terça-feira, 26 de outubro de 2010
Dois
esses dois barquinhos
de velas negras, cheios
de espuma branca invadindo
o convés. E flutuam fechados
(ou abertos) na escuridão de
um oceano macio distante
do litoral.
Rota 42
Talvez não fosse a mais indicada das refeições no cardápio, mas a torça de maçã e as xícaras de café à beira da estrada foram nutritivas e baratas o bastante pra encher a barriga de uma forma espetacular. Saiu do banheiro depois de escovar os dentes, com a mochila nas costas. Pagou, pegou um único cigarro com o dono, cantou a garçonete e lhe sorriu antes de sair. Fez alguns alongamentos rápidos. Apesar de não fumar acendeu unzinho e fez com que durasse o bastante. Sentou-se em sua Harley WLC, 1943 e calçou as luvas prestando atenção no ruído que o couro sintético fazia ao ser esticado. Última filada no cigarro antes de jogá-lo no chão. Girou a chave e deixou o motor roncar por alguns segundos. Colocou capacete e óculos e acenou para a garçonete que lhe assistia através da vitrine. Saiu.
Puxava um grande caderno de capa escura sempre que parava nos beirais das estradas. Ou em motéis, hotéis, pousadas, casas de conhecidos, lanchonetes e quaisquer outros lugares. A idéia original era a de um diário irrestrito, mas as páginas estavam preenchidas de histórias semi-desconexas, poemas esquecidos e rascunhos de qualquer coisa que chamasse sua atenção. Escrevia também com notas de viagem sobre bons lugares. Preenchera algumas páginas na lanchonete. Boa refeição, bom lugar. Rabisco do rosto da jovem que trabalhava lá. Mais tarde, cada vez que se deparasse com aquela página sorriria também. Assim como sorria para cada um dos outros rostos mal desenhados ali. Não havia Rota 66 no Brasil. Não faltavam, no entanto, estradas e vias e rotas que também levavam o nada ao lugar nenhum. Não havia um lugar de onde partir e nem aonde chegar.
Carregava uma semi-automática por dentro da jaqueta. Pura precaução, que no final das contas era paranóia. Surpreendentemente infundada. Apesar de importante o contato com o resto do mundo não era o principal motivo da incansável e interminável viagem. Aproximava-se, interagia, enxergava e sentia tudo ao seu redor à sua própria maneira. Mantinha as pessoas de sua vida próximas sem que entendessem o que significava aquela maneira tão estranha e aparentemente paradoxal de fazê-lo. Um belo dia largaria inclusive daquela velha moto amarela que chamava de Woodstock, batismo graças ao pássaro das tirinhas Peanuts. Apesar de descascada e de aparência incrivelmente antiga, era cuidada como uma continuação vital de seu próprio corpo. Através das estradas não poderia atravessar diretamente aos vales e florestas e rios e montanhas e o resto daquilo que sabia existir em um lugar próximo e distante de si. Um dia Woodstock encontraria seu próprio cachorro mudo e branco, afinal a companhia daquele lobo calado e solitário não era lá a melhor. Mas funcionava.
Os retângulos amarelos e tortos corriam por debaixo dos pneus e refletidos pelos óculos escuros. Acelerava nos trechos incrivelmente retilíneos e suaves de estrada, e recebia satisfeito o vento que lhe cortava o corpo. A cada pôr-do-sol e surgir-da-lua ouvia a mesma voz que sempre chamava por seu nome. Um nome que mais ninguém sabia. E até ouvi-lo pela primeira vez, nem mesmo ele sabia qual era. Jack London lhe dissera que aquele era o Chamado da Floresta. Mais cedo ou mais tarde não resistiria. Até lá buscava conhecer a si mesmo através de tudo, e fugia de determinadas verdades enquanto percorria as várias estradas. Ele que sairá da estrada pra conhecer e mapear outro caminho. Não sabia quando. Mas sabia que estava perto da próxima cidade. Mais xícaras de café e outra torta de outro sabor.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Peru.
Amália Rodrigues tem uma voz tão bonita. E a garota tem aquele mesmo tipo de voz, sotaquezinho charmoso de quem é e não é do Brasil. Claro. Envolvimento se dá das formas mais complicadas, é o melhor jeito que se há de envolver. Certo, certo, não consigo fazer círculos de fumaça no ar. Ainda. Amália Rodrigues é um nome bonito também. Hm, Amália - chamemo-la assim - precisa se mudar pra longe. Não fisicamente entrecidades, estados, países, continentes. Precisa se mudar, fisicamente também, de onde e como está. E eu sou onde está. O ônibus prefere sempre a demora. Presto tanta atenção nas coisas e insisto em ignorar algumas delas. A espera torna a maioria das pessoas, atrasadas, menos aconchegantes e susceptíveis ao contato o humano. e isso é necessário pra se andar de ônibus hoje em dia. Pra mim é indiferente. As pessoas estranham mesmo é ver um chester rechonchudo pegando ônibus e, no lugar do costumeiro ‘bom dia’ ao motorista, deixa só o cigarro apagado no beiral da calçada e um sonoro ‘gluglu’.
Dos Olhos da Amada
O quarto era só uma parcela da noite escura. Longe do breu trilhavam em par misterioso as luzes das docas mansas e cais noturnos cheios de adeus. Quantos saveiros, quantos navios, quantos naufrágios? Aqueles olhos perdidos num galgar febril e inescrupuloso, a visão perdida e o horizonte tão mais distante. Aqueles dois olhos tão descrentes, tão irremediáveis, tão ateus. Pudesse um dia, quem dera Deus, ver um olhar mendigo da poesia, enquanto ela sorria e chorava, sem a menor alegria visível, sem o menor desespero distinguível. O ar finalmente foge sorrateiro.
- O que foi Vinicius?
- Oh, minha amada, que olhos os teus.
[Poema dos Olhos da Amada - Vinicius de Moraes
Oh, minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus]
domingo, 17 de outubro de 2010
Emblema
e pedaço inerte da matéria
como todo e qualquer movimento
que antecende o momento
final.
Como toda e qualquer incerteza
que influencia direta
ou indiretamente sobre
os corpos perdidos no espaço.
Meu amor é crer que dois e dois
são cinco e achar que o absurdo
é não existir a possibilidade
do resultado ser qualquer número
que eu quiser. Meu amor é vago,
abstrato, concreto e, obstante,
meu amor
é equidistante
- como a
maré.
sábado, 16 de outubro de 2010
Como quando se controlar.
Café quente, a fumaça me cegando e a superfície escura queimando afavelmente a língua. Enterro tudo, fecho o zíper. Tomo banho, como alguma besteira e há tempo suficiente pra vadiar antes da aula. Mas não há tanto sentido assim. Mais tropeços que o normal pelo caminho e o controle difícil dos pés que querem continuar andando. O limite, por exemplo, é o ponto de ônibus. atravessar a rua, ou melhor, as ruas, é impensável. Existe um percurso chave, uma linha uma razão um dever a ser cumprido. Faltam roupas na mochila. Sobram reticências e páginas em branco. O Chamado da Floresta continua no meio dos cadernos. Ele realmente existe. e insiste.
Acabar caminhando na praia com as barras da calça puxadas até a altura dos tornozelos é uma boa opção. O vento continua como deixei da última vez, cheio de sal e de chamego. A água continua do mesmo jeito. Todo mundo se surpreende com o primeiro toque da água do mar na situação, quando avançam as ondinhas ou quando se avança nelas. É irremediável o efeito desconexo. E continuar em frente, a água cobrindo os pés, calcanhares, tornozelos, joelhos, cintura peito e a falta absoluta de chão. Andando, andando, andando. Talvez eu chegue ao Marrocos daqui pro mês que vem.
O problema é me importar em chegar atrasado à aula fedendo a peixe e encharcado de água do mar. Pior é chegar.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Certas coisas
Acha que ficou bom o suficiente?
Hm... Acho sim. E o telefone?
Boto depois. Tô achando que falta mais alguma coisa sabe?
Oral, anal, essas coisas, botou?
Caramba! é verdade. Pronto.
Como ficou?
Oral incluso. Mas não sei anal. Que eu faço?
Você é liberal?
A-acho que sim. Por quê?
Ah, Paolinha, o significado da palavra “liberal” é referente ao seu atendimento, uma mulher liberal faz anal.
Sei. Meio que depende então.
Algumas usam “A combinar”. Mesmo por que elas não vão saber o tamanho do pinto de quem contrata.
Caramba, você tem razão.
Mas dá pra levar numa boa em certas situações, meu bem.
Do tipo?
Veja só, se o cara tiver sobrenome asiático é bem na vista.
Mas, porra, se for japonês brasileiro
Não entendi.
Japonês brasileiro é foda, poxa! Ele tem cara de asiático, é amarelo e tudo mais, tem até sobrenome de asiático.
Ainda não entendi.
Mas como todo bom brasileiro é uma mistura infeliz, acaba que tem uma pica vinte e sete centímetros e quer me comer o cu.
Hahahahaha acho que sim.
E aí? O que eu faço? Perco o cliente só porque ele quer me foder as tripas?
Deixa o “a combinar” pra hora certa. E se ele perguntar, você tenta disfarçar.
Perguntar tamanho de pau pode até afastar, você sabe.
Nada assusta mais que vinte e sete centímetros de pau e uma lavagem intestinal pelo rabo.
Concordo. Melhor tirar o “a combinar”.
E boto o quê no lugar?
“Pau grande paga o dobro”.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Avenida
e abafar meus ruídos
fazer festa de egoísmo
e comemorar só pra mim mesmo
porque hoje
hoje é dia que não merece
e mesmo assim ganha proporções
monumentais. Dane-se, a lua tá
uma beleza. Cantem os grilos que
hoje é carnaval.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
domingo, 10 de outubro de 2010
E eu gosto.
Ontem entre uma ocupação e outra eu tentei imaginar como seria sua presença não-holográfica diante de mim. Esse primeiro momento que eu sequer havia me concentrado com exatidão. No momento eu nem tinha pensado. Ainda. Desde então o gosto raro do cigarro e do álcool, da comida e das porcarias que eu falava e ouvia só remetiam à identidade você. E até agora fazem isso. Essa tentativa de melhorar meus pensamentos e meu jeito pra parecer alguma coisa melhor. Bastante manutenção necessária, diga-se de passagem.
Quais coisas que eu vou te dizer? Como eu posso dizer o que eu quero? Esse monte de confusões enlatados por entre minhas órbitas junto de tanta porcaria que é tão não-necessária. Quanto é muito tempo? Insistência sempre foi meu forte e lidar com ela, bem, sempre foi minha fraqueza. Bom pra mim. Posso dizer que todo esse papo e neurose levaram só a um único pensamento, mais uma vez. Você. Algo mais específico em você que talvez me piore esse ar de excentricidade, claro.
Entrelaçar os braços por debaixo de sua camisa e encostar minha pele morna na sua pele fria. E meus dedos escorrendo de lado e os polegares desenhando círculos malfeitos e praticamente incalculáveis nas costelas. Chegar até suas costas e saber que são suas costas e que a diferença de temperatura é real, que talvez eu não solte mais. Não. Não vou soltar mais. Minha pele está em frangalhos, tenho umas cicatrizes e marcas e uns pêlos nos braços. Mas quando houver esse contato nem eu que faço tanta questão de fingir que não me importo vou me importar de verdade. E não. Não vou mais soltar. E como eu sei que sua pele é fria? Talvez eu só precise te mostrar que tenho razão.
Quanto tempo é muito tempo? acendo um cigarro raro sabendo que não deveria fazê-lo. Mas é daqueles que até você gosta. E eu gosto.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
I met someone
Não há um jeito fácil de falar isso, então vou só falar: Conheci alguém.
Foi acidental, não estava à procura. Eu não estava à caça. Foi uma tempestade perfeita. Ela disse uma coisa, eu disse outra. Em seguida eu soube que queria passar o resto da vida naquela conversa. Agora tenho essa sensação no peito, pode ser ela.
Ela é totalmente louca de um jeito que me faz sorrir, altamente neurótica. Bastante manutenção necessária. E é você. Essa é a boa notícia. A má é que não sei como ficar com você agora. E isso me assusta pra caralho. Porque se eu não ficar com você agora tenho a sensação de que vamos nos perder por aí.
É um mundo grande, malvado, cheio de reviravoltas e as pessoas tendem a piscar e perder o momento. O momento que podia ter mudado tudo. Eu não sei o que está acontecendo com a gente, eu não sei te dizer por que você deveria arriscar um salto no escuro pra gostar de mim, mas, porra, você cheira bem. Como um lar. E você faz um café ótimo, isso deve contar pra algo, certo?'
domingo, 3 de outubro de 2010
Duas garrafas de cerveja (e incontáveis outros passos).
- Hm, uhum, claro, claro.
-Você tá ouvindo?
-Claro que tô, relaxa. Só tô com os olhos meio irritados.
-Mesmo?
-Porra, relaxa.
-Tá ardendo?
-O que?
-Os olhos, cacete.
-Ah, sim, sim. Continua com a história.
-Onde eu parei mesmo?
-Ele ligou pra ela de madrugada e...
-Ah, sim... Então começaram a discutir e
Ouvir tudo mesmo sem dar qualquer importância. Fingir importância. É tão errado assim inventar mentiras e acreditar que elas são reais? Convencer inclusive a si mesmo é uma condição menos trabalhosa. E sincera.
Tão longe, tão longe, não sabia nem a distância, de tão longe.
-Acredita nisso?
-Maior sacanagem.
-Não é?
Não que não se importasse. Prefere acreditar que se importa a concordar que é egoísta.
-Se estivesse nessa situação o que você faria?
-Iria embora.
Abre os olhos e está a quilômetros de distância.
Sua consciência diz o passado não lhe pertence mais.
-É mais fácil se convencer que coisas assim dão certo.
-Credo. Pior que pensando bem até faz sentido. O que você vai fazer agora?
- Me convencer disso.