Meu corpo
não acaba no contato
tão morto com o ar
vem o osso
a carne
a derme
a outra derme
outra carne
outro osso
que é o meu próprio corpo
depositado no movimento,
inerte e bento
encarapitado; completar.
Não existe espaço
entre o enlaço
apenas o vácuo
e quatro mãos:
o exato contrário
de qualquer fim
qualquer
em mói.
domingo, 25 de outubro de 2009
Uma Formiga
Mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo. Estava deitado no gramado, o sono talvez fora longo demais. Talvez fora longe demais. Com certeza, caso tivesse algum compromisso, estaria atrasado. Uma das mãos estiradas, roçando no mato. A outra de relance, o peso que pendia do pescoço deitava sobre a sua face. Lentamente, pata após pata, uma formiga, única, subiu-lhe pelo dedo indicador. O único que, encostado à grama, fazia parte do caminho pré-determinado daquele inseto. Suas minúsculas patas roçaram naquela derme esfriada, naquela superfície áspera de digitais. Não sendo por culpa da formiga, a consciência aturdida daquele rapaz escolheu aquele exato momento ao despertar. Seu tato, coincidentemente, concentrou esforços na determinação do movimento daquela criatura, mínima.
Inclinou sua cabeça, alguns segundos passaram até que suas órbitas, tontas, focalizassem o animal. Havia um pequeno pedaço de folha em suas costas. Seus pensamentos, perdidos entropicamente, reagruparam-se em alguma forma, um raciocínio. E, antes percebesse o ter acordado, observou o pequeno animal. Caminhava, parava por alguns instantes, tateava o ar com suas antenas e seguia em frente. Andava, de certo, lentamente. Aquela mão não era tão grande assim. Decidiu encostar-se na terra, permitir a passagem, sem pedágio. Não acanhada, seguiu seu caminho. Mal deu conta que aquela era a mão de um gigante.
Simplesmente passou ao contato do chão frio, terra. Alguns jurariam que ela voltou-se para trás numa espécie de agradecimento. E, ela então, teria percebido a derme do gigante. Hesitante, suas antenas arquearam, voltou a cabeça para trás e, em alguns segundos, tomou seu rumo. Logo aquele, o último ser humano do planeta. Não seria pra mais, não seria pra menos. Mas talvez, sejam apenas rumores. E logo, desprezando a presença das duas formigas, novamente, mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo.
Inclinou sua cabeça, alguns segundos passaram até que suas órbitas, tontas, focalizassem o animal. Havia um pequeno pedaço de folha em suas costas. Seus pensamentos, perdidos entropicamente, reagruparam-se em alguma forma, um raciocínio. E, antes percebesse o ter acordado, observou o pequeno animal. Caminhava, parava por alguns instantes, tateava o ar com suas antenas e seguia em frente. Andava, de certo, lentamente. Aquela mão não era tão grande assim. Decidiu encostar-se na terra, permitir a passagem, sem pedágio. Não acanhada, seguiu seu caminho. Mal deu conta que aquela era a mão de um gigante.
Simplesmente passou ao contato do chão frio, terra. Alguns jurariam que ela voltou-se para trás numa espécie de agradecimento. E, ela então, teria percebido a derme do gigante. Hesitante, suas antenas arquearam, voltou a cabeça para trás e, em alguns segundos, tomou seu rumo. Logo aquele, o último ser humano do planeta. Não seria pra mais, não seria pra menos. Mas talvez, sejam apenas rumores. E logo, desprezando a presença das duas formigas, novamente, mais nada se inclinava. Dali, ou da ponta do mundo.
domingo, 11 de outubro de 2009
5
Estendo a palma aberta
imitando o sol
de espinhos primavera
São razões suficientes
pra contornar a face doce
que me espera
cinco vezes
cinco dedos
cinco meses
cinco segredos
( e nem é tão segredo assim
ter um amor que passa da palma
da mão )
imitando o sol
de espinhos primavera
São razões suficientes
pra contornar a face doce
que me espera
cinco vezes
cinco dedos
cinco meses
cinco segredos
( e nem é tão segredo assim
ter um amor que passa da palma
da mão )
Sépia Juventude
O tempo havia passado. Era essa a nota mental que todos, ao entrarem ali, faziam e sublinhavam em ênfase. O tempo havia passado. As roupas eram outras, as expressões eram outras, as vozes eram outras, as idéias eram outras. As pessoas eram outras. O mundo mudara, sim, tanto tempo havia passado. Música ambiente circulava no ar, misturado ao ar antiquário do salão. Todos sentados, alguns cochichando entre si, outros cochichando para si, enquanto ainda outros, não falavam nada.
Haviam entrado ali pouco depois do jantar, na comemoração da terceira idade, na rememoração dos antigos amigos, dos antigos encontros, dos antigos bailes. E, ao contrário do que se queria, tudo mantinha um clima fúnebre. O silêncio era uma marcha disparada no vazio, carregando corpos parados. E pensar que poucos dias atrás, os cabelos eram menos grisalhos e em maior quantidade, os ossos e articulações eram mais fortes, o mundo era mais nítido e não tinha o tom sépia do passado fotográfico.
Do canto do salão, um senhor estendeu a mão esquerda diante dos olhos minúsculos. Minúsculos e escondidos por detrás de óculos grossos e, também, envelhecidos. Moveu todos os dedos imitando o debater de tentáculos. Observou o movimento tão antinatural daquilo. Cessou o movimento. Observou e analisou cada uma de suas rugas. Eram inúmeras, eram incontáveis, eram incansáveis. As unhas eram aos poucos encobertas também, adquirindo, ao seu modo, uma tonalidade própria: tempo passado.
Ventiladores tremiam de lado a lado, pendendo das paredes, circulando o ar cansado. Algumas fitas multicoloridas, amarradas às grades de suas estruturas, pairavam dormentes no espaço. Tosse, tosse, tosse. Se limpa garganta, pigarreia-se, cerram-se os olhos. O tempo havia passado, sim, havia passado tempo demais. O que fazer? Era impossível parar o tempo, parar a vida, parar o resto do que sobrara, o tempo restante, a vida restante, o quase nada. As discussões envolviam alergias, dificuldades para respirar – com devida ênfase na dificuldade de respirar ao articular palavras – e pausas nos profundos suspiros mudos.
A música ambiente cessou. O silêncio cessou. O tempo cessou. Todos se entreolharam. O sépia era granuloso e o chão tabulado era lustrado. O jovem que observava a robusta mão esquerda com seus penetrantes olhos, negros como a noite, cessou o movimento. Inspirou profundamente, esbravejou dentro de si mesmo, levantou-se relutante. Passo após passo seguia até o outro lado do salão, deixando seu canto absurdamente abandonado. Inspirou mais uma vez, relaxando, logo em seguida, junto a todo o ar de seus pulmões.
A música não era mais ambiente. Era profunda e realmente sincera. Uma orquestra quase aveludada tocou alguns traços da melodia. Sorrisos foram atirados de todas as partes, sapatos e saltos e sandálias e passos, ressoando por todo o tabulado lustrado, vermelho vivo. O ar pulsava, os passos pulsavam, os corações pulsavam. Mãos estendidas, casais formados de última hora, centro do salão.
A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.
O jovem das robustas mãos e de negros olhos, finalmente atingiu o outro lado do salão. Relutante, envergonhado, hesitante e semi-amedrontado. Olhos se encontraram e, um Oi lançado a esmo. Olá.
A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
Com licença... Mas... Aceitaria uma dança comigo?
You came, you saw, you conquered me
Nada mais precisou de ser dito. Um sorriso fora disparado em sua direção, seus profundos negros olhos, aprofundaram-se mais ainda. Agarrou aquela mão fina, mais fina e suave que toda e qualquer mão. Foram ao meio do salão. No centro do mundo, no coração amadeirado.
When you did that to me, I knew somehow
It had to be.
Braços dados e, de início passos desajeitados. Tudo se moldou na orquestração, os corações batiam juntos, não havia mais ninguém sentado. Tudo e todos estavam de braços, abraços e passos dados.
The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
O rapaz sorriu e foi retribuído. O tempo parado.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.
E por quatro minutos, não havia mais nada além de sorrisos e Frank Sinatra.
Haviam entrado ali pouco depois do jantar, na comemoração da terceira idade, na rememoração dos antigos amigos, dos antigos encontros, dos antigos bailes. E, ao contrário do que se queria, tudo mantinha um clima fúnebre. O silêncio era uma marcha disparada no vazio, carregando corpos parados. E pensar que poucos dias atrás, os cabelos eram menos grisalhos e em maior quantidade, os ossos e articulações eram mais fortes, o mundo era mais nítido e não tinha o tom sépia do passado fotográfico.
Do canto do salão, um senhor estendeu a mão esquerda diante dos olhos minúsculos. Minúsculos e escondidos por detrás de óculos grossos e, também, envelhecidos. Moveu todos os dedos imitando o debater de tentáculos. Observou o movimento tão antinatural daquilo. Cessou o movimento. Observou e analisou cada uma de suas rugas. Eram inúmeras, eram incontáveis, eram incansáveis. As unhas eram aos poucos encobertas também, adquirindo, ao seu modo, uma tonalidade própria: tempo passado.
Ventiladores tremiam de lado a lado, pendendo das paredes, circulando o ar cansado. Algumas fitas multicoloridas, amarradas às grades de suas estruturas, pairavam dormentes no espaço. Tosse, tosse, tosse. Se limpa garganta, pigarreia-se, cerram-se os olhos. O tempo havia passado, sim, havia passado tempo demais. O que fazer? Era impossível parar o tempo, parar a vida, parar o resto do que sobrara, o tempo restante, a vida restante, o quase nada. As discussões envolviam alergias, dificuldades para respirar – com devida ênfase na dificuldade de respirar ao articular palavras – e pausas nos profundos suspiros mudos.
A música ambiente cessou. O silêncio cessou. O tempo cessou. Todos se entreolharam. O sépia era granuloso e o chão tabulado era lustrado. O jovem que observava a robusta mão esquerda com seus penetrantes olhos, negros como a noite, cessou o movimento. Inspirou profundamente, esbravejou dentro de si mesmo, levantou-se relutante. Passo após passo seguia até o outro lado do salão, deixando seu canto absurdamente abandonado. Inspirou mais uma vez, relaxando, logo em seguida, junto a todo o ar de seus pulmões.
A música não era mais ambiente. Era profunda e realmente sincera. Uma orquestra quase aveludada tocou alguns traços da melodia. Sorrisos foram atirados de todas as partes, sapatos e saltos e sandálias e passos, ressoando por todo o tabulado lustrado, vermelho vivo. O ar pulsava, os passos pulsavam, os corações pulsavam. Mãos estendidas, casais formados de última hora, centro do salão.
A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.
O jovem das robustas mãos e de negros olhos, finalmente atingiu o outro lado do salão. Relutante, envergonhado, hesitante e semi-amedrontado. Olhos se encontraram e, um Oi lançado a esmo. Olá.
A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
Com licença... Mas... Aceitaria uma dança comigo?
You came, you saw, you conquered me
Nada mais precisou de ser dito. Um sorriso fora disparado em sua direção, seus profundos negros olhos, aprofundaram-se mais ainda. Agarrou aquela mão fina, mais fina e suave que toda e qualquer mão. Foram ao meio do salão. No centro do mundo, no coração amadeirado.
When you did that to me, I knew somehow
It had to be.
Braços dados e, de início passos desajeitados. Tudo se moldou na orquestração, os corações batiam juntos, não havia mais ninguém sentado. Tudo e todos estavam de braços, abraços e passos dados.
The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
O rapaz sorriu e foi retribuído. O tempo parado.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.
E por quatro minutos, não havia mais nada além de sorrisos e Frank Sinatra.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Calamitosa
Como ser tão
sertão
sem ser seco
dentro do ser
tão seco de mim
mesmo?
E enquanto isso
existe uma calamidade
em forma de chuvas:
emoções,
parreiras
hortas e uvas secas;
emoções.
sertão
sem ser seco
dentro do ser
tão seco de mim
mesmo?
E enquanto isso
existe uma calamidade
em forma de chuvas:
emoções,
parreiras
hortas e uvas secas;
emoções.
Entropia
A lua estava escondida por detrás das negras nuvens, do negro céu. As gotas de chuva, pesadas, estalavam nas ruas, nos paralelepípedos, ao roçar contra as estruturas de metal das placas, dos carros e no encontro das janelas fechadas. Talvez fosse abril. E mesmo assim, chovia tanto, pensava. Olhava para o teto, olhos entreabertos, como pudesse atravessar qualquer tipo de obstáculo, e então, ir de encontro com o céu. Ou talvez algo mais que estivesse ali. Espreguiçou-se na poltrona, esticou as pernas, alongou o braço direito até alcançar a garrafa de cerveja. Tomou um gole e recolocou-a na antiga posição.
E então, chove até amanhã?
Provavelmente. Estou meio que, pressentindo essa chuva faz um tempo. Não é coisa pouca, sabe?
Sei, sei... Mas não é algo comum pra um dia de abril. Digo, uma noite de abril. O dia hoje estava límpido, azul, claro...
Mas você percebeu que iria chover, certo?
Ah, isso sim. Senti aquele cheirinho de terra molhada, de orvalho, de grama úmida e de nuvens pesadas chegando. Cheguei até a tirar as roupas do varal, a vizinha estranhou e acabou que fez o mesmo. Sorte, não?
Talvez. Não é algo tão difícil assim, pra você, perceber a chuva chegando. Normalmente humanos não conseguem pressentir algo assim.
Não entendi.
Simples. Seres humanos estão tão preocupados com sua rotina, com seus ‘incontáveis problemas’ e coisas do tipo.
Vamos, não seja tão cruel.
E você não seja tão hipócrita. Você concorda comigo e, inclusive, não entende o porquê de ser a única pessoa assim, certo?
Certo?
É...
Você nem precisaria responder, meu caro. Não é o tipo de coisa que precise ser confirmada verbalmente pra que se torne verdade. Entende?
Acho que sim.
Pois bem.
Estendeu sua mão direita, acariciou por trás da cabeça do gato preto, deitado no criado mudo, ao lado da poltrona.
Sei como você se sente.
Imagino que sim.
Na verdade, sendo parecido com você, ou o contrário, não sei; entendo perfeitamente.
Acho que é tudo uma questão de ponto de vista, mas não tira sua razão. Não me consigo me adequar ao mundo. Não da mesma forma que todo mundo o faz.
Por isso que você se parece tanto com tipos como eu.
Acho que sim. Mas não é o tipo de sentimento que me satisfaz por completo. Não é algo controlável ou racional. Talvez não. Mas tenho ciência de que não sou como os outros. Certo?
Certo?
Tarde demais, imaginou. O gato preto não responderia mais, estava dormindo profundamente, encolhido de frio.
Levantou-se da poltrona, atravessou o corredor escuro e voltou com uma pequena manta. Cobriu o gato, recolheu as duas garrafas vazias de cerveja, cerrou as cortinas e foi deitar-se. Não dormir. Apenas encobrir seus olhos com as pálpebras, infligir um tipo de descanso ao seu corpo. Mas sua mente não conseguia, nunca conseguia entrar em descanso. Um semi-stand-by era o máximo esperado. E no lugar de tudo isso, simplesmente revia todas as cenas do dia.
Abriu lentamente os olhos e observou sua mão esquerda, agora na frente do rosto. Cada um de seus dedos, ali, indeterminadamente colocados, um traço genético perfeitamente codificado. E suas cinco unhas, os cinco nós e observou até onde pôde, tentando ultrapassar o vazio de seu tecido. Falar com gatos era o suficiente de estranheza. Identificar células a olho nu seria demais pra qualquer ficção.
Seu dia tinha sido como qualquer outro. Ou simplesmente todos os dias fossem os mesmos, e ele, então, seria o algo diferente em todos eles.
Diferente. Diferente? A montagem igual, a pilha de pele, carne e ossos, e mesmo assim não conseguia enxergar a si mesmo como um ser humano. Não como os que via ao seu redor. E todos se moviam vagarosa ou rapidamente, enquanto ele observava tudo, aquele balé sincronizado, aquele caos entropicamente correto. Como? Não sabia. Mas era ele quem falava com gatos. Lembrava-se da chimpanzé que aprendera a linguagem dos sinais. Quem sabe assim conseguiria comunicar-se? Mas o que poderia dizer?
Tudo era o mesmo, e ele mudava constantemente. Falava com os gatos, e Chapeleiro dormia no sofá de sua sala. Fechou os olhos e conseguiu, por poucos segundos, entrar em stand-by, antes ao menos, que o sol socasse seu rosto por debaixo das cortinas púrpuras. E a chuva tornou a cair. Entropia.
Bom dia.
Sentiu certo peso em cima de suas pernas. Abriu os olhos lentamente, não estava sozinho no fim das contas. E em anos de gato, viveria eternamente. O suficiente, talvez.
Você estava certo, continua chovendo.
Não, você estava.
Entropia, e então o que mais?
Pift, pift, gotas de chuva contra a janela, aos poucos ganhando maior volume e espessura, plift, ploft, ploft.
E então, chove até amanhã?
Provavelmente. Estou meio que, pressentindo essa chuva faz um tempo. Não é coisa pouca, sabe?
Sei, sei... Mas não é algo comum pra um dia de abril. Digo, uma noite de abril. O dia hoje estava límpido, azul, claro...
Mas você percebeu que iria chover, certo?
Ah, isso sim. Senti aquele cheirinho de terra molhada, de orvalho, de grama úmida e de nuvens pesadas chegando. Cheguei até a tirar as roupas do varal, a vizinha estranhou e acabou que fez o mesmo. Sorte, não?
Talvez. Não é algo tão difícil assim, pra você, perceber a chuva chegando. Normalmente humanos não conseguem pressentir algo assim.
Não entendi.
Simples. Seres humanos estão tão preocupados com sua rotina, com seus ‘incontáveis problemas’ e coisas do tipo.
Vamos, não seja tão cruel.
E você não seja tão hipócrita. Você concorda comigo e, inclusive, não entende o porquê de ser a única pessoa assim, certo?
Certo?
É...
Você nem precisaria responder, meu caro. Não é o tipo de coisa que precise ser confirmada verbalmente pra que se torne verdade. Entende?
Acho que sim.
Pois bem.
Estendeu sua mão direita, acariciou por trás da cabeça do gato preto, deitado no criado mudo, ao lado da poltrona.
Sei como você se sente.
Imagino que sim.
Na verdade, sendo parecido com você, ou o contrário, não sei; entendo perfeitamente.
Acho que é tudo uma questão de ponto de vista, mas não tira sua razão. Não me consigo me adequar ao mundo. Não da mesma forma que todo mundo o faz.
Por isso que você se parece tanto com tipos como eu.
Acho que sim. Mas não é o tipo de sentimento que me satisfaz por completo. Não é algo controlável ou racional. Talvez não. Mas tenho ciência de que não sou como os outros. Certo?
Certo?
Tarde demais, imaginou. O gato preto não responderia mais, estava dormindo profundamente, encolhido de frio.
Levantou-se da poltrona, atravessou o corredor escuro e voltou com uma pequena manta. Cobriu o gato, recolheu as duas garrafas vazias de cerveja, cerrou as cortinas e foi deitar-se. Não dormir. Apenas encobrir seus olhos com as pálpebras, infligir um tipo de descanso ao seu corpo. Mas sua mente não conseguia, nunca conseguia entrar em descanso. Um semi-stand-by era o máximo esperado. E no lugar de tudo isso, simplesmente revia todas as cenas do dia.
Abriu lentamente os olhos e observou sua mão esquerda, agora na frente do rosto. Cada um de seus dedos, ali, indeterminadamente colocados, um traço genético perfeitamente codificado. E suas cinco unhas, os cinco nós e observou até onde pôde, tentando ultrapassar o vazio de seu tecido. Falar com gatos era o suficiente de estranheza. Identificar células a olho nu seria demais pra qualquer ficção.
Seu dia tinha sido como qualquer outro. Ou simplesmente todos os dias fossem os mesmos, e ele, então, seria o algo diferente em todos eles.
Diferente. Diferente? A montagem igual, a pilha de pele, carne e ossos, e mesmo assim não conseguia enxergar a si mesmo como um ser humano. Não como os que via ao seu redor. E todos se moviam vagarosa ou rapidamente, enquanto ele observava tudo, aquele balé sincronizado, aquele caos entropicamente correto. Como? Não sabia. Mas era ele quem falava com gatos. Lembrava-se da chimpanzé que aprendera a linguagem dos sinais. Quem sabe assim conseguiria comunicar-se? Mas o que poderia dizer?
Tudo era o mesmo, e ele mudava constantemente. Falava com os gatos, e Chapeleiro dormia no sofá de sua sala. Fechou os olhos e conseguiu, por poucos segundos, entrar em stand-by, antes ao menos, que o sol socasse seu rosto por debaixo das cortinas púrpuras. E a chuva tornou a cair. Entropia.
Bom dia.
Sentiu certo peso em cima de suas pernas. Abriu os olhos lentamente, não estava sozinho no fim das contas. E em anos de gato, viveria eternamente. O suficiente, talvez.
Você estava certo, continua chovendo.
Não, você estava.
Entropia, e então o que mais?
Pift, pift, gotas de chuva contra a janela, aos poucos ganhando maior volume e espessura, plift, ploft, ploft.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
O Barulho do Silêncio
Caminhando
uma música toca
sem fone no ouvido
sem caixa de som
é o barulho do silêncio
de toda manhã
é o dispositivo surdo
de toda noite sã
feito pra mudez
que não se cala
dentro de mim.
uma música toca
sem fone no ouvido
sem caixa de som
é o barulho do silêncio
de toda manhã
é o dispositivo surdo
de toda noite sã
feito pra mudez
que não se cala
dentro de mim.
Pescando Palavras
Sem aqueles momentos, não poderia fazer nada além do desejo vazio. Sentar-se na cama e manter a ânsia paralisada dentro de si, muda, querendo gritar aos quatro ventos algo que não sabia o que dizer. Não firmava residência fixa senão nos tantos seios desamparados e braços escancarados deixados pra trás. O vazio do silêncio, aquilo que roubava num crime ideal de si mesmo. Precisava, indubitavelmente, daquilo, era onde encontrava a palavra e o sentido, estampados na pele, na extensão promíscua e tão macia da pele.
Não era especificamente bonito, ou charmoso ou inteligente, mas, de alguma maneira, sempre terminava na cama com alguma mulher. E ali, era onde lia de todas as formas, senão no braile do tato desejo, a literatura de sua vida. Era escritor, e dos bons. Nunca escrevia, sequer, uma palavra, sentado de cara com o computador, com a máquina datilógrafa ou um bloco de folhas em branco. Pescava, de forma infinda e contínua, todo o material gráfico de seus textos. Retirava de cada centímetro de pele o tão aclamado parágrafo, verso, linha, estrofe, capítulo, livro. Sonhava alto e ria de si mesmo. Não havia saída senão aquela.
Encontrava nas coxas, inconcebíveis e loucas, palavras estiradas e contorcidas, necessárias de transcrição, fotografia mental, era o que fazia. E o quarto escuro da presença dos dois corpos, revelava as fotos imensuráveis, os fatos inacreditáveis. Nos dedos, nas mãos, nos cotovelos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nos seios, na barriga, nas pernas abertas e severas, na genitália, no infinito, na precária maneira de descrever suas próprias palavras em sua maneira impessoal de ser.
Levava-as à cama, despia seus corpos contra a luz da possível lua ou dos postes da rua, marcava com os olhos, sublinhando a pele fria com o corpo, reescrevendo pontos imprecisos, relendo sinais indecisos, estirando-os página por página na cama. E eram letras alvas de brancas, médias de morenas e obscuras de negras, palpáveis, inegáveis, irrefutáveis, desenfreadas. Emborcava o rosto no retoque esplêndido, na arte final de movimentos bruscos.
E a fina camada de lençol, recobria o corpo tragado pela madrugada. Estavam sozinhas no quarto. Ele já havia descido as escadas, cigarro na boca, canção na cabeça, camisa desabotoada, livro pré-escrito, pronto à prensa de seus dedos, fosse ao lápis ou não. E sentava sozinho, com o resto do mundo, no ponto de ônibus, esperando o circular da madrugada. Respirava fundo, baforava longamente com o cigarro. Apagava-o no meio fio, pisando firmemente. Acendia outro até que pudesse chegar em casa.
Em meio às marcas de unha e mordidas, colhia Ilíadas, Lusíadas e Infernos. E seu possível e único momento de prazer, em branco, em gozo, em finalle, era o abandono das páginas, prefácio, notas do autor, dedicatória, dedico à libido, inibido; insatisfatória pontuação final. Best-Seller, e sua vida, uma vida sem mais, estampada em Times New Roman, capa dura, acabamento artístico.
Não era especificamente bonito, ou charmoso ou inteligente, mas, de alguma maneira, sempre terminava na cama com alguma mulher. E ali, era onde lia de todas as formas, senão no braile do tato desejo, a literatura de sua vida. Era escritor, e dos bons. Nunca escrevia, sequer, uma palavra, sentado de cara com o computador, com a máquina datilógrafa ou um bloco de folhas em branco. Pescava, de forma infinda e contínua, todo o material gráfico de seus textos. Retirava de cada centímetro de pele o tão aclamado parágrafo, verso, linha, estrofe, capítulo, livro. Sonhava alto e ria de si mesmo. Não havia saída senão aquela.
Encontrava nas coxas, inconcebíveis e loucas, palavras estiradas e contorcidas, necessárias de transcrição, fotografia mental, era o que fazia. E o quarto escuro da presença dos dois corpos, revelava as fotos imensuráveis, os fatos inacreditáveis. Nos dedos, nas mãos, nos cotovelos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nos seios, na barriga, nas pernas abertas e severas, na genitália, no infinito, na precária maneira de descrever suas próprias palavras em sua maneira impessoal de ser.
Levava-as à cama, despia seus corpos contra a luz da possível lua ou dos postes da rua, marcava com os olhos, sublinhando a pele fria com o corpo, reescrevendo pontos imprecisos, relendo sinais indecisos, estirando-os página por página na cama. E eram letras alvas de brancas, médias de morenas e obscuras de negras, palpáveis, inegáveis, irrefutáveis, desenfreadas. Emborcava o rosto no retoque esplêndido, na arte final de movimentos bruscos.
E a fina camada de lençol, recobria o corpo tragado pela madrugada. Estavam sozinhas no quarto. Ele já havia descido as escadas, cigarro na boca, canção na cabeça, camisa desabotoada, livro pré-escrito, pronto à prensa de seus dedos, fosse ao lápis ou não. E sentava sozinho, com o resto do mundo, no ponto de ônibus, esperando o circular da madrugada. Respirava fundo, baforava longamente com o cigarro. Apagava-o no meio fio, pisando firmemente. Acendia outro até que pudesse chegar em casa.
Em meio às marcas de unha e mordidas, colhia Ilíadas, Lusíadas e Infernos. E seu possível e único momento de prazer, em branco, em gozo, em finalle, era o abandono das páginas, prefácio, notas do autor, dedicatória, dedico à libido, inibido; insatisfatória pontuação final. Best-Seller, e sua vida, uma vida sem mais, estampada em Times New Roman, capa dura, acabamento artístico.
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