domingo, 24 de abril de 2011

Quando o sol se põe vem o farol

O mar começou a quebrar contra as pedras perto do farol com suas ondas de fim de tarde, e por mais quente que o dia havia sido, logo logo os deuses soprariam ventos frios vindos das profundezas do horizonte. Vi uma garota de cabelos curtos e molhados na frente do rosto, de braços cruzados e olhando pro nada, fumando, com uma camisa branca meio molhada de letras garrafais WAY e canga enrolada na cintura feito saia dançando sozinha, como se possuísse um corpo independente e que a imobilidade da garota não fizesse juízo nenhum pra que parasse de flamular. Baden Powell tocava continuamente umas suítes na minha cabeça, bem baixinho, enquanto o sol descia vermelho e atravessava as ondas além dos barquinhos que voltavam do mar.


Não parece o farol da barra?
Hm?
Não parece o farol da barra? a garota segurava o cigarro nas pontas dos dedos e mantinha a mão no alto da testa, segurando os cabelos, de braços cruzados e caminhando descalça pra mais perto.


Dei uma boa olhada no farol. Era um cara bonito, imponente, claro. Mas não parecia, nem de longe, o farol da barra. Hesistei um pouco, cocei a cabeça e respondi sinceramente que não. Ela sorriu, como se já esperasse minha resposta, e caminhou em direção da fogueira, afastando-se de mim. Sorri sem graça e bebi um pouco d’água afundando a cabeça entre os ombros.


 Fuma?


 Olhei pra trás e vi a garota com um violão na mão e um cigarro aceso na boca.


 Você tem?


Ela tirou o cigarro da boca e colocou na minha, entregou o violão e perguntou se eu conhecia alguma música boa.


Conheço várias.
Sabe tocar alguma delas?
Quase nenhuma.


Ela riu e me puxou mais pra perto do farol, beirando as pedras e o mar. Baden Powell fez de silêncio e eu ouvi Pepeu Gomes tocando devagarinho. Acompanhei como pude no violão. Ela sorriu, deixou os cabelos molhados caírem por cima do rosto mais uma vez e começou a cantar ‘Farol da Barra’, mexendo o corpo com o vento e sorrindo por entre os lábios finos e pelas mechas que atravessavam na frente da boca.


Quando o sol se põe vem o farol iluminar as águas da Bahia, no farol da Barra o encontro é pouco a conversa é curta, tudo é tão rápido como se furta, como a luz bate nas águas, como tudo que se passa, quando o sol se põe vem o farol iluminar as águas da Bahia...


Qual seu nome?
Hm, qual você acha que é?
Não sei. Mas vou te chamar de Baby, que tal?


Ela riu e continuou a cantar.


Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do-sol, bem cabia uma profecia... até o ano dois mil o farol além de pôr-do-sol será o pôr-do-som, onde verás um realejo, onde verás um violão...

domingo, 17 de abril de 2011

270 ml

Nada realmente é de uma intensidade aceitável. Às vezes nada é demais, às vezes nada é pouco demais. O que você tem de fazer é se acostumar com isso, com a regularidade antes inaceitável. Nada é realmente proporcional até que você compare com alguma coisa, dores de cabeça, transas, porres, o silêncio que fica a última rua da última cidade à meia noite. Ou a falta de tudo isso. Daí eu me esforço, sinceramente, mas existem cervejas na geladeira e aquele livro que eu tenho de ler se torna uma merda tão insignificante que mesmo estando debaixo da luz branca e de pernas abertas em cima da cama não acontece. Não é qualquer tipo de coisa que dá tesão. À vezes não dá pra explicar. É a luz do sol que bateu de um jeito diferente enquanto você estava sentado no quinto banco do lado esquerdo do ônibus e o pau fica duro. Outras vezes... bem, de todas as outras vezes todo mundo sabe (até quem não tem pinto).


 O gosto de alumínio dá pra ignorar. Mas existe, e esse é o problema das latas pequenas. Uma hora o livro vai cansar e fechar as pernas. Peguei um Bukowski e comecei a ler, porque a melhor foda é aquela que escolhe você. Bach, no cello, por Pierre Fournier. Já me disseram que ele não é exatamente o melhor intérprete de Bach no cello. Acho o contrário. Até porque, se for isso mesmo, isso o torna, automática e realmente, o melhor intérprete. Assim como o gosto de alumínio nas latas pequenas. E a cerveja é tão boa que o alumínio torna-se irrelevante, ela não esquenta mesmo que você enrole escrevendo besteiras e perdendo tempo ao perceber que já é (ou ainda é) três e meia da matina. E não sei bem se isso já é tão aceitável assim.


 Bukowski, O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Prefiro manter a loucura padrão das coisas. Inclusive permanecendo calado até quando estou falando. Não tento parecer tão frio como o silêncio. Mas é inevitável permanecer inconclusivo, silencioso. O livro continua lá, não adianta. Acaba a bebida, a hora passa e chega um ponto em que por mais que você trabalhe já não dá pra render na mesma foda. Daí é o time out. Você toma um banho, estica as pernas, encosta na parede e paralisa todos os músculos relaxados debaixo d’água, risca obscenidades no box molhado, escova os dentes, coloca uma roupa e sai. E é aí que os marinheiros tomam conta do navio.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chocolate

Suas costas não são frias. Mas você tá com frio. Sua pele na verdade é morna e macia (isso sim eu já sabia). Sua voz, sua voz é desse jeito, bom, sou péssimo pra dizer como vozes são ou não são. Mas acho que ela é do jeito que tinha de ser, eu gosto. Não havia pensado, até então, como ela seria, estranho. Não consigo criar um ponto de referência, muita burocracia necessária. Isso pra não parecer irremediavelmente (acuado) confuso, definir um ponto e olhar fixamente pra ele. Aprendi, há muito tempo, que se não der pra olhar nos olhos de alguém, o truque é olhar pra sobrancelhas, ou pra testa e saber disfarçar. Merda de truque. Gosto de olhar nos olhos, de me entregar logo no primeiro ataque da artilharia, uma grande bosta.


Sua artilharia, massiva, é composta por dois eficientes batalhões, agindo com total eficácia em blitzkrieg. E então as trincheiras são desarmadas, os batalhões aniquilados, os homens, quando não mortos, tornam-se prisioneiros de guerra. Com o desmembramento imediato do exército, os batalhões marcham sobre suas terras e montam acampamento no terreno conquistado. Assim como são as suítes de Bach. Assim como a chuva fria que machuca devagarzinho na madrugada. Não há como escapar. Seus olhos estão na frente de todo o inferno, é inevitável. Minha curiosidade também é táctil pra caralho, compreenda. Preciso saber se não são só suas costas que não são frias, certo? Se eu me esforçar, talvez eu sinta o alguma coisa correndo por aí, pela carne, nas artérias, nas veias. Isso não significa que isso não seja mentira. Mas seria muito bom. Estar bêbado agora até que não cairia mal. Tá, certo, ligeiramente bêbado serviria. Vou te abraçar mesmo assim, você estando ou não com frio. Estando ou não bêbado.


Tenho culhões. Acho que tenho. Física e fisiologicamente falando, tenho culhões, tudo em ordem por aqui por baixo. Já psicologicamente... Bom, psicologicamente só pra discutir comigo mesmo, quietinho e disfarçando minha visível falta de culhões. Por que isso tudo? Ah, não é nada científico, nada filosófico, não é nada de merda nenhuma. Sabe quando a gente é criança e passa na frente do mercado, da mercearia, de uma loja especializada ou simplesmente perto de alguém comendo alguma coisa que a gente gosta e quer muito? Pois é, tá aí o problema. Vou usar um exemplo comum pra nós dois, que gostamos disso. Pra nós dois vírgula, essa é uma discussão mental particular. Você faz parte dela, mas não sabe. Queria muito que fizesse e soubesse, isso talvez resolvesse a falta de culhões (ou piorasse). Mas então, o exemplo. Chocolate. Imagina toda a história de ser criança, por não ter tanto auto-controle assim, e sequer ouvir falar de chocolate. Olha só que merda. Não dá só pra ver ou falar ou pensar em chocolate. Mas, sabe? É aquilo: vontade se tem de sobra. O que falta são os culhões.


Não tem como dizer, dizer mesmo. E, caramba, eu tinha (e tenho) tanta coisa pra falar. Dá pra perceber agora, né? Eu sei, eu sei. Mas, droga, você já tá indo embora. Se é embora, embora... embora meeeesmo, eu não sei. Mas tá indo. Se eu disser ‘até mais’ ou ‘até depois’, resolve? Você continua com frio, sua pele continua morna e macia. Deve ser a melhor superfície que existe pra se escrever alguma coisa. Você já percebeu isso e fez questão de não deixar o ‘caderno’ em branco, e eu gosto mesmo é assim. Se eu riscar alguma coisa com as pontas dos dedos automaticamente essa alguma coisa vai se tornar a melhor alguma coisa do mundo. Agora você já foi. Mas eu não disse tchau ou até depois ou até logo. Eu não disse nada. Quer dizer, nada além do que todo soldado indefeso e machucado poderia dizer. Eu me rendo.

domingo, 10 de abril de 2011

'O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente'

Chega um ponto que o silêncio não é nada mais que um mar de pálpebras, e tanto faz se permanecem abertas ou fechadas, elas simplesmente permanecem. Gole de cerveja. Sem querer, as pessoas que vivem sozinhas criam vários rituais (li isso alguma vez). O meu é sentar junto da janela e beber cerveja, de gole em gole. Na falta de tais rituais, nem eu e nem essas outras pessoas conseguiríamos sobreviver. Isso também está por aí, escrito junto com todo o resto. Mas é do tipo de verdade que já existe de qualquer maneira, tendo alguém a lido ou não. Permanecer assim me faz pensar que até minha inconstância tenha se tornado constante.

Não estou velho (estou?). Só cansado, cansado pra muitas das coisas das quais os dias são feitos, se é que isso faz algum sentido. Talvez eu esteja velho, mas só pra essas coisas. Talvez minhas pernas não sejam mais as mesmas e também não valha mais a pena caminhar certas distâncias pelos mesmos motivos de antes. Mas, bem, ainda existem bons motivos pra se correr por aí, afinal é isso que uma porção de gente faz, correr. Gole de cerveja. Não corro muito, só no mais urgente dos casos, raros. Um dia decidi que deveria demorar pra chegar em casa e que não haveria ninguém me esperando. E deu certo pra todos os outros dias, não como possível solução, mas, gole de cerveja, como sintoma da minha velhice opcional e intermitente... mas, sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

domingo, 3 de abril de 2011

Quase-parágrafo no.8 - The long paragraph on the tracks

Preciso cortar as unhas, fazer a barba, lavar o rosto e comer alguma coisa. Mas é bem mais cômodo deitar na cama e beber direto da garrafa. A grande sacada de um notebook é ser mais leve que uma máquina de escrever, não precisar de tinta, nem de tantos calos, nem de tantas folhas pros erros e nem riscar ou escrever por cima, e no lugar do som tiros de metralhadora antiga sai o disparo contínuo da semiautomática semisilenciosa que vale bem seu peso em suor. Às vezes o melhor é que só esse e o som dos corpos caindo por cima dos ombros ecoe nos ouvidos, mas trilha sonora é uma merda aceitável. Bob Dylan, Blood on the Tracks. Blood on the Tracks is the heartbreak soundtrack for shitty days, acho que algum personagem de alguma série disse algo parecido com isso alguma vez. Eu prefiro dizer que Blood on the Tracks is the heartbreak soundtrack for shitty everyday. E graças ao Dylan já gastei muita munição contra a contenção de guerra do meu próprio auto-controle. Coração partido é muito clichê, heartbreak é mais musical. Não por ser em inglês, não, mas tem um som que certas palavras devem ter e muitas vezes não têm. Mas às vezes os significados fazem palavras boas o suficiente pra encher o vernáculo dos desocupados, e são, na maioria das vezes, o que você precisa dizer nas piores e nas melhores situações, porra, o que se pode fazer? Preciso de um tempo pra decifrar, de vez, o significado por trás de tanta descontinuidade. E o amor, o amor é um cão dos diabos. Bukowski tinha seus cavalinhos e seus pileques, eles me renderam citações subconscientes nas minhas próprias frases. Não que eu vá ao hipódromo, não funcionaria pra mim. Prefiro concentrar esforços em me perder em um caminho desconhecido e não ter mais pra quê voltar. Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado, correndo de uma estrela cadente para a outra até desistir. Kerouac disse isso. Uma dessas coisas é você. Não que você tenha me dado Dylan ou necessariamente um coração partido (até porque corações partidos estão na moda, e eu sou démodé demais pra me importar). Mas faz parte da minha confusão. E exatamente como na gaita no final de ‘You’re a big girl now’, melhor mesmo é ficar em fade out. A change in the weather is known to be extreme, but what's the sense of changing horses in midstream?

sábado, 2 de abril de 2011

Caroline Says I

Os deuses mexeram seus pauzinhos e fizeram de tudo pra que eu preenchesse pelo menos uma linha com algumas coisas. Não que eu seja um herói, não, não, longe disso, mas como nas lendas em que algum deus envia alguma arma especial pra um cara em particular e as coisas mudam porque ele está fadado a alguma realização, alguém me apareceu com um desses (tão sonhados por mim) cantis de inox custando vinte paus, toma. E depois uma garrafa, toma também – literalmente. Juntei os dois mais dois e acaba que tudo é fruto de uma matemática simples.

Às vezes preciso mesmo sair. Não pra ir pra algum lugar, pra ir até um ponto mais ou menos distante e dar meia volta num ponto estranho, olhar pra trás e voltar. Olha, cada um com sua própria loucura pra espairecer. Numa dessas noites peguei o ônibus da esquina de casa e fui até o outro lado da cidade – que não é tão difícil nesses casos, seja dito.  A parte de trás tava cheia pra caralho, não ia passar ainda. Alguns pontos depois o ônibus parou e as mesmas pessoas de sempre entraram do mesmo jeito de sempre, a não ser por uma garota negra linda que, por ação sobrenatural, sentou na cadeira vaga do meu lado. Eu me mantinha em pé e sempre preferi assim, pediu licença e sorriu sem mostrar os dentes, já era um sorriso bonito, aprovado. Puxou uma garrafa d’água da bolsa e tomou um gole, secou os lábios e guardou, me senti motivado e fiz o mesmo com meu cantil (com vodka).

- Calor horrível, né?
- Verdade. terminei o gole.
- Também trago comigo uma garrafinha, não dá pra ficar sem beber água. (também? água na minha?)

Sorri pensando se era ou não doentio beber alguma coisa quente no calor – Acho que sim.

Disparou Shooting Star, do Lou Reed, do meu celular e era só (mais) um engano.

- Meu nome é Caroline, como na música.
- Música?
- Lou Reed. (uau!)

Menti meu nome e guardei o celular no bolso. Conversamos um pouco sobre bobagens e, bem, era estranho ela não ter descido ainda. Passamos pra trás do ônibus e partilhamos o cantil até esvaziar. Tudo bem que era 300 ml, mas ela tinha uma resistência respeitável.

Descemos na rua das putas, do outro lado da cidade, e caminhamos lado a lado falando sobre trabalho e bons álbuns.

- Vou beber com umas amigas, quer vir?
- Pode ser, mas acho que tô sem grana.
- Não tem problema.
- Onde é?
- Não teria a mesma graça se eu te dissesse.

Achei estranho. Seria pretensão achar que era alguma merda a mais, e paranóia demais imaginar que um grandalhão estaria me esperando em algum lugar pra me comer o cu de pancada quando percebesse que eu não tinha um puto. Beber alguma coisa na rua das putas não significaria tomar no cu, mas do jeito que as coisas se encaminhavam, era bem provável. E ela percebeu minha hesitação. Sorriu mostrando os dentes mais brancos que eu já havia visto na minha vida – claro que propositalmente.

- Hey, babe, take a walk on the wild side.

Sorri de volta.

- Você fuma?
- Depende.
- De quê?
- Se você tiver um pra me oferecer, fumo sim.

Entramos num prédio escuro e subimos as escadas dos corredores silenciosos fazendo bastante barulho nos degraus. Passamos por uma porta entreaberta, apartamento cheio de garotas bebendo e conversando.

Uma delas perguntou - Cliente?
- Não.

Pegou dois cigarros amarelos com uma loira de copo na mão e entregou um aceso pra mim. Fecharam a porta e fomos todos pra um quarto no fim do corredor de onde se ouvia uma música bem baixa. Eu era o último da fila indiana, passei e sentei no chão encostado na parede. Não tinha idéia do que ia acontecer até que uma por uma começou a contar as histórias mais estranhas de todos os programas, seguindo uma ordem num círculo – do qual eu fazia parte mesmo sem saber.

- Bom – puxei um trago – peguei uma garota num ônibus e ela me pagou com cigarros e bebidas, mas não rolou transa nenhuma, achei estranho pra caralho, mas tudo bem. Acabei num quarto estranho sem saber o que falar e me perguntando pra que merda eu não ando com um gravador.

Todas riram e perguntaram o que eu fazia.

- Eu? Eu invento muita merda e escrevo tentando deixar o menos estranho possível.

Carol encheu meu copo e perguntou se eu ia escrever sobre aquela noite.

- Não sei, não sei.

Insistiram pra que eu o fizesse.

- Tá bom, tá bom, eu escrevo.
- Foda vai ser alguém acreditar – disseram do outro lado do quarto.

 

E aí?