Nunca havia percebido o mundo ao seu redor. Aos meros detalhes, às percepções de temperatura e tudo que, mesmo indiretamente, lhe afetava. Vivia como numa sombra, sem perceber a sensação da realidade que o cercava. Aos poucos, trancou-se mais e mais dentro de si. Um dia, simplesmente abriu os olhos, após cerrá-los contra a brisa que cortava seu rosto e abriu de forma diferente. Sentia-se diferente, enclausurado por uma cela invisível. Sem maiores explicações, notou um pouco do universo que não estava trancafiado a sua volta. Largou passos pesados no caminho, notando quão profundo pareciam. Inspirou o ar salgado da beira da praia, sentindo o gosto do mar. Que mundo seria aquele, tão diferente?
Com o passar do tempo, porém, seus passos não eram tão profundos e o ar não tinha gosto das gotas fugidas do mar. O céu não era tão azul e tão profundo. Inicialmente não deu importância, mas o desbotamento do céu pareceu-lhe um exagero sincero. Suficiente, ao menos, para atenção. Analisou a marca de suas pegadas, tão artificiais e falsificadas. Observou o ar, de semelhança industrial, plástica. O sol demonstrava uma fluorescência errática, um amarelo falso e infeliz. Algo estava errado. Mas o quê?
Apertou os olhos e olhou para o céu, procurando algum ponto incomum. Observou além das nuvens e dos aviões que riscavam o céu. Ultrapassou pássaros que voavam tão alto, que pareciam partículas esquecidas no espaço. Enxergando então, além de qualquer barreira, notou algo disforme, algo branco. Circundou toda abóboda celeste com os olhos, como lacrasse todo o globo de sua vista. Em todo percurso, percebia aquela marca esbranquiçada, que sugeria um reflexo. Sim, um reflexo. Este, que se tornava mais intenso ao aproximar-se do estranho sol falso amarelo. Seguiu, com os dedos, a linha do céu.
Sentou-se no píer, olhando o movimento do mar. Algo de estranho. O mar parecia mecânico e sem vida, como se movimentado em padrão, por pás e moinhos ocultos. Observou o horizonte. Ultrapassou o pequeno barquinho – que, no entanto, parecia imóvel – navegando ao longe. Ultrapassou grandes ondas e carneirinhos de lã sintética. E o horizonte não era mais horizonte, mas sim uma junção entre o céu e o mar. Desenhou com os dedos, mais uma vez, aquela limitação. Notou uma tênue camada de junção entre os dois, como fosse uma linha transparente, transpassada onde não se poderia chegar. Mas com os olhos e o movimento dos dedos, conseguira alcançar o suposto infinito. Algo estava errado.
Os segundos e minutos configuravam-se apertados, as horas corriam em ciclos fechados de repetição. Aos poucos, pôde observar o incrível: o encolhimento do universo. Mas não, tudo mais prosseguia de forma natural. As pessoas prosseguiam de forma natural. Mais alguém teria notado aquela estranheza toda, claro! Não conseguia explicar o mundo ao seu redor. Um mundo que até então era ignorável e passível da indiferença. Mas... Será que foi isso? Será que tudo ao seu redor cansara daquele tratamento de insignificância? Não sabia ao certo.
O tempo passava e tudo se tornava plástico. O céu era plástico, o mar era plástico, o sol era plástico. Por fim, a única plasticidade não reconhecida era a própria. Seus rastros eram pré-desenhados, como fosse prostrado de forma planejada, esculpida. Analisava mais e mais, cadenciando nas pontas dos dedos, todo o padrão do invólucro do céu, do mar e do horizonte. E toda a significância vertia mais nada. A vida subtraía-se ao artificial preso, enclausurado pelo infinito definível. E mais do que nunca, ele estava ali, preso.
O universo havia se voltado contra ele, diminuindo de tamanho só em seu aspecto individual. O resto permanecia inteiro. Ele não. O universo reduzira-se ao pouco que antes cabia na percepção atrasada daquele homem: um globo. Preso, sem movimentos a não ser o reflexo de um mundo fora dali. Um globo de neve.
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