terça-feira, 31 de maio de 2011

Enjoado

Não, eu não sou doce.

Até porque
se eu o fosse
o gosto azedo sempre
me faria mudar.

Carta ao Tom 74

Gravação minha  tocando e cantando a música Carta ao Tom 74 (composta por Toquinho e Vinicius de Moraes). [Ignorem a voz e a gravação ruins].

Carta ao Tom 74
(link externo)

domingo, 29 de maio de 2011

The song remains the same - The song remains the same.

Não tem trabalho pra agora. Já escrevi os artigos, mandei pra revisão e fui pago, tudo bem adiantado. Não há muito que fazer, contas já pagas e sobrou um bom dinheiro graças às bonificações em relação ao tempo e isso dá uma margem pra custear meus vícios. Porque a minha vida, e a de todas as outras pessoas embora não admitam, depende também desses vícios. Vício é vício e não importa se você fuma, joga compulsivamente, bebe feito um maluco – seja álcool, café, refrigerante, ou suco de laranja – ou é viciado em pornografia. Você precisa do silêncio mental constrangedor com o qual você não se importa. E não dá pra pensar sinceramente em colocar um ponto final e se enganar, porque o máximo a se fazer é enfiar uma vírgula e trocar um vício por outro. Nem que troque por um comportamento paranóico. E talvez, se não aprender a aceitar a si mesmo, acabará enrascado e realmente sozinho com as pessoas ao seu redor ou não.


Meu chefe atual tem uma coleção de isqueiros. Esse aqui acabei ganhando porque ele tinha dois. Uso em ocasiões especiais. Quase todas são e eu prefiro fingir que existirão melhores chances pra fazê-lo, mas acabo usando mesmo assim. Coloco o The Song Remains The Same pra tocar, acendo o melhor dos piores cigarros e sorrio no escuro. A porta do quarto destranca e ela sai rebolando de calcinha e com a minha camisa de botão preferida, pegou um baseado da bolsa e acendeu na ponta do meu cigarro. Vai até a geladeira e pega a minha jarra de suco de laranja, batiza com a vodka do armário e senta no chão pra ficar calada. O gato pára do meu lado, desloca as vértebras estirando o corpo, ronrona, mia baixinho (sarcasticamente) e desaparece no corredor.

- Como você quer que isso acabe?
- Eu quero que isso acabe?


Ela toma um gole demorado e suspira.


- Você quer me contar alguma coisa?
- Eu tive um sonho. Um sonho louco.
- Ahn?


Limpei a garganta e tossi um pouco - Ouça minha canção.


Ela terminou o suco e lavou a jarra, pegou um cinzeiro e colocou do meu lado, tirou a camisa e foi pro quarto pra colocar a própria roupa.


 - Você não vai ouvir agora? Cante junto.
- Você não vai mesmo dar o braço a torcer, vai?
- Não mesmo.
- Você não sabe o que está perdendo agora.
- A luz do Sol da Califórnia, na doce chuva de Calcutá, a Honolulu estrelada?


 Ela puxou a agulha da vitrola e eu parei de citar a música.


 - Olha, Diana, hm..
- Você prefere mesmo se manter sozinho?
- Eu sempre me mantenho sozinho. Ainda mais com coisas que não dão certo.
- Como relacionamentos?
- Isso. É o único vício que eu admito.


Coloquei a agulha na vitrola e respirei fundo.


- As luzes da cidade são brilhantes, enquanto vamos escorregando, escorregando, escorregando por completo...
- Você é... é...
- Sou...?
- Irreversível.
- Irreversível?
- Isso.
- Oh, mas eu sei que eu amo você assim.
- Não tente me conquistar citando as músicas de sempre.
- Por quê?
- Porque as pessoas às vezes mudam. Ou fingem que o fazem. Mas canções... as canções continuam as mesmas.

domingo, 22 de maio de 2011

What it takes

It takes a lot
to laugh, laugher
taking so blue
cryin' songs
it takes a lot
too.

The song remains the same - Presence (segunda parte)

Pouco tempo depois larguei a faculdade e todas as besteiras ligadas à ela (mas mantive a carteirinha pra comer os bandejões diários) e passei a trabalhar como freelancer da empresa, agenciado pelo meu antigo chefe, uma lenda do jornalismo e um ótimo amigo, que me ensinou a fumar descontroladamente e a escutar Bob Dylan de vez em quando. E conforme recebia propostas melhores pra projetos e textos melhores e mais importantes (e mais bem pagos), selecionava estrategicamente os de prazo mais apertado e guardava de pouco a pouco pequenas partes das comissões e pagamentos e bonificações mensais pra investir em alguma coisa. A primeira alguma coisa a se investir foi um carro pequeno, barato, usado e incrivelmente econômico, meu meio de transporte eterno, que eu talvez largue quando ele quebre de vez. Talvez.


Comprei um teclado antigo e voltei a praticar. Arrumei mais uma vez a discografia do Led, agora em CDs, e aos poucos voltava à velha forma. Ganhei do Augusto, filho do seu Vieira, agora dono da empresa do falecido pai, a discografia do Dylan que pertencia ao seu pai. Tornamo-nos bons amigos, principalmente de longas e duradouras noites nos bares pela cidade. Acabou que lhe apresentei Marina, uma antiga colega de faculdade e os dois namoraram por muito tempo até acabarem noivando. Depois, com outros dois ex-freelancers, Rômulo e Tereza, e finalmente um advogado homossexualíssimo, Beto ( que conhecemos tentando apartar uma briga séria entre ele e dois marmanjos bêbados que insistiam em chamá-lo de viadinho – que apanharam, claro, afinal pouca gente consegue não apanhar pra um mestre em artes marciais), juntamos, digamos, um grupo digno de bebedeiras inconseqüentes e freqüentes.

The song remains the same - Presence (primeira parte)

Como eu vivia metodicamente em relação às despesas conseguia manter tudo numa mesma média e pagar as contas, comer e comprar uma peça de roupa de vez em quando. Apesar de nunca dever aluguel ou qualquer outra coisa, não sobrava quase nada da grana pra comer bem ou pra sair pra tantos lugares e esbanjar o mínimo do possível. Sempre que podia comia os bandejões na faculdade (que quase sempre perdia por questão do horário) pra poder xerocar algum livro pra estudar. Graças ao ritmo da rotina acabei me demitindo do emprego e trancando algumas matérias pra não explodir. Os sábados, então, eram sagrados e se eu não arrumasse alguma garota pra voltar comigo pra casa, alguma garrafa voltaria comigo.


Por ter perdido o emprego mudei pra um apartamento num lugar perigoso e mais distante da faculdade – distância que eu compensava acordando razoavelmente mais cedo pra andar um bom pedaço do percurso só pra pegar o trem que parava duas quadras antes do campus. Passava mais tempo na faculdade pra pegar todas as refeições, aproveitava pra estudar na biblioteca e tomar porres na grama que engolia parte do meu corpo e escondia todas as minhas pretensões e mergulhava meu falso orgulho no verde molhado. Por estudar mais pras poucas matérias que eu pegava, acabei chamando atenção de alguns professores e acabei arrumando um estágio remunerado e voltar a morar no antigo apartamento, mas preferi continuar, mesmo assim, com a antiga rotina das longas caminhadas debaixo do sol. Perdi o aspecto de magreza e o branco maltratado da pele.


Acabei contratado na empresa onde estagiava, que depois de dois meses e meio se dividiu entre companhia de freelancers e redatores padrão. Recebi convite pra estagiar na agência de freelancer e deixei a proposta de molho por uns tempos. Trabalhei exaustivamente como redator e mal sobrevivia com o baixo salário e o tratamento fodido que a empresa dava aos empregados. Pedi demissão na segunda e, depois de pedir desculpas por ter demorado tanto pra responder ao convite, estagiei por seis meses com trabalho de revisão e de office boy até que me contratassem pra parte administrativa.


Nessa época achei um filhote de gato preto bem machucado jogado no terreno baldio ao lado do prédio onde eu morava. Levei ao veterinário e depois pra casa. Ele se manteve mudo, sem sequer um mínimo miado, por dois meses, até que em uma noite esqueci servir a ração. Suficiente pra que começasse a falar verborragicamente pra reclamar sobre os horários das refeições e o cheiro horrível dos meus sapatos e do meu hábito terrível de trocar as notas mais óbvias o possível na hora de tocar teclado. Demorei pra acostumar, claro. Ficou decidido, então, que ele não era mais ‘um bicho de estimação que morava comigo’, mas que era meu companheiro de apartamento. E que eu não deveria arrumar nenhum nome ridículo ou chamá-lo por apelidos bobos. Nunca me chamava pelo nome, mas de ‘você’ ou humano – sempre com um tom de desprezo amável na voz. Tendo o contrato de convivência firmado, ele não ligava pras garotas que eu levava pra casa ou pras vezes que eu caía de bêbado no chão e dormia até o dia seguinte. Desde que eu nunca esquecesse sua ração.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ayala (primeira parte)

Perto dos últimos dias de aula dei de cara com uma folha maltrada em um dos murais, sobre uma viagem com um grupo de estudantes até uma casa distante no interior do país, e que precisariam de mais pessoas pra ajudar a pagar algumas despesas. Liguei de última hora e viajei como membro extra do grupo, sem conhecer ninguém. Precisavam de um lugar pacífico e relativamente distante pra concluir um trabalho complicado e no caso de dois deles, relaxar e estudar pra defesa de suas respectivas teses diante de uma banca. E eu, longe de toda e qualquer finalidade parecida, achei que seria diferente. E só isso. Éramos gentis uns com os outros, mas no limite do necessário, trocando poucas palavras. Grande parte das conversas era sobre o tal trabalho e as tais teses a se defenderem, e por mais que eu sinceramente quisesse ouvir sobre tudo houve um momento em que não agüentava mais aquele tipo de contato.


E então, como estavam ocupados o suficiente com suas próprias tarefas, não foi nenhuma surpresa que eu me isolasse do resto do grupo e passasse a maior parte do tempo dormindo ou bebendo ou escrevendo ou caminhando cada vez mais distante da casa. Quando finalmente descobri a desembocadura de uma cachoeira fraca e baixa, que formava um pequeno lago dentro de uma clareira escondida depois de um terreno abandonado decidi que passaria a maior parte do meu tempo ali. Acordava mais cedo, tomava banho e um café da manhã bem reforçado, vestia meias grossas, calça e camisa de botão pra sair o mais rápido possível e chegar na clareira antes do almoço. Normalmente deitava na grama e rabiscava alguma coisa, esboçava as árvores ou tentava escrever, mas sempre era interrompido caindo no sono.


Na última semana decidi que tinha de terminar algum desenho e completar algum texto, que por mais agradável fosse dormir na beira do lago, deveria aproveitá-lo de outra maneira. Comi mais reforçadamente antes de sair e tomei várias xícaras de café. Guardei um energético na mochila velha onde levava o caderno, o estojo, o guarda-chuva e o casaco, alonguei-me durante algum tempo e saí.

Acrux

Na soleira do cruzeiro
mora na exaustão imprevisível

a Magalhães mais distante
de São Paulo no Pacífico.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

La Noyée (la manière qu'il devrait être)

Sentei nos primeiros degraus do lance de escadas do segundo andar, arregacei as mangas até a metade dos antebraços e me senti um pouco culpado por nem sequer ter vontade de chorar. E ao ponto de me sentir um pouco responsável sobre tudo. Apoiei o cotovelo na perna e segurei a cabeça, pelo queixo, com a palma da mão, respirando forçadamente pela boca durante alguns minutos enquanto um pouco da fumaça do frio ardia nas bordas dos lábios. Doía bastante, claro. Fechei os olhos pra lembrar o que havia acontecido. Uma discussão boba, as discussões sempre são bobas. Descobri que ela estava me traindo há umas duas, três semanas, e não havia nada de tão doloroso nisso depois de todo afastamento. Não havia muito que confrontar, só falar o que eu já sabia. Fazer cara de bravo (talvez) e esperar que tudo acabasse da melhor forma possível.


Nunca consegui fazer cara de bravo, ainda mais quando não faz a menor diferença, então, logicamente, apareci com um ar indiferente e decidi que não precisava de cerimônias pra lhe dizer a verdade, nem pra confrontar. Quando comecei a falar ela se deu ao trabalho de negar por algum tempo, pouco tempo, já que não era nada necessário. Fui até a janela e encostei contra o vidro frio e imenso, e as luzes dos bares, do shopping e dos carros refletiam no vaso de flores sem flores e no espelho de canto rachado. Você lembra daquele música do Gainsbourg? Qual? La Noyée. O que isso tem a ver? Acho que significa “a afogada”. Isso, mas o que tem a ver?


Você entrega os pontos sobre o rio das recordações, e eu, corrente sobre a margem, grito que reapareça, mas, lentamente você se afasta, e em sua rota desnorteada, pouco a pouco recupero um pouco de terreno perdido. Abri a janela e perguntei se poderia acender um cigarro. Ela fez que sim, acendi, traguei e continuei. De tempos em tempos você avança no líqüido instável, ou melhor, arrastando alguns galhos você hesita e me espera escondendo seu rosto em seu vestido levantado, por medo que não te desfigurem o medo e a vergonha e os lamentos. Você é apenas um pobre farrapo. Fiz uma pausa e expliquei que não a chamaria de cadela, apesar de que o houvesse na música. Fatigada em um fio d’água.


Respirei pesadamente enquanto ela enxugava inutilmente mais algumas lágrimas. O que você quer dizer com isso? O que você acha? Você não terminou a música. Eu sei. Cadê o “mas continuo seu escravo, e mergulhado no riacho quando a lembrança acabar e o oceano do esquecimento romper nossos corações e nossas cabeças, para sempre nos juntaremos”? Ele não está mais aqui.


Abri os olhos, ouvi alguns berros vindos do penúltimo andar, achei graça e sorri. Dei a volta no prédio e a vi atirando algumas coisas pela janela. O vaso vazio não caiu, foi atirado contra o outro prédio, ao lado, e espatifou com força na parede espalhando água e barulho. Depois um porta-retratos, dois livros (péssimos livros, ótimos presentes). Alguns dos outros presentes que eu havia lhe dado continuaram caindo. Por último alguns CDs saíram pela janela. Quando a confusão havia terminado e ela fechado a janela, recolhi o lixo do meio da rua e joguei numa lata de lixo. No meio de tudo havia um CD gravado, escrito Serge Gainsbourg de caneta de retroprojetor, que guardei no bolso do casaco, e então nadei até a superfície olhando a imagem da afogada na janela.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

The song remains the same - Physical Graffiti

Não havia vestígios tão claros de outra presença na casa além da bebida que acabava mais rápido que o normal. Ela e o gato se davam bem, mesmo que ele ainda não falasse com ninguém além de mim. E nós dois nos dávamos bem. Estigmas surgiram, pois é, o grande problema do convívio é que ele evidencia todas as coisas óbvias sobre qualquer outra pessoa. Eis um dos grandes problemas da existência de uma verdade, caso você considere a obviedade sincera um problema. Nunca soube brigar. Muitas vezes por não ver sentido em quase nenhuma briga. Quando mais novo, um grupo de garotos se reuniu à minha volta pra tentar me tirar do sério, desrespeitar, sei lá, acho que nessa idéia o conceito de respeito é mais pelo medo prático do que pela teoria. E lembro bem que eles xingavam desde o filamento mais simples do meu DNA até os fios de cabelo da minha mãe. Como não resultara em nada, passaram a cuspir. Eu me limpava e não era nada de mais. Uma hora, depois de dar alguns tapas no meu rosto, desistiam e saiam de perto do menino estranho. Meus amigos me cobravam alguma atitude e chegavam e me bater pra ver se eu esboçava alguma reação. É, eu sei, eu era realmente um garoto estranho. Em casa era praticamente igual.


Quando apanhava, eu só verbalizava dor pra não me machucar tanto apanhando, e eu confiava nos motivos pelos quais eu levava minhas surras. E tinha preguiça de revidar com argumentos. A única vez que revidei numa briga, na escola, foi pra defender um gato vira-latas de ser morto pelos moleques de sempre. Apanhei bastante, claro, mas lembro que, não fosse a amizade dos meus pais com a diretora da escola, teria sido expulso – e até ia dar rolo na polícia. Durante um mês meu pai demonstrou um misto de orgulho e decepção. Decepção pela situação, claro. Orgulho por eu ter quebrado os narizes de cinco garotos. Vai saber. Depois disso me tiraram do karatê e decidiram que eu deveria canalizar minha raiva de outra maneira, e meio que muitas coisas vieram a calhar. Herdei um piano do meu avô, um piano bem velho e vagabundo. Fora o som, que era bem estranho. Puseram-me em aulas de piano. Não me interessava pelos clássicos, mas os aprendia pra não criar grandes problemas.


Com quinze pra dezesseis me envolvi com a professora de piano, que era casada. E durou até perto dos meus dezoito, e toda conotação sexual das aulas só tornava tudo mais interessante. Não tocávamos mais clássicos eruditos, mas os clássicos do rock’n roll. Quando ganhei meu primeiro LP do Led Zeppelin, da minha tia Lúcia, o Physical Graffiti, gastei um mês e meio tirando as músicas de ouvido. A Zuzu (chamemos a professora de piano assim) marcava mais aulas só pra me ouvir tocar Led, que, segundo ela, era uma interpretação tão sincera e visceral, que nem mesmo intérpretes de música clássica poderiam tocar algo com tanta vontade. Ganhei o resto dos LPs da discografia da própria Zuzu. Passei-lhe minhas referências musicais de uma a uma, desde Iggy Pop ao Zeppelin e aos progressivos brasileiros que eram a grande onda underground da época. E ela ensinava coisas que nenhum garoto de quinze anos poderia saber sobre como trepar direito.


Numa quinta ela não apareceu. Nem na sexta, nem na semana seguinte e pra nunca mais dar as caras. Na época simplesmente conclui que sua consciência havia pesado. Claro que, com meus dezessete e meio, o fim daquela relação estranha havia me deixado bem ferrado. Só até eu entrar na faculdade, que era em outra cidade. Doei o piano, vendi a vitrola, levei os LPs comigo, que sobreviveram até invadirem a república e os roubarem junto de mais um monte de porcaria. Dia mais fodido da minha vida. Nunca chorei tanto. Nunca bebi tanto. O foda é que por culpa disso comecei a trabalhar depois da faculdade e juntei uma grana. Passei a morar sozinho, essas coisas. Coisas que fodem a visão de mundo de um cara com dezenove anos e uma libido inconseqüente.