As grandes notas difusas do estalar dos passos do homem, apesar de traíras de sua presença, também denunciaram uma das criaturas, que, na tentativa da aproximação furtiva, permitiu que uma gota de saliva de sua boca grotesca atingisse o solo. O alarme ecoou por toda a treva, o alarde recuou por todo o espaço. Não se podia ver o som, mas com aquele tipo de definição, deduzia-se que vinha da retaguarda. O homem pressentindo perigo correu, pesadamente, distribuindo garras musicais pelo espaço, uma trilha de pão viva e contínua. As bestas, não mais preocupadas com a esgueira, batiam caudas calamitosas por todo o assoalho de negrura, e, apesar do mar de treva invadir tudo, a movimentação era extraordinária, mesmo à visão cega.
Aflito, as pernas humanas moviam-se mais e mais, os passos debatiam furiosamente contra o chão, o homem corria do nada para o nada. Corria, não importava. As criaturas estavam a uma distância considerável, mas continuavam a caçada. Caso parasse num breve descanso, seria refeição. Sua respiração ofegava, já não tinha mais tanta força, mas o instinto de sobrevivência impedia a diminuição do ritmo, morreria do coração, mas não findaria a corrida, jamais POW, choque frontal, talvez tivesse quebrado o nariz. Alguma superfície que lembrava a madeira, a integridade do nariz estava mantida em sua percentagem total. E quase esquecera seus perseguidores, quando notou um orifício na parede amadeirada onde deu de cara. Um orifício tão mínimo que, talvez os olhos mal pudessem vê-lo. Só talvez, mas não, era real e por ele passava um ponto ínfimo de luz. Tateou a treva em busca do resto da parede amadeirada, mas notou, ao procurar bordas e continuações, que era apenas uma placa, solta no vácuo-espaço.
Olhou pelo orifício. Um enorme corredor, inúmeras portas, um corredor sem fim, portas e mais portas. Notou um vulto esbranquiçado correndo pelo corredor. Arregalou seu único olho ao máximo e tentou precisar o vulto. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era uma... RATAZANA?! Sentia agora o mau-hálito de seus perseguidores, distantes apenas um palmo de seu corpo, inerte e paralisado. Não pensou, agiu. Empurrou aquilo que parecia ser mais uma das portas do corredor sem fim, deslocou-a rapidamente e, quando caiu num chão esbranquiçado, no assoalho mais limpo que já vira em toda sua vida, a passagem por onde havia emergido, simplesmente não estava mais lá.
Nem criaturas, nem escuridão. Ouvia garras raspando contra a parede maciça, mas o som logo cessou. E o que havia, diante de si, era uma parede azul marfim, maciça, muda e gélida. Não havia escuridão, e, ao concentrar-se naqueles instantes anteriores, parecia algum tipo de alucinação, fruto de sua insanidade momentânea. Sentiu um arder leve em seu tornozelo esquerdo. Notou a calça rasgada em um ponto, um longo corte e muitos arranhões. Não, não fora uma alucinação. Tocou na perna, dor. Torceu a cara, observou a ponta dos dedos e notou sangue. Estava vivo, vivo. Vivo, por pouco. Mas vivo. Fazia questão de repetir mentalmente seu estado de vivacidade, na tentativa de provar, quantas vezes necessárias. Estou vivo. Vivo, por pouco. Respirou fundo, recuperou o fôlego, limpou o pó de suas vezes, Pó? Como assim Pó? Teve de ignorar suas próprias perguntas, teve de seguir em frente. Levantou-se, respirou fundo mais algumas vezes.
Olhou para o infinito estendido à sua fronte. E não conseguia definir limites ao horizonte do corredor e de portas. Até onde conseguia ver, as portas não findavam, as portas não mudavam. Talvez, por alguma diferença milimétrica, fossem diferentes, mas à olho nu, eram completamente idênticas. Através de alguns passos, certificou-se que não eram espelhos. Eram portas, todas. E todas idênticas. Formato, textura, cor, posição. Imaginou então, inúmeros cômodos ao longo do corredor, ou, simplesmente um exterior estranho, que necessitasse de milhões de portas para passagem. Caminhou o suficiente para que a parede maciça por onde havia caído, fugisse de sua visão. Contou seus passos, precisou aproximadamente dois quilômetros. Seu porte físico permitia facilmente exercícios, já que, pelas manhãs de todos os dias, caminhava até onde seu corpo suportava. Não estava cansado. Apenas algumas gotas de suor brotavam de sua face, um pouco mais corada, diante de sua perseguição, instantes passados.
Decidiu fazer o caminho de volta, retornar à parede. Andou mais. Dois, três, quatro, cinco, seis quilômetros. Não encontrava mais a parede, o cansaço já perseguia sua existência. Simplesmente sumiu? Qual seria a lógica disso? Se é que existe algum tipo de lógica em tudo acontecido até então. Sentou-se ao chão, desesperado. O que fazer? Voltaria pra casa? Tinha lágrimas nos olhos, milhares de pensamentos brotavam-lhe dos miolos, no entanto, o silêncio mortal machucava seus ouvidos, desviando completamente sua atenção. Era como se o mundo ruísse, e, de tão sonoro o barulho gerado a partir daquilo, o universo emudecera. Sua respiração, ritmada, era tiro de canhão atrás do outro, cortando o vácuo, desfazendo tudo. Gotas de suor pingando em suas vestes ecoavam por todo o corredor. Seu tímpano era papel manteiga, sua existência era em uma casa de cristal infinda. Por instinto, indução automática, arregaçou a manga direita, em busca do horário. Ponteiros fixos, imóveis, congelados. Tão perdidos quanto ele.
Ouviu, de súbito, o ruído de pequenos estalos. Não, eram passos. Pequenos passos. Pequenos passos que ecoavam de forma tão incrível! Não saberia dizer de onde vinham os estalos. Os passos, milhares deles. Sentiu medo, talvez fossem as criaturas de outrora. Levantou-se, não poderia correr, estava exausto. Empunhou-se, preparou uma posição de batalha, não tinha planos, não tinha armas. Os passos aproximavam-se, a tensão rompia o ar. Seus olhos eram globos perdidos no espaço, sua respiração era o mar bravo nas rochas. Vinha pela frente, a seu encontro. Músculos rígidos, boca cerrada, dentes rangendo, suor pingando, pupilas dilatadas. Era um vulto, nada mais. Aproximava-se mais e mais, conseguia precisar delimitações, cores. Era branco. O que era? Um coelho? Sim, era um coelho! Não... Muito grande pra um coelho... Muito comprido pra um gato, muito estranho pra ser um cachorro ou qualquer animal doméstico do tipo. Era... Era a... RATAZANA?!
A ratazana de outrora! Na aproximação, notou algo peculiar. A ratazana possuía um pequeno relógio dourado, em um cordonete, ao redor do que seria seu pescoço. Possuía bigodes muitíssimo bem penteados, pelos lustrosos e, mas o quê? Seria possível? Uma pequena gravata borboleta, azul. Uma ratazana branca, deste tamanho, com um relógio ao redor do pescoço, em cordonete. Bigodes penteados, pêlo extremamente bem cuidado e, bem, a quase-confirmação do delírio: uma gravada borboleta azul. Pequena, mas estava ali, em perfeita simetria e alinhamento. E vais ficar aí, parado?
Como? Quem está falando? Aqui embaixo, mané! Deu de caras com aquela ratazana branca, em pé, apoiado nas patas traseiras, alisando os bigodes com as patas dianteiras. Como? Como assim “como?” Estou a falar com você, mané! Prestes a desmaiar, levou bofetões daquelas minúsculas patas. Se desmaiares, não será culpa minha. Você fala! Você também! Ainda não creio. Agora pouco estava mergulhado numa escuridão sem fim, atravessei uma parede, andei uns quilômetros nesse corredor e dei de cara com você. Essa ênfase em “você” significa exatamente o quê?
Você é uma ratazana! Mas que fique estritamente claro: um ratazana, não “uma”. E além do mais, que de tão estranho há nisso? Tu és um macaco e fala. Vendo por esse ângulo... Sim, sim, mas não tenho tempo. Deixe-me adivinhar: você está atrasado! Tenho certeza que essa é um sonho, esse é país das maravilhas e você é alguma parte doentia do meu subconsciente. Bom, estou com vontade de ir ao banheiro, não atrasado. Isso talvez seja sonho ou delírio meu. Significa que tenho de recobrar o juízo ou consciência logo. Caso contrário, molhar a cama. Esse não é o país das maravilhas e o único sujeitinho doentio aqui é você. Mas, mas, mas “Mas” nada, ou você vem, ou não vem. Vem? Pronde? Vem ou não? Vou.
Ambos, o homem e o ratazana seguiram pelo corredor. Torcendo o focinho, espalhando as tantas pontas de seus bigodes ao ar, piscando rápida e euforicamente, trincando suas pequenas patas no chão. Em seguida, vinha o homem, torcendo a cara, de narinas exorbitantes num respirar confuso, de órbitas palpitantes e extremamente abertas, tapteando em passadas confusas. Ambos pararam. ? Espere, espere. O ratazana parou entre duas portas, calou-se por alguns segundos. ? Já lhe disse para que esperes! Mas que impaciência é essa? Certo, certo, quietinho fico. Assim espero ou dou-lhe de dentadas e ainda te abandono. O homem fez que sim. O ratazana aproximou-se da porta a sua esquerda, cheirou-a por uns instantes. Raspou um canto da porta com um de seus pequeninos dedos, aproximou do focinho. Foi à porta da direita, repetiu todo o processo.
Empurre a porta da esquerda. Obedecendo, o homem deslocou a estranha fechadura, empurrou a porta e deu de cara com a mesma profunda escuridão que vira antes. Aqui não entro! Queres ir para casa? Claro que sim, mas não ir de encontro com aquelas criaturas. E você, não vem? Não, minha porta é a da direita. Mas como assim? Vou com você. Não, você não pertence a este lugar. Mas que lugar é esse? Não importa! Você simplesmente não pertence a ele. Certo, certo, mas vou com você. Não, não vai. E trate de passar por essa maldita porta antes que ela cerre. Mas cerrando, abrimo-la, certo? Não, macaco. A porta troca de lugar e seu acesso só é possível à sorte. E como conseguiu achá-la? Sorte. Não ouviu quando lhe disse da primeira vez? Ok, mas o que me espera do outro lado? Não sei. Só palpites.
O homem tentou empurrar a porta. Não conseguia. O vão por outro lado, diminuíra. Passe logo! Só não me incomode mais, certo? Mas e se eu voltar? Ou não conseguir sair realmente? Bom, ou você conta com a sorte de me encontrar ou de encontrar um fim rápido. O homem comprimiu-se ao máximo, passou com todo o corpo, exceto pela cabeça. Muito obrigado. Mas diga-me: o que você acha que me espera do outro lado? Talvez algo pior. PIOR? Tarde demais. Sua cabeça fora sugada pelo impossível vácuo, seu corpo jazia no vazio da escuridão. Mas a escuridão não o inundava, não o afogava, não o ameaçava. Era uma escuridão menos densa, infiel à originalidade comum. Percebeu que estava de olhos fechados desde que entrou. Através das pálpebras notava uma luz branca, dolorida, flutuando sobre seu corpo. Abriu os olhos, percebeu-se deitado. Piscou forte, a luz machucava seus olhos. Acostumou-se à brancura.
Ouviu o barulho de equipamentos, computadores, bips. Isso! eram bips. Eram seus sinais vitais. Estava em uma sala hospitalar? Apertou os olhos de leve, como tentasse readquirir algum lance de memória. Nada. Olhou à esquerda, notou os equipamentos. Olhou à direita, uma mulher estava dormindo. Limpou a garganta, sentou-se na cama. Tocou a mão da mulher, cuidadosamente. Janaína? Janaína? Hmm, hmm... Janaína? Apertou levemente os dedos de Janaína. Levantou a voz, Janaína? Abrindo lentamente os olhos, a mulher notou algo apertando sua mão. Algo? Algo... alguém? Acordou? Acordou? Não acreditava, cerrou os olhos lacrimejantes. Força na piscada. Torceu a cara, uma pesada gota despencou-lhe à face. Janaína? Abriu os olhos, abraçou forte o marido. Ele até então, não sabia o que acontecera. Mas sentia uma saudade inexplicável de sua mulher.
Alguns dias se passaram, não lembrara tudo, mas ao menos sabia do acontecido. A caminho do trabalho, um motorista bêbado invadiu a contramão e bateu contra seu carro. O bêbado, apesar da seriedade a batida, ileso. Ele, inconsciente e com alguns arranhões. Em coma por oito dias. Contou o sonho ‘comático’ à mulher. Rindo das próprias palavras, fazendo-a rir, absurdos, estranhezas. Beijaram-se demoradamente, não, não precisa ficar mais. Vá dormir em casa, amanhã me vê. Apago a luz? Não, não, acho que vou ler alguma coisa. Certo, boa noite, vê se acorda, hein? Acordo sim. Oito dias já foram demais. Não se sentia bem na escuridão, coma ou não, preferia assim.
O médico disse que você precisa descansar, apesar do coma, sua mente não estava em descanso. Claro, não se preocupe, mas não apague a luz. Certo, certo. Deixo este celular com você, caso precise de algo. Amanhã cedo estarei aqui. Te amo, também, até, até. Enquanto lia, ao meio da madrugada, ouviu um ruído. O ruído era ao lado de fora do prédio, no jardim. Caminhou até a janela, recostou ao vidro. Viu um vulto branco correndo por entre as flores. Levantou o camisolão, fitou o tornozelo, notou um corte. Notou arranhões. Do acidente, claro. Recostou-se no apoio da janela, sentou-se no criado mudo vazio. Ligou para a mulher, mesmo à madrugada. Pediu centenas de livros. Livros? Livros.
Cerrou os olhos, respirou fundo. Decidiu mover-se na escuridão dos próprios pensamentos. Quando a sola de seus pés tocou o chão, seu único passo ecoou de maneira abrangente e horrível. As ondas de som ainda reverberavam, pareciam vivas, traíras da presença e localização exata daquele homem. O telefone tocou mais uma vez, era ele. Será que algo de ruim havia acontecido? Aconteceu algo de ruim? Não, não. O que há? Só um detalhe sobre os livros. Sim, claro, diga. Nada de Lewis Carroll, por favor.
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