sábado, 18 de junho de 2011

Onde

A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.

Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.
Não. Quero saber onde você mora.
Tá bom. Entendi. Fecha os olhos.
Pra quê?
Fecha.
Pronto.
O que você tá vendo?
Nada.
É aí que eu moro.
No nada?
Não. No infinito.
O infinito é grande demais.
Não dá pra ver, né?
Isso.
Qualquer lugar é o infinito?
Só quando ainda não der pra enxergar.
Fecha os olhos também.
Pra quê?

Ela sorri com o cabelo escondendo tudo que não é sorriso pra me obrigar a entender que não há nada no mundo além daquele sorriso.

Pra voltar pra casa.

E o resultado é exatamente igual a todos os anteriores.

Quando eu saí pra te encontrar

Subi devagar pelas escadas olhando pros degraus pra não errar os passos, e conforme me aproximava do andar certo ouvia um ruído cada vez mais alto que se transformou numa música que parecia estar debaixo d’água. Abri a porta do sétimo andar e encostei respirando forte na parede ao lado do elevador. Nada contra elevadores, mas escadas são boas o suficiente pra mim. Fui até o final do corredor como se estivesse mergulhando indefinidamente num lago escuro de superfície congelada, a música mais clara. Encostei o corpo, de lado, na porta. Senti as vibrações da madeira fria. Encostei o ouvido e ouvi Chain of Fools, Aretha Franklin. E sorri. A porta tá aberta.

Provavelmente ela me ouviu sorrindo, mesmo com I might be weak child, but I’ll give you strength tocando no mesmo instante. Virei a maçaneta, empurrei a porta e entrei no apartamento vazio. Vazio a não ser por um enorme colchão no meio da sala. E um notebook ligado a duas caixinhas de som, ligados à Aretha Franklin, todos ligados na tomada, com exceção de todas as luzes apagadas menos a do banheiro. Fechei a porta e passei a chave. Fui até a varanda e puxei a porta de correr, três carteiras de cigarro e uma caixa de fósforos sentados no canto oposto. Saio daqui a pouco do banho, acabei de entrar. Tá bom. Demorei um cigarro e meio até que ela saísse secando o cabelo e dissesse pra que eu entrasse.

Andou do quarto até o colchão, ajoelhou e pegou o celular ao lado de uma das caixinhas de som, foi até a varanda e conversou com alguém durante alguns minutos. Troquei de Aretha Franklin pra Billie Holiday, pura preferência. Deitei e fechei os olhos ouvindo These Foolish Things, braços debaixo da cabeça, como sempre, pernas semicruzadas e os pés roçando um no outro ao ritmo da música. A porta basculante abriu e fechou, ela deitou encostando o corpo na lateral do meu. Gostei do seu vestido. Acredita que foi um presente? Sério? Sério, minha irmã. Qual? Laura. A mais nova, né? Isso, você conheceu. Que graça… ela tá com quantos anos agora? Vai fazer nove. Cresceu muito? Esticou pra caralho. Vai ficar maior que você. Não sou alta, você que é baixinho. Billie’s Blues tocando.

Tive que colocar gasolina, você tem grana pra pagar sua entrada na festa? Tenho, mas que horas começa? Ah, já começou, mas não tem problema chegar depois, quer sair agora? Daqui a pouco, deixa acabar a música. Deixo. Ela fechou os olhos, encostou a cabeça no meu ombro e trespassou o braço até o outro ombro. Você fica bem de loira. e de vestido. Fico? Muito, mesmo eu preferindo você ruiva. Vou pintar de castanho escuro da próxima vez, que tal? Putz, não sei, não sei… Então me sugere uma cor. Vermelho. Vermelho não vale. Avermelhado então. Ela mordeu meu pescoço e riu. Castanho escuro e pronto, de acordo. Sou bem persuasiva. Olha… limpei a garganta e passei o braço pela cintura, obrigando-a a deitar com metade do corpo em cima de mim. Que foi? Tem um problema. Qual? Não vou mais pra festa. Por que não? Apontei pra uma das caixas de som, tocando Easy Living e cantei junto for you maybe I’m a fool, but it’s fun e segui até o final da estrofe, até que ela me interrompesse pra dizer que eu respondesse pela manhã.

Alguma coisa indefinida continuava tocando lá do fundo do lago de águas escuras e superfície congelada, as ondas por debaixo do gelo raspando suavemente. Quem se aproximasse de suas bordas e apertasse os olhos talvez enxergasse. Quem se aproximasse de suas bordas e fechasse os olhos talvez escutasse os peixes conspirando no fim do mundo.

domingo, 5 de junho de 2011

Dom Quixote

Meu amor
inquieto e profundo
mora no décimo terceiro andar e sozinho
bebe toda madrugada de sábado
depois de meia-noite fuma e vira os olhos
circula arrastando os calcanhares nas estradas

volta pra casa com bafo de cachaça
mergulha às quatro e meia no tédio final
e ama regurlamente de segunda a domingo.

Meu amor é banguelo
confinado, calado e confuso

e é tão narcisista
que só ama a si mesmo
e mais ninguém. Meu amor
é estrela cadente e eu sou remetente
escala, ortografia e destinatário

E não há nada que eu ame
mais que meus  próprios passos.

sábado, 4 de junho de 2011

Quando eu saí pra te buscar

Daí eu sentado junto duma lanchonete do aeroporto, esperando o avião chegar, pousar e as pessoas pegarem suas malas e saírem. Só pode ficar aqui se consumir alguma coisa. Tá bom, me vê o cardápio... hm, qual o tamanho da xícara? Caralho! desculpa, desculpa, me traz um puro então. Pronto. Daí eu sentado junto duma lanchonete dessas lanchonetes de aeroporto que vendem tudo custando o olho da cara tomando café numa xícara da Barbie, de fones no ouvido e Mutantes na cabeça, Não Vá Se Perder Por Aí. Veja como vem, veja bem, veja como vem, vai, vai, vem, veja bem, como vai, vem, veja como vai, veja bem, veja bem como vem, vai vem se ela vai também.

Olhando pro celular de dois em dois minutos pra saber a hora, desenhando dinossauros no guardanapo e de paletinha de plástico, dessas que se usa pra misturar o café e o açúcar, na boca pra lá e pra cá. Vôo atrasado. Ai, meu caralho. Tá, tá bom. Olha, me vê outro café, por favor? Todas as outras (poucas) mesas estão ocupadas, quem sabe de gente que também está esperando pelo mesmo aviãozinho que eu, ou outro antes, ou depois, ao mesmo tempo, quem sabe. Daqui a pouco todo mundo vai pra frente da porta pra se acotovelar e tentar ver a pessoa que está chegando, pra acenar, às vezes chorar, pular e soltar gritinhos, só pra mostrar prontamente: estou aqui.

Posso sentar aqui com você? Hm? É que as outras mesas estão ocupadas e com muita gente, você é o único que tá sozinho na mesa e, sei lá, se puder... Claro, senta. Obrigada. Quanto é esse café? Eu disse o preço. Caralho! desculpa. Eu falei a mesma coisa, não se preocupe. Bom, vou tomar um também. Qual seu nome? Prazer, o meu é Paula. Pra fingir educação eu tiro um dos fones e continuo com Mutantes na cabeça, mas baixinho, só de trilha de fundo, Não decida, nem pense, não negue, nem se ofereça, não queira se guardar, não queira se mostrar, queira, queira. Qualquer Bobagem. Ficamos um tempo em silêncio, ela puxou um notebook e começou a ler discretamente.

Não prestei muita atenção até quando o café dela chegou e eu vi que não era só uma leitura. Era O Estadão. Só por isso achei que valia uma conversa sobre nulidades, pro tempo passar e essas coisas – não que eu não continuasse olhando a hora no celular, mas agora era de cinco em cinco minutos. Questionário padrão das relações sociais. Você faz o quê? Estudo. Trabalha? Não.  Faz alguma outra coisa? Não muitas.. desenho dinossauros em guardanapos, serve? ela riu e fez que sim. Bom, escrevo. Escreve tipo escrever livros, etc? Não, não, quem dera, só escrevo mesmo. Então é escritor. Não, não, isso passa longe até da minha pretensão. Você disse que escreve, certo? Isso. Escreve bem? Normal, às vezes mal. Tem alguma coisa sua aí? Tem internet aí, né? Tem. Daí mostrei o blog, ela passou vinte e poucos minutos lendo, lendo muita coisa e muito rápido.

Terceira pessoa chega à mesa, encosta ao meu lado e sorri. Oi. Paula e eu olhamos pra cima. Era ela, a pessoa. Não tem muito o que pensar, levantei e segurei forte pela cintura e pelos ombros como se caso eu soltasse aquele corpo virasse pó. Senti a carótida pulsando forte com o nariz encostado no pescoço. Soltei depois de um tempo e apresentei as duas, sentamos e conversamos um pouco. Quanto é esse minicafezinho? Caralho! desculpa, desculpa. Me traz um!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pequenas Canções (parte 7) - Capítulo 3

Ele acordou aos poucos e ficou olhando o ventilador de teto girando pela fresta entreaberta dos olhos e do lençol cobrindo metade da cabeça. Levantou de cueca e camiseta e deu um pique até o banheiro pra vomitar, tropeçando e rebatendo o corpo pelas paredes pra chegar até o vaso e tossir dolorosamente e cuspir sem sequer o mínimo sinal de refluxo. Foi até a geladeira e pegou a penúltima e mais gelada cerveja pra tirar o gosto fantasmagórico da boca, pra acalmar a língua grossa e pastosa e começar a trabalhar na ressaca.


Ouviu os passos correndo do quarto pro banheiro do mesmo jeito que fizera, ouviu a tampa levantando do mesmo jeito que fizera e, pelo jeito, a mesma situação, só pra completar outra descarga fazia sem sequer descer quantidade aceitável d’água. Sentou no chão com as costas encostadas na parede e terminou a cerveja em mais dois goles longos, pegou a outra – a última – e dividiu com ela assim que se sentou na cadeira junto da mesa. Ela com a camisa dele semiabotoada e de calcinha, de cabeça baixa e terminando a outra metade da segunda garrafa. Abriu a mochila de cima da mesa e puxou uma cartela de comprimidos, tirou três e jogou dentro da cerveja, tomou alguns goles e entregou – É pra ressaca, toma.


- Posso tomar um banho? Tenho aula daqui a pouco e tenho uma roupa aqui na mochila.
- Tudo bem. Volto já.


Lavou o rosto, vestiu a calça que estava no chão do lado das garrafas de uísque e vinho, calçou o sapato sem meia. Pegou os óculos escuros dela, juntou alguns trocados da gaveta e saiu pra comprar pão e mais alguma coisa pra comer. Voltou uns minutos depois, fez omelete com queijo e um pouco de verdura picada, passou café com pouco açúcar e ficou encarando o teto enquanto fumava. Ela saiu arrumada, de óculos e cabelo preso e, diferente dele, com uma cara ótima


- Queria ter esse nível de recuperação.
- O que um banho e um doce não fazem. Ainda tem na mochila, se quiser.
- Fiz café e omelete. Comprei pão e tem cigarro. E a bala eu decido se tomo depois.


Ele cortou a omelete ao meio e dividiu cada metade em cada prato, encheu as duas xícaras, avisou que estava forte e que tinha um pouco de leite na geladeira. Ela pegou um cigarro da carteira, acendeu no fogão, comeu com pressa, escovou os dentes e disse que tinha de sair pra não perder a aula.


- Queria ter esse nível de café da manhã todos os dias.
- Eu também.