domingo, 25 de julho de 2010

Dos homens

Queria coroar uma mágoa convincente
uma aurora silenciosa e tendenciosamente morna
cercar de alguma coisa tenra e maravilhosamente incerta.

Fazer cerimônia ao hiato facultativo,
a aranha miúda tece uma inconstância de dar dó, amiúde,
e há quem acredite na incompatibilidade dos homens,
nessa eterna separação

e eu, dizem que acredito só em mim mesmo,
mas não sabem:

em mim, não creio,
creio mesmo é na separação silábica.

sábado, 24 de julho de 2010

Calendário Termidoriano

Enquanto as paralelas pendem para os lados
e seu peso de intensa extensão as faz entortar
ao extremo oriente, o incontínuo se desfaz.

Por que não encurtar os calendários pessoais?
Queimá-los, subjugá-los

atirar suas grades insensíveis nas ruas,
promover a grande revolução sans-cullote dos
sans-patience. Derrubar o antigo regime
dos dias-que-parecem-não-passar.

Tudo isso porque, no meu egoísmo,
(Pra ser bem preciso) preciso.
Não preciso disso

nem daquilo, nem reinvidicações
outrém ao chegar ao poder. É por
certas defectividades verbais

que não se explicam, mas modificam
toda conjugação: pouca corda,
muito nós.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Décimo Segundo

Hoje, dormi ao som da chuva
esperando por dezembro.

Ninguém bateu à porta,
o telefone não tocou,
a telepatia estava muda
e não haviam pombos voando.

Acordei aos poucos do sono antrópico
esperando por dezembro.

Não haviam pegadas na entrada da casa,
os corpos e pratos e talheres permaneciam
inalterados, no armário,]
as luzes estavam todas apagadas
e a televisão estava fora do ar.

Ainda falta tempo pra dezembro
e chegam cartas, pessoas, mensagens,
vestígios
por toda a casa

quando, na verdade, esta,
estará vazia até a véspara do
dia primeiro

enquanto chove e se escutam sorrisos
na lateral das fotografias e xícaras
emborcadas, e o diagnóstico

é a espera incalculável.

Finalmente realmente dormindo,
o incansável não-insônie,

enquanto o quando
não for dezembro.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Estrada

Meu mundo é um pedaço
indispensável de retalhos
até o indefinível,

a guia de traços infalíveis,
meu único lugar

é o inextingüível.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Alguma mulher

Não te acho linda
por você simplesmente o ser, mas

no meio de tantas outras pessoas - tristonhas e felizes
por descobrir subitamente a expressão eterna
e não definitiva

que escondia não só entrepernas,
mas também entregengivas.

E perceber que a preferência errante
é insignificante e abstrata,
e no entanto, tão necessária, [ao menos

até] o surgimento real e imperativo
de observações intuitivas e desesperadas.

É por notar a melancolia
aflita que lhe escorre
em segredo [esse ar alegre
e sombrio de amor machucado].

notar, tão surpreso
que desde as curvas do corpo até
o compadecer de seus cabelos

emergem as Segundas Serpentes Aquáticas,
das quais, eu sei,

não pareces nada.

Sufrágio

Não há morte
ou vida

nos entremeios da

silente sacanagem
estamentária:

há apenas palavras vagabundas
olheiras profundas, porcarias

várias.

Reencontro

Não, não te direi
os suspiros repetidos por
sua própria boca

numa paisagem já vista
incansavelmente vista
requisitada sob uma voz rouca.

Não, não te farei
serenata de silêncio ao
reencontrar a memória mais aflita

numa paisagem já vista
incansavelmente vista
requisitada sob um templo de palavras

essa carta de suicida
desse mundo presente,
desse tempo de agora
desse agora de nada.

Seremos, quem sabe,
bons amigos, quem sabe, amantes,
desde que dissipada
a longa profundidade dos termos
anteriores.

E o amor, essa grande superstição cheia de seguidores,
continue em minhas orações

e que eu mesmo as ouça
e possa cumpri-las em silêncio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Repetição

Esse nascimento de coisas absurdas
e tendenciosamente inúteis

essas manias, essas ruelas, essas
vidas que mal vingam um entardecer
sobre pernas decaídas aos montes.

Vamos, seguiremos de mãos dadas
à entrega do distante destroço do navio de lata
que afundou mais uma vez do lado Pacífico sul

dos solutos olhos escuros que imitam o
silêncio absurdo. E que

nome dar aos homens que se perdem no
caminho, essas vidas que mal vingam

e afundam pela completa metade de
seus rostos, opostos e em movimento.

Vamos, meu amor, mãos dadas.

Arvensis

Não haverá provável certidão
nesses tramites legais ou
burocracias quaisquer,

em credibilidade afável
na distância sonora e inconstável,

porque meu amor não precisa
de palavras repetitórias

e angústias berrantes:

te amo porque te vejo,
e faminto de desespero, espero
que seja de provável pretérito floral

e imperfeito; como sou eu.
por que não?

sábado, 10 de julho de 2010

Soneto da Pipa ao Miramar

A sombra decapitada
encontra o raio oscilante
na luz encarapitada.
No fio escuro do barbante

A cruz enverga ao norte,
recortada, ao sul disposta,
quão recaída em falsa morte
levanta sã e recomposta

Atraca três em vôo pleno
corta o céu num só rasante
da mão miúda do infante

Derruba as três num só aceno
e então enrola o cordonete, e
volta ao chão por um sorvete.