da necessidade de algumas pequenas reformas a serem feitas. Alguns pregos a bater, um pouco de tinta e uma limpeza caprichada. Nada exagerado, nada que demandasse urgência ou preocupação extremada. Decidiu fazê-lo no feriado, duas semanas dali. Metódica ao extremo. Listou o necessário: uma lata de tinta média, um saco pequeno de pequenos pregos, um frasco de produto de limpeza e um martelo. Muniu-se em exatamente uma semana.
Acordou cedo com o intuito de realizar todas as tarefas, tendo tempo de sair com alguns amigos do trabalho. Seguiu a linha do assoalho, removendo os antigos pregos e os substituindo por novos. Com o passar dos minutos, comportava-se como uma mini-indústria, realizando a tarefa de maneira interrupta e em série. Remoção, limpeza, introdução, batidas, limpeza. Remoção, limpeza, introdução, batidas, limpeza. Sem maiores problemas, quase completando a volta do apartamento, sentiu um ponto solto.
Deu batidinhas com o martelo e ouviu o oco escondido. Certificou-se, toc, toc. Realmente oco. Interrompeu a linha de montagem e examinou minuciosamente o local. Retirou o pequeno prego, que, com um pouco mais de atenção, percebeu ser diferente de todos os outros. Puxou o pedacinho de madeira encardida e conseguiu soltá-lo. Retirou o isqueiro do bolso. Conseguira parar de fumar, mas não de manter um isqueiro por perto a todos os momentos. Iluminou o local, certificando-se que nenhuma criatura estaria ali, prestes a surpreendê-la. Identificou ao longe um pequeno objeto cúbico. Uma caixinha.
Uma caixinha de balas antiga. Retirou-a, limpou-lhe a poeira com o pano úmido, evitando o ataque de alergias. Notou um mínimo cadeado, grosso. Algumas batidinhas do martelo e conseguiu rompê-lo. Abriu a caixinha metálica, enferrujada. Notou um pequeno carrinho de madeira, com rodinhas de rolha. Um pedacinho de papel rasgado com alguns números, duas bolinhas de vidro, um botão lascado, um canivete de bolso velho e um pequeno chumaço de fios de cabelo. Removeu cuidadosamente cada item, anotou em um curto inventário, cuidando para que não perdesse absolutamente nada.
Ao fundo da caixa, após uma profunda inspeção, leu: Harrison Smith, Bartolomeu. Certamente o dono da caixa, com o nome inscrito a riscos do canivete agora sem corte. Foi até o criado-mudo, recém adquirido no Certain Antique, antiquário do Bronx ao qual havia vendido o baú. Abriu a segunda gaveta e retirou a lista telefônica. Harrison Smith. Era logicamente óbvio que o tal Bartolomeu estaria morto. Pôs-se a procurar algum descendente seu, que demonstrasse algum interesse na caixinha. Não era algo comum a se fazer, mas pensou durante alguns instantes. Se alguém achasse alguma lembrança de sua infância, gostaria muito que lhe devolvesse. Pôs-se à incessante busca.
Com certa dificuldade, encontrou três nomes. Ligou ao primeiro. Richard M. Harrison Smith. No, I’m english. Never lived in USA. Moved last week. My entire family is from London. (Não, sou inglês, nunca vivi nos EUA, mudei-me semana passada. Minha família inteira é de Londres.)
Ok, thank you. Tentou o segundo número. Linha inexistente. Entre as ligações, tentou lembrar-se um pouco de sua infância. Na verdade não lembrava muita coisa. Na verdade não lembrava nada. Sentou-se no chão, levou alguns dedos às têmporas e pensou por algum tempo. Não entendia o porquê de não recordar-se de sua infância.
Não tinha fotos também. Seus pais nunca gostaram de fotos, por incrível que fosse. Não tinha fotos de sua infância. Não tinha recordações, histórias, brinquedos ou qualquer outra coisa do tipo. Recolocou o telefone em seu lugar, fechou a agenda telefônica. Levantou-se e guardou a caixinha na primeira gaveta, com tudo dentro, inclusive o recém criado inventário. Decidiu ligar para casa. Recolheu mais uma vez o telefone em suas mãos. Discou o número conhecido, posicionou o telefone ao ouvido e esperou um pouco.
Alô, mãe? Tudo bem com a senhora? E com o pai? Ah, certo então. Por aqui tudo bem sim. Fazendo um pouquinho de calor, mas fora isso, tudo normal. Liguei pra perguntar uma coisinha, na verdade. A senhora guarda algum brinquedo ou vestido ou algo do tipo que foi meu? Não? Nadinha de nada? Não, não, não se preocupe. Nada de mais, só curiosidade e saudade de vocês. Tá certo, mando beijo pra ele sim. Fica com Deus, tchau.
E agora? Não tinha provas nem ao menos de sua infância. Sentia uma pontinha de inveja do tal Bartolomeu. Retirou a caixinha da gaveta, analisou-a. Armou-se do canivete sem corte, riscou o nome ao fundo da caixa. Sem mais informações do dono da caixa. Observou o interior da caixa. Retirou o inventário, rasgou-o em minúsculos pedaços. Apesar da idade indeterminada daquelas lembranças, lembranças e recordações da infância de alguém, tomou-as como se fossem dela. Recolheu o tufo de cabelos na mão e recolheu ao pensamento que aqueles fios pertenciam ao seu primeiro namorado, desses namoricos de infância. Recolheu o canivete e era de seu avô, Bernardo, que morrera antes do aniversário de três anos de sua neta. Verificou os números do papel, indicando o número da rua de sua primeira casa.
Segurou com delicadeza as bolinhas de vidro, memorizando-as como parte de um brinco que sua mãe havia perdido muitos anos atrás. Retirou o botão lascado e percebeu que pertencia a camisa de seu tio Augusto. Adicionou um prego minúsculo à caixa e selou-a. Puxou a lista telefônica, rasgou a página marcada e pôs fogo. Olhou atentamente para a caixinha. Aquela era uma nova velha infância. Aconchegante. Segurando firmemente sua infância com uma das mãos, utilizou a outra pra realizar uma ligação.
Alô, mãe? Sou eu de novo. Encontrei as bolinhas do seu brinco. Que brinco? Ah, aqueles azuis, não lembra?
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Liqüidificador
por insistência, ganhei
duas coisas:
duas pernas compridas
e um mundo sem fim
pra andar.
Mas, não satisfeito,
preferi dois mundos
compridos e uma perna
sem fim...
Insisti na tentativa
de ao menos levantar.
E dois mundos são
dois olhos
e meu caminho
é um mar, o mar,
amar.
Indignação.
O pior de tudo é que ninguém acudia. Um véio jogado no chão, provavelmente machucado – não havia confirmado meu próprio estado – e talvez mijado de pinga, mas ninguém acudia. Esperei uns instantes e fiz cara de pobre. Ninguém resiste a uma cara de pobre. Apareceu um moleque e de prontidão me levantou. Ou tentou por umas vezes, até de fato conseguir. Senti as pernas moles, bambas, sem força nenhuma. Mais uma vez não conseguia atestar se era efeito da aguardente ou do efeito de tal queda. O povo continuava reunido, feito em tombada de carroça, desembestagem de boi, esculacho de puta. Mas era só um véio caído. Não mais, ao menos. Cambaleando, escorado no moleque – que aqui, por falta de prosa, resta-me chamar tal alma caridosa (ou interesseira) de Preá. Nada contra a figura do moleque, fora sua catinga de ovo, sua barriga exposta e as costas cabeludas, claro. – fui vagarosamente até a igreja. Pedir benção ao padre, antes de tudo, até mesmo de passar no médico ou de voltar pra casa.
Ao avistar Padre Tainha, com sua característica cara de peixe bufador, não me contive, tentei abaixar pra lhe pegar a mão e num beijo humilde pedir-lhe a benção. Não é que Preá não me agüentou e poquei de cara no chão? Infeliz, nem ajudar direito sabe. Mas tem mal não, Padre Tainha me pôs de pé. Ambos me escoraram até a igreja, sentaram-me no banco. O padre fez uma reza rápida e escafedeu pra seu quartinho. Eu, sem entender muita coisa, dei por satisfeito e falei que queria ir ao médico logo. Preá pôs-me de pé, dessa vez sem muita dificuldade. Provavelmente o efeito da cana estava passando aos poucos. Ainda não sentia minhas pernas direito, mas, melhor que assim não sentia a dor também.
Rateando pela rua, fomos os dois, eu e o moleque, até a casa do doutor. O moleque me escorou no muro, gritou do portão. Não entendi bulhufas. Ao menos o doutor, de boa (ou má) vontade apareceu rápido. Com o famoso ar de importante e bobão, de acostumado, enjalecado, enrustido, doutor Amaro fitou-me o corpo dos pés à cabeça. Olhou bem fundo nos meus olhos a ponto de que eu ficasse preocupado com a intimidade da consulta. Cochichou no pé de ouvido do moleque, escreveu umas bobagens numa folha encardida e entregou. Saber o que estava escrito, não sabia. Nem deu pra ver. O moleque me sacudiu a poeira do capote e se pôs ao carregamento, mais uma vez.
Eu, com cara de bobo, não podia ver um rabo de saia abanando pela rua que logo mandava um beijo estalado. A cana era forte. Era ao menos o que aparentava, já que a cada tentativa de beijo, eu vertia baba espessa e mais cara de bobo. Como bêbado normalmente perde a vergonha sob efeito do álcool, eu nem dava atenção praquilo. Preá me carregava e eu babava (mais-que-literalmente) em todo rabo de saia que espanava na rua. Perto de casa, meio que como se me conhecesse, Preá me ajeitou, sacudiu meu capote mais uma vez, me armou de chapéu na cabeça, limpou-me a baba com um lenço do bolso e bateu à porta. Jaquinha, fiel cadela da família a duas gerações (mais velha até que eu) atendeu ao chamado com um latido e três tossidas. Acompanhada pela presença humana da casa. Era espanto pra lá, espanto pra cá, cara de horror, corre-corre, fala-fala, grita-grita e até desmaiação. Ou eu estava muito arrumado, graças à atenção tenra e carinhosa de Preá, ou estava realmente mijado. Como mijo de véio não chama tanta atenção e dava tudo a entender que o moleque não havia caprichado tanto, era outra coisa. Mas o quê diabos?
O moleque entregou o papel do doutor. Todo mundo leu e releu e fingiu que leu, já que Batinha não sabia ler e Tia Bromélia não enxergava nem a luz do sol. E depois de todo mundo, eu pude ver o papel. Ele escorregou e bateu a cabeça na calçada, explicou de um fôlego só, Preá. Mandaram eu trazer ele pra cá. ‘Atestado de óbito’. Putamerda. Morto? Morto não tava. Iria ficar com fama de velhaco na bodega, por não ter pagado o litro. Morto não tava, de certeza. Tava travado de pinga, mas defuntado não tava. Ao menos era o que eu pensava. Até que me enfiaram numa caixeta e bateram uns pregos. Morto? Não sei. Mas o pior de tudo: nem me trocaram minha calça mijada. Como pode?
domingo, 16 de agosto de 2009
Percepção
antes que pudesse, antes que dissesse,
não saberia em mim, gabar três quartos
de sorriso
e, uma fração de banheiro, num banho
desses que a lua esgueira no chuveiro,
sorrateiro:
e percorrem
(e escorrem) estrelas,
nuvens,
cometas,
parábolas,
e palavras
no ralo raio de constelações
de uma via láctea imóvel
do piso gasto; sonífera madrugada.
Modo de conservação.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Maresia
com os olhos,
sua forma imóvel
que despetala primaveras
nos passos abandonados.
Nasce dos ombros
com um sorriso indeclarável
como são tantos gestos
de uma aflita existência
que outorga o desejo.
Renovo-me por completo,
mas sei que não,
não, não é por inteiro.
E faltam partes
fundamentais
ao erguer meus braços
do travesseiro.
Despejo meus lábios
e desperdiço meus beijos,
seus beijos,
só beijos,
mais nada
O máscara de ferro
Sua vida fora garantida por uma enfermeira. De forma clandestina, claro. Sua mãe – a enfermeira – havida sido violentada por um dos oficiais da ordem especial. Apenas os bebês perfeitos ganhavam o direito à vida. Sem deformações físicas e com progenitores de físico e intelecto superiores: bebês perfeitos. Aquela enfermeira não tinha o direito da vida, de forma alguma. Ela possuía uma doença degenerativa muscular na mão esquerda, o que a tornava falha e descartável. O pai possuía certa paralisia facial desde o nascimento. A ordem dada pelo alto panteão militar e governamental era o de exumar e exterminar qualquer traço de defeito à sociedade, no intuito da evolução humana.
Uma criatura como ele não poderia permanecer viva. Não poderia. Mas permaneceu. Sob muito custo e sacrifício de sua mãe, que foi expulsa da ordem médica. Ordem de fuzilamento, inconcluso, porém. Ela havia desaparecido de repente, antes mesmo de sua captura. A memória daquele homem tratava de chamá-la apenas por ‘a enfermeira’. Nunca soube o nome de sua progenitora, muito menos o de seu pai. Era um filho bastardo da humanidade e da Alemanha.
Trinta e dois anos haviam se passado, mas tudo continuava na mesma linha. Agora, porém, a limpeza genético-social atingira um novo nível: a limpeza étnica. E a sociedade clamava pelo ser humano superior, pelo homem imbatível e perfeito. Pelo super-homem. Stálin, na União Soviética, tratou daquele assunto por um só e de uma só forma: fascismo; ordem de prisão e execução imediatas. Só o modelo Alemão permanecia forte, defendendo a supremacia daquela idéia. Ele, produto falho de uma linha de produção começada a tantos anos atrás, era uma exceção.
A doença genética da ‘enfermeira’ só atingia o sexo feminino, e, a doença de seu desconhecido pai, havia garantido paralisia emocional, inviabilizando a demonstração de qualquer sentimento através da face. Mantinha-se sério. Durante momentos de tristeza, mantinha-se fechado. Durante o desespero, mantinha-se firme. Durante a solidão, mantinha-se trancafiado em si mesmo. Ficou conhecido como “O máscara de ferro”. Um dos mais temidos oficiais do exército funcional da elite alemã, a Schutztaffel, conhecida como SS. Aos poucos alcançou um dos cargos mais desejados: subcomandante-chefe das forças especiais. Reportava-se somente ao comandante-chefe e ao próprio Hitler.
Por ordens, comandou alguns pelotões para a execução de algumas crianças imperfeitas. E suas mães, claro. Até então, estava tão envolvido com aquele mundo no qual estava que havia esquecido por completo sua história. Nada de sua infância, muito menos de sua origem demonstrava-se excepcionalmente ativa em sua mente. Fragmentos eram decompostos em pedaços cada vez menores e espalhados no turbilhão de sua memória. Simplesmente, era outra pessoa. Um homem implacável e cruel. Era de fato, o melhor para qualquer tipo de serviço, especialmente aquele.
Reuniu alguns homens, deu-lhes as instruções de forma clara e objetiva Seguiu até os bairros determinados. Conforme os ponteiros moviam-se interminavelmente, os soldados realizavam o serviço. Impiedosamente, realizavam seu serviço. Ele tinha o hábito de participar das ações e investidas. Apesar do caso não apresentar algum tipo de confronto ou batalha, propôs-se a por as mãos na massa. Batia de porta em porta, nos endereços fornecidos pelo serviço médico de Berlim. Quando não atendido, seus ajudantes derrubam a porta a pontapés e a missão, então, era cumprida.
Última casa, batidas na porta. Ninguém atendeu. Em voz alta, o subcomandante, impaciente, ordena que a porta seja aberta. Sem que seus homens tivessem tempo de reagir, o homem afastou-se alguns passos. Levantou sua longa perna e com um único chute rompeu a madeira envelhecida da porta. Seu coturno tocou o chão como em um baque ecoado e titânico. Estavam no chão a mãe e a criança, em seus braços. Ele sacou sua pistola e caminhou até ambos. Percebeu que a mulher, senhora de idade, carregava algo nos braços. Não, não era uma criança. Não havia criança alguma, era apenas um cobertor encardido e velho, assim como o aspecto de quem o segurava, pensou.
Os olhos de ambos encontraram-se. A mulher arregalou os olhos e, em uma pequena fresta, abriu a boca. Um de seus braços estava jogado ao chão, como parte independente do resto do corpo. Estava morto e tombado no chão. O homem, então, deu-lhe um tiro certeiro na cabeça. O corpo da senhora tombou ao chão de madeiras podres. E a pequena manta em seus braços escorregou até o coturno daquele homem. E a cruz vermelha encardida arrancou a máscara de ferro daquele menino, o filho bastardo da humanidade. O filho bastardo da Alemanha.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Notívaga Insônia
à noite.
Simplesmente esperam
sacodem a poeira
em seus tornozelos,
fazem estrelas da sujeira,
bocejam uns três cometas,
abrem o único olho
amarelo
talvez de icterícia,
talvez de ressaca,
talvez de noite,
talvez simplesmente
de lua cheia.
Límpidas imagens
surgem no dançar das marés,
como num ballet intransponível
de pura escuridão.
A noite levanta-se;
sugere coisas a fazer
aos corações apaixonados.
Amizade
Observava o relógio de grandes ponteiros negros, pendurado na parede. Aplicava uma força descomunal através da concentração, tentando dobrar o tempo, avançar alguns instantes. Era algo com que se distrair até o horário do intervalo. Com o costume de seus dezessete anos de trabalho, conseguia concluir o serviço rapidamente e de modo correto. O aviso do almoço soou. Ele muniu-se do sanduíche que trouxe de casa e se esgueirou sorrateiramente por entre os corredores, pra almoçar sozinho em um quarto do almoxarifado. Sentiu vontade de tomar café.
Abriu a porta e deparou-se com o interminável vazio. Não que estivesse deserto, mas não encontrava companhia ali. Eram todas máquinas orgânicas, de derme inconsistente e fria. Em face, estas carregavam máscaras que permitiam, de forma total, apenas a respiração. O ver, ouvir e sentir eram filtrados por propriedades semipermeáveis indefinidas daquela falsa derme. Para ele, eram máquinas frias de raciocínio calculado e pré-determinado. Sentia-se só. Não só na repartição, mas no resto do mundo, onde seres de pele fria e rija caminhavam de um lado ao outro.
Enrolou as mangas da camisa caqui até o cotovelo. Afrouxou a gravata, respirou fundo e cruzou todo o caminho até o desejado destino, a máquina de café. Como não conversava com nenhuma daquelas máquinas orgânicas, pegava-se por muitas vezes conversando com o caixote de café expresso. Comentava sobre futebol, problemas pessoais e tantas outras coisas. Brincando, já lhe convidou a um jantar em sua casa e, no dia seguinte, queixou-se delicadamente, inquirindo o porquê da falta ao compromisso. Ria baixinho, mas de fato, aquela era uma ótima companheira de trabalho. Não se sentia mal por isso. Mas, às vezes, sentia falta de uma resposta além do monossilábico apito de que o café estava pronto.
Final do expediente, tarde da noite. Era o único ali, ainda trabalhando. Em verdade, sentia-se melhor ao trabalhar completamente só, com a luz de seu cubículo acesa e todo o resto apagado. E observava pela janela. Observava a noite que se derramava sobre a cidade, com grossos pingos de uma tinta escura, de um tinteiro invisível e tão imenso que conseguia cobrir todo o céu.
Foi até sua companheira, cumprimentou-a de forma breve. Procurou no fim dos bolsos até achar uma única moeda. Conferiu seu valor com o tato, segurou-a entre os dedos e de forma rápida, inseriu-a no lugar correto. Fez sua escolha, apertou o botão e esperou alguns instantes. Ela não respondeu com seu típico monossílabo. Ele apertou algumas vezes o botão para que a moeda fosse retornada. Inseriu-a novamente, repetiu o processo, mas dessa vez escolheu outra opção. Chocolate ao leite; apertou. Algum tempo depois a máquina estremeceu e entregou-o um copo com leite. Leite puro e quente. Ele então se afastou chateado daquela máquina, que, no final das contas não era diferente de todas as outras criaturas: uma máquina. Não suportava leite, mas tinha de bebê-lo a fim de evitar o desperdício da bebida e do dinheiro.
Por alguns dias não bebeu mais café. Sentia-se traído. Por necessidade de desabafo, porém, retornou ao mesmo corredor onde jazia aquela velha conhecida. Aproximou-se com uma postura séria, um olhar sério, um jeito sério. Depositou uma moeda. Escolheu café simples e sem açúcar, a mais barata das opções. Apertou. A máquina estremeceu como da vez passada, mas com um jeito de vida. Soltou inúmeros ruídos, apitos proparoxítonos, rosnados paroxítonos e sinais em sua tela, mas não apresentava mais aquela existência monossilábica de dias atrás. Ela então o entregou o maior copo disponível, com café adoçado, chocolate, leite e até creme. Surpreendido e arrependido, ele aproximou-se dela.
Sussurrou-lhe algo ao ouvido. O painel da máquina tomou a cor rubra nas bordas. Ele, então, repetiu o que havia sussurrado. Não se preocupe. Todos cometem erros. O importante é que somos diferentes de todos os outros. Ela estremeceu de leve, soltou alguns ruídos incompreensíveis e lhe bufou um pouco de ar quente na mão. Ele então voltou ao trabalho, esperando ansiosamente o horário do almoço, onde poderia contar à companheira sobre tudo o que lhe aconteceu nos dias em que se manteve ausente de uma conversa humana. Humana. Porque estavam, os dois, rodeados por máquinas orgânicas, com suas dermes semipermeáveis de rija e fria consistência inexata.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Manifestação de amigos.
irremediavelmente
numa dúvida de ir
de vez ou só partir
de mentira
vão me armar
uma mesa de madeira
com meio litro de amor
e dois dedinho de birita
(e morto mesmo,
só na hora de
acertar a conta.)
Caso de paternidade
INTIMAÇÃO. Intimamos vossa senhoria a prestar contas no julgamento que ocorrerá dia oito, próxima quinta.
E o comparecimento era obrigado por lei, claro. Todos os destinatários da intimação deixaram suas humildes residências, nos confins mais densos de onde estivessem, para prestar presença ao tribunal, no tal julgamento, que ninguém entendia direito. Aos poucos, todos os lugares foram preenchidos. Casa cheia. Lotada, na verdade. E ninguém ainda entendia direito o que se passaria ali, ou o motivo de tudo aquilo.
Ao lado esquerdo, amontoavam-se os membros da comunidade de onde provinha a “vítima”. Dentre eles, índios, professores, pesquisadores, pescadores, médicos, curiosos e bêbados. E ali, estava também a família da vítima, pai, mãe, irmãos, tios e cachorro. Ao lado direito, enfileirada na maior diversidade já vista antes, estava a comunidade de onde provinha o “acusado”. Dentre eles, sacis, lobisomens, mulas-sem-cabeça, o Uirapuru, a Cobra Grande, a Cabra Cabriola, a Caipora, o Boitatá, a Curupira, a Mãe D’água e tantos outros, inclusive a esposa do acusado. O juiz adentrou no recinto. Todos de pé. Em voz alta é iniciada a sessão daquele julgamento.
INICIADA A PRIMEIRA SESSÃO DO JULGAMENTO POVO CONTRA O SENHOR BOTO - COR-DE-ROSA, POR ACEITAÇÃO EM PATERNIDADE. O JUIZ, EXCELENTÍSSIMO ALFREDO PAULO RODRIGES, ENCONTRA-SE NO RECINTO, NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA ALTA AMAZÔNIA.
Podem sentar-se, ordenou o juiz. Os advogados cumprimentaram-se e cumprimentaram o juiz. Cada um em seu lugar e o julgamento finalmente iniciou-se. O advogado de acusação, um homem alto e magro, apresentou os fatos e em seguida as provas. Tomou certo tempo até que toda história fosse posta diante do júri. E então, sem mais o que apresentar, Luiz concluiu a abordagem dos fatos. A advogada de defesa subiu até o palanque e fez suas considerações sobre o caso, Apresentou a história de outra maneira e demonstrou provas de um álibi. A advogada, alta e corpulenta, com enormes olhos amarelos de serpente, uma gigante cauda espinhosa, garras compridas e um grande focinho de jacaré, apresentou os fatos ao júri e ao juiz. Terminada a longa abordagem, a Cuca, concluiu sua apresentação.
Testemunhas chamadas. Desde os pais da moça, a própria moça (a vítima), a esposa do Boto - cor-de-rosa, amigos e familiares, havia certa divergência na estória. O tempo passou e nada foi decidido. Júri indeciso, sem entender muito dos fatos. O mesmo por parte do juiz. Depois de horas de intenso bate-boca, durante dias e mais dias, houve novamente a apresentação dos fatos com conclusão dos advogados. Luiz contou a história lentamente, sem pressa alguma. Esta pobre moça, de família respeitada e conhecida em sua comunidade foi abusada de jeito cruel pelo acusado. Foi seduzida, aliciada e engravidada pelo mesmo. Sete meses atrás, em uma noite igual a essa, o senhor Boto - cor-de-rosa deixou sua moradia, no rio Amazonas, transformou-se em um rapaz com o intuito de seduzir e ter relações com uma moça qualquer. Que, nesse caso, foi essa pobre coitada. Resultado? Engravidou-a! E quando inquirida sobre quem havia feito aquilo, a pobre moça, aturdida, revelou o nome do acusado, que está aqui, diante de vocês.
Cochichos por toda a parte. O pesado martelo do juiz bateu algumas vezes, comandando ordem. Silêncio restaurado.
A Cuca dirigiu-se à frente dos jurados. Limpou a garganta, grasnou de leve, balançou o rabo. Boto - cor-de-rosa. Criatura de bem, fiel, pai de família e respeitado por todos nós, foi trazido a julgamento através dessa piada por pessoas sem fundamentos morais ou éticos. Por uma conhecida estória, uma ladainha, uma peripécia dos costumes, o Boto foi acusado de um crime, do qual é totalmente inocente. E provo através de um álibi inegável: na noite em que a moça disse ter relações com o acusado, o rio estava durante a Pororoca! Ou seja: impossibilitando a saída de qualquer criatura do rio! A moça teve relações com um rapaz qualquer e, como de costume aqui na Amazônia, botou a culpa no acusado. O filho então é de quem? “O filho é do Boto”. Reflitam sobre isso, que, torna-se inclusive, um caso de preconceito.
Cochichos por toda a parte. O pesado martelo do juiz tornou a castigar o ouvido de todos. Ordenando silêncio. Silêncio mais uma vez restaurado.
Horas passaram-se. O júri enfim decidiu o que havia de ser feito. O juiz concordava totalmente e, assim foi feito: esperar até que a criança nascesse. Assim, através de semelhanças visuais, teriam ali o veredicto. O tempo passou.
Contrações, chororô, gritaria, chama a parteira. Parteira na porta. Inicia-se o parto. Parto complicado e demorado. Tempos depois, Josefa, parteira lendária daquelas bandas, aparece pra dar a notícia à multidão do lado de fora da casa. Todos se amontoavam, mais uma vez.
Se é filho do Boto, não sei. Mas nasceu pulando numa perna só e pedindo uma cachimba com mato pra fumar. E o tribunal supremo da Amazônia presidiu, no dia seguinte, duas sessões:
Pensão alimentícia e divórcio do saci.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Átomo
de toda matéria
é etérea,
é fluida e nega
a razão de viver.
Átomos da saudade
pulsam e vibram
em sua vasta nuvem
de existências solitárias.
Um momento nuclear
é a derivação
do contato molecular:
a primeira gênese química
e o último apocalipse quântico
do fim.
6 de agosto.
Chegou de táxi até o aeroporto. Esperou alguns minutos e embarcou em seu avião. Estava a caminho de sua cidade natal. Mudou-se ainda jovem, mas nunca havia se acostumado totalmente com aquela vida, tão longe de casa, apesar de tudo. Sabia que sua cidade natal, depois de tudo, não era a mesma. Desde seus catorze anos, dos passeios no campo, da namorada, dos amigos e brincadeiras, não era a mesma. Afundou-se na poltrona, puxou o lençol até o pescoço e adormeceu, acordando apenas no ponto de conexão. Onde, fora alguns atrasos, tudo ocorreu como previsto.
Observou as nuvens branquinhas, cortadas por aquele pássaro de metal, tão semelhante aos três manons vermelhos que haviam cortado o céu sessenta e quatro anos antes. Observou a mudança nos tons do céu, na espessura das nuvens e no passar do tempo. Leu um pouco, até pegar no sono. Acordou no momento de tomar sua última conexão. Sem atrasos, dirigiu-se ao avião, que partiu rapidamente, deixando a Cidade Luz pra trás. Comeu finalmente, vencido pela fome. Sentia-se nervoso e um tanto enjoado, por isso dificilmente comia no avião. Comeu pouco, mas, satisfatoriamente bem. Por sua frágil aparência, atraia a atenção das aeromoças, que perguntavam periodicamente se precisava de algo. Só chegar logo. Não se preocupe, chegaremos. Observou a noite cair sobre as asas do avião, transformando-as em pérolas planas, flutuando num espaço quase sem fim. As luzes de Tóquio brilhavam no reflexo das janelas. Senhor Itusro Okani? Estão aguardando o senhor na sala de espera. Avisou a gentil aeromoça francesa, num inglês polido e perfeito. Quase não utilizava seu nome de batismo. No Brasil, era simplesmente conhecido como Oka, apelido dado por seus alunos. Oka lecionava no curso de belas-artes, desde sua fundação. Era membro respeitado e histórico, além de pintar como ninguém.
Assim que o avião pousou, encontrou-se com sua companhia, um primo de Osaka. Depois de horas de silêncio, numa viagem cansativa de carro, chegaram ao destino, na cidade natal do renomado professor. Oka levantou-se com ajuda de seu primo. Caminhou vagarosamente até o mirante e pediu que fossem ao memorial. Sem mais delongas, ambos entraram no carro e tomaram o rumo desejado. Depois de meia hora chegaram. Oka não demonstrava cansaço. Demonstrava uma disposição absorta e inacreditável para alguém de sua idade. Muitos dos passageiros, mais jovens que aquele senhor, estavam dormindo, desmaiados devido a longa e desgastante viagem de conexões e esperas.
O velho olhou no relógio. Oficialmente meia-noite. Engoliu seco, abaixou a cabeça e fez uma curta prece. Seu primo reduziu a velocidade e fez o mesmo. Oka enxugou as lágrimas de seu rosto frágil e cansado. Normalmente japoneses tendem a envelhecer menos, mas, graças à vida difícil, o professor envelheceu mais rápido do que poderia se imaginar. Ao chegar finalmente no local, seu primo olhou em seus olhos de um modo profundo e machucado. Lembrou-se novamente dos três manons silvestres que sobrevoaram o céu, naquela manhã de agosto. Um deles deixou cair alguma coisa. Como qualquer outro garoto, acreditou que era um pequeno cogumelo, alimento típico daquele pássaro. E, lembrava-se, era a mais linda das manhãs. Seus olhos encontram os de seu primo.
Meia-noite? É. Sessenta e quatro anos, então. Exato... Sessenta e quatro anos desde que saí de Hiroshima.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
De braços abertos
abandonada nas ondas,
vagando devagar por onde olhos
pudessem acompanhar.
"No mar estava escrita uma cidade"
varrendo distâncias
e longos carneirinhos brancos
pulavam falsas marolas
e transformavam lembrança
em pôr-de-sol.
Era sempre início
no mesmo Janeiro sem fim:
"No mar estava escrita uma cidade".
A proposta.
Ao sair de casa, notou uma enorme lua amarela que o observava de longe. Entrou no carro e lentamente foi até seu destino. A lua o seguiu por todo o caminho, observando seus movimentos na distância da noite. O rapaz chegou ao cais, saiu do carro, caminhou em direção a uma garota. Deu-lhe um longo beijo. Entraram no restaurante e jantaram, e riram, e comeram e beberam. No fim da refeição, ambos foram até o cais, observados pela lua amarela, agora escondida por entre as nuvens. Tingia-se aos poucos de um vermelho ciúme, leve cor de rubi. Nuvens escuras e pesadas encobriam sua cor e parte de seu brilho.
O coração do rapaz batia acelerado. Batia mais forte. Sentia como se, em galopes, o coração fosse lhe trair o peito e correr até não poder mais. Respirou fundo. Controlou seu corpo trêmulo – como pôde. A lua de tom vermelho-sangue pairava no céu. Enfiou as mãos no paletó até alcançar a pequena caixinha. As estrelas piscavam no céu, com intervalos semi-definidos. A garota arregalou os olhos. O rapaz puxou lentamente a mão cerrada. Dois marinheiros bêbados caminhavam ao longe, do outro canto do cais. A lua enterrou-se nas nuvens. O mundo parou.
Quer casar comigo?
As estrelas piscaram e permaneceram em seu brilho. A lua esgueirou-se por detrás das nuvens. A garota disse não. Explicou que havia outro e que estava grávida. O mundo tornou ao movimento. Os velhos embriagados cantavam alguma música do alto-mar. A brisa machucava a areia fina, as ondas rastejavam devagarinho até a costa úmida. A garota levantou-se e foi embora. A lua saiu aos poucos de sua cobertura. As estrelas piscaram lentamente.
O rapaz continuou ali, sentado no cais, embora sozinho. Ao menos era o que pensava. Pensou em jogar o anel fora, mas não o fez. A lua, branca piedade, aproximou-se do rapaz. Demorou a ser notada mais uma vez. Assim que o rapaz olhou com seus olhos tristonhos, a lua envolveu-o em seu brilho branco-abraço. E não havia dúvidas. O rapaz estendeu a pequena caixa.
Sim, sussurrou a lua. Sim.
Português neo-sentimental.
é eufemismo
fixo de cortejos,
para dizer adeus.
Afaga a mão no peito,
antes que trague
- de algum jeito -
a antítese da separação.
Já vou-me embora,
então faz-me uma elipse
dessas lágrimas roladas no chão.
Me promete então,
nas mais vagas idéias:
-suspira onomatopéias
quando eu partir.
O lixo da rainha.
Era, como em todas as manhãs, uma rotina comum em Londres. Escola ou trabalho ou casa ou qualquer outro lugar. Tudo seguia seu curso natural, num formigueiro ilhado e orquestrado. O barulho dos calçados nos ladrilhos, dos cochichos nos metrôs e dos trilhos trincando suavemente. O distrito real funcionava da mesma maneira como fazia todos os dias. A Rainha, lentamente, observava a presença do sol pela vidraça do Palácio. Tudo corria normalmente. Ou ao menos, era o que se pensava. O serviço especial do Palácio movimentava-se aflito e rapidamente. Um escândalo! O sol, que tudo vê, percebeu a confusão em Buckingham. Estendeu seus longos tentáculos, apoiando-se nas beiradas, frestas, expressões, espelhos e onde mais possível. A notícia espalhou-se. O céu deixou seu cinza tímido e permitiu escaparem as nuvens até o distrito real. E agora? O que fazer?
Procurou-se no aposento real. Depois em todo o Palácio, no distrito, na região. Em poucos instantes, a busca estendeu-se por toda a capital. Anúncios na TV explicavam o ocorrido e ofereciam uma gorda recompensa, com direito à condecoração da própria rainha, que continha seu desespero de forma magistral. A Inglaterra inteira estava na busca. Aquilo poderia estar em qualquer lugar da grande ilha britânica. A própria madre-real fez um comunicado, comentando sobre o ocorrido e enfatizando a importância daquele ilustre objeto. E repetia significativas e inúmeras vezes: essencial! Os dias passaram-se. Logo uma semana. O anúncio (com recompensa e discurso real) estendeu-se à Europa, depois ao mundo. O mundo todo estava na frenética busca.
A rainha, que não era de assistir televisão, precisava manter-se informada. Os jornais e informativos não falavam de outra coisa. Muitas pessoas largaram seus empregos para que a busca fosse mais satisfatória. Muito dinheiro foi gasto com detetives e investigadores particulares. Conflitos entraram em trégua momentânea. O sol brilhava mais forte que nunca, tentando talvez, encontrar alguma gama reluzente daquilo que se encontrava perdido. Em vão, porém. A única semana transformou-se logo. Eram duas. Três. Até que se formou um mês. Feito loteria acumulada, a recompensa aumentava paulatinamente. O mundo havia parado, enfim. A recompensa já não era tão importante, mas encontrar aquele objeto e o retornar a sua legítima dona: a rainha da Inglaterra. A comoção mundial era inegável. A rainha, mais do que debilitada, entrou em seus aposentos. Sentou-se na cama e ligou a modesta televisão. Mudou os canais em busca de algum informativo, até que se deparou com o noticiário brasileiro, da rede mundial de notícias. Ativou o tradutor em legenda.
“Receita Federal Brasileira encontra mais 25 contêineres com lixo inglês em Santos. Dentre CDs, peça de computadores e dos mais diversos tipos de lixo tecnológico foi encontrada uma coroa com um enorme rubi. A peça tornou-se motivo de disputa entre os catadores e urubus da baixada Santista.”
Oh my God! Gritou a rainha sem coroa, num misto de desespero, alívio e surpresa.