domingo, 27 de dezembro de 2009

O arco-íris (de um telhado)

Do céu
fez-se surgir
em tiras galopantes,
no azul cacete,

o multifacetado puteiro
de cores incandecentes.

Até sua queda desesperante
na falsa morte
que se persegue,

peixes-pombo
comiam migalhas de pão
nas mãos dos deuses.

Em algum lugar.

Em algum lugar, ambos entraram mudos. Ela recostou os pacotes do supermercado na batente da porta da cozinha, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, xampu, enquanto ele despia o casaco. Fazia frio. Pensou em acender um cigarro, desistiu da idéia, jogou o isqueiro e o maço em cima da mesa, continuavam mudos. Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.

Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também, e não havia nenhum motivo em especial, além de que fosse aquele motivo.

Além de ser mais outro motivo, outro aquém entre vírgulas e um cochicho na cidade. O pensamento foi o mesmo, telepatia, letargia, consentimento, convívio, coincidência, providência divina, providência profana, clímax contextual, chame como quiser. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, ela olhou em seus olhos – ele já havia trancado a porta, bebido um copo d’água e roçado os pés descalços no chão. Mas, a que não restasse qualquer tipo de dúvida, me coma. Ele já havia entendido. Com ou sem explicações, me coma no chão e despiu a saia.

Ele, como qualquer bom galã – sem ao menos ser tão bonito – folgou as calças, soltou os botões do colarinho, e a qualquer maneira digna – ou não – ela que lhe abrisse a camisa, enquanto os dedos dele se enrolavam pra abrir o sutiã. Não era uma cena de filme, não era um livro garboso, era a vida real, mais noir do que as estrelas do céu. Ela não teve paciência com os botões, costurasse aquela porra depois, ele embolou os dedos no sutiã, foda-se que depois a compro outro, ela rasgou a camisa, ele arrebentou os grampos.

Ele não tinha corpo escultural, não fumava cigarro de marca e muito menos tinha olhos azuis. Ela tinha longos cabelos negros –alisados – e de pontas duplas. Gordurinha localizada, quadris largos, seios médios – um consideravelmente maior que o outro. Ele tinha miopia e ficava horrível de óculos, ela tinha lábios finos e ficava horrível de batom, mas insistia em usá-lo. Ele fedia a perfume barato e ela a perfume francês vagabundo. Nele, considerável parte da cabeleira era rescindida por fios grisalhos, enquanto ela tinha uma cicatriz no joelho. As pernas dele eram cabeludas, tinha pança, seios masculinos e barba mal feita, ela tinha unhas roídas e calos nas mãos.

Despiram-se, derramaram-se lentamente no chão, trepavam antes com as línguas, corrompiam boca a boca, mordiam lábio a lábio, mordiscavam os queixos, os pescoços. Ela só de calcinha, ele de cueca. Ela assumiu o controle e beijou todo o corpo, segurou-lhe as mãos, descia mais e mais, mordia-lhe em pequenos pontos da barriga enquanto pressionava os pulsos, propositalmente. Os filhos estavam na casa dos tios pelo fim de semana todo, brincando com os primos, não haveria problema. Descendo pelo corpo dele, como lesse o braile, roçou o lábio por sua barriga avolumada. Baixou a cueca dele com a boca, o pau levemente entortado à direita balançou no ar, como mastro recém levantado, e até alguns dos pentelhos eram grisalhos. Removeu-lhe completamente a cueca, soltou-lhe as mãos e ousou olhar para seus olhos negros com seus olhos negros, como espreitasse carne fresca. Seguiu lambendo suas coxas firmando caminho até seu saco, deu uma mordiscada, ele sempre adorou, ele fisgou ar com o canto da boca. Ela agarrou aquele mastro, beijou-lhe em direção da cabeça, masturbou-lhe um pouco, até que, sedenta, pôs-lhe na boca.

Roçou os dentes de leve, provocou bastante, ele fisgava ar e gemia como quem queria meter naquele instante, e seu corpo lhe empurrava a estocar. Ela lambeu a cabeça, brincou, lambeu todo o comprimento, ele estava louco, de pernas deitadas e mesmo assim bambas. Chupou até notar que sua rijez estava melhorada e assegurada, ele quis vingar, também deixá-la ensandecida, engoliu o próprio tesão por tempo suficiente. De súbito agarrou sua cintura com força, suspendeu-a com força, tateou sua camisa e amarrou as mãos atrás das costas. Ela riu surpresa, mordeu os lábios, ele sorriu maliciosamente.

Lambeu-lhe o corpo todo, beijou suas saboneteiras, as adorava. Segurou-a firme pela cintura, mordeu sua barriga, sugou-lhe os seios e partiu em diagonal até os mamilos, perdidos de duros, escuros, e quando aproximava-se, ela arfava cheia de tesão, ele parava, apalpava-lhe as nádegas e repetia tudo. Enfim, mordiscou e chupou seus mamilos, ela gemia baixinho, contorcia-se de mansinho. Ele descia os dedos, um a um, por seu corpo, abriu suas pernas lentamente – mesmo demorando em seus seios, um maior que o outro. Desceu sem tirar a boca do corpo, mordiscou-lhe as virilhas, sugou-lhe as entrecoxas, cravou os dedos nas nádegas, já beliscadas de estrias. Ela sorria. Gemia mais ainda.

Expirou ar quente próximo a púbis, cruelmente ria com os hms e ais que ela deixava escapar. Separou-lhe os lábios e expirou de novo, ela revirou os olhos e riu. Ele lambeu rapidamente, ela enlouqueceu, abriu a boca, gemeu. Cuidadosamente, fez com que o clitóris saltasse, lhe cumprimentou aparentando suculência. Não necessitava emendas ou qualquer tipo de pré-apresentação, Fez bico e sugou devagar, enquanto ela beirava a morte, perdia o ar e a voz ao gemer sem rodeios. Assim como tudo mais, ela estava ensopada. Ele sempre amou aquele gosto de boceta, que toda boceta digna e toda mulher de verdade é obrigada a ter. Ela se perdia, contorcia, revirava os olhos, explodia, gozou uma, duas, e antes que gozasse terceira vez, ele parou. Ela respirou ofegante, tentando recuperação.

Sua boceta pulsava. Enfiou dois dedos bem devagar, viu que os olhos dela perderam-se nas órbitas e que seus pulmões haviam desistido de um ritmo, todo seu corpo pulsava, além da própria boceta. Masturbou-lhe lentamente, enfiou um terceiro dedo e passou a sugar-lhe o clitóris. Terceira, quarta, quinta vez. Com a força de uma mulher na ânsia da penetração, ela rasgou a camisa, o agarrou pela cintura e fez com que cedesse. Sem rodeios, sem enfeites, sem folia, ela queria aquele pau, duro e torto, dentro dela, cravando fundo, estocando descontrolado. Ele, provocando-a, penetrou somente com a cabeça, foda-se, agarrou-o pela cintura e puxou com força, foda-me. E gemeu, sexta vez. Ele também gemeu, soltou-se enfim.

Me fode mais forte, não adiantaria compasso, ritmo, sutileza, ambos queriam sentir o chão ralando seus corpos, o gozo, e o resto que fosse pro inferno. Ela gemia, ele também, as estocadas eram cada vez mais fortes, intensas, ele sentiu-se homem, ela sentiu-se mulher, ambos ensopados. E durante o terceiro ou quarto orgasmo – ela não saberia dizer – ele gozou, esporrou e a segurou com força, alfaces, tomates, cebolas, óleo, detergente, papel higiênico, sabonetes, bife, cotonetes, bananas, homem, pasta de dente, inseticida, pilhas, feijão, mulher, arroz da promoção um quilo a mais, manteiga, porra e xampu espalhados pelo chão.

Em algum lugar se bebia uísque, apagavam-se velas de aniversário, a lâmina da faca era enterrada no peito de alguém, fumava-se um cigarro, e mais outro, um casamento acontecia, um namoro acabava, um bebê nascia, um carro despencava da ponte, um avião decolava, Ella Fitzgerald cantava You cant’ loose a broken heart em algum aparelho de som, uma corda de violão arrebentava, os Stones arrebentavam, a saudade crescia, a indiferença também. E de certo, ao menos agora, alguém também trepava no chão da cozinha, mesmo com seus trinta e pouco anos.

Carros passavam sobre as poças próximas às calçadas, a água respingava e banhava os ladrilhos – e por vez, alguns transeuntes. As placas estavam ensopadas, os carros estavam ensopados, as pessoas estavam ensopadas, as ruas estavam ensopadas, as nuvens (ainda) estavam ensopadas, casais estavam ensopados (também por dentro), os táxis e seus taxistas ensopados, as putas e as freiras ensopadas, os viciados ensopados, os motéis ensopados, e faltava pouco para se contar o infinito molhado.

E não há nada mais erótico do que esquecer a rúcula no porta-malas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Kishou

Tempo, luz parada
em contínuo movimento;
momento, mais nada.

Sinceridade

Não sabia exatamente o que fazer, ao menos conscientemente. Decidiu deixar tudo por conta de seus instintos, seu corpo guiaria sua mente, suas intenções. Talvez fosse a primeira vez dela também – ou não. Sua cabeça ameaçava explodir, seu corpo estava prestes ao despedace – se entregue. Quem sabe caso analisa-se melhor a situação, repensaria – se entregue – no que fazer, ou não fazer. A cidade, aos poucos, corrompia a madruga, era possível ouvir seus gemidos, seus grunhidos. Não seria nada demais, ou fosse escandaloso – se entregue. Não adiantaria lutar, resistir seria bobagem. Baixou a guarda, ouviu a voz com mais clareza, ofegante, quase que ao pé de seu ouvido. Mas estava dentro de si. Se entregue.

As venezianas do banheiro impediam que a cidade observasse qualquer detalhe do que se passava ali. Não era necessária a presença de mais ninguém, no entanto. Olhou-se no espelho, apoiou as mãos na pia. Tinha cabelos longos, livrou uma das mãos do apoio, reuniu as mechas, tufos e fios, enrolou-os e prendeu com um elástico, antes abandonado ao lado da torneira, agora separava os cabelos da face. Ainda olhava-se no espelho, notou as maçãs do rosto. Notou as falhas, os olhos, as olheiras, a boca, os lábios, o queixo, a cicatriz da infância. Tocou-os lentamente, passava seus dedos, sentia a textura da existência, da sua existência, que por algum motivo parecia distante de si.

As roupas estavam no quarto, no chão. Ela também. As roupas dela também. O chão abraçava todos, o chão queria, mas não poderia engolir nada além da gravidade dos corpos nele jogados. Respirava lentamente, de um jeito ansioso. Talvez fosse sua primeira vez. Sua existência, por algum motivo, parecia distante de si. A ponta de seus dedos tocava sua face, mas era como se estivesse dormente, latência. Olhou seu corpo. Não era um corpo escultural, muito menos o que pudesse dizer bonito. Mas inspirava alguma coisa. Era estranho, mas sim. Inspirava sensualidade, charme pelo simples fato de existir. Mordeu os lábios. Tocou a maçaneta, fria. Seu corpo, antes dormente, agora estava intensamente sensível.

Uma descarga elétrica percorreu seu braço, chegou à espinha. A maçaneta fria havia eriçado os cabelos de sua nuca. Sentiu, de forma inesperada, vontade de se masturbar. Não, espere mais um pouco. Decidira seguir seus instintos, sua verdadeira voz, que lhe sussurrava ao ouvido, por dentro. A mão já estava no fim da barriga. Pressionou os dedos contra a palma, girou a maçaneta. Abriu a porta, o ranger revelou a passagem para o quarto. Lá estava ela, no chão. Ela e as roupas abandonadas, sem vida. Sua respiração tornou-se mais profunda, ainda sentia vontade de masturbação. Pressionou os dedos ainda mais. E ela ainda estava lá.

Sentiu o sangue fluindo por todo corpo. As cortinas, brancas como ela, debruçavam sobre o espaço, chacoalhavam, acusavam a presença do vento. Olhou em seu rosto, um sorriso malicioso. Como não bastasse sua nudez e a noite fria, o sorriso malicioso. Não, vá devagar. Custosamente, obedecia. Passo ante passo aproximou-se. Ela estava deitada sobre um lençol branco, longo, talvez não achasse fim. Inclusive, usava uma das beiradas pra encobrir as pernas. Inclinou o corpo, lentamente deitou-se ao lado dela, de sua pele macia, e por algum motivo, sua existência parecia distante de si.

Hesitou por um instante, não se segure, não o fez. Esticou o braço, ela fechou os olhos, mascarou o sorriso em satisfação, movimentou-se por debaixo da beirada de lençol, os contornos tornaram-se significativos. A mão encontrou um seio, a respiração dela soou ofegante, um quase-gemido abafado. Não se segure. Com a outra mão, agarrou-a pela cintura, firme. Apertou seu corpo contra o dela, não havia resistência. Notou os mamilos endurecidos, a boca entreaberta, a respiração mudada. Não se segure. Prendeu-a mais forte em seus braços, pressionou sua cintura, beijou-lhe, agarrou sua boca com a própria, penetrou seus gemidos e abraçou-lhe a língua, uma curta convulsão no corpo dela. Beijou-a devagar, mas intensamente. Ouvia gemidinhos dentro de sua boca. Mordeu seu lábio e soltou seu corpo por um instante. Ela trançou seus braços por sua nuca, puxou-lhe, submeteu boca, à boca, percorreu sua língua.

Não precisava mais de avisos, de significativas advertências, sabia exatamente o que fazer sem ao menos sabê-lo. Tomou o peito em sua mão, agarrou de leve, pressionou, manteve o mamilo entre os dedos, imprimiu-lhe certa pressão, sentiu o corpo dela contorcer de tesão, a boca escapou do beijo e gemeu baixo. Roçou o pescoço com os lábios, respirava firmemente, o ar quente fazia com que ela ficasse mais arrepiada, contorcesse mais. Com a ponta da língua percorreu todo o pescoço, várias vezes, até que pudesse sugá-lo, mordê-lo, sentir as vibrações do corpo dela e as do seu. Foi com a mão até o outro seio, contornou-o com os dedos, em espiral, até que apertasse o mamilo, endurecido ao centro. Pressionou seu corpo com mais força, um novo espasmo, mais gemidos que esvaeciam. Desceu pelas saboneteiras, roçando os dentes na pele.

Crava seus dedos em suas costas, ela aprova, geme mais forte. Arranha com suas unhas curtas, deixa marcas vermelhas em sua pele branca, ela geme, se contorce, pede mais sem ao menos proferir uma palavra. Sua língua desce ao encontro do seio, mas pára. Ela não entende, pensa em perguntar, o que houve. Não, não houve oportunidade. A mão das costas agarrou sua nádega, apertou, ela adora, ri desconcertada. A língua lambe o seio, a boca chupa a carne e em espiral aproxima-se do rubi cravado na pele. Respira firme, sabe o que está fazendo, o ar quente que expele faz com que ela contorça mais e mais. Não há pensamentos, ações. Por algum motivo, sua existência parecia distante de si. O gosto daquela pele era incrível.

Tocou o mamilo com os lábios, ela provou parte do êxtase, gemeu mais forte, agarrou-lhe as costas e cravou as cumpridas unhas. Não havia porque se segurar, e nem mesmo a voz se fazia presente. Mordiscava rapidamente, lambia, sugava, o corpo perdia-se sobre o lençol, as unhas trilhavam o caminho nas costas. Agarrou a bunda com maior firmeza, cravou os dedos na nádega, envolveu-a com fome, com desejo. Em espiral, repetiu o mesmo no outro seio, sugou-lhe com força, com tesão. Queria mais. Queriam mais. O corpo pedia mais, o lençol pedia mais, a noite pedia mais, as venezianas do banheiro pediam mais, o chão pedia mais, as roupas pediam mais. Os corpos pediam mais.

Com a outra mão, agarrou-lhe a coxa. Desceu sentindo as costelas e a pele com o queixo, logo em seguida provocando o corpo com a ponta da língua, fazia de labirinto e se perdia consciente. Vagava, mordeu de leve, ela riu, ela gemeu, ela não agüenta mais. Agarrando-a, agora, pelos quadris, puxa com a boca o lençol, lentamente. O lençol branco, de alguma forma inexplicável, mais branco que sua pele, desliza suave por entre as formas. Finalmente, nua. Por alguns instantes observa. Lê sua pele, suas pernas, as coxas. Nota os pêlos, roça uma das mãos, sente na palma, ela tem um espasmo intenso, contorção de todos os músculos do corpo. Abriu suas pernas lentamente enquanto lambia suas coxas, deslizava para entrecoxas. Subia à virilha, via a boceta. Não havia querer, só o fazer. Não precisou querer tocá-la, simplesmente a tocou.

Comprimiu os dedos, roçou suavemente, ela perdeu o ar por alguns segundos. Afastou-lhe os lábios, estava molhada, loucamente molhada. Com seu indicador percorreu o caminho até o clitóris, ela gemeu e logo perdeu a voz. Mordendo-lhe a coxa, afastou mais as pernas. Queria sentir seu gosto, gosto de mulher, gosto de boceta. Aproximou-se, respirou firme e expeliu o ar quente nos lábios afastados, o coração dela explodia para fora do peito, soltava gritinhos, e gemidos, e contorcia minúsculas partes do corpo, até então desconhecidas. Encostou os lábios nos lábios, usou-os no afastamento, lambeu. Ela não agüentou, colocou as mãos em seus cabelos, puxou. Não era satisfação completa, queria mais. Queriam mais, todos e os dois.

A língua encontrou o clitóris, deslocou-se por cima, ela gemia com a voz que lhe restava. E o gosto de boceta lhe preenchia, como que uma nova existência, real, segura, diferente de qualquer outra que já tivera. Chupou por entre os lábios, pressionou a língua, expeliu o ar quente. Mal começara e ela estava a ponto de gozar. Seu corpo tremia. Sua voz não tinha mais controle gemia loucamente. E ali, experimentando o gosto de mulher, finalmente sentia-se bem. E só de lhe chupar, de lhe penetrar com a língua, estava bem. E por algum motivo, que não importava mais, tanto ao espelho ou à maçaneta que deixara pra trás, sentir o corpo de outra mulher a fazia real.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Muiraquitã

Sou um todo:
partes sem parte,
um todo sem separação.

Na pele, no pêlo,
no nó do cabelo

que é liso e crespo,
escorrido de mechas
nos meus olhos cor de pele,
vermelho-negro.

Enquanto meu
pop-tupi deságua
pelo grosso do meu beiço,

meu nariz afinado
reconhece o cheiro
da polenta com caruru

que ma abuela cabocla preta
preparou usando o lenço

penso, presente
de titio nipo-lusitano,
hermano judeu,

jogador de futebol

no time do mascate chinês,
flanelinha profissional
e sambista de aluguel

desde mil quinhentos e tal.

Esvaecer.

Havia motivo de preocupação.
Seus olhos eram perdidos em alguma coisa, jogados contra alguma coisa. Respondia a estímulos externos, até quem sabe quando. Chamavam seu nome algumas vezes, ele ouvia, balbuciava, respondia qualquer coisa. Dada por satisfeita ou desistente, iam embora. Quando o assunto pedia por resposta menos monossilábica, insistiam até que certa impaciência acobertasse qualquer traço de voz. Pigarreio, como fumasse constantemente, demorava alguns instantes até a fala, como precisasse lembrar como fazê-lo. Largava alguma coisa no ar, Oi, ríspido. Quem estivesse acostumado, persistia. De qualquer maneira, ele compunha uma resposta rápida, semi-mecânica, seu corpo era como vazio, o espírito talvez tivesse lhe deixado, caixa craniana sem cérebro, ou talvez simplesmente no uso não físico.

Não havia motivos praquilo. Ao menos, não os já discutidos, sanados. Tudo estava bem. Sua esposa preocupava-se, seus filhos não o reconheciam. Aposentado, sentado, aparentemente imóvel. Não. Movimentava-se displicente e independente de qualquer outra coisa. Lembraram um dia, seus irmãos, de quando era menino, e tinha cismado em sumir. A mãe sabia que era coisa de moleque, arte de menino. Foi à venda, comprou farinha fermentada, leite, ovos, fez bolo, deixado a esfriar na janela do quarto dos meninos, onde seu filho estava, imóvel, sentado no beliche. Mal deu tempo de ir lavar as mãos, voltou e não havia bolo, muito menos alguém ali. Menino estava na terra, Não brinca na lama, meu filho, como adiantasse de alguma coisa. Dizia por dizer, era alívio de mãe. O menino não tinha dormido e nem comido nos dois dias anteriores. Era manha de bolo.

Agora era macaco velho, sem lama pra se enfiar, sem gude pra tocar, gritaria e poeira de rastro de rolimã. Era macaco velho, tinha esposa, filhos. Sua mãe, Doracile, por complicações respiratórias, morrera alguns anos antes. Era ótimo funcionário na firma onde trabalhava. Pontual, exemplar, disciplinado, amigável, eficiente. Aposentou-se feliz, deu por satisfeito o tempo de emprego, sentiu que havia cumprido sua tarefa. E do mais, suas costas e visão não permitiam mais nada, e mesmo o pensamento lhe feria o corpo, por vezes. Perfurava o éter do ar, sabia-se lá com o quê. Justino ficava lá, parado, fitando alguma coisa, que talvez só existisse a seus olhos.

Chamaram médico, nada havia de errado, talvez fosse depressão, fadiga, stress. Era bem apessoado, brincalhão, simpático, paciente, compreensivo. Mas era possível, dizia o médico, era possível. Cria-se em demência repentina, pipoco do transformador da cabeça, curto circuito, fio queimado, idéias não se formavam e o corpo não respondia. O tempo passou. Comia de menos pra pior, antes que era carne magra, agora só pele em osso. Olhos recaídos, ainda perdidos em algum canto sabe-se lá onde. Os meninos já eram marmanjos, um casado, o outro terminando a escola, cabra-safado namorador.

Bença, Mãe. Deus bençoe, filho, gritava de dentro, enxugando a louça Seu pai tá na varanda, de costume, fazia-se ouvir aos berros. Dinha tá comigo, anunciando a presença da nora à sogra. O grito estarrecedor, o silêncio irrompido, o corte no vácuo, o soluço no espaço. A mãe vem correndo da cozinha, que houve meu Deus, aflita. E do batente viu a nora com as mãos na boca, o filho de olhos arregalados, pulou em passos, passou ligeira pela porta. E ali havia o nada. Na cadeira, só as roupas, vazias, sem dono. Não havia mais bolo de Doralice, nem lama, nem gude, ou rolimã. Apenas o vazio do tecido tocando tecido.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Anti-Romântico

Sou o anti-romântico,
digo que amo
sem dizer que amo.

Divago sobre Bruxelas
e avenidas, ruelas,
coisas absurdas e vadias.

Sentimento sem os 'estes',
fizestes, chegastes, deixastes,
calastes, enrolastes, enchestes
língüiça em alexandrinos mal-amados.

Sou o anti-romântico
icógnito do desejo,
revelo a paixão não
em estrofes quilométricas, mas no beijo
das línguas que se abraçam
na sinceridade inexata de um filme vagabundo.

Não faço amor,
trepo, transo, faço sexo
bebo e falo tríplices trupes
sem nexo; revelo:

meus decassílabos são contados
a partir da vigésima sétima casa decimal.

Sou o anti-romântico,
amo nos seios, na bunda, nas coxas, entrecoxas,
não tenho medo de dizê-los
pêlos, vagina, cabelos.

Anti-simétrico
anti-estético
anti-estático
anti-patético

dos que amam na intensidade de um palavrão,
proferindo a dor angustiada na falta
do bem-amado,

caralho.

E estamos no século vinte e um,
e ainda preferem o lirismo exacerbado, caralho.

Sou a favor
do amor sem frangalhos,
sem vertentes, estrepes,
caixa de marcha, cigarro,
caralho.

Sou o anti-romântico,
e amo desempedido,
não preciso me segurar:

poesia é o orgasmo literário
dos que gozam intensamente.

Seus olhos azuis.

Um casaco grosso de lã, vermelho e desgastado. A gola, grossa e quase sufocante, envolvia seu pescoço. Era algo aconchegante, naqueles tempos, naquele frio. Ainda sobre o casaco de lã, vermelho e desgastado, porém de gola materna, uma espécie de jaqueta azul escura. Reforçava qualquer dúvida deixada pela lã, antiga. Um short que pendia nos joelhos, por cima, calça jeans desbotadas. Sentia-se confortável no velho jeans que sempre usava. E nos pés, meias cobriam até o tornozelo, delimitavam o contato ao tênis. Apesar do frio, estava sentado no píer, com um dos pés próximo o suficiente da água, pra lhe gerar dúvidas do toque, ou não.

Pensava em tantas, tantas muitas coisas, mas em si, nada definido. As luzes do céu estavam em dúvida entre o semi-crepúscular sadio e o róseo deprimente pôr-do-sol. Vagueava em palavras, divagava. Milhões de palavras, milhões de pensamentos, nenhuma exatidão. Arqueava as costas de vez em vez, provavelmente tentando encontrar uma posição mais adequada. Respirava lentamente, seus cabelos negros, curtos, esvoaçavam como curtas rabiolas das pipas, uma pequena mecha caía-lhe sobre o olho, a mão esquerda saía do bolso, ao seu encontro. Voltava ao topo, esvoaçar ao vento. Respirava lentamente. Ainda sentia saudades dela, sua irmã. Tantos anos se passaram, a falta continuava tão recente quanto fora, tanto tempo atrás, próxima.

Seu rosto estava cansado, seu espírito mal estivesse ali. Não, estava sim. O ar que lhe saía das ventas, a dióxido congelado, o escape visível, era intenso. Por entre seus pensamentos, um monólogo incansável, também sem definição, sem sentido. Tirou as mãos dos bolsos, da jaqueta azul escura, de perto do grosso casaco de lã vermelho e sua gola maternal quase sufocante. Esticou os braços acima da cabeça, tateou como esquecesse o toque do ar, tentava encontrar as mãos, as encontrou, espreguiçou-se olhando ao horizonte. Estalou os dedos, as mãos, os braços, o pescoço. Voltaram, por fim, aos bolsos.

Sob o píer um lago de águas calmas, negras, de curto reflexo. Não fazia frio suficiente para que aquelas águas estivessem paralisadas, adormecessem, hibernassem no vazio da compressão absurda dos átomos. Congelassem. As margens não eram visíveis, tanto pela espessa bruma que inundava os olhos, quanto à falta de interesse de delimitar o que, naquele momento, não deveria ser delimitado. Em meio à torrente de pensamentos e palavras, uma lembrança. Uma memória, simples, curta. Não, não era uma memória qualquer, apesar de tão simplória.

Muitos anos antes, quando ainda era uma criança, nadara naquele lago. Não, não era inverno, não usava agasalho, não bebia cerveja, não ouvia Bob Dylan, não fazia sexo. Mal sabia o que era a maioria daquelas coisas, e caso soubesse, as ignorava. Não fazia sentido dar valor, ao que naquela idade, era por demais abstrato. A água fria coexistindo com sua pele, o céu azul perolado tomando posse de seus olhos de menino bravio. Isso e os mergulhos em busca das mil léguas submarinas. Naquele tempo, as frutas do caminho de casa estavam maduras, as flores, não todas, emergiam da escuridão de seus próprios caules, de suas próprias folhas.

Hesitou. Fechou os olhos, as mãos esgueiraram bolso afora, estava, agora, de pé. Lentamente permitiu o contato da visão com o invisível, da bruma que permeava o fim, e tornava-o indefinível, indescritível. Seus olhos contemplavam o universo à beira do lago. Os pensamentos pararam, o monólogo cessou. Seu espírito estava a lhe sair, talvez. Não, ainda estava ali. Ou melhor, tomou-lhe conta das funções, todas. Sua fisiologia era mais aquém que nunca, sua vida era inconsciente. Respirava lenta e pausadamente, fumaça tenra, vapor d’água, o dióxido era quase invisível, semi-indistinguível. Cerrou os olhos. Seus braços moviam-se sozinhos. A jaqueta caiu na madeira molhada, seus tênis estavam de lado, os meiotes sobrepostos logo ao lado. A cabeça sumiu por dentro da gola, os braços ergueram a lã. Milhões de alfinetes penetravam e percorriam seu corpo, o short não adiantava de muito. Jogou de lado. Abriu os olhos e contemplou a superfície do lago. Não via seu reflexo, não havia luz suficiente na existência de um espelho. Cerrou os olhos mais uma vez. Timidamente, dois passos para trás. Impulso, salto, mergulho.

Manteve-se submerso por algum tempo, acostumar-se à escuridão que lhe envolvia tenramente. Não, não era escuridão. O medo estava por debaixo dos meiotes, lembrou. Retornou à superfície. Olhou ao redor. Não havia píer, não havia margem. A bruma corrompeu-lhe os olhos. Mas o desespero estava no bolso esquerdo da jaqueta. Cerrou os olhos. O frio não lhe tirava mais o ar. Seus batimentos estavam tranqüilos mais uma vez, como de tantos anos atrás, como em algumas flores tímidas que arqueavam da sebe altitude, tocavam de leve o ar que constipava folhas.

A respiração atrasou dois segundos, o coração pulou uma batida. Qual a profundidade do lago? Não lembrava. Ou nunca soube? Tomou fôlego. Mergulhou, sobrevoou na escuridão gélida, desceu na semi-horizontal. Não descera na diagonal, o ângulo estava por demais perto da horizontalidade, sem ao menos sê-la. Retornou à superfície. Precisava de mais fôlego, de mais força. Não via mais o céu, a bruma estava sob posse de seus sentidos. Via o nada, ouvia o silêncio, sentia o gosto do inexistente, tateava a escuridão na qual estava imerso. A água não mais lhe era estranha, seu corpo a aceitava, e era mútuo.

Lembrou do artifício de alguns mergulhadores. Forçaria a respiração por um minuto e depois tomaria grande fôlego. O mergulhar seria repentino. Não tinha noção de tempo. Mas respirou o suficiente a seus pulmões tomarem nota da hora certa, fôlego, peito inflado, profundidade. Mergulhou no silêncio. Aprofundava-se mais e mais, nada mais existia. Nem água, nem bruma, talvez, sequer ele mesmo existisse. Bastante ar nos pulmões, poderia aprofundar-se mais e voltar sem problemas. Tocava o vazio, penetrava o vazio, existia no vazio.

Seus pulmões, seu coração, seus olhos, seus braços, suas pernas, seus cabelos, tudo havia sido tragado. Existia ao mesmo tempo da não existência. Enxergou a superfície, apesar não ter lembrado a decisão de voltar, muito menos o movimento necessário. O vazio agora era lago, mesmo ainda sem fundo. A água cercava sua existência, retomada no silêncio. Que não mais existia. As correntes, fluxos e seus próprios movimentos geravam sons abafados pela água, mas audíveis. Emergiu. O céu era azul perolado, não havia bruma. A água não estava tão gélida quanto lembrava. Olhou para cima, perplexo, com seus olhos de menino. Não nade pra muito longe, gritou-lhe a voz feminina infantil vinda do píer. Seus olhos eram azuis.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Interjeição

Lá fora
um céu azul.

cá dentro,
carquético e hermético,
recosta na janela

Num parapeito
que nem sequer Deus me livre.

Uma caixinha limita o horizonte
que não vejo.
Fora meus olhos, e paredículas, ridículas
de azulejo.

E nuvens empoleiradas nas laterais do
sol
zombam da prisão de nada
que me contém.

Céu,
gigante poça d'água do universo;
azul pra cacete.

e ainda há quem me mantenha
tão longe dele,

azul pra cacete.

ao quadrado da limitação
resta o que me desfaz.

Sem teto,
sem paz.

Então é Natal.

Natal. Não, não era bem Natal. Mas sim a época. Não importava, sinceramente, não importava. Desde a primeira peça de decoração no adiantamento das lojas, aos panfletos, às luzes, ao mês, à semana, à véspera, ao enfim Natal. Detestava tudo. E detestava o bico que arranjava todo ano: Papai Noel de shopping. E caso precisasse contar a alguém, explicar, explanar, o faria de uma só forma, desdém. Ah, só me enfiar dentro de uma roupa com cheiro de estofado de sofá e um gorro mofado. Meio quilo de talco na cara e uma cara de bobo alegre. Nossa! você é modelo? Quase. Esqueci da barba postiça com cheiro de queijo, sou Papai Noel de shopping.

Era desses que sentava em meio à decoração, o tempo passava, crianças dos mais variados tipos sentavam em seu colo, pré-adolescentes desocupados tiravam fotos e o dia passava devagar. Sempre se surpreendia com a variedade de crianças que existiam. Brancas, amarelas, negras, vermelhas, algumas meio azuladas. Muitas hiperativas, algumas magras, muitas pesadas. Sempre tinha de usar parte de seu pagamento pra dar um jeito nas pernas e nas costas. Pulavam, esperneavam, flatulavam, gritavam, aquietavam. Todo ano alguém melava as calças e vomitava. Típico. Por costume e preparo, carregava um segundo par de calças vermelhas e do resto da indumentária. E um frasco de perfume no bolso. Vagabundo, claro. Mas válido. Em síntese, fazia com que detestasse mais ainda o Natal.

Pelo bem de sua sanidade, desenvolveu técnicas de auto-distração. Algo como imaginar o seu lugar feliz, mas mais duradouro e virtuoso. A lei era pensar. Pensar em qualquer coisa, aleatoriamente, freneticamente, inesgotavelmente, inexoravelmente, incessantemente. Pensar, pensar, pensar, pensar, pensar. E através do treino mental, até o mínimo objeto desencadeava o big bang irrefreável de pensamentos. Um piso rachado era motivo pra pensar no grande terremoto que assolou a China, em comida chinesa, em filmes chineses, em filmes do Bruce Lee, em filmes de luta, em luta das classes, em Karl Marx e... Voltava à figura de um velho barbudo, gordo e fedorento. Precisaria de outra ‘inspiração’.

Buscando distração, leu um livro sobre pinheiros, aprofundou-se no assunto. Observava diferentes réplicas e autênticos, identificava os tipos, as características, o preço, o tempo que levou para desenvolver-se, a espécie da planta, o nome popular, popular, festa popular, enfeites. Tudo convergia ao Natal. Mozart uma vez quase foi pra fogueira, ainda jovem, graças a uma marcha natalina. Ou foi Chopin? Não, não Mozart. Mas sempre me lembro da Marcha imperial, aquela do Darth Vader. Pã, pã, pã, põ, pã, pã... Ok, chega. Luke, I’m your father. Mas então lembrava dos presentes de Natal. DVDs em promoção, Guerra nas Estrelas estava em promoção. Maldição.

Observava os enfeites, bolas redondas coloridas, brilhantes. Pareciam planetas. Descobriram que Plutão não é um planeta, mas sim um satélite de um suposto planeta que foi destruído. Nossa! então somos só alguns planetas. Mas plutão nunca fez diferença. Plutão, plutão. Nome engraçado! lembra glutão. Recebia crianças no colo de forma mecânica. Supostamente as ouvia, dava um doce, tratava-as bem e se mantinha distante. Seu lugar feliz era o hiperativismo mental.

Seria hilário se eu tirasse a roupa, pintasse minhas bolas de vermelho cintilante e me escondesse em uma árvore. E quando alguém chegasse perto, saísse de lá e gritasse “Essas são as bolas de Natal, feliz festas”. Seria doentio. Mas engraçado. E uma criança sentara no seu colo. Por um instante a linha de raciocínio sem sentido parou. O que fazer? Dar atenção. Mas estava cansado, dolorido, semi-emburrado. Qual seu nome?

Jesus. Ai, ironia. Mas é com G. Gesus! Isso. Certo, garoto.... E o que quer ganhar de Natal? Paz na terra. E um boneco do Max Steel? Com espada laser? Certo, certo. Como é o nome da sua mãe? Maria. Ta de brincadeira? Como? Nada, Gesus, nada. Não me diga que o nome do seu pai é Espírito Santo. Não, é Maicoun. Mas pensando bem, tinha algo do natal que teria a ver com Marx. Afinal a cor vermelha significa alguma coisa. Papai Noel? Seria uma conspiração do proletário? Papai Noel? Dizia o garoto com lágrimas nos olhos. Mas então o Papai Noel é um agente duplo? PAPAI NOEL? Que é, moleque? Acho que eu fiz xixi...