Surge o cachorro-homem antes
ou então o homem-cachorro
Bodhisattva futura-flor.
domingo, 26 de setembro de 2010
Rímel, ecce rímel
Tenho quase certeza que todas as pessoas da minha geração já foram a, pelo menos, um circo uma vez na vida. Provavelmente grande parte da geração de agora também já foi. E um circo que se preze não precisa de equilibristas incríveis, engolidores de espadas, cuspidores de fogo, motociclistas no globo da morte ou quaisquer outras atrações. Circo que é circo precisa de pipoca e palhaço. Palhaço: eis essa figura, no mínimo, importante na formação da história de cada um de nós e em diversos níveis traumáticos – ou não.
Há os que tiveram contato com a época do programa do Bozo. Há também os que sofreram o assédio da mãe, da tia, das primas mais velhas, da vovó, da vizinha desocupada e parentes adjacentes: receber aquela melequeira de guache/óleo no rosto pra tirar uma foto como arlequim (pra ser guardada do no mesmo álbum em que você posa empunhado trajes tipicamente ridículos dos estúdios de fotografia). Há quem passou pela experiência de ler/assistir It, do Stephen King. E todas essas memórias te garantem duas coisas: o choque ao descobrir que a Vovó Mafalda era homem e coulrofobia em diferentes níveis.
Pra quem não sabe, coulrofobia é medo de palhaço. A literatura científica chega a descrever casos em que desmaiam ou sofrem de ataques nervosos quando na presença de um simples nariz vermelho. Vocês provavelmente estranharam a alta freqüência em que a palavra ‘palhaço’ apareceu até agora, certo? É uma técnica subliminar pra que o leitor/espectador/ouvinte mantenha uma idéia fixa a fim do foco, sem que haja necessidade de concentração direta. Pois bem, agora estão devidamente envenenados pelo palhaço. Eis a grande questão por trás de tanta preparação psicológica: O excesso de maquiagem.
Muitas mulheres, a esse ponto, estão prontas dispostas a me amarrar num tronco de madeira e recriar o hábito de queimar infiéis em praças públicas. Peço que se contenham. O papo manjado de que esse tipo de opinião é conversa machista já não funciona mais. Então peço que reprimam suas mentes hiperativas e sedentas por sangue por mais algumas linhas.
A moda é uma representação curiosa e estranha do comportamento humano quando avaliado em conjuntos. Existe moda regional, nacional e até mundial – cada uma em seu contexto. Desde cortes de cabelo, tamanho e cor de unhas, marcas de roupa, construção de estilo, até ornamentos faciais. E nada mais estranho do que sair pra balada, pra jantar, pra seja-lá-o-que-fores-fazer e se deparar com uma encenação de Kabuki em proporções dantescas. Não sacaram? Kabuki é um tipo de expressão da cultura oriental, principalmente japonesa, em que o teatro é representado por uma série de movimentos, músicas, marcas folclóricas, máscaras e pinturas únicas. Aí é que está. Nunca que um cara imaginaria encontrar personagens de um espetáculo milenar caminhando por aí. Subtraindo-se todo o valor cultural e histórico da coisa, pergunto-lhes (retoricamente): o que falta? A pipoca.
Existe a grande e real possibilidade de que vocês sejam rejeitadas pelas toneladas de porcarias cosméticas colocadas no rosto. Quer atrair alguém? Mesmo? Então perceba que homens de verdade gostam de algumas imperfeições (e não sentem atração por desenvolver múltiplos cânceres ao beijar seu rosto).
Não, não, isso não está certo. Essa não é uma crítica à maquiagem, compreendam. Garotas que cuidam do visual e recorrem a uma maquiagenzinha ficam até charmosas. Nesse caso, porém, não existe uma linha tênue entre o pitoresco e o aceitável. É uma fileira de caminhões emparelhados que separa os extremos. De um lado temos aquele ar sensual e austero de elegância. Exemplos disso? Cleópatra usava maquiagem! As mais belas sacerdotisas gregas também usavam maquiagem. Do outro lado temos a equipe de maquiadores responsável por um dos prêmios da Academia dado a O Exorcista (1973) pela aparência de Linda Blair como Regan. Can I get an aleluia?

Há os que tiveram contato com a época do programa do Bozo. Há também os que sofreram o assédio da mãe, da tia, das primas mais velhas, da vovó, da vizinha desocupada e parentes adjacentes: receber aquela melequeira de guache/óleo no rosto pra tirar uma foto como arlequim (pra ser guardada do no mesmo álbum em que você posa empunhado trajes tipicamente ridículos dos estúdios de fotografia). Há quem passou pela experiência de ler/assistir It, do Stephen King. E todas essas memórias te garantem duas coisas: o choque ao descobrir que a Vovó Mafalda era homem e coulrofobia em diferentes níveis.
Pra quem não sabe, coulrofobia é medo de palhaço. A literatura científica chega a descrever casos em que desmaiam ou sofrem de ataques nervosos quando na presença de um simples nariz vermelho. Vocês provavelmente estranharam a alta freqüência em que a palavra ‘palhaço’ apareceu até agora, certo? É uma técnica subliminar pra que o leitor/espectador/ouvinte mantenha uma idéia fixa a fim do foco, sem que haja necessidade de concentração direta. Pois bem, agora estão devidamente envenenados pelo palhaço. Eis a grande questão por trás de tanta preparação psicológica: O excesso de maquiagem.
Muitas mulheres, a esse ponto, estão prontas dispostas a me amarrar num tronco de madeira e recriar o hábito de queimar infiéis em praças públicas. Peço que se contenham. O papo manjado de que esse tipo de opinião é conversa machista já não funciona mais. Então peço que reprimam suas mentes hiperativas e sedentas por sangue por mais algumas linhas.
A moda é uma representação curiosa e estranha do comportamento humano quando avaliado em conjuntos. Existe moda regional, nacional e até mundial – cada uma em seu contexto. Desde cortes de cabelo, tamanho e cor de unhas, marcas de roupa, construção de estilo, até ornamentos faciais. E nada mais estranho do que sair pra balada, pra jantar, pra seja-lá-o-que-fores-fazer e se deparar com uma encenação de Kabuki em proporções dantescas. Não sacaram? Kabuki é um tipo de expressão da cultura oriental, principalmente japonesa, em que o teatro é representado por uma série de movimentos, músicas, marcas folclóricas, máscaras e pinturas únicas. Aí é que está. Nunca que um cara imaginaria encontrar personagens de um espetáculo milenar caminhando por aí. Subtraindo-se todo o valor cultural e histórico da coisa, pergunto-lhes (retoricamente): o que falta? A pipoca.
Existe a grande e real possibilidade de que vocês sejam rejeitadas pelas toneladas de porcarias cosméticas colocadas no rosto. Quer atrair alguém? Mesmo? Então perceba que homens de verdade gostam de algumas imperfeições (e não sentem atração por desenvolver múltiplos cânceres ao beijar seu rosto).
Não, não, isso não está certo. Essa não é uma crítica à maquiagem, compreendam. Garotas que cuidam do visual e recorrem a uma maquiagenzinha ficam até charmosas. Nesse caso, porém, não existe uma linha tênue entre o pitoresco e o aceitável. É uma fileira de caminhões emparelhados que separa os extremos. De um lado temos aquele ar sensual e austero de elegância. Exemplos disso? Cleópatra usava maquiagem! As mais belas sacerdotisas gregas também usavam maquiagem. Do outro lado temos a equipe de maquiadores responsável por um dos prêmios da Academia dado a O Exorcista (1973) pela aparência de Linda Blair como Regan. Can I get an aleluia?
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Do potencial do homem-foguete
O homem foi à lua e
não foi a fundo
no oceano, relativamente
acocorado e coaxando
no brejo do universo.
Subamos, subamos! berra
o sapo-boi, foi, não foi.
e sejamos olimpianos e
pretensiosos em terra firme.
Subamos, subamos! Marte
mora no litoral. A maré
é forte, o barco graceja
ao oeste, sejamos oníricos.
Subamos, subamos!
Subamos além do in-fi-ni-to,
esse combustível
dos girinos.
Saibamos do fim.
Saibamos do princípio.
não foi a fundo
no oceano, relativamente
acocorado e coaxando
no brejo do universo.
Subamos, subamos! berra
o sapo-boi, foi, não foi.
e sejamos olimpianos e
pretensiosos em terra firme.
Subamos, subamos! Marte
mora no litoral. A maré
é forte, o barco graceja
ao oeste, sejamos oníricos.
Subamos, subamos!
Subamos além do in-fi-ni-to,
esse combustível
dos girinos.
Saibamos do fim.
Saibamos do princípio.
Filtro
A madrugada é uma quimera
quase-derrotada. Talvez
seja só isso.
Mas não. não é só noite.
Nem manhã, nem indefinição
inconcebível.
São horas indispensáveis e
inextinguíveis essas partes
sem sentido e sem denominação.
A quem só resta o inexplicável.
- vide bula para:
o cachorro
barulhento, atropelamentos
e os carros que ladram
mas não mordem.
quase-derrotada. Talvez
seja só isso.
Mas não. não é só noite.
Nem manhã, nem indefinição
inconcebível.
São horas indispensáveis e
inextinguíveis essas partes
sem sentido e sem denominação.
A quem só resta o inexplicável.
- vide bula para:
o cachorro
barulhento, atropelamentos
e os carros que ladram
mas não mordem.
sábado, 18 de setembro de 2010
Parágrafo-ensaio de pretensão ao silêncio e às garrafas atiradas na rua.
Como se o silêncio fosse classificável como outro tipo de hipocrisia. Um tipo novo de hipocrisia. Mas o silêncio em si é um pecado auto-sustentável. Não precisa de fígado, nem pau, nem estômago, nem falta de escrúpulos, nem coisa alguma. Ou melhor, só necessita a ausência momentânea do desespero – ou uma máscara que lhe sirva bem ao atual presente, que não lhe será possível no futuro-mais-próximo. O silêncio há de infectar cada uma das células conjecturáveis do corpo, destilar milhões de papuas obscuras e escorrer pelas frestas das portas, janelas, narinas, bocas e remendos nos lençóis. O silêncio tem pressa e consciência acuada, colhões, armadura quase-intransponível e modus operanti. E lhe perseguem, capturam, torturam, subjugam, espremem e sufocam inutilmente, como se fosse classificável como outro tipo de hipocrisia. E ainda há esperança. Porque há quem saiba que a hipocrisia reside não no silêncio, mas no hiato entre a falsa sinceridade e a sincera mentira.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Cinco e meia
Diante de dezesseis mil
pores-do-sol
eis que em mim há de se
discernir o silêncio nascente
que oscila no horizonte
oriente não mais tão distante
dessa treva que se divide
em cardinales ambulantes
e trechos musicais despejados
nos absurdos dos abismos.
O céu
é uma citação incontínua
e emputecida do infinito;
a margem do rio
é o sorriso.
O azul é incolor,
o incolor é lindo.
pores-do-sol
eis que em mim há de se
discernir o silêncio nascente
que oscila no horizonte
oriente não mais tão distante
dessa treva que se divide
em cardinales ambulantes
e trechos musicais despejados
nos absurdos dos abismos.
O céu
é uma citação incontínua
e emputecida do infinito;
a margem do rio
é o sorriso.
O azul é incolor,
o incolor é lindo.
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