Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente e em vão fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, insights, fantasias - tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
Aldous Huxley; Portas da Percepção.
O sono lhes atingiu por fruto do cansaço, uma bala perdida indefensável, vencendo-lhes toda a resistência final. E bem que, talvez, lá no fundo, ambos renderam ao sono, na consciência do fim tão próximo. Não houve preparação ou pedido especial, de nenhum. O único desejo, imerso em seus interiores, era o fim de tudo. De tudo, tudo que configurava o conjunto de destruição de seus corpos e espíritos. As sessões intermináveis e incansáveis de tortura. O fim era, finalmente, o que desejavam. Jocosamente, consideravam uma aposentadoria forçada. A causa, a herança, a revolução. Todas nas mãos da próxima geração e assim por diante, não importava em que palmas estivessem estendidas, desde que houvesse dedos no cerrar protetor e assumido, ali prostrado em mãos. Os pensamentos interromperam. Observaram o sol, que entrava furtivo por entre as frestas da janela. Não, não era uma janela. O sol esgueirava-se pelas frestas da grade.
Capturados, presos, torturados e julgados por crimes contra o Estado. E juntos, verteram o sangue, as lágrimas, a dor, os gritos. E o resultado final: pena de morte. Os dois não sabiam, ao certo, o tipo de execução, muito menos o tempo exato. As horas, ali dentro, não valiam de nada. O sol, observador fugaz, estaria ali, no exato momento. Quando pudessem observar sua existência despida, sem sua amarela aura de perseguições, olharem os olhos de Apolo, vê-lo e arder à visão sem sentido, seria o momento. Não esperavam muito do tempo restante. Não esperavam acréscimo ou decréscimo de velocidade. Estavam ambos livres de oscilações individuais e interpessoais do tempo, que de certa forma, não existia, por completo, ali. Não esperavam algum tipo de esquema de resgate ou salvamento. Sua esperança fora raptada por outrem: o cansaço.
Desde a idéia inicial estavam juntos. Desde o início dos planejamentos, os encontros, reuniões e lutas: juntos. E as mãos tocavam-se no silêncio de palavras mudas, de existência não-dita. Mesmo que separadas fisicamente, encontravam-se. A mão dele, grande e calejada, acostumada ao planejamento interminável, envolvia a dela, pequena, suave e branda, da rotina das pesadas armas. E mesmo distantes, envolviam-se. Palavras não eram necessárias, desde que houvesse o irromper do silêncio dos corpos, naquele único e mínimo instante de contato: reciprocidade.
Eram mártires, sabiam. Lembrados, eternamente, como símbolos inextinguíveis da revolução, da liberdade. O sol cegou seus olhos, despiu-se. Era o momento. Mãos dadas. Na verdade, não se separaram desde a chegada. Os torturadores faziam questão de levá-los juntos às sessões, de mãos dadas. Mostrar a dor de um ao outro. A porta destrancada ruidosamente. Homens de quase dois metros, roupas militares pretas e armas na mão. Escolta até a arena principal, sim, a execução seria pública, como forma de exemplo. Riram-se, ambos. Exemplo de um Estado falho.
Mãos dadas percorrendo o extenso caminho até o local delimitado. Enfileirados outros presos. Um a um caía diante da multidão, enquanto os fuzis estilhaçavam o silêncio. Alguns “Oh” eram deliberadamente ouvidos. E no momento final, as mãos soltaram-se e a morte foi individual. Duas balas, duas mãos, separadas, individuais. Não houve comoção, não houve aplauso, só o individual pitoresco. A morte liberta da prisão individual.
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