sábado, 19 de setembro de 2009

Vadinho

É pelas beiradas que
te devoro

pra provar que
em devero

possuo e me apodero
da tua força descomunal.

De tua carne celulósica
tiro a essência

e do teu brasil
te tiro pau.

As mãos dadas

Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente e em vão fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, insights, fantasias - tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.

Aldous Huxley; Portas da Percepção.

O sono lhes atingiu por fruto do cansaço, uma bala perdida indefensável, vencendo-lhes toda a resistência final. E bem que, talvez, lá no fundo, ambos renderam ao sono, na consciência do fim tão próximo. Não houve preparação ou pedido especial, de nenhum. O único desejo, imerso em seus interiores, era o fim de tudo. De tudo, tudo que configurava o conjunto de destruição de seus corpos e espíritos. As sessões intermináveis e incansáveis de tortura. O fim era, finalmente, o que desejavam. Jocosamente, consideravam uma aposentadoria forçada. A causa, a herança, a revolução. Todas nas mãos da próxima geração e assim por diante, não importava em que palmas estivessem estendidas, desde que houvesse dedos no cerrar protetor e assumido, ali prostrado em mãos. Os pensamentos interromperam. Observaram o sol, que entrava furtivo por entre as frestas da janela. Não, não era uma janela. O sol esgueirava-se pelas frestas da grade.

Capturados, presos, torturados e julgados por crimes contra o Estado. E juntos, verteram o sangue, as lágrimas, a dor, os gritos. E o resultado final: pena de morte. Os dois não sabiam, ao certo, o tipo de execução, muito menos o tempo exato. As horas, ali dentro, não valiam de nada. O sol, observador fugaz, estaria ali, no exato momento. Quando pudessem observar sua existência despida, sem sua amarela aura de perseguições, olharem os olhos de Apolo, vê-lo e arder à visão sem sentido, seria o momento. Não esperavam muito do tempo restante. Não esperavam acréscimo ou decréscimo de velocidade. Estavam ambos livres de oscilações individuais e interpessoais do tempo, que de certa forma, não existia, por completo, ali. Não esperavam algum tipo de esquema de resgate ou salvamento. Sua esperança fora raptada por outrem: o cansaço.

Desde a idéia inicial estavam juntos. Desde o início dos planejamentos, os encontros, reuniões e lutas: juntos. E as mãos tocavam-se no silêncio de palavras mudas, de existência não-dita. Mesmo que separadas fisicamente, encontravam-se. A mão dele, grande e calejada, acostumada ao planejamento interminável, envolvia a dela, pequena, suave e branda, da rotina das pesadas armas. E mesmo distantes, envolviam-se. Palavras não eram necessárias, desde que houvesse o irromper do silêncio dos corpos, naquele único e mínimo instante de contato: reciprocidade.

Eram mártires, sabiam. Lembrados, eternamente, como símbolos inextinguíveis da revolução, da liberdade. O sol cegou seus olhos, despiu-se. Era o momento. Mãos dadas. Na verdade, não se separaram desde a chegada. Os torturadores faziam questão de levá-los juntos às sessões, de mãos dadas. Mostrar a dor de um ao outro. A porta destrancada ruidosamente. Homens de quase dois metros, roupas militares pretas e armas na mão. Escolta até a arena principal, sim, a execução seria pública, como forma de exemplo. Riram-se, ambos. Exemplo de um Estado falho.

Mãos dadas percorrendo o extenso caminho até o local delimitado. Enfileirados outros presos. Um a um caía diante da multidão, enquanto os fuzis estilhaçavam o silêncio. Alguns “Oh” eram deliberadamente ouvidos. E no momento final, as mãos soltaram-se e a morte foi individual. Duas balas, duas mãos, separadas, individuais. Não houve comoção, não houve aplauso, só o individual pitoresco. A morte liberta da prisão individual.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Desejo à gravidez

Amanhã
asso um croissant

com meu fogão
feito de pedaços
do coração.

Mas como não é assim
que se faz,
juro: corro atrás

de uma padaria aberta
às duas e meia da manhã.

(mas sem berros
dessa vez.)

O Globo de Neve

Nunca havia percebido o mundo ao seu redor. Aos meros detalhes, às percepções de temperatura e tudo que, mesmo indiretamente, lhe afetava. Vivia como numa sombra, sem perceber a sensação da realidade que o cercava. Aos poucos, trancou-se mais e mais dentro de si. Um dia, simplesmente abriu os olhos, após cerrá-los contra a brisa que cortava seu rosto e abriu de forma diferente. Sentia-se diferente, enclausurado por uma cela invisível. Sem maiores explicações, notou um pouco do universo que não estava trancafiado a sua volta. Largou passos pesados no caminho, notando quão profundo pareciam. Inspirou o ar salgado da beira da praia, sentindo o gosto do mar. Que mundo seria aquele, tão diferente?

Com o passar do tempo, porém, seus passos não eram tão profundos e o ar não tinha gosto das gotas fugidas do mar. O céu não era tão azul e tão profundo. Inicialmente não deu importância, mas o desbotamento do céu pareceu-lhe um exagero sincero. Suficiente, ao menos, para atenção. Analisou a marca de suas pegadas, tão artificiais e falsificadas. Observou o ar, de semelhança industrial, plástica. O sol demonstrava uma fluorescência errática, um amarelo falso e infeliz. Algo estava errado. Mas o quê?

Apertou os olhos e olhou para o céu, procurando algum ponto incomum. Observou além das nuvens e dos aviões que riscavam o céu. Ultrapassou pássaros que voavam tão alto, que pareciam partículas esquecidas no espaço. Enxergando então, além de qualquer barreira, notou algo disforme, algo branco. Circundou toda abóboda celeste com os olhos, como lacrasse todo o globo de sua vista. Em todo percurso, percebia aquela marca esbranquiçada, que sugeria um reflexo. Sim, um reflexo. Este, que se tornava mais intenso ao aproximar-se do estranho sol falso amarelo. Seguiu, com os dedos, a linha do céu.

Sentou-se no píer, olhando o movimento do mar. Algo de estranho. O mar parecia mecânico e sem vida, como se movimentado em padrão, por pás e moinhos ocultos. Observou o horizonte. Ultrapassou o pequeno barquinho – que, no entanto, parecia imóvel – navegando ao longe. Ultrapassou grandes ondas e carneirinhos de lã sintética. E o horizonte não era mais horizonte, mas sim uma junção entre o céu e o mar. Desenhou com os dedos, mais uma vez, aquela limitação. Notou uma tênue camada de junção entre os dois, como fosse uma linha transparente, transpassada onde não se poderia chegar. Mas com os olhos e o movimento dos dedos, conseguira alcançar o suposto infinito. Algo estava errado.

Os segundos e minutos configuravam-se apertados, as horas corriam em ciclos fechados de repetição. Aos poucos, pôde observar o incrível: o encolhimento do universo. Mas não, tudo mais prosseguia de forma natural. As pessoas prosseguiam de forma natural. Mais alguém teria notado aquela estranheza toda, claro! Não conseguia explicar o mundo ao seu redor. Um mundo que até então era ignorável e passível da indiferença. Mas... Será que foi isso? Será que tudo ao seu redor cansara daquele tratamento de insignificância? Não sabia ao certo.

O tempo passava e tudo se tornava plástico. O céu era plástico, o mar era plástico, o sol era plástico. Por fim, a única plasticidade não reconhecida era a própria. Seus rastros eram pré-desenhados, como fosse prostrado de forma planejada, esculpida. Analisava mais e mais, cadenciando nas pontas dos dedos, todo o padrão do invólucro do céu, do mar e do horizonte. E toda a significância vertia mais nada. A vida subtraía-se ao artificial preso, enclausurado pelo infinito definível. E mais do que nunca, ele estava ali, preso.

O universo havia se voltado contra ele, diminuindo de tamanho só em seu aspecto individual. O resto permanecia inteiro. Ele não. O universo reduzira-se ao pouco que antes cabia na percepção atrasada daquele homem: um globo. Preso, sem movimentos a não ser o reflexo de um mundo fora dali. Um globo de neve.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Refugo

O cais de naufrágios
repleto de ossos desiludidos,
tão brancos, tão roídos,
tão velhos, tão moídos,
de todo o sufrágio
do tempo que passou.

Minha sonora incompreensão
posta em gestos mudos,
tão calados e gritantes
em sua fiel reverberação.

Sua forma feminina
e sua nuance, tão franzina,
soltando passos aleatórios
nos traços incontroláveis,
absortos, confabulatórios
de simplesmente existir.

E no exílio sombrio do teus olhos,
meus elogios são o catalisador
do teu sorriso.

Licença Poética.

Era algo novo, inexplicável. Talvez fosse um engano. Isso, um engano! Não... Além de inexplicável era incontestável. Mas como? No fim das contas, talvez nem importasse um por que. Mas sim o que fazer a partir daquele momento. Inspirou profundamente, recolhendo uma porção generosa daquele ar áspero, congelante, que lhe raspou as paredes dos pulmões. Fez uma pausa nas considerações, tossiu por alguns instantes e retomou a linha de pensamento. O mais importante, seja lá o que fizesse com aquilo, seria lidar com toda burocracia. Teria de informar-se a respeito, claro.

Cerrou os olhos. Sim, sim, departamento de informações. Levantou-se do banco. Caminhou por alguns metros e entrou no carro. Deu a partida, esticou o pescoço, examinando a rua. Estava parcialmente vazia. Ligou o rádio, mudou lentamente de estação, sem pressa alguma. Alguns ruídos. Regulou aleatoriamente o botão até ouvir a voz de Bob Dylan. Aumentou o volume, ouviu os acordes e cantarolou Mr. Tambourine Man. Passou a marcha e saiu lentamente, ainda preso às idéias de poucos instantes. Sinceramente, não havia se livrado daquilo em momento algum. Aquilo que se mantinha pulsante, vivo.

Mudou a marcha e avançou pela rua deserta. Apesar das janelas fechadas, o cinza quase vivo que pairava no ar, invadiu parcialmente o carro. O ar gélido irritara suas narinas. As pontas de seus dedos, mesmo socados nas luvas de lã, estavam levemente rijas e geladas. Inspirou um pouco do ar – ainda áspero – e continuou. Encaminhou-se ao departamento de informações. Fora pouquíssimos pedestres e alguns poucos carros, as ruas estavam efetivamente desertas. Diferente da cidade, seu interior estava movimentado. Seus pensamentos corriam alastrados, na tentativa de uma passível organização. Seus sentimentos, até então ocultos, fervilhavam de excitação.

Numa manutenção quase heróica, conseguia manter-se atento ao mundo prostrado ao seu redor. Inconscientemente, acompanhava a voz de Joni Mitchell cantando Little Green, imitando o toque do violão com seus dedos gélidos ao volante. Ligou a seta, reduziu a velocidade e entrou à esquerda. Parou o carro diante do prédio azul, Departamento de Informações Burocráticas. Desligou o rádio, desceu do carro e trancou as portas. Cumprimentou o porteiro, entrou no lugar, passando por um alto portão metálico.

Boa tarde. Como eu poderia legalizar uma idéia? O senhor terá de responder um curto questionário e então o encaminharemos ao departamento necessário. Certo, certo, podemos começar? Sim, podemos. Preencha esse formulário e começaremos.

Pronto, aqui está. Certo. Quando surgiu tal idéia? Hoje, algumas horas atrás. Certo. Onde surgiu? De fronte com o píer, à beira-mar. Explique a idéia. Bem, não é algo grandioso. Ora, não se acanhe. Certo, certo. Quando me vem essa idéia, é bem como algo frio espetando por dentro. Senhor. E impele a fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, ir atrás de alguém. Senhor, senhor! E tudo mais parece confuso, uma briga pra manter-me atento. E existe essa ânsia por algo, inexplicável e SENHOR! Perdão, diga. Receio que isso não é uma idéia. Não? Não. E agora? O senhor precisará de uma licença poética. Como assim? E então dará entrada nos papéis pra adquirir, de forma realizável, isso. Isso o que? O amor. Senti-lo e explicar dessa maneira, sem licença, é ilegal!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O momento anti-romântico

Esplêndida é a morte de treva
que se consome.

Torpedos inteligíveis são
disparados da lua cheia,
invocando do sangue, da carne

o romantismo amargo
dos dias que devoram.

Existe uma única chance
em sair ileso
do paraíso de pedras
que desmorona.]

É desnudar a face que corrompe
o beijo

tragar o medo, trazê-lo à tona
junto ao desejo

que atordoa (desmonta)
e desencanta o peito

do seio, do pé
da cama.

Desalmar o corpo,
apagar a chama

desfazer o infiel traço
monótono do braço

que circunda o abraço
e deságua mortalmente
nas róseas rochas

da unidade
de uma separação.

Humanização

Despertava lentamente, sem mesmo dar conta do que havia acontecido. Uma fina cortina de poeira atravessava a janela e tocava o chão. O quarto escuro. A cidade iluminava a única fresta da janela, de onde descendia o feixe pueril. Um canto da lua cheia esgueirava-se, dividindo espaço com duas ou três estrelas, na tentativa de ser vista. Então, em uma fração de segundo, se deu conta da situação. Seu corpo não era o mesmo. Sentia-se como se todas as suas partes houvessem sido desmontadas, e inclusive, algumas substituídas. Não sentia dor, apenas estranheza. Estranheza do saber que aquele não era o seu recipiente conhecido. Estranheza de perceber-se destoado e confuso. Não entendia o que havia acontecido.

Esticou-se na cama, pretendendo em seguida, verificar o desconhecido. Esticou-se mais do que lembrava poder. Distanciando suas mãos e pés do dorso, de forma extraordinária, observou que sua flexibilidade aumentara assustadoramente. Repetiu o feito, prestando atenção aos mínimos detalhes. Ouviu o som de suas vértebras estalando, como no estalar de dedos. Voltou à posição inicial, fetal. Torceu o rosto em análise dos dados já reunidos. Analisou sua elasticidade e o estalar estranho das vértebras. O sentimento de troca de corpo, a falta de dor e o fato de, inclusive, sentir-se bem. Melhor do que antes. Antes, pensou, antes de cochilar. Mais ou menos vinte minutos atrás.

Analisou o feixe de poeira que flutuava até o chão, desaparecendo sem mesmo tocar o chão, como numa ilusão incrível. Torceu o rosto novamente, permitindo que seus bigodes sentissem um pouco a brisa que entrava pela pequena fresta da janela. Bigodes!? Bigodes! Sim, eram bigodes. Torceu o rosto de forma frenética e quase convulsiva, sentindo seus longos bigodes prateados tocando o ar quase congelado da noite. Sim, bigodes! Como? Começou a desconfiar de sua própria humanidade. Torceu o rosto mais uma vez, confirmando a presença dos bigodes. Decidiu ir além. Sentiu ter controle sobre algo além de seus braços. Eram as pernas, claro. Mas não, a sensação atravessava as pernas. Concentrou-se e sentiu algo mexendo por debaixo da coberta.

Concentrou-se num movimento tímido. Com o passar dos segundos, movimentava aquilo com mais vigor. Mas... Aquilo o quê? Enfiou a cabeça por debaixo das cobertas e percebeu sua nudez. Mas não era uma nudez igual a qual se lembrava de inquirir diante do espelho do banheiro. Observava, em desespero, uma camada de pêlos encobrindo seu corpo. Um pêlo branco, pálido, quase cor de neve. Em alguns pontos, detectou inclusive, a presença de pequenas manchas alaranjadas, como se surgissem do nada com o intuito de tornar inconstante aquela brancura felpuda. Foi adiante. Suas pernas não eram mais pernas, ou ao menos, não as mesmas as quais estava acostumado.

Pensou em fitar os braços. Seus braços também não eram os mesmos. Tudo havia mudado? Bigodes, pêlos e agora isso? Fora... Aquilo. O que seria aquilo? Lembrou-se de verificar a natureza ‘daquilo’. Sua visão direcionou-se às pernas. Foi além. Concentrou-se mais uma vez. Tentou novamente movimentar ‘aquilo’. Teve de analisar por certo tempo, até que realmente confirmasse. Não, não poderia ser. Mas sim, era. Era também peluda, branca e com uma mancha curta na ponta. Longa e felpuda, movimentando-se inconscientemente para os lados, de modo tímido, mas, respondendo à vontade quando assim era necessário. Era uma cauda.

Esticou-se mais uma vez até o estalar de suas vértebras. Não era mais humano, disso tinha certeza. Mas o que poderia ser? Tinha suposições, mas não queria trabalhá-las antes de adquirir mais provas. Observou seus pés e mãos. Que não eram seus. Notou a semelhança com uma pequena almofada, percebeu a concentração maior de pêlos e o número reduzido de dedos. Comandou a exposição de algo que sabia estar oculto. Garras afiadíssimas saltaram de seus dedos, onde antes havia o vão solitário do ‘apenas macio’. Não, humano não era. De jeito maneira. O que mais poderia analisar? Livrou-se das cobertas – com certa dificuldade – e tentou pôr-se de pé. Tombou diversas vezes, tentou diversas vezes e mesmo assim não obtinha sucesso. Como por reflexo, levantou-se sobre os braços e as pernas, que não eram seus. Firmou-se de quatro e caminhou por uma curta distância. A facilidade na locomoção era de fato algo interessante. Sentia mais facilidade naquele movimento quadrúpede do que a maneira como se mantinha normalmente de pé, ereto nas pernas.

Alongou seu corpo, tocando sua barriga na cama. Ainda surpreendia-se com sua elasticidade. Tornou à posição anterior. Caminhou mais um pouco, com elegância a qual nunca sentira em sua vida. Utilizava seu corpo de forma sutil e suave, não provocada ruídos. Sua própria respiração era sussurrada. Percebeu que seus sentidos eram aguçados. Ao menos a ponto de ouvir, com detalhes incríveis, sua própria respiração. Aquietou-se. Reduziu seu próprio ritmo cardíaco, respirava de forma silenciosa, quase inexistente. Antes de dormir, há mais ou menos vinte minutos, não conseguia ouvir ruído algum. Agora ouvia uma cidade desperta, que funcionava vividamente. Ouviu a circulação das ruas, passos ao longe, folhas fustigadas debatendo-se no ar e tanto mais. Ouvia o bater de asas de insetos que rodeavam a lâmpada. Escutou vagamente, o som da eletricidade concentrada na lâmpada. Incrível!

Sentia o odor da noite, com seu aspecto úmido contínuo. Sentia o cheiro dos corvos que haviam construído um ninho perto do telhado. Sentia o cheiro do assoalho gasto e o cheiro de queimado de algum dos insetos que tocara a luminária quente. Impressionante. Esticou-se mais uma vez, tocando a barriga no chão. Decidiu encaminhar-se até o sofá. Foi até a ponta da cama e percebeu, tardiamente, que tudo parecia maior. Ou simplesmente, ele mesmo diminuíra. Humano mesmo, não era, repetia para si mesmo. Passo por passo, aproximou-se do fim da cama. Observou a distância até o sofá. Teria de descer e escalar aquele sofá verde, gasto. Não... Poderia fazer algo mais. Algo humanamente impossível. Mas não haveria problemas, afinal, humano sabia que não era.

Calculou inconscientemente, de forma fria e voraz. Tomou distância e antes mesmo de dar por si mesmo, saltou. Um salto espetacular e suave. Sentiu-se como uma das partículas de poeira: uma ilusão que flutuava sem encontrar o solo. Finalmente, de forma sutil, alcançou o sofá. Nem mesmo quando mais jovem, conseguia saltar alguns palmos, quanto mais dois metros. Não. Humano não era. E que aterrissagem! Mal sentira o toque de seus pés e mãos – que não eram seus – com a superfície do sofá. Por alguns segundos, sentiu-se como na lua: quase sem gravidade atuando sobre seu corpo.

Desceu do sofá, sentindo um cheiro convidativo. Analisou mais uma vez a situação, com os novos dados. Tinha bigodes, uma cauda, um corpo pequeno e peludo, de coloração branca e de manchas alaranjadas. Seus sentidos estavam milhões de vezes melhorados. Eram totalmente aguçados. Possuía uma flexibilidade e capacidade física incríveis. Movia-se, acima de tudo, elegantemente. Tornara-se um gato. Um gato!? E no lugar da conhecida interjeição de surpresa, ouviu um miado. Um miado curto e agudo. Sim, um gato. Espantou-se com a falta de voz. Ao menos a voz a qual estava acostumado. Não, não era humano. Era um gato. Ronronou por alguns segundos.

Sentiu mais uma vez o cheiro convidativo, caminhou seguindo-o. Notou um grande pote verde, onde lia seu nome. Observou seu interior. Sentia fome. Todo processo de descobrimento lhe dera uma fome profunda e voraz. Saltou sobre a comida e devorou rapidamente. Um gato. Sim, um gato. Miou longamente. Um miado satisfeito e desconfiado de si mesmo. Voltou ao sofá, agora de posse da razão do ‘ser gato’. Claro, tudo aquilo poderia não passar de um sonho, ou alucinação ou qualquer outro tipo de loucura.

Sonho ou não, alucinação ou não, a verdade era uma só: a de ser gato. Torceu o rosto, balançando seus bigodes. Esticou-se mais uma vez, agora deitado. Ouviu o estalar das vértebras. Finalmente conseguira o que nunca, em sua vida, havia atingido. Finalmente sentia-se bem. Sentia-se dentro de si mesmo. Antes se sentia diferente e abandonado em sua condição. Mas agora, sabia. Sim, agora sabia: era finalmente, depois de tantos anos, o que nunca conseguira ser. Humano.