No momento do tudo
o todo desfez em nada
as palavras ganharam vida,
vida real e sangue por
suas veias inexistentes
o silêncio ecoou no ruído
na inverossímel realidade
do que havia de
se dizer
a boca encontrou a boca
no caminho da verdade
o desejo tornou-se
pretensão do sentimento
de ser completo e vazio,
quando distante dos dedos
as mãos encontram
os vestígios despejados
em quaisquer direções,
os quadris resistem tão
firmes e insistem na junção
da natureza incompreensível
de se tornar um só
em que se morre breve
só pra viver um pouco
mais,
no instante das pulsações
fora de compasso
do oxigênio negado aos
pulmões
do redor ser negado
à existência
no momento do tudo
em que o todo desfez em nada
dos olhos sem ver
e dos ouvidos sem ouvir
sem ontem
ou antes
e depois
E só sem estar sozinho
na insegurança de se
compreender por palavras
caladas, calem-se,
e suas veias sanguinolentas
flutuam imersas no sal,
como pedras que se movem
no horizonte dos desertos
e não conhecem fim.
domingo, 31 de janeiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
As curvas das estradas de Santos.
Noite, como de costume de quase todas as vezes que saíamos. Debruçado sobre um balcão, sentado em um banco alto, ao lado de um amigo e “sua” possível garota. Estávamos na parte superior da casa de shows, um cover de uma banda qualquer se apresentava lá em baixo, no palco. Eu olhava pra um canto aleatório e perdido no meio daquela movimentação toda enquanto o vocalista gritava meia dúzia de palavras indistinguíveis. Fora nós três, poucas outras pessoas estavam ali, na parte superior. E por mais do som estar realmente legal, eu, mais uma vez, não estava prestando atenção. Som legal, né? Como? Som legal, né? Ah, claro, claro, e voltou-se a pra conversar com a garota.
A banda tocou por mais vinte e poucos minutos, eu fingia que escutava. Não. Eu não fingia nada, o som chegava a meus ouvidos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. De olhos semicerrados, por alguns instantes, eu observava mesas, pessoas, garrafas, lábios, palavras, luzes, homens, mulheres. E mais uma vez, as imagens chegavam aos meus olhos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. Meus pés imitavam, mecanicamente, o ritmo procriado pela bateria. Por vezes, eu acompanhava com os dedos, batucava de leve na madeira fria. Quando a banda saiu, fui automaticamente despertado do transe. Aplaudi despreocupadamente, meu amigo riu.
Cadê a garota? Foi pra casa. Puxei o pulso dele e analisei o relógio. Já? Ah, sim. Topa viajar? Como assim? Não conheci essa garota agora e muito menos hoje, ela tem uma casa, uma galera vai. Entendo. Topa? Que horas sairíamos? Hm, amanhã, logo depois do almoço... Não quer saber pra onde vamos? Mas eu não aceitei. Santos. Sei. Esteja lá em casa às 13h, certo? Vou dormir lá, cara. Ah, verdade. Topa beber alguma coisa? Sei lá, vamos praquela mesa. Apontei uma mesa pré-determinada, quase ao centro do lugar. Nossa! nem tinha visto que eles estão aqui. Arrastamo-nos até lá, descendo as escadas encarapitadas da parede. Lex Luthor, o segurança de quase dois metros, nos cumprimentou sorrindo.
Não bebi naquela noite. Não o suficiente pra uma ressaca. O auto máximo fora um copo de cerveja, geladíssima. Uma das piores cervejas que existem. Mas estava geladíssima a ponto de seu gosto de qualquer porcaria aleatória ser relevável. Conversamos bastante, descobrimos que quase todos da mesa também iriam a Santos. Naquela época do ano, ninguém iria a Santos. Só um bando de gente desocupada e de férias. Dia seguinte almoçamos bem, juntamos nossas coisas e entramos no carro antes até do previsto. 11h40 e estávamos na estrada. Eu, ele, outros dois amigos e as quase-malas da viagem.
Chegamos cedo, ajudamos na limpeza. Minha repulsa fisiológica à poeira me garantiu outro tipo de serviço: carregador. Todos trabalhavam, faziam alguma coisa. E mesmo que não houvesse o que fazer, eu procuraria alguma coisa. Em algumas horas, exaustos e famintos, terminamos tudo. As garotas correram pra cozinha, macarrão. Macarrão para um batalhão: comemos bem. Os garotos ficariam no quarto perto da sala, enquanto as garotas dormiriam no quarto à direita do fim do corredor.
Bebemos e conversamos até que, um a um, foram se entregando a suas ‘camas’. Os remanescentes, inclusive eu, riam bastante. Decidimos por baralho. Com o passar do tempo, mais desertores da madrugada. Eu e mais outro cara, estávamos acabados. E por mais de se parecer, havíamos bebido mais, mas o esforço pesado, dos dois, carregadores, fez com o que o álcool não surtisse efeitos. Os outros estavam enterrados nas valas de seus colchonetes, no quarto. Alguns minutos depois, não conseguindo falar direito, acenou boa noite – ou bom dia – e arrastou-se pro quarto. Permaneci por mais uma hora com as garotas, jogávamos baralho e conversávamos. Chegou ao ponto do bom senso berrar com todo mundo, todos levantaram, foram dormir.
Abri a porta sem cerimônias, ninguém acordaria mesmo com uma chuva de tiros ao alto. O problema era exatamente esse. O quarto era de tamanho médio, mas eram homens demais. E desde chão, colchonetes, cadeiras, encostos e até beirada de janela, ocuparam todos os cantos possíveis e impossíveis. Fui até as garotas, pedi a garrafa de vodka, dei umas boas goladas. Fui atentamente observado por todos os olhos femininos, que não entendiam porra alguma. Muito menos eu. Levantaram-se e saíram da sala. E eu só queria deitar, relaxar um pouco. Meus ossos rangiam, meus músculos reclamavam até ao menor suspiro.
Arranquei uma das almofadas do sofá, me enfiei num casaco grosso e deitei no chão. Almofada de travesseiro, ao menos aquela... Péssima idéia. Encolhi-me junto ao sofá e cobri a cabeça com a almofada mais desconfortável do mundo. Senti algo suave segurando meu braço, Vem. Não precisa, estou bem aqui. Mentira deslavada, mas de qualquer maneira eu dormiria rápido. Não, não está, vem. Descobri a cabeça e uma loira de voz rasgada me chamou mais uma vez. Levantei-me, estiquei as vértebras imitando um gato. Segurando-me pela mão, ela me arrastou até o quarto, até o fim do corredor, à direita. Entrei e sentei-me próximo da porta, o sono ainda estava longe, apesar do cansaço. Conversamos por mais um bocado.
A dona da casa me apontou um espaço próximo à janela, contei duas camas e alguns colchonetes. No tal lugar havia um colchonete. Não havia tempo e nem sentido pra qualquer racionalidade, engatinhei até o canto e me estirei na cama. Conversamos mais, pedi a garrafa de vodka, dei outra golada. Era vodka diluída, só pra esquentar. Mal funcionava direito, o melhor seria sua pureza representativa. Elas riram, concordaram depois de dar, cada uma, um gole. Senti uma mão me afagando os cabelos. Olhei pra cima e percebi que havia uma cama ao lado de onde eu estava - no colchonete. Sem ao menos dar atenção, a garota loira que me recolhera da sala continuou com o carinho, conversando com as outras.
Conversamos até que a garrafa esvaziasse. Nesse ponto, de dois, três minutos até então, a temperatura caiu significativamente. Fomos todos dormir. Menos eu. O frio me corroia os nervos, cada um deles. Notei que a porta estava entreaberta e que faltava uma das garotas. Bom, ela volta. Virei pra parede fria, enterrei-me num lençol fino e me encolhi apertando o casaco de lã. Apesar do frio, eu estava exausto. Não queria incomodar – mais ainda -, resisti ao frio no máximo do possível. Tentei manter meu corpo inerte, mas minha força de vontade tinha o limite da exaustão, então ainda tremia.
Quase pegando no sono ouvi a porta fechar devagar. Senti que alguém estava aproximando-se, senti os passos no chão. Ouvi uma voz suave, ta acordado? To sim. Percebi que aquela era sua cama. Ah, droga, quer que eu levante? Não, não. Eu falava arrastado na tentativa de esconder o frio. Frio? Um pouco. Ela virou meu rosto e notou meus lábios meio rachados, meio azulados. Nada de dar uma de machão, ta? Nem entendia o sentido daquilo, consenti com a cabeça e fechei os olhos. Ela se enfiou por debaixo do lençol, lançou um cobertor mais grosso por cima e me abraçou por trás. Virei devagar e lhe dei um beijo na testa. Obrigado, eu tava morrendo de frio. Me apertando mais ainda, me virou por completo e fez com que encostasse a cabeça em seu ombro. Desse jeito eu quero desencalhar uma baleia amanhã, só com os braços. Ela riu. Dorme. E eu dormi.
Dia seguinte acordei antes de todos, com algumas dores nos braços. Preparei café, mesmo com a dificuldade de achar canecas, xícaras e pó. Levei até o quarto das garotas, acordei uma a uma e agradeci. Fui até a praia, caminhar, sozinho. Conheci uma garota, demos uns amassos por detrás de um posto abandonado de salva-vidas. À noite, durante outra sessão de baralho, um dos rapazes brincou, disse que eu era o maior garanhão do universo, ou o maior viado. Tentei explicar, argumentei sem graça, Não aconteceu nada. Nada? Ah, eu dormi. Só dormiu? E a garota de olhos azuis, que dormira comigo, bateu o jogo. Não só isso. O quê, então? insistiu um dos rapazes. O quê, o quê?
Desencalhou uma baleia com as mãos.
A banda tocou por mais vinte e poucos minutos, eu fingia que escutava. Não. Eu não fingia nada, o som chegava a meus ouvidos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. De olhos semicerrados, por alguns instantes, eu observava mesas, pessoas, garrafas, lábios, palavras, luzes, homens, mulheres. E mais uma vez, as imagens chegavam aos meus olhos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. Meus pés imitavam, mecanicamente, o ritmo procriado pela bateria. Por vezes, eu acompanhava com os dedos, batucava de leve na madeira fria. Quando a banda saiu, fui automaticamente despertado do transe. Aplaudi despreocupadamente, meu amigo riu.
Cadê a garota? Foi pra casa. Puxei o pulso dele e analisei o relógio. Já? Ah, sim. Topa viajar? Como assim? Não conheci essa garota agora e muito menos hoje, ela tem uma casa, uma galera vai. Entendo. Topa? Que horas sairíamos? Hm, amanhã, logo depois do almoço... Não quer saber pra onde vamos? Mas eu não aceitei. Santos. Sei. Esteja lá em casa às 13h, certo? Vou dormir lá, cara. Ah, verdade. Topa beber alguma coisa? Sei lá, vamos praquela mesa. Apontei uma mesa pré-determinada, quase ao centro do lugar. Nossa! nem tinha visto que eles estão aqui. Arrastamo-nos até lá, descendo as escadas encarapitadas da parede. Lex Luthor, o segurança de quase dois metros, nos cumprimentou sorrindo.
Não bebi naquela noite. Não o suficiente pra uma ressaca. O auto máximo fora um copo de cerveja, geladíssima. Uma das piores cervejas que existem. Mas estava geladíssima a ponto de seu gosto de qualquer porcaria aleatória ser relevável. Conversamos bastante, descobrimos que quase todos da mesa também iriam a Santos. Naquela época do ano, ninguém iria a Santos. Só um bando de gente desocupada e de férias. Dia seguinte almoçamos bem, juntamos nossas coisas e entramos no carro antes até do previsto. 11h40 e estávamos na estrada. Eu, ele, outros dois amigos e as quase-malas da viagem.
Chegamos cedo, ajudamos na limpeza. Minha repulsa fisiológica à poeira me garantiu outro tipo de serviço: carregador. Todos trabalhavam, faziam alguma coisa. E mesmo que não houvesse o que fazer, eu procuraria alguma coisa. Em algumas horas, exaustos e famintos, terminamos tudo. As garotas correram pra cozinha, macarrão. Macarrão para um batalhão: comemos bem. Os garotos ficariam no quarto perto da sala, enquanto as garotas dormiriam no quarto à direita do fim do corredor.
Bebemos e conversamos até que, um a um, foram se entregando a suas ‘camas’. Os remanescentes, inclusive eu, riam bastante. Decidimos por baralho. Com o passar do tempo, mais desertores da madrugada. Eu e mais outro cara, estávamos acabados. E por mais de se parecer, havíamos bebido mais, mas o esforço pesado, dos dois, carregadores, fez com o que o álcool não surtisse efeitos. Os outros estavam enterrados nas valas de seus colchonetes, no quarto. Alguns minutos depois, não conseguindo falar direito, acenou boa noite – ou bom dia – e arrastou-se pro quarto. Permaneci por mais uma hora com as garotas, jogávamos baralho e conversávamos. Chegou ao ponto do bom senso berrar com todo mundo, todos levantaram, foram dormir.
Abri a porta sem cerimônias, ninguém acordaria mesmo com uma chuva de tiros ao alto. O problema era exatamente esse. O quarto era de tamanho médio, mas eram homens demais. E desde chão, colchonetes, cadeiras, encostos e até beirada de janela, ocuparam todos os cantos possíveis e impossíveis. Fui até as garotas, pedi a garrafa de vodka, dei umas boas goladas. Fui atentamente observado por todos os olhos femininos, que não entendiam porra alguma. Muito menos eu. Levantaram-se e saíram da sala. E eu só queria deitar, relaxar um pouco. Meus ossos rangiam, meus músculos reclamavam até ao menor suspiro.
Arranquei uma das almofadas do sofá, me enfiei num casaco grosso e deitei no chão. Almofada de travesseiro, ao menos aquela... Péssima idéia. Encolhi-me junto ao sofá e cobri a cabeça com a almofada mais desconfortável do mundo. Senti algo suave segurando meu braço, Vem. Não precisa, estou bem aqui. Mentira deslavada, mas de qualquer maneira eu dormiria rápido. Não, não está, vem. Descobri a cabeça e uma loira de voz rasgada me chamou mais uma vez. Levantei-me, estiquei as vértebras imitando um gato. Segurando-me pela mão, ela me arrastou até o quarto, até o fim do corredor, à direita. Entrei e sentei-me próximo da porta, o sono ainda estava longe, apesar do cansaço. Conversamos por mais um bocado.
A dona da casa me apontou um espaço próximo à janela, contei duas camas e alguns colchonetes. No tal lugar havia um colchonete. Não havia tempo e nem sentido pra qualquer racionalidade, engatinhei até o canto e me estirei na cama. Conversamos mais, pedi a garrafa de vodka, dei outra golada. Era vodka diluída, só pra esquentar. Mal funcionava direito, o melhor seria sua pureza representativa. Elas riram, concordaram depois de dar, cada uma, um gole. Senti uma mão me afagando os cabelos. Olhei pra cima e percebi que havia uma cama ao lado de onde eu estava - no colchonete. Sem ao menos dar atenção, a garota loira que me recolhera da sala continuou com o carinho, conversando com as outras.
Conversamos até que a garrafa esvaziasse. Nesse ponto, de dois, três minutos até então, a temperatura caiu significativamente. Fomos todos dormir. Menos eu. O frio me corroia os nervos, cada um deles. Notei que a porta estava entreaberta e que faltava uma das garotas. Bom, ela volta. Virei pra parede fria, enterrei-me num lençol fino e me encolhi apertando o casaco de lã. Apesar do frio, eu estava exausto. Não queria incomodar – mais ainda -, resisti ao frio no máximo do possível. Tentei manter meu corpo inerte, mas minha força de vontade tinha o limite da exaustão, então ainda tremia.
Quase pegando no sono ouvi a porta fechar devagar. Senti que alguém estava aproximando-se, senti os passos no chão. Ouvi uma voz suave, ta acordado? To sim. Percebi que aquela era sua cama. Ah, droga, quer que eu levante? Não, não. Eu falava arrastado na tentativa de esconder o frio. Frio? Um pouco. Ela virou meu rosto e notou meus lábios meio rachados, meio azulados. Nada de dar uma de machão, ta? Nem entendia o sentido daquilo, consenti com a cabeça e fechei os olhos. Ela se enfiou por debaixo do lençol, lançou um cobertor mais grosso por cima e me abraçou por trás. Virei devagar e lhe dei um beijo na testa. Obrigado, eu tava morrendo de frio. Me apertando mais ainda, me virou por completo e fez com que encostasse a cabeça em seu ombro. Desse jeito eu quero desencalhar uma baleia amanhã, só com os braços. Ela riu. Dorme. E eu dormi.
Dia seguinte acordei antes de todos, com algumas dores nos braços. Preparei café, mesmo com a dificuldade de achar canecas, xícaras e pó. Levei até o quarto das garotas, acordei uma a uma e agradeci. Fui até a praia, caminhar, sozinho. Conheci uma garota, demos uns amassos por detrás de um posto abandonado de salva-vidas. À noite, durante outra sessão de baralho, um dos rapazes brincou, disse que eu era o maior garanhão do universo, ou o maior viado. Tentei explicar, argumentei sem graça, Não aconteceu nada. Nada? Ah, eu dormi. Só dormiu? E a garota de olhos azuis, que dormira comigo, bateu o jogo. Não só isso. O quê, então? insistiu um dos rapazes. O quê, o quê?
Desencalhou uma baleia com as mãos.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Navalha
A carne do espelho
já não anda madura
e o gosto da faca
perdeu o seu corte
o caminho do céu,
o leste, o sul,
o oeste, meu norte
o pedaço do fim
não termina na morte
As rugas do tempo
fedem ao piche do asfalto
e os passos na areia
estão soterrados
o caminho do céu,
o leste, o sul,
o oeste, meu norte
o que começa em mim
não depende da sorte.
já não anda madura
e o gosto da faca
perdeu o seu corte
o caminho do céu,
o leste, o sul,
o oeste, meu norte
o pedaço do fim
não termina na morte
As rugas do tempo
fedem ao piche do asfalto
e os passos na areia
estão soterrados
o caminho do céu,
o leste, o sul,
o oeste, meu norte
o que começa em mim
não depende da sorte.
Invisíveis trilhos de trem
Não estávamos tão distantes do resto da cidade. Mas resolvemos sair um pouco daquilo tudo, que nunca parava. Que nunca pára. Certa distância, suficiente pra que nenhuma luz ofuscasse exageradamente alguma porra qualquer da noite. Fomos de carro até perto de uma linha férrea. Eu e mais cinco pessoas, fui ao lado do motorista, que esticou 120 km/h na estrada mais retilínea que eu já vira na minha vida. E eu não ligava, a janela estava aberta, os quatro do banco de trás conversavam sobre alguma coisa. O motorista sorria um sorriso débil, arrancava os dentes da estrada e costurava na boca. E além de não ligar, eu me sentia bem.
O motorista, meu primo, marcara com outras pessoas. Chegamos ao ponto ‘combinado’ e encontramos mais dois carros, e em sua maioria, estávamos ladeados por mulheres. E não surtisse total efeito a embriaguez da estrada, o ar estava gélido. Estávamos com frio e sede. Com correlações simples, o intuito da noite seria beber uísque vagabundo. O suficiente pra que palavras jorrassem abruptamente. Todos conversavam. Havia quem não soubesse o nome do outro, não lembrasse ou até não recordasse do próprio. Mas conversamos o suficiente pra espantar o frio, a suposta neblina e o frenesi da cidade.
E aquele bando de desocupados falava sobre tudo. Sexo, política, disco-voador, pornochanchadas, fenícios, porras loucas, música e coisa qualquer. E as duas garrafas de uísque sem rótulo passavam por todo o perímetro. Falei bastante, e assim idem a várias pessoas, um monte de baboseiras. Falado o suficiente, estiquei as pernas, perguntei se poderia matar o resto do uísque, consentiram engajados numa nova discussão. Ainda restava generoso meio litro de rispidez engarrafada. Enfiei-me no casaco, dei algumas goladas, observei outro trem passando. Ninguém lhe dava atenção. Decidiram sair, todos, sem mais nem menos, só sair.
Sem saco pra muita coisa, provavelmente, esperei o último vagão dos curtos e poucos passarem, guardei a garrafa num dos bolsos do casaco, corri e me segurei no vagão. Não, não estava rápido, mas não era lento o bastante pra ser deixado pra trás pelos carros. Nada de 120 km/h esticáveis. Agora eram mensuráveis cinqüenta, sessenta. As rodas titilavam contra os trilhos, eu os ouvia conversando, a noite estava silenciosa. Todos enfiados nos carros, alguns gritavam pra pular, entrar no carro e eu me importava em beber do uísque sem nome. O motorista percebeu, distanciou-se e acompanhou o trem em velocidade amena.
A neblina invadiu o nada e tornou-se tudo. Dissipada no silêncio, a mudez não existia. Por algum motivo estranho, era uma quase-bruma ruidosa, que calava o silêncio. Os faróis do carro piscaram algumas vezes, saltei do vagão. Terminei o último gole e abandonei a garrafa dentro do carro, agora parado. Fazia ainda mais frio. Os carros estavam distantes a mais ou menos dez metros uns dos outros. Casais prontamente formáveis e reformáveis, formaram-se na situação. Transavam em espaços nulos de bancos de carro ou vazios da neblina, em algum canto perdido. Amontoados aos gemidos, todos se espalhavam na madrugada.
Com uma garrafa de vodka na mão, eu conversava com o último casal fora de ação. Por pouco tempo. Não sabia quantas pessoas estavam ali, mas que de minha memória falhasse, ou alguém desfrutava de um belo, e supervalorizado – quiçá não merecer tanta digna fama – sexo a três. E minha curta relação de sinceridade com a neblina me garantiu o porre que ninguém alcançara naquela noite. Uísque vagabundo e vodka. Apertei os olhos e percebi algumas garotas conversando, sentadas no chão. Sentei no capô de um dos motéis e perguntei ao grupo totalitariamente verbal qual era o quarto de motel desocupado. E a garota morena, alta e embriagada me apontou o nada, caminhe em linha reta, sua voz macia e também morena, e vai encontrar o carro da gente. Quero só deitar, vai lá. Sem vomitar, ta? Combinado.
Tateando com a garrafa quase vazia, descobri o que parecia um chevy fodido e embrulhado na quase-bruma do interior de São Paulo. Deitei no banco de trás, ainda com alguns mililitros de sobriedade, e olhei pro céu. Ou o que seria o céu. Imaginava um céu salpicado de grãos de sal, lindíssimo, uma lua anoréxica e umas nuvens cinzentas e ranzinzas. E eu estava ranzinza, uma nuvem baixa dentro de um chevy perdido no meio do nada. Ainda ouvia os trilhos estalando ao longe, alguns gemidos, vozes, e uma busca pelo sentido da vida numa roda feminina de totalitarismo verbal.
E goladas adiante, já era dia. As horas estavam mortas debaixo do trem. Todos dormiam, minha cabeça latejava. Não pelo uísque, uísque vagabundo é milagroso, vodka de loja de conveniência não. É a parte destilada de algo russo que foi repatriado num canto qualquer. Cerrei os olhos. Abri novamente, com dificuldade. Percebi que alguém estava do meu lado, dormindo. Não, não estava dormindo. Acordada? Ah, não queria te acordar, você estava afundado num sono daqueles. Sei, obrigado. Ahm, nós..? Não, não, Ah, certo. A morena e a outra foram trepar em algum canto. Ah, sei. E as outras? Quem sabe? Sentei no capô e conversamos por uns quarenta minutos. E? Ah, eu reclamei do frio e você me puxou pra dentro do carro. E te abracei? Isso. Ah, agora eu lembro. Do que? Seu cafuné é uma maravilha.
E aquela garota dos cabelos azuis sorriu sinceramente. E demorou uns segundos até que eu notasse que o sorriso era meu. Beijou-me no topo da cabeça. O engraçado é que O que foi? Ah, o engraçado é que você meteu a mão por debaixo da minha blusa e me apertou contra você. Nossa, desculpa. Não, não, não com malícia Entendo. E agora eu sorri. Todos dormindo? Todos. Nossa. Eu estava com a cabeça apoiada no seio da garota. O cafuné recomeçou. E agora? Agora dormimos até que alguém resolva o que fazer. De acordo, mas O quê? Você vai parar com o cafuné? Nunca soubemos o nome um do outro. E ganhei outro sorriso. Não, não vou. Tarde demais, eu já estava de olhos fechados.
O motorista, meu primo, marcara com outras pessoas. Chegamos ao ponto ‘combinado’ e encontramos mais dois carros, e em sua maioria, estávamos ladeados por mulheres. E não surtisse total efeito a embriaguez da estrada, o ar estava gélido. Estávamos com frio e sede. Com correlações simples, o intuito da noite seria beber uísque vagabundo. O suficiente pra que palavras jorrassem abruptamente. Todos conversavam. Havia quem não soubesse o nome do outro, não lembrasse ou até não recordasse do próprio. Mas conversamos o suficiente pra espantar o frio, a suposta neblina e o frenesi da cidade.
E aquele bando de desocupados falava sobre tudo. Sexo, política, disco-voador, pornochanchadas, fenícios, porras loucas, música e coisa qualquer. E as duas garrafas de uísque sem rótulo passavam por todo o perímetro. Falei bastante, e assim idem a várias pessoas, um monte de baboseiras. Falado o suficiente, estiquei as pernas, perguntei se poderia matar o resto do uísque, consentiram engajados numa nova discussão. Ainda restava generoso meio litro de rispidez engarrafada. Enfiei-me no casaco, dei algumas goladas, observei outro trem passando. Ninguém lhe dava atenção. Decidiram sair, todos, sem mais nem menos, só sair.
Sem saco pra muita coisa, provavelmente, esperei o último vagão dos curtos e poucos passarem, guardei a garrafa num dos bolsos do casaco, corri e me segurei no vagão. Não, não estava rápido, mas não era lento o bastante pra ser deixado pra trás pelos carros. Nada de 120 km/h esticáveis. Agora eram mensuráveis cinqüenta, sessenta. As rodas titilavam contra os trilhos, eu os ouvia conversando, a noite estava silenciosa. Todos enfiados nos carros, alguns gritavam pra pular, entrar no carro e eu me importava em beber do uísque sem nome. O motorista percebeu, distanciou-se e acompanhou o trem em velocidade amena.
A neblina invadiu o nada e tornou-se tudo. Dissipada no silêncio, a mudez não existia. Por algum motivo estranho, era uma quase-bruma ruidosa, que calava o silêncio. Os faróis do carro piscaram algumas vezes, saltei do vagão. Terminei o último gole e abandonei a garrafa dentro do carro, agora parado. Fazia ainda mais frio. Os carros estavam distantes a mais ou menos dez metros uns dos outros. Casais prontamente formáveis e reformáveis, formaram-se na situação. Transavam em espaços nulos de bancos de carro ou vazios da neblina, em algum canto perdido. Amontoados aos gemidos, todos se espalhavam na madrugada.
Com uma garrafa de vodka na mão, eu conversava com o último casal fora de ação. Por pouco tempo. Não sabia quantas pessoas estavam ali, mas que de minha memória falhasse, ou alguém desfrutava de um belo, e supervalorizado – quiçá não merecer tanta digna fama – sexo a três. E minha curta relação de sinceridade com a neblina me garantiu o porre que ninguém alcançara naquela noite. Uísque vagabundo e vodka. Apertei os olhos e percebi algumas garotas conversando, sentadas no chão. Sentei no capô de um dos motéis e perguntei ao grupo totalitariamente verbal qual era o quarto de motel desocupado. E a garota morena, alta e embriagada me apontou o nada, caminhe em linha reta, sua voz macia e também morena, e vai encontrar o carro da gente. Quero só deitar, vai lá. Sem vomitar, ta? Combinado.
Tateando com a garrafa quase vazia, descobri o que parecia um chevy fodido e embrulhado na quase-bruma do interior de São Paulo. Deitei no banco de trás, ainda com alguns mililitros de sobriedade, e olhei pro céu. Ou o que seria o céu. Imaginava um céu salpicado de grãos de sal, lindíssimo, uma lua anoréxica e umas nuvens cinzentas e ranzinzas. E eu estava ranzinza, uma nuvem baixa dentro de um chevy perdido no meio do nada. Ainda ouvia os trilhos estalando ao longe, alguns gemidos, vozes, e uma busca pelo sentido da vida numa roda feminina de totalitarismo verbal.
E goladas adiante, já era dia. As horas estavam mortas debaixo do trem. Todos dormiam, minha cabeça latejava. Não pelo uísque, uísque vagabundo é milagroso, vodka de loja de conveniência não. É a parte destilada de algo russo que foi repatriado num canto qualquer. Cerrei os olhos. Abri novamente, com dificuldade. Percebi que alguém estava do meu lado, dormindo. Não, não estava dormindo. Acordada? Ah, não queria te acordar, você estava afundado num sono daqueles. Sei, obrigado. Ahm, nós..? Não, não, Ah, certo. A morena e a outra foram trepar em algum canto. Ah, sei. E as outras? Quem sabe? Sentei no capô e conversamos por uns quarenta minutos. E? Ah, eu reclamei do frio e você me puxou pra dentro do carro. E te abracei? Isso. Ah, agora eu lembro. Do que? Seu cafuné é uma maravilha.
E aquela garota dos cabelos azuis sorriu sinceramente. E demorou uns segundos até que eu notasse que o sorriso era meu. Beijou-me no topo da cabeça. O engraçado é que O que foi? Ah, o engraçado é que você meteu a mão por debaixo da minha blusa e me apertou contra você. Nossa, desculpa. Não, não, não com malícia Entendo. E agora eu sorri. Todos dormindo? Todos. Nossa. Eu estava com a cabeça apoiada no seio da garota. O cafuné recomeçou. E agora? Agora dormimos até que alguém resolva o que fazer. De acordo, mas O quê? Você vai parar com o cafuné? Nunca soubemos o nome um do outro. E ganhei outro sorriso. Não, não vou. Tarde demais, eu já estava de olhos fechados.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
sem Sentidos.
Seu gosto céu azul
em si maior aumentado
tem cheiro de veneno doce
que queima demasiado
na minha pupila castanha
de absurda treva semi-absoluta
onde dilata o tempo e mesmo assim
ninguém lê por completo
fora a pele por debaixo do pêlo
a carne por debaixo da carne
as nuvens enchem as mãos
em meus cabelos, bagunçados
só pra entendê-los nos
fins de tarde.
E é quando seu gosto
é madrugada de horizonte
sem total-treva e com cheiro
de valsa brasileira em
sol maior.
em si maior aumentado
tem cheiro de veneno doce
que queima demasiado
na minha pupila castanha
de absurda treva semi-absoluta
onde dilata o tempo e mesmo assim
ninguém lê por completo
fora a pele por debaixo do pêlo
a carne por debaixo da carne
as nuvens enchem as mãos
em meus cabelos, bagunçados
só pra entendê-los nos
fins de tarde.
E é quando seu gosto
é madrugada de horizonte
sem total-treva e com cheiro
de valsa brasileira em
sol maior.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Fotografia
Meus filmes e rolos
contrastes e quartos escuros
e papéis laminados
todos queimados.
Meus olhos te desejam
numa foto pavimentada de carne
numa moldura de incerteza
que meus pêlos reconheçam
seus pêlos à distânciada aresta
da profana pureza,
oh,máquina não-fotográfica,
humana, não digital.
Meus olhos te desejam
cliques de qualquer porra
psique-loucas, canto de parede
piscadelas e nu-frontal.
numa foto pavimentada de carne
e sangue vívido em cores fluídicas
por debaixo da pele as veias,
numa moldura de incerteza
como qualquer pensamento/lembrança
deve de ser:
semi-imor(t)al.
contrastes e quartos escuros
e papéis laminados
todos queimados.
Meus olhos te desejam
numa foto pavimentada de carne
numa moldura de incerteza
que meus pêlos reconheçam
seus pêlos à distânciada aresta
da profana pureza,
oh,máquina não-fotográfica,
humana, não digital.
Meus olhos te desejam
cliques de qualquer porra
psique-loucas, canto de parede
piscadelas e nu-frontal.
numa foto pavimentada de carne
e sangue vívido em cores fluídicas
por debaixo da pele as veias,
numa moldura de incerteza
como qualquer pensamento/lembrança
deve de ser:
semi-imor(t)al.
Jazz
Grite
soluce
goteje
espalhe bons pesadelos
numa triste canção,
um sorriso é indeciso
mais que a prenúncia firme
contratempos, ferrolhos,
fim sem anunciação.
Serpentes ao vento,
five, four, three, two, one
Coisas sem nome
after dark
there's no room for
middle things.
Grite
soluce
goteje,
hoje não durmo,
hoje não durmo.
soluce
goteje
espalhe bons pesadelos
numa triste canção,
um sorriso é indeciso
mais que a prenúncia firme
contratempos, ferrolhos,
fim sem anunciação.
Serpentes ao vento,
five, four, three, two, one
Coisas sem nome
after dark
there's no room for
middle things.
Grite
soluce
goteje,
hoje não durmo,
hoje não durmo.
Exotermia
Queime e abrace
a chama que dança
na beirada da mesa
A interface da face,
o pé da cadeira,
a flor da couve,
as bruxelas almiscaradas
o nó das orelhas.
O ruflar de tambores
do imenso desespero
de cinco dedos em desejo
e dois donos de uma só mão,
a cera derrete e escorre
não há mais chama,
a escuridão derrama
as mariposas perdidas
na luz do lampião,
o amor é lamparina
e a chama, paixão.
a chama que dança
na beirada da mesa
A interface da face,
o pé da cadeira,
a flor da couve,
as bruxelas almiscaradas
o nó das orelhas.
O ruflar de tambores
do imenso desespero
de cinco dedos em desejo
e dois donos de uma só mão,
a cera derrete e escorre
não há mais chama,
a escuridão derrama
as mariposas perdidas
na luz do lampião,
o amor é lamparina
e a chama, paixão.
Escolha
Meu futuro é prematuro
por escolha própria,
transformado em presente
e incerto, graças a Deus
indeciso e inseguro
só o passado de dois segundos
,mal contados, atrás.
Agora o tudo é nada
e nada é pouco até
demais.
Meus pés coincidem
com as faixas não pintadas na
estrada, e meus olhos
com os pontos perplexos
onde fogem estrelas vidigais
meu vício
é ser a nuvem de asas
que plana sem nunca parar.
Meu futuro é obscuro:
acontece sem previsão
nas ancas de esporro
e pisadas de merdas...
graças a Deus.
por escolha própria,
transformado em presente
e incerto, graças a Deus
indeciso e inseguro
só o passado de dois segundos
,mal contados, atrás.
Agora o tudo é nada
e nada é pouco até
demais.
Meus pés coincidem
com as faixas não pintadas na
estrada, e meus olhos
com os pontos perplexos
onde fogem estrelas vidigais
meu vício
é ser a nuvem de asas
que plana sem nunca parar.
Meu futuro é obscuro:
acontece sem previsão
nas ancas de esporro
e pisadas de merdas...
graças a Deus.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Sem complicações
Preciso do amor do amor,
do bem do bem.
O abridor de garrafas,
atirei pela janela;
o canivete suíço foi
compelido ao contrário
do sangue que verve.
O armário merece umas
porradas, mas que se conviva
com o nhém nhém dos infernos
e os trotes madeiriços da
madrugada.
Os comprimidos estão
comprimidos na gaveta,
por debaixo do código civil
e do histórico escolar.
Preciso do pronome possessivo
pelo tratamento do que sou eu
sem possuir, ter,
estar.
Meu do amor do amor,
meu do bem do bem,
me faça também,
alguém de alguém,
ninguém de ninguém
amor do meu bem.
do bem do bem.
O abridor de garrafas,
atirei pela janela;
o canivete suíço foi
compelido ao contrário
do sangue que verve.
O armário merece umas
porradas, mas que se conviva
com o nhém nhém dos infernos
e os trotes madeiriços da
madrugada.
Os comprimidos estão
comprimidos na gaveta,
por debaixo do código civil
e do histórico escolar.
Preciso do pronome possessivo
pelo tratamento do que sou eu
sem possuir, ter,
estar.
Meu do amor do amor,
meu do bem do bem,
me faça também,
alguém de alguém,
ninguém de ninguém
amor do meu bem.
Procrastinação
Não, problema nenhum. É até melhor, não tenho o que fazer em casa, lavar e enxugar pratos é tarefa pra amanhã, de manhã. Tá bom, então. Vai mesmo? Vou, vou.
A tal festa não era longe, umas tantas quadras dali. Chegaram lá, de moto. Os vizinhos não ligavam pro barulho, pra festa, algo de costume naquela casa. Os pais viajaram, a filha estava sozinha em casa. Sem mais explicações ou necessidade de rever certas coisas. Bebidas estocadas no fundo de seu armário. Ligou pra duas, três pessoas. O tudo estava feito. No total, mais de dez pessoas – só pela boca de uma das que havia ligado – o que daria, em média, vinte e poucas pessoas num mínimo, no máximo quantas coubessem.
Entraram, cumprimentaram alguns conhecidos, ela não parava olhá-lo. Beberam, riram, conversaram, ela não parava de olhá-lo. E por mais de horas tenham passado, a festa nem chegara ao seu auto de diversão. Casais – formados apenas na festa – amontoavam-se aos cantos, ou, bem, que cada um procura-se o seu. E seu carona - e amigo -, estava em algum canto, com a garota de olhos cor-de-mel - de quem se comentava frenéticamente.
A garota não parava de olhá-lo. Conversaram, enfim. Conversaram o bastante pra que fugissem ao quarto dela. E enquanto as línguas se abraçavam, ela o apertava pela cintura, passava as pernas por volta de seu tronco, mordia seu beiço. Fez com que caísse na cama. Ele, civil e piamente, detestou a idéia. Ela lhe tirou a camisa, ele preparou a camisinha, ela tirou o próprio sutiã, mordeu-lhe o pescoço. Penetrou-a, estava mais-que-molhada. E em quatro minutos de transa, e em gemidos mal audíveis em meio ao som e a outros gemidos, ela lhe acertou um soco no ombro. Normal, normal. Outro.
Normal, normal... E gemia, contorcia-se, batia mais e mais, mais e mais forte. E por mais que estranhasse, era algo esperado – até certo ponto. Cravou as unhas nas costas dele, que, civil e piamente, detestou a idéia. Apertou o cerco contra sua cintura, a penetrava mais forte e mais rápido, ela gemia mais e batia mais, mais, mais e mais forte. Normal (?). Normal. E o momento em que o rosto dos dois encontraram-se, olho no olho, fitavam um ao outro, ainda em transa, ela puxou do fundo da alma. Não, não, não um gemido.
Escarrou do fundo da garganta e lhe cuspiu o rosto. QUE CARALHO É ISSO? Ela repetiu, ele, sem reações quaisquer, entre tantas que poderia fazer, um tapa na cara, sonoro, vermelho, forte e aturdido. Ela parou, emudeceu o movimento cessou. Ela apertou-lhe o braço e gritou, ME BATE DE NOVO, PORRA. Como é?? E COM MAIS FORÇA, PORRA! E outra cusparada.
O suficiente pra jogá-la de canto e sair de pinto esvoaçante pela casa, recolher chave, capacete, moto e sair rumo ao lavar de pratos. Seu carona que, quando precisasse, ligasse. Lavar os pratos: tarefa pra agora. Nunca deixe nada pra amanhã.
A tal festa não era longe, umas tantas quadras dali. Chegaram lá, de moto. Os vizinhos não ligavam pro barulho, pra festa, algo de costume naquela casa. Os pais viajaram, a filha estava sozinha em casa. Sem mais explicações ou necessidade de rever certas coisas. Bebidas estocadas no fundo de seu armário. Ligou pra duas, três pessoas. O tudo estava feito. No total, mais de dez pessoas – só pela boca de uma das que havia ligado – o que daria, em média, vinte e poucas pessoas num mínimo, no máximo quantas coubessem.
Entraram, cumprimentaram alguns conhecidos, ela não parava olhá-lo. Beberam, riram, conversaram, ela não parava de olhá-lo. E por mais de horas tenham passado, a festa nem chegara ao seu auto de diversão. Casais – formados apenas na festa – amontoavam-se aos cantos, ou, bem, que cada um procura-se o seu. E seu carona - e amigo -, estava em algum canto, com a garota de olhos cor-de-mel - de quem se comentava frenéticamente.
A garota não parava de olhá-lo. Conversaram, enfim. Conversaram o bastante pra que fugissem ao quarto dela. E enquanto as línguas se abraçavam, ela o apertava pela cintura, passava as pernas por volta de seu tronco, mordia seu beiço. Fez com que caísse na cama. Ele, civil e piamente, detestou a idéia. Ela lhe tirou a camisa, ele preparou a camisinha, ela tirou o próprio sutiã, mordeu-lhe o pescoço. Penetrou-a, estava mais-que-molhada. E em quatro minutos de transa, e em gemidos mal audíveis em meio ao som e a outros gemidos, ela lhe acertou um soco no ombro. Normal, normal. Outro.
Normal, normal... E gemia, contorcia-se, batia mais e mais, mais e mais forte. E por mais que estranhasse, era algo esperado – até certo ponto. Cravou as unhas nas costas dele, que, civil e piamente, detestou a idéia. Apertou o cerco contra sua cintura, a penetrava mais forte e mais rápido, ela gemia mais e batia mais, mais, mais e mais forte. Normal (?). Normal. E o momento em que o rosto dos dois encontraram-se, olho no olho, fitavam um ao outro, ainda em transa, ela puxou do fundo da alma. Não, não, não um gemido.
Escarrou do fundo da garganta e lhe cuspiu o rosto. QUE CARALHO É ISSO? Ela repetiu, ele, sem reações quaisquer, entre tantas que poderia fazer, um tapa na cara, sonoro, vermelho, forte e aturdido. Ela parou, emudeceu o movimento cessou. Ela apertou-lhe o braço e gritou, ME BATE DE NOVO, PORRA. Como é?? E COM MAIS FORÇA, PORRA! E outra cusparada.
O suficiente pra jogá-la de canto e sair de pinto esvoaçante pela casa, recolher chave, capacete, moto e sair rumo ao lavar de pratos. Seu carona que, quando precisasse, ligasse. Lavar os pratos: tarefa pra agora. Nunca deixe nada pra amanhã.
A Fuga
Bolota de inchaço
amarela, escondida no céu,
sol, o inverso do avesso
na lua, na carne crua,
na rua escura
Repartindo
partidariamente as vielas
e intermitentes calçadas;
sombras e escaldo,
e mesmo debaixo, o respaldo
o sol esquenta o céu
sem mostrar-se multi-amarelo.
amarela, escondida no céu,
sol, o inverso do avesso
na lua, na carne crua,
na rua escura
Repartindo
partidariamente as vielas
e intermitentes calçadas;
sombras e escaldo,
e mesmo debaixo, o respaldo
o sol esquenta o céu
sem mostrar-se multi-amarelo.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Luto
Razões,
muitas levam a crer
e tantas outras a
não crer
neste exato momento.
Você, meu amigo,
minha amada, meu pai,
minha prima, meu irmão,
se foi.
Não a nada de incomum
no desespero da falta
que você ainda não fez
por completo,
nas coisas mais simples
e ofuscadas da vida,
na angústia do silêncio
que ocupa a sala vazia.
Você, ainda não creio,
ainda não aceitei
mas bulhufas aos meus
entendimentos.
O mundo profana sua falta,
o céu continua azul,
os carros ainda passam na rua,
os ponteiros do relógio ainda se movem
o vento ainda carrega folhas das árvores
e a tarde continua insensível como sempre,
mais ainda agora:
o mundo não parou.
E como todos que lhe dão por falta
sinto como não tivesse dito que te amo,
que te adoro, que te admiro,
mas descubro que as coisas
banais da vida já fazem tudo isso:
o céu continua azul,
os carros ainda passam na rua,
os ponteiros do relógio ainda se movem
o vento ainda carrega folhas das árvores
e a tarde continua insensível como sempre,
tudo por você.
muitas levam a crer
e tantas outras a
não crer
neste exato momento.
Você, meu amigo,
minha amada, meu pai,
minha prima, meu irmão,
se foi.
Não a nada de incomum
no desespero da falta
que você ainda não fez
por completo,
nas coisas mais simples
e ofuscadas da vida,
na angústia do silêncio
que ocupa a sala vazia.
Você, ainda não creio,
ainda não aceitei
mas bulhufas aos meus
entendimentos.
O mundo profana sua falta,
o céu continua azul,
os carros ainda passam na rua,
os ponteiros do relógio ainda se movem
o vento ainda carrega folhas das árvores
e a tarde continua insensível como sempre,
mais ainda agora:
o mundo não parou.
E como todos que lhe dão por falta
sinto como não tivesse dito que te amo,
que te adoro, que te admiro,
mas descubro que as coisas
banais da vida já fazem tudo isso:
o céu continua azul,
os carros ainda passam na rua,
os ponteiros do relógio ainda se movem
o vento ainda carrega folhas das árvores
e a tarde continua insensível como sempre,
tudo por você.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Canção de natal
É preciso
mais tempo para
o embarque
e menos para o
desembarque
menor dor pra saudade
e mais proveito pra
falta na distância.
É preciso
mais confiança
nas palavras
e maior firmeza
na verdade
menos inquietude
maior ignorância
de angústia trêmula.
É preciso repatriação
de ismos, anorexia
de estrangeirismos
e perplexidade do
inconsciente falho
menor posse,
menor gasto.
É preciso enrijecer
o peito e amolecer o
coração, mas só pra si,
sem os cabimentos do
exagero possível
ao amor-próprio
e impassibilidade
na fertilização do
comum-de-dois.
É preciso IPTU,
IPVA, CPF, RG,
CDI, adequação,
equação, contínua
reparação de si mesmo
menos papel
e mais palavra.
É preciso gelo humano
e envelhecer sabiamente
nos primeiros dias do ano
menos dogmas
e mais razões místicas.
É preciso compreender
a companhia fiel e sincera
da solidão, quando multidões
fornicam na orgia social da
mentira
mais resultado,
menos garantia.
É preciso menos carência,
dependência, pendência,
influência, flatulência
e residência
mais feijoada
e menos dor de cabeça.
É preciso conjugar a superação
própria em todas as pessoas,
subtendendo que reside no plural
o mais singular desprezo da vida
mais existência
e menos intriga.
É preciso prolongar
o sentido das metáforas
e encurtar o período da
interpretação
mais exigência
menos perdão.
mais tempo para
o embarque
e menos para o
desembarque
menor dor pra saudade
e mais proveito pra
falta na distância.
É preciso
mais confiança
nas palavras
e maior firmeza
na verdade
menos inquietude
maior ignorância
de angústia trêmula.
É preciso repatriação
de ismos, anorexia
de estrangeirismos
e perplexidade do
inconsciente falho
menor posse,
menor gasto.
É preciso enrijecer
o peito e amolecer o
coração, mas só pra si,
sem os cabimentos do
exagero possível
ao amor-próprio
e impassibilidade
na fertilização do
comum-de-dois.
É preciso IPTU,
IPVA, CPF, RG,
CDI, adequação,
equação, contínua
reparação de si mesmo
menos papel
e mais palavra.
É preciso gelo humano
e envelhecer sabiamente
nos primeiros dias do ano
menos dogmas
e mais razões místicas.
É preciso compreender
a companhia fiel e sincera
da solidão, quando multidões
fornicam na orgia social da
mentira
mais resultado,
menos garantia.
É preciso menos carência,
dependência, pendência,
influência, flatulência
e residência
mais feijoada
e menos dor de cabeça.
É preciso conjugar a superação
própria em todas as pessoas,
subtendendo que reside no plural
o mais singular desprezo da vida
mais existência
e menos intriga.
É preciso prolongar
o sentido das metáforas
e encurtar o período da
interpretação
mais exigência
menos perdão.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Retrospectivo
Toda fôrma
é forma, sem norma,
sem nome.
Toda forma
de fôrma, tem fome,
sem nome,
(de)
Toda norma
que torna, em forma,
de homem.
é forma, sem norma,
sem nome.
Toda forma
de fôrma, tem fome,
sem nome,
(de)
Toda norma
que torna, em forma,
de homem.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Vinte mil léguas (submarinas) no espaço - NOVA VERSÃO.
Há de uma delicadeza
em morrer contornado
por pequeninas estrelas
e ser enterrado sem vê-las
sem tocá-las, sem sabê-las
sem cheirá-las, sem comê-las
enquanto a poeira cósmica
afunda e flutua solenemente
o corpo no sal,
impávido granito
que constitui galáxias.
O esporro, o sangue,
carteira de identidade,
sem idade, sem nome,
o homem se consome
num buraco negro feito em cu,
chamado mundo.
em morrer contornado
por pequeninas estrelas
e ser enterrado sem vê-las
sem tocá-las, sem sabê-las
sem cheirá-las, sem comê-las
enquanto a poeira cósmica
afunda e flutua solenemente
o corpo no sal,
impávido granito
que constitui galáxias.
O esporro, o sangue,
carteira de identidade,
sem idade, sem nome,
o homem se consome
num buraco negro feito em cu,
chamado mundo.
Conjunto.
Sentada num canteiro, observava o movimento dos carros e do resto das luzes da cidade que hora ou outra também se moviam. Era madrugada, mais precisamente 2h47 da madrugada, num lugar não tão aconselhável a uma garota ou qualquer tipo de pessoa, ainda mais sozinha. Mas não, não lhe aconteceria nada. Talvez esse fosse mais um dos avisos em frenesi, um tabu vivo, uma improbabilidade indistinta. O metrônomo do tempo batia pesadamente, e o mundo – grande músico desajeitado – quando perdia o ritmo, logo retomava os conformes harmônicos.
Os carburadores, os motores, as luzes neon, os painéis de vidro, as nuvens cinza-avermelhadas, os amores, desamores, o sexo, a violência, o sangue, o gozo, a gargalhada, o choro: a cidade acontecia. Inclusive nas alcovas, das alcovas. A luz dos postes deformava algumas cores, a escuridão, encurralada, quase não se fazia presente. Pulsação fótica, contínua, indispensável ao mundo humano. Pra frente e pra trás, tocando com os calcanhares no concreto do canteiro, divagava.
Balançava as pernas, terminava um café expresso (e médio) enquanto fazia frio. Com uma das mãos segurava o copo térmico, de plástico, com a outra fazia apoio à cabeça, olhando o vaivém sem um pingo de interesse. Alguns universitários bebiam no boteco da esquina, sexta. Boteco, não, não se pode chamar assim. Boteco, bodega, bar, festim, tudo fora de padrão e longe de seu sentido real, pensava. Seria digno desse nome caso lhe tirassem o frondoso letreiro inebriante, o segundo andar de madeira envernizada, as cadeiras luxuosas, os garçons de fraque, os copos personalizados, os advogados nas mesas. E por mais, faltariam os marinheiros, os endividados, os pracinhas, os desesperados e tantos outros. Claro, e meia dúzia de prostitutas à espreita.
Pousou o copo no canteiro, esticou as pernas. Lua minguante, céu sem quase nenhuma estrela. O que as nuvens não escondem, a falta que a escuridão faz, deixa de revelar. Só conseguia desenhar as três Marias e a cabeça de Órion. Os pés estavam por detrás do cinza, o resto nem se diz, muito menos se vê. Longe de casa sentia-se mais aliviada, mesmo que não se sentisse totalmente bem. O mundo não era seu, mas ela era do mundo. De um lugar que nem sequer sentia-se parte ou compreendia. Gole de café, quase no fim. Seu único ponto de conexão era aquela coisa, atirada no chão. Amarrou os cabelos. A sombra imitou. Por que teria de imitar tudo?
Levou o copo à boca, último gole, a sombra fez o mesmo. Talvez o café durasse mais sem a sombra pra lhe roubar goladas. A sombra parou. Ela também. Esticou as pernas, pôs-se a andar lenta, mas sentia-se pior, decepada, partida ao meio, quase vazia. Olhou de volta ao canteiro, sua sombra continuava ali, sentada e com as pernas balançando. Você não vem? perguntou ainda com a nota mental, louca. Mas a sombra fez que não ouviu. Ela atirou o copo vazio no chão, em direção à sombra. Desviando, levantou-se indignada e andou em direção à rua.
Ei! volte aqui, você pode se machucar, com notas mentais de louca. A sombra atravessou a manada de carros, dançou balé por entre os faróis que zumbiam, chegou ao outro lado. Ela saiu correndo, e por milagre não foi pega, uma alma caridosa parou, o resto nem aí. Volte aqui, não tenho a madrugada toda, notas mentais inconseqüentes. Você é minha, venha! A sombra disparou na calçada, movia-se furtivamente. A garota, atropelando algumas pessoas, corria em seu máximo, volte! A sombra fingia-se de surda, continuava correndo.
Chegaram a um beco, encurralada enfim! e riu jocosamente da própria sombra - mas algo a se saber, conhecer e lembrar-se dos becos, é o fato de ser um dos refúgios da escuridão encurralada - A sombra cresceu, transformou-se em gigante, em colosso, em titã, engolia a presença da garota. Assustada, decidiu reconhecer o erro, ao menos na falsa modéstia de uma sinceridade momentânea. A sombra percebeu as intenções – porque estas são coisas que a escuridão sabe ler – e cresceu, subjugou a garota. E até que retomasse a calma, estava dominada por medo daquela criatura imensa. Num súbito de pavor, percebeu que quanto mais recuava, a sombra avançava. Quando suas pernas tremiam, as do colosso também tremiam. A criatura ainda era ela.
Você pertence a mim! falou à sombra, que indecisa, estava entre o ataque e a fuga, tremulando de lado a outro, acompanhando luzes de uma ambulância que passava ao fundo. A garota acalmou-se, tinha agora uma expressão doce. Estendeu a mão, e eu pertenço a você. A sombra tocou sua mão e estavam juntas, abraçadas, ligadas. E, mesmo sem perceber, sempre estiveram de um modo misterioso. Decidiram tomar mais café – grande, que houvesse o suficiente para as duas. Atravessaram a imagem espelhada em sombras, a cortina de luz que separava o interior do beco, da verdadeira escuridão.
Os carburadores, os motores, as luzes neon, os painéis de vidro, as nuvens cinza-avermelhadas, os amores, desamores, o sexo, a violência, o sangue, o gozo, a gargalhada, o choro: a cidade acontecia. Inclusive nas alcovas, das alcovas. A luz dos postes deformava algumas cores, a escuridão, encurralada, quase não se fazia presente. Pulsação fótica, contínua, indispensável ao mundo humano. Pra frente e pra trás, tocando com os calcanhares no concreto do canteiro, divagava.
Balançava as pernas, terminava um café expresso (e médio) enquanto fazia frio. Com uma das mãos segurava o copo térmico, de plástico, com a outra fazia apoio à cabeça, olhando o vaivém sem um pingo de interesse. Alguns universitários bebiam no boteco da esquina, sexta. Boteco, não, não se pode chamar assim. Boteco, bodega, bar, festim, tudo fora de padrão e longe de seu sentido real, pensava. Seria digno desse nome caso lhe tirassem o frondoso letreiro inebriante, o segundo andar de madeira envernizada, as cadeiras luxuosas, os garçons de fraque, os copos personalizados, os advogados nas mesas. E por mais, faltariam os marinheiros, os endividados, os pracinhas, os desesperados e tantos outros. Claro, e meia dúzia de prostitutas à espreita.
Pousou o copo no canteiro, esticou as pernas. Lua minguante, céu sem quase nenhuma estrela. O que as nuvens não escondem, a falta que a escuridão faz, deixa de revelar. Só conseguia desenhar as três Marias e a cabeça de Órion. Os pés estavam por detrás do cinza, o resto nem se diz, muito menos se vê. Longe de casa sentia-se mais aliviada, mesmo que não se sentisse totalmente bem. O mundo não era seu, mas ela era do mundo. De um lugar que nem sequer sentia-se parte ou compreendia. Gole de café, quase no fim. Seu único ponto de conexão era aquela coisa, atirada no chão. Amarrou os cabelos. A sombra imitou. Por que teria de imitar tudo?
Levou o copo à boca, último gole, a sombra fez o mesmo. Talvez o café durasse mais sem a sombra pra lhe roubar goladas. A sombra parou. Ela também. Esticou as pernas, pôs-se a andar lenta, mas sentia-se pior, decepada, partida ao meio, quase vazia. Olhou de volta ao canteiro, sua sombra continuava ali, sentada e com as pernas balançando. Você não vem? perguntou ainda com a nota mental, louca. Mas a sombra fez que não ouviu. Ela atirou o copo vazio no chão, em direção à sombra. Desviando, levantou-se indignada e andou em direção à rua.
Ei! volte aqui, você pode se machucar, com notas mentais de louca. A sombra atravessou a manada de carros, dançou balé por entre os faróis que zumbiam, chegou ao outro lado. Ela saiu correndo, e por milagre não foi pega, uma alma caridosa parou, o resto nem aí. Volte aqui, não tenho a madrugada toda, notas mentais inconseqüentes. Você é minha, venha! A sombra disparou na calçada, movia-se furtivamente. A garota, atropelando algumas pessoas, corria em seu máximo, volte! A sombra fingia-se de surda, continuava correndo.
Chegaram a um beco, encurralada enfim! e riu jocosamente da própria sombra - mas algo a se saber, conhecer e lembrar-se dos becos, é o fato de ser um dos refúgios da escuridão encurralada - A sombra cresceu, transformou-se em gigante, em colosso, em titã, engolia a presença da garota. Assustada, decidiu reconhecer o erro, ao menos na falsa modéstia de uma sinceridade momentânea. A sombra percebeu as intenções – porque estas são coisas que a escuridão sabe ler – e cresceu, subjugou a garota. E até que retomasse a calma, estava dominada por medo daquela criatura imensa. Num súbito de pavor, percebeu que quanto mais recuava, a sombra avançava. Quando suas pernas tremiam, as do colosso também tremiam. A criatura ainda era ela.
Você pertence a mim! falou à sombra, que indecisa, estava entre o ataque e a fuga, tremulando de lado a outro, acompanhando luzes de uma ambulância que passava ao fundo. A garota acalmou-se, tinha agora uma expressão doce. Estendeu a mão, e eu pertenço a você. A sombra tocou sua mão e estavam juntas, abraçadas, ligadas. E, mesmo sem perceber, sempre estiveram de um modo misterioso. Decidiram tomar mais café – grande, que houvesse o suficiente para as duas. Atravessaram a imagem espelhada em sombras, a cortina de luz que separava o interior do beco, da verdadeira escuridão.
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