Despertava lentamente, sem mesmo dar conta do que havia acontecido. Uma fina cortina de poeira atravessava a janela e tocava o chão. O quarto escuro. A cidade iluminava a única fresta da janela, de onde descendia o feixe pueril. Um canto da lua cheia esgueirava-se, dividindo espaço com duas ou três estrelas, na tentativa de ser vista. Então, em uma fração de segundo, se deu conta da situação. Seu corpo não era o mesmo. Sentia-se como se todas as suas partes houvessem sido desmontadas, e inclusive, algumas substituídas. Não sentia dor, apenas estranheza. Estranheza do saber que aquele não era o seu recipiente conhecido. Estranheza de perceber-se destoado e confuso. Não entendia o que havia acontecido.
Esticou-se na cama, pretendendo em seguida, verificar o desconhecido. Esticou-se mais do que lembrava poder. Distanciando suas mãos e pés do dorso, de forma extraordinária, observou que sua flexibilidade aumentara assustadoramente. Repetiu o feito, prestando atenção aos mínimos detalhes. Ouviu o som de suas vértebras estalando, como no estalar de dedos. Voltou à posição inicial, fetal. Torceu o rosto em análise dos dados já reunidos. Analisou sua elasticidade e o estalar estranho das vértebras. O sentimento de troca de corpo, a falta de dor e o fato de, inclusive, sentir-se bem. Melhor do que antes. Antes, pensou, antes de cochilar. Mais ou menos vinte minutos atrás.
Analisou o feixe de poeira que flutuava até o chão, desaparecendo sem mesmo tocar o chão, como numa ilusão incrível. Torceu o rosto novamente, permitindo que seus bigodes sentissem um pouco a brisa que entrava pela pequena fresta da janela. Bigodes!? Bigodes! Sim, eram bigodes. Torceu o rosto de forma frenética e quase convulsiva, sentindo seus longos bigodes prateados tocando o ar quase congelado da noite. Sim, bigodes! Como? Começou a desconfiar de sua própria humanidade. Torceu o rosto mais uma vez, confirmando a presença dos bigodes. Decidiu ir além. Sentiu ter controle sobre algo além de seus braços. Eram as pernas, claro. Mas não, a sensação atravessava as pernas. Concentrou-se e sentiu algo mexendo por debaixo da coberta.
Concentrou-se num movimento tímido. Com o passar dos segundos, movimentava aquilo com mais vigor. Mas... Aquilo o quê? Enfiou a cabeça por debaixo das cobertas e percebeu sua nudez. Mas não era uma nudez igual a qual se lembrava de inquirir diante do espelho do banheiro. Observava, em desespero, uma camada de pêlos encobrindo seu corpo. Um pêlo branco, pálido, quase cor de neve. Em alguns pontos, detectou inclusive, a presença de pequenas manchas alaranjadas, como se surgissem do nada com o intuito de tornar inconstante aquela brancura felpuda. Foi adiante. Suas pernas não eram mais pernas, ou ao menos, não as mesmas as quais estava acostumado.
Pensou em fitar os braços. Seus braços também não eram os mesmos. Tudo havia mudado? Bigodes, pêlos e agora isso? Fora... Aquilo. O que seria aquilo? Lembrou-se de verificar a natureza ‘daquilo’. Sua visão direcionou-se às pernas. Foi além. Concentrou-se mais uma vez. Tentou novamente movimentar ‘aquilo’. Teve de analisar por certo tempo, até que realmente confirmasse. Não, não poderia ser. Mas sim, era. Era também peluda, branca e com uma mancha curta na ponta. Longa e felpuda, movimentando-se inconscientemente para os lados, de modo tímido, mas, respondendo à vontade quando assim era necessário. Era uma cauda.
Esticou-se mais uma vez até o estalar de suas vértebras. Não era mais humano, disso tinha certeza. Mas o que poderia ser? Tinha suposições, mas não queria trabalhá-las antes de adquirir mais provas. Observou seus pés e mãos. Que não eram seus. Notou a semelhança com uma pequena almofada, percebeu a concentração maior de pêlos e o número reduzido de dedos. Comandou a exposição de algo que sabia estar oculto. Garras afiadíssimas saltaram de seus dedos, onde antes havia o vão solitário do ‘apenas macio’. Não, humano não era. De jeito maneira. O que mais poderia analisar? Livrou-se das cobertas – com certa dificuldade – e tentou pôr-se de pé. Tombou diversas vezes, tentou diversas vezes e mesmo assim não obtinha sucesso. Como por reflexo, levantou-se sobre os braços e as pernas, que não eram seus. Firmou-se de quatro e caminhou por uma curta distância. A facilidade na locomoção era de fato algo interessante. Sentia mais facilidade naquele movimento quadrúpede do que a maneira como se mantinha normalmente de pé, ereto nas pernas.
Alongou seu corpo, tocando sua barriga na cama. Ainda surpreendia-se com sua elasticidade. Tornou à posição anterior. Caminhou mais um pouco, com elegância a qual nunca sentira em sua vida. Utilizava seu corpo de forma sutil e suave, não provocada ruídos. Sua própria respiração era sussurrada. Percebeu que seus sentidos eram aguçados. Ao menos a ponto de ouvir, com detalhes incríveis, sua própria respiração. Aquietou-se. Reduziu seu próprio ritmo cardíaco, respirava de forma silenciosa, quase inexistente. Antes de dormir, há mais ou menos vinte minutos, não conseguia ouvir ruído algum. Agora ouvia uma cidade desperta, que funcionava vividamente. Ouviu a circulação das ruas, passos ao longe, folhas fustigadas debatendo-se no ar e tanto mais. Ouvia o bater de asas de insetos que rodeavam a lâmpada. Escutou vagamente, o som da eletricidade concentrada na lâmpada. Incrível!
Sentia o odor da noite, com seu aspecto úmido contínuo. Sentia o cheiro dos corvos que haviam construído um ninho perto do telhado. Sentia o cheiro do assoalho gasto e o cheiro de queimado de algum dos insetos que tocara a luminária quente. Impressionante. Esticou-se mais uma vez, tocando a barriga no chão. Decidiu encaminhar-se até o sofá. Foi até a ponta da cama e percebeu, tardiamente, que tudo parecia maior. Ou simplesmente, ele mesmo diminuíra. Humano mesmo, não era, repetia para si mesmo. Passo por passo, aproximou-se do fim da cama. Observou a distância até o sofá. Teria de descer e escalar aquele sofá verde, gasto. Não... Poderia fazer algo mais. Algo humanamente impossível. Mas não haveria problemas, afinal, humano sabia que não era.
Calculou inconscientemente, de forma fria e voraz. Tomou distância e antes mesmo de dar por si mesmo, saltou. Um salto espetacular e suave. Sentiu-se como uma das partículas de poeira: uma ilusão que flutuava sem encontrar o solo. Finalmente, de forma sutil, alcançou o sofá. Nem mesmo quando mais jovem, conseguia saltar alguns palmos, quanto mais dois metros. Não. Humano não era. E que aterrissagem! Mal sentira o toque de seus pés e mãos – que não eram seus – com a superfície do sofá. Por alguns segundos, sentiu-se como na lua: quase sem gravidade atuando sobre seu corpo.
Desceu do sofá, sentindo um cheiro convidativo. Analisou mais uma vez a situação, com os novos dados. Tinha bigodes, uma cauda, um corpo pequeno e peludo, de coloração branca e de manchas alaranjadas. Seus sentidos estavam milhões de vezes melhorados. Eram totalmente aguçados. Possuía uma flexibilidade e capacidade física incríveis. Movia-se, acima de tudo, elegantemente. Tornara-se um gato. Um gato!? E no lugar da conhecida interjeição de surpresa, ouviu um miado. Um miado curto e agudo. Sim, um gato. Espantou-se com a falta de voz. Ao menos a voz a qual estava acostumado. Não, não era humano. Era um gato. Ronronou por alguns segundos.
Sentiu mais uma vez o cheiro convidativo, caminhou seguindo-o. Notou um grande pote verde, onde lia seu nome. Observou seu interior. Sentia fome. Todo processo de descobrimento lhe dera uma fome profunda e voraz. Saltou sobre a comida e devorou rapidamente. Um gato. Sim, um gato. Miou longamente. Um miado satisfeito e desconfiado de si mesmo. Voltou ao sofá, agora de posse da razão do ‘ser gato’. Claro, tudo aquilo poderia não passar de um sonho, ou alucinação ou qualquer outro tipo de loucura.
Sonho ou não, alucinação ou não, a verdade era uma só: a de ser gato. Torceu o rosto, balançando seus bigodes. Esticou-se mais uma vez, agora deitado. Ouviu o estalar das vértebras. Finalmente conseguira o que nunca, em sua vida, havia atingido. Finalmente sentia-se bem. Sentia-se dentro de si mesmo. Antes se sentia diferente e abandonado em sua condição. Mas agora, sabia. Sim, agora sabia: era finalmente, depois de tantos anos, o que nunca conseguira ser. Humano.
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