Tenho absoluta certeza, em minhas plenas e totais faculdades mentais (que se tome de nota, que estão – supostamente – saudáveis), de que me acham louco. Biruta, insano, lelé, maluco. Não por qualquer tipo de episódio esquizofrênico ou tendências a tiques absurdos ou auto-tortura. Não, não, nada disso. Mas é um fato comprovado por vias quase acadêmicas, de que acham isso de mim. E até por vezes, questionei minha própria credibilidade e sanidade em prol de questões pessoais, o que não vem exatamente ao caso. Ao menos nesse caso, por esse motivo, nessa circunstância, posso dizer que não sou maluco.
Tudo isso, na verdade, graças a um simples hábito, costume mesmo. Não bem de quando iniciou, mas já faz tempo. Desde menino me pego, em flagrante delito, falando sozinho. Mas não o falar de mera discussão, de conversa com o inimaginável ou com amigos imaginárias, situações adversas. Mas como o simples e total solitário de fazer propagar minha voz, reverberar mesmo, soar tamborezinhos, gongos, estalar, estalidos, estalagmites, estalactites. Estalagmites e estalactites, palavras as quais, depois de pronunciar corretamente, arrumava uma maneira estranha de importá-la a todas as conversas, sentenças e até mesmo interjeições.
Ainda era menino, muito menino, e as adorava, as palavras. De comemorar gol gritando estalagmite e estalactite no lugar de um sonoro “GOOOOOOOOL”, ou xingar ou elogiar ou chamar alguém por estalagmite e estalactite. De responder em provas orais. De transformar em verbos e conjugá-los em eu estalagmito, eu estalactito, tu estalagmitas, tu estalactitas, e assim por diante. E levar surras urrando estalactite e estalagmite no lugar de um choro comum e urros abafados de dor. Quando de namoricos, de casos miúdos, de chamá-las de minha querida estalagmite, estalactite, estalagmitezinha, estalactitezinha, etc. E, inclusive, de algumas vezes que me masturbei, ao gozar, gozava oralmente com uma aliviada estalagmite ou estalactite. Até que abandonei, aprendi novas palavras e nunca mais as abandonei, todas.
E, pois, que voltando ao assunto principal: a acusação de minha loucura (e minha explicação a isso). Perdi a companhia de familiares, perdi amizades, trabalhos e algumas garotas. Tudo isso sob a tal acusação de loucura. Mas não o sou, dentro dessas circunstâncias, não, não sou. Cresci, desenvolvi por meio desse hábito, a entonação correta da minha voz, o bom desenvolvimento das cordas vocais, a boa dicção, o uso correto, pausas e intensificações necessárias. Co-habilidades desde a projeção da voz, como o uso de sua potência máxima, ou ser ouvido e compreendido mesmo aos sussurros absurdamente baixos.
Vivi minha vida, em delongas, completamente afastado, rondando os cantos e deixado de lado. Era o último garoto a ser escolhido pelos times nos mais diversos jogos. Era o último da fila na escola, e, por mais, ainda sofria certo desprezo das professoras e professores. Não, não foi nada fácil. Mas nunca baixei minha cabeça diante de quaisquer situações, como quando um namoro de muito tempo acabou como por motivo principal o fato de que eu falo só. Empregos dos mais diversos, oportunidades das mais variadas. E nesse meio tempo, de espera, de passagem e de tudo mais, o que eu fazia era falar, falar, falar, algo que me restara e que, conseqüentemente, sempre me fizera bem.
Pois que me tornei exímio debatedor e apresentava trabalhos e seminários como ninguém. Formei-me bem e não perdi nenhuma matéria na faculdade, e, apesar da aversão por meu suposto problema, várias pessoas admiravam essa habilidade, sobre a qual, já cheguei ouvir de que era uma tremenda perda de tempo incutir em alguém, algo tão majestoso e ao mesmo tempo lhe imprimir uma loucura sem precedentes. Minha família achou que era trauma de infância, mas logo depois deixou a idéia de lado. Bem como me deixou de lado. Por bem, nunca que minha relação com minha família foi por lá essas coisas de boa. Mas nem de ruim. Sempre comedida, necessária e, posso dizer, ou melhor, podem todos da família, dizê-lo: um relacionamento normal. Seja lá o que um relacionamento normal signifique.
O fato é que, isso, meu, só meu, é tão especial, especialmente e incrivelmente e solenemente especial que, problemas de garganta me incutem certo tipo de luto. Mal saio de casa, e quando saio, é de preto, abafado em pensamentos, calado. E não, não sou louco. Pronto! Ouvi agorinha pouco, uma senhora me chamando de doido. Já pensou? O negócio é que ninguém entende como é a vida de um contista-narrador: impossível agradar todo mundo.
domingo, 30 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Entre o Céu e a Terra
Antes, cada milímetro-centímetro-metro-quilômetro de chão rachado-fervente era amplamente amaldiçoado. Alguns moleques passavam o dia inteiro jogando pedra pra cima, atirando de estilingue, tiro de arma de chumbinho, pra derrubar o sol, ou convencê-lo de que não era bem vindo ali. Não adiantava. Os mais velhos passavam mais perto, ouviam a munição passar zumbindo do lado, pertinho, pertinho, quase-raspando nas bordas amarelas da bolota amarela de luz amarela de calor amarelo, tudo, tudo, tudo doído de tão quente.
Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
Sabe-se lá o motivo, sabe-se lá quem ouviu, sabe-se lá o que aconteceu. Se era greve, se eram férias, se era redução na carga horária, se era caso de morte mesmo, se Deus, ou o diabo, ou lá quem, tivesse ouvido. Começo timidamente, o céu escurecendo devagarzinho, pontinha por pontinha, o azul que-não-era-tão-azul passou a ser incrivelmente-muito-azul e depois abandonou sua cor. Enegreceu, escureceu, reuniu todas e quaisquer nuvens possíveis, impossíveis, existentes e inexistentes. Não havia mais bordas amarelas da bolota amarela de luz amarela de calor amarelo. O chão deixou cada uma de suas rachaduras, fissuras, aberturas, foram emendando, juntando, intercalando, aplainando, formando um solo plano e, dizem até, que macio. E cresceu mato, mato, muito verde e amarelo e vermelho e grama e capim e flor e mais e mais mato.
Surgiram pequenos animaizinhos, médios animaizinhos, até, alguns poucos grandes animaizinhos. Orquestra de cigarras, gafanhotos, sapos, rãs, pererecas, passarinhos e sussurros e burburinhos vindos das árvores e demais plantas, que até então, pensavam não terem voz ou emitir qualquer tipo de som. Por alguns dias, caiam gotinhas, mínimas, quase inexistentes, algumas desaparecendo antes mesmo de tocar o chão. O calor cheio de mau humor e movimentação popular e maldição e tantas coisas mais, esquecido por completo. Mas aquilo, como exatamente você há de imaginar, vai levar a alguma conseqüência. Ou pelo menos é disso que eu e você desconfiamos. Diferente de qualquer uma das almas vivas e não-vivas e quase-vivas e quase-mortas que vagavam por lá.
Foram dias, semanas e meses de missas, festas, procissões, pronunciamentos, oferendas, cânticos em homenagem a sabia-se lá quem tinha realizado tal benção, fora comemorações em conseqüência do ocorrido. Dançavam, bebiam, comiam, transavam, gozavam, beijavam, amavam, riam, dormiam, nasciam, morriam e iam, iam, iam, iam, em meio ao tempo semicerrado, que cerrava cada vez mais, e as pálpebras do céu apertavam cada vez mais, matando os pontinhos do horizonte, cegando o planeta naquele exato lugar. Passaram os dias, as semanas, os meses, as missas, festas, procissões, oferendas, cânticos, homenagens, felicidade, empolgação, agradecimento.
Os animais desapareceram aos poucos e depois aos montes. Primeiro os animaizinhos pequenos, depois os médios, e por fim os grandes. E não havia orquestra, nem sussurros, nem burburinhos e muito menos qualquer tipo de som vindo das coisas que brotavam e viviam na terra, na água e no ar. As gotas que eram gotículas, aumentavam, eram pequenos ácaros aos montes de hidrogênio e oxigênio, que eram joaninhas, que eram besouros, baratas cascudas, mariposas, pássaros de moléculas gigantescas de hidrogênio e oxigênio, gotas, gotas, muitas e mais gotas, cada vez mais forte despencando do céu. Logo, o chão que era plano e, supostamente, macio, acidentou, formou poças e lagos e alagadiços e muita água.
Antes, em que reinavam os milhões de ventiladores, usavam as pás, e as peças e tudo mais pra substituir telhas partidas encharcadas, pra recolher e escoar a água, ou até mesmo pra construir canoas, pequenas e médias barragens, e roupas – supostamente – impermeáveis. A nova tarefa dos moleques, mais novos e mais velhos, era tentar afastar as nuvens pretas, que de tão-pretas pareciam, simplesmente, parte do céu, como se sempre estivesse por ali. Emendavam cabos de vassoura e cutucavam o céu, davam tiros com as armas de chumbinho. Os mais velhos passavam perto, abrindo buracos invisíveis a olho nu. Isso, quando não roçavam a ponta das gigantescas lanças improvisadas em pedacinhos quase imperceptíveis do éter enegrecido, ou seriam simplesmente partes da fumaça das fogueiras, de dentro das casas.
Cada milímetro-centímetro-metro-quilômetro de chão alagado-perdido era amplamente amaldiçoado. Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. Até então, sobreviviam e esperavam de todas as formas possíveis pelo retorno do sol. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
Sabe-se lá o motivo, sabe-se lá quem ouviu, sabe-se lá o que aconteceu. Se era greve, se eram férias, se era redução na carga horária, se era caso de morte mesmo, se Deus, ou o diabo, ou lá quem, tivesse ouvido. Começo timidamente, o céu escurecendo devagarzinho, pontinha por pontinha, o azul que-não-era-tão-azul passou a ser incrivelmente-muito-azul e depois abandonou sua cor. Enegreceu, escureceu, reuniu todas e quaisquer nuvens possíveis, impossíveis, existentes e inexistentes. Não havia mais bordas amarelas da bolota amarela de luz amarela de calor amarelo. O chão deixou cada uma de suas rachaduras, fissuras, aberturas, foram emendando, juntando, intercalando, aplainando, formando um solo plano e, dizem até, que macio. E cresceu mato, mato, muito verde e amarelo e vermelho e grama e capim e flor e mais e mais mato.
Surgiram pequenos animaizinhos, médios animaizinhos, até, alguns poucos grandes animaizinhos. Orquestra de cigarras, gafanhotos, sapos, rãs, pererecas, passarinhos e sussurros e burburinhos vindos das árvores e demais plantas, que até então, pensavam não terem voz ou emitir qualquer tipo de som. Por alguns dias, caiam gotinhas, mínimas, quase inexistentes, algumas desaparecendo antes mesmo de tocar o chão. O calor cheio de mau humor e movimentação popular e maldição e tantas coisas mais, esquecido por completo. Mas aquilo, como exatamente você há de imaginar, vai levar a alguma conseqüência. Ou pelo menos é disso que eu e você desconfiamos. Diferente de qualquer uma das almas vivas e não-vivas e quase-vivas e quase-mortas que vagavam por lá.
Foram dias, semanas e meses de missas, festas, procissões, pronunciamentos, oferendas, cânticos em homenagem a sabia-se lá quem tinha realizado tal benção, fora comemorações em conseqüência do ocorrido. Dançavam, bebiam, comiam, transavam, gozavam, beijavam, amavam, riam, dormiam, nasciam, morriam e iam, iam, iam, iam, em meio ao tempo semicerrado, que cerrava cada vez mais, e as pálpebras do céu apertavam cada vez mais, matando os pontinhos do horizonte, cegando o planeta naquele exato lugar. Passaram os dias, as semanas, os meses, as missas, festas, procissões, oferendas, cânticos, homenagens, felicidade, empolgação, agradecimento.
Os animais desapareceram aos poucos e depois aos montes. Primeiro os animaizinhos pequenos, depois os médios, e por fim os grandes. E não havia orquestra, nem sussurros, nem burburinhos e muito menos qualquer tipo de som vindo das coisas que brotavam e viviam na terra, na água e no ar. As gotas que eram gotículas, aumentavam, eram pequenos ácaros aos montes de hidrogênio e oxigênio, que eram joaninhas, que eram besouros, baratas cascudas, mariposas, pássaros de moléculas gigantescas de hidrogênio e oxigênio, gotas, gotas, muitas e mais gotas, cada vez mais forte despencando do céu. Logo, o chão que era plano e, supostamente, macio, acidentou, formou poças e lagos e alagadiços e muita água.
Antes, em que reinavam os milhões de ventiladores, usavam as pás, e as peças e tudo mais pra substituir telhas partidas encharcadas, pra recolher e escoar a água, ou até mesmo pra construir canoas, pequenas e médias barragens, e roupas – supostamente – impermeáveis. A nova tarefa dos moleques, mais novos e mais velhos, era tentar afastar as nuvens pretas, que de tão-pretas pareciam, simplesmente, parte do céu, como se sempre estivesse por ali. Emendavam cabos de vassoura e cutucavam o céu, davam tiros com as armas de chumbinho. Os mais velhos passavam perto, abrindo buracos invisíveis a olho nu. Isso, quando não roçavam a ponta das gigantescas lanças improvisadas em pedacinhos quase imperceptíveis do éter enegrecido, ou seriam simplesmente partes da fumaça das fogueiras, de dentro das casas.
Cada milímetro-centímetro-metro-quilômetro de chão alagado-perdido era amplamente amaldiçoado. Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. Até então, sobreviviam e esperavam de todas as formas possíveis pelo retorno do sol. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Valsa feminina
Suas mãos imitam bandeiras,
e lenços e retalhos
e flamulam e tremulam
e dançam no vento.
Dança, Maria, Dança.
Na frente do espelho
sem vestido, vestida
só de pele e pêlo
trocando os dedos
e os tons de vermelho,
Maria.
Dança, seus ossos no
reflexo, seus búzios
no chão, seus passos
seus pés, suas mãos,
seus tropeços, seus
abraços,
Maria.
Resuma suas unhas
pintadas num calvário
de suor e lágrimas
e de mais nada,
Maria.
Abra as portas, as janelas,
as supostas dobras da saia,
as pernas, as frestas,
as coxas, as tardes,
as horas,
Maria.
Procurando a explosão
e o fim e o começo
pormenor soluço improvável
da existência do universo,
dança sozinha, deitada,
sentada, pelada,
sorrindo,
Maria. Maria.
e lenços e retalhos
e flamulam e tremulam
e dançam no vento.
Dança, Maria, Dança.
Na frente do espelho
sem vestido, vestida
só de pele e pêlo
trocando os dedos
e os tons de vermelho,
Maria.
Dança, seus ossos no
reflexo, seus búzios
no chão, seus passos
seus pés, suas mãos,
seus tropeços, seus
abraços,
Maria.
Resuma suas unhas
pintadas num calvário
de suor e lágrimas
e de mais nada,
Maria.
Abra as portas, as janelas,
as supostas dobras da saia,
as pernas, as frestas,
as coxas, as tardes,
as horas,
Maria.
Procurando a explosão
e o fim e o começo
pormenor soluço improvável
da existência do universo,
dança sozinha, deitada,
sentada, pelada,
sorrindo,
Maria. Maria.
sábado, 22 de maio de 2010
Balance
Na superfície do beijo,
seus dois seios
são levantes d'água,
ondas marinhas
sem espuma,
coroas pontudas
o círculo de fogo
a língua na língua,
o anzol que reparte
a metade norte
da pele com a carne crua,
o espaço entre os lábios,
concha, raios,
corais em antúrio,
o sal revitalizado
a saldanha madura.
seus dois seios
são levantes d'água,
ondas marinhas
sem espuma,
coroas pontudas
o círculo de fogo
a língua na língua,
o anzol que reparte
a metade norte
da pele com a carne crua,
o espaço entre os lábios,
concha, raios,
corais em antúrio,
o sal revitalizado
a saldanha madura.
Trampolim
Quando mergulhei
do alto da lua
esqueci palavras,
histórias, nomes,
tantas cousas
pousei de pele nua,
cercado por poeira
e o oceano de coisas
vãs que perseguem o
vazio, a pressão
submarina dos
náufragos e almas
abandonadas juntas
do céu azul.
Quando mergulhei
do alto da lua
houve fôlego
suficiente
a cruzar os lagos
submersos no sol
de março, quando
se abraçam os braços
quando cada saudação
é contravenção premeditada
de mais um adeus;
tantas cousas
e espuma esparsa,
palavras soltas.
do alto da lua
esqueci palavras,
histórias, nomes,
tantas cousas
pousei de pele nua,
cercado por poeira
e o oceano de coisas
vãs que perseguem o
vazio, a pressão
submarina dos
náufragos e almas
abandonadas juntas
do céu azul.
Quando mergulhei
do alto da lua
houve fôlego
suficiente
a cruzar os lagos
submersos no sol
de março, quando
se abraçam os braços
quando cada saudação
é contravenção premeditada
de mais um adeus;
tantas cousas
e espuma esparsa,
palavras soltas.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O abandono
De boca com boca
fratura com os dentes
o meio silêncio
de antes
e preenche o vazio
com metade de depois.
fratura com os dentes
o meio silêncio
de antes
e preenche o vazio
com metade de depois.
Rabilonga do brejo
Coxa com coxa
o sapo coaxa
perereca na coxa,
coaxa com força.
Pega-rabuda,
P. pica grossa
P. pica roxa.
o sapo coaxa
perereca na coxa,
coaxa com força.
Pega-rabuda,
P. pica grossa
P. pica roxa.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Tenderly
Não há limite
nos limites
que tendem
ao infinito,
interrogações
e jornais prescritos,
a madrugada
pertence aos indecisos:
Efemer a mente.
nos limites
que tendem
ao infinito,
interrogações
e jornais prescritos,
a madrugada
pertence aos indecisos:
Efemer a mente.
À noite
Uma escuna navega no vento.
As águas não são claras,
as distâncias são profundas
há lama nas bordas,
e muita espuma.
Espero a maré cheia,
esse mar invadir o céu
e incontáveis mulheres
- que eu as amo
esperando, tantas mortas,
seus maridos, soturnos
e derradeiros, que
estão navegando.
Uma vela branca reaparece
no oceano, margens circulares,
o tecido roído, os buracos
irregulares tingidos no
pano.
Uma escuna navega no vento,
semi mergulhada num escuro
desumano.
E eu deitado na grama,
olhando o céu,
observando o movimento.
A leste me distraio,
transbordam gotas de
Saturno,
ao sul crucificam
cardinales submersas,
pesos de papel,
crimes absurdos
ao norte magnífico
das florestas
do submundo.
Uma escuna navega
no vento,
até o sono
irreparável de
menos de oito horas,
até o monstro
marinho amarelo
engolir as esposas
dos penhascos,
até que não haja
destino irrefreável
aos trirremes do
Mediterrâneo.
Uma escuna desaparece
no lado escuro
do Pacífico.
As águas não são claras,
as distâncias são profundas
há lama nas bordas,
e muita espuma.
Espero a maré cheia,
esse mar invadir o céu
e incontáveis mulheres
- que eu as amo
esperando, tantas mortas,
seus maridos, soturnos
e derradeiros, que
estão navegando.
Uma vela branca reaparece
no oceano, margens circulares,
o tecido roído, os buracos
irregulares tingidos no
pano.
Uma escuna navega no vento,
semi mergulhada num escuro
desumano.
E eu deitado na grama,
olhando o céu,
observando o movimento.
A leste me distraio,
transbordam gotas de
Saturno,
ao sul crucificam
cardinales submersas,
pesos de papel,
crimes absurdos
ao norte magnífico
das florestas
do submundo.
Uma escuna navega
no vento,
até o sono
irreparável de
menos de oito horas,
até o monstro
marinho amarelo
engolir as esposas
dos penhascos,
até que não haja
destino irrefreável
aos trirremes do
Mediterrâneo.
Uma escuna desaparece
no lado escuro
do Pacífico.
domingo, 16 de maio de 2010
Quase-parágrafo no. 7 – Pituca
E trocamos cartas, correspondências. Trocamos idéias, palavras, inocências, indecências. Sem nenhum CEP, caixa postal, remetente, destinatário, papel, envelope. Tantas cartas que deixamos de idealizar, e escrever, e mandar e esperar supostas respostas, checar a caixa, o correio, os papéis debaixo da porta. Não há necessidade. Estamos um ao lado do outro, sorrindo discretamente e o outro sabe exatamente o porquê, mesmo sem existir motivo aparente. Num apartamento vazio, cheirando a silêncio, pupilas dilatadas na fiação elétrica que zune nas paredes, a luz fraca trespassando a janela, o raio de poeira projetado nos móveis. Em algum lugar, qualquer coisa desconexa e solta, perdida do tempo e do espaço. Mas num espaço.
No quarto, em um dos quartos, são gargalhadas incrivelmente deliciosas, os músculos do corpo contraindo e relaxando. A respiração compassada, sem umedecer o seco ambiente de nada mais. Palavras contínuas, descontínuas, desconexas, causos, histórias, estórias, músicas, rotina, tédio, não-tédio, plumas, avenidas, jabuticabas, poesias, metrificação, Fernando Pessoa, forró colado, macaquinhos deslizando no assoalho, o piso estralando. E o pé de dedinhos maltratados, que, por alguma razão inexplicável, você acha completamente ‘fofos’, roçando nos seus pés, repelindo o contato de qualquer outra coisa que aquém ao nosso toque. E trocamos cartas, correspondências, idéias, palavras, inocências, indecências, sem nenhum CEP, caixa postal, remetente, destinatário, papel, envelope. Não precisamos disso. Só precisamos de nós dois. Em algum lugar, qualquer coisa desconexa e solta, perdida do tempo e do espaço. Mas num espaço qualquer.
No quarto, em um dos quartos, são gargalhadas incrivelmente deliciosas, os músculos do corpo contraindo e relaxando. A respiração compassada, sem umedecer o seco ambiente de nada mais. Palavras contínuas, descontínuas, desconexas, causos, histórias, estórias, músicas, rotina, tédio, não-tédio, plumas, avenidas, jabuticabas, poesias, metrificação, Fernando Pessoa, forró colado, macaquinhos deslizando no assoalho, o piso estralando. E o pé de dedinhos maltratados, que, por alguma razão inexplicável, você acha completamente ‘fofos’, roçando nos seus pés, repelindo o contato de qualquer outra coisa que aquém ao nosso toque. E trocamos cartas, correspondências, idéias, palavras, inocências, indecências, sem nenhum CEP, caixa postal, remetente, destinatário, papel, envelope. Não precisamos disso. Só precisamos de nós dois. Em algum lugar, qualquer coisa desconexa e solta, perdida do tempo e do espaço. Mas num espaço qualquer.
Lábio
Há um perigo
indispensável
no risco da faca
do seu sorriso,
um tétano
de não-vacinação,
que me retalha,
e espalha
a lâmina suja
de batom.
indispensável
no risco da faca
do seu sorriso,
um tétano
de não-vacinação,
que me retalha,
e espalha
a lâmina suja
de batom.
sábado, 15 de maio de 2010
Quase-parágrafo no. 6 – O quase ar do esporro.
Sem quaisquer aprofundamentos metafísicos, psicológicos, racionais ou irracionais, mas pelo simples fato de ser. Os braços jogados no semi-arco do impulso, as pernas se debruçando contra a inércia, corroendo a poeira morta no pavimento. A chuva grossa, de gotas pesadas e inafiançáveis repelindo cada célula do corpo. A respiração balanceada, imitando o ritmo imaginado das pancadas d’água. Os cabelos desgrenhados, escorrendo, pingando, desabando cada partícula imprescindível. O dorso em retaliação contra a atmosfera, a boca semi-aberta, os pés machucando os próprios passos que são apagados em morte cínica. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, qualquer porra louca a mais. O céu cinza, tão cinza, cinza, quase róseo de tormenta, alguns riscos defeituosos de eletricidade raspando as quinas da rosa dos ventos. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, pra chegar a algum lugar, desde que seja esse lugar qualquer e apalpar com cada fibra até então inexistente, até então incomprovável, e as partículas mortas do sol e da lua, perdidas na superfície da pele, de contrair coxa contra coxa, aumentar a pressão e definir cada músculo e tendão em vingança contra si mesmo.
De misturar o seco com o molhado e criar o mais-que-molhado, conjugá-lo em tempos adversos, desgraçar as janelas abertas e fechadas, suas luzes acesas, as TVs ligadas, os postes queimados, as avenidas absurdamente escuras. Contra atacar com armas inimputáveis, desgastar a matéria na absurda necessidade por matéria, sugar a eletricidade que corre pelas veias, poer o sangue em derme e rescindir cada um dos gemidos e gritos abafados. Crispar caralho a quatro, atirar contra cada uma das linhas rasgadas, soterrar a mais-sombria-solidão, negar resgate a qualquer tipo de esperança, de volta, aceitar a condição de náufrago no mar de simples puros quatro braços. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, qualquer porra louca sem quaisquer aprofundamentos. Na ânsia, no gozo, na dicção de cada sílaba e cada átomo recolhido próximo dos ouvidos. Até que pare de chover, até que o sorriso mudo cale por algumas horas perdidas de um dia qualquer. Dia de chuva.
De misturar o seco com o molhado e criar o mais-que-molhado, conjugá-lo em tempos adversos, desgraçar as janelas abertas e fechadas, suas luzes acesas, as TVs ligadas, os postes queimados, as avenidas absurdamente escuras. Contra atacar com armas inimputáveis, desgastar a matéria na absurda necessidade por matéria, sugar a eletricidade que corre pelas veias, poer o sangue em derme e rescindir cada um dos gemidos e gritos abafados. Crispar caralho a quatro, atirar contra cada uma das linhas rasgadas, soterrar a mais-sombria-solidão, negar resgate a qualquer tipo de esperança, de volta, aceitar a condição de náufrago no mar de simples puros quatro braços. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, qualquer porra louca sem quaisquer aprofundamentos. Na ânsia, no gozo, na dicção de cada sílaba e cada átomo recolhido próximo dos ouvidos. Até que pare de chover, até que o sorriso mudo cale por algumas horas perdidas de um dia qualquer. Dia de chuva.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
La boceta
Era dita daquela forma desde nova, arrebatando cada um dos moleques, e mais tarde, cada um dos rapazes, cada um dos homens. Era a deusa dos reles mortais. Momentaneamente seus. Pilhava e empilhava as fragrâncias desde cedo. Os pêlos, os corpos, os cabelos. Diferente de toda e qualquer mulher que os homens dali haviam se quer imaginado. Seus seios, em perfeita simetria e tamanho na medida certa. Os mamilos, bicos róseos e concêntricos. A pele macia e livre de quaisquer imperfeições, naturalmente perfumada e espalhada num oceano longínquo de horizonte indivisível. Lábios intensa e sedutoramente desenhados, carnudos. As maçãs do rosto surpreendentemente bem colocadas, mínimas expressões de quando sorria por entre os dentes mais brancos que já existiram.
Cabelos escuros, extremamente lisos e com terminações de cachos gigantescos nas pontas, que iam até o início das nádegas. Olhos negros, do mais negro e profundo abismo, consumindo o campo de visão com o negrume inexplicável, que absorvia, inclusive, cada um dos raios de sol. Em formato árabe, oriental, sobrancelhas desenhadas e bem posicionadas. Corpo delimitado por curvas sutis e, mesmo assim, inacreditáveis. Sua espinha dorsal, alinhadíssima, comportava-se como a mais hipnotizante das serpentes, delineando o movimento base do seu corpo. Quadris médios, nádegas levantadas e redondas, praticamente esculpidas. Coxas grossas, pernas suaves e, ao mesmo tempo, fortes. A linha da barriga, em seu fim, apontava em meios ósseos e musculares, como em grande seta semi-invisível, o tal tesouro de entrepernas, a carne macia, os lábios frondosos, o pêlo ralo.
De alguma forma estranha, mesmo desde moça, conhecia todos os tipos de artimanhas de uma mulher, das quais, até mesmo as mais experientes e vividas não têm por completo. Cínica, decidida, inteligentíssima, astuta, ardilosa, atenta a todo e qualquer detalhe. Despertava desejo irrefreável, não só através do corpo, mas de seu ar de existir, algo além do próprio charme, algo perdido no espaço. E por si só, sentia prazer e ânsia constante, insaciabilidade em satisfazer a si mesma e a gama de corações dilacerados. Dominava, por completo, ao alcançar o último dos sentidos, entorpecendo com sua voz, invejável às correntes do vento que sopra nas estações.
Antes, garota vinda de um convento rigorosíssimo, nova na cidade, e já de trajes conservadores, despertava interesse em seus tios, padrinhos, primos, e em qualquer mulher que lhe prestasse o mínimo de atenção. Mas não, porque perto dela, não haveria outra mulher, outra qualquer. Seria ela, a primeira e real mulher dentre o mundo de todos os animais homens e supostas mulheres. Trazia do convento a habilidade incrível da tecelagem, a qual exercia como ninguém. Falava duas, três línguas além da própria, na qual se comunicava assustadoramente bem e com enorme clareza.
Adotada por freiras em um orfanato no meio do nada, construída, praticamente, em reclusão. E com todos os desejos controlados por todos os anos, pois que bastou abrir as pernas pela primeira vez a que se viciasse no corpo de tantos corpos. Porque foi, por a mera e pura curiosidade, aliada ao desejo, enxertou naquele mínimo mundo o que antes não se conhecia. Vício nas mais diversas drogas, homicídios, suicídios, tortura. Tudo em seu nome, tudo em sua prescrição, em sua existência, porque ela se fazia presente, existente, persistente. Mas, apesar de tudo, havia quem acreditasse que, do mesmo ponto de onde vinha tudo aquilo, restava o que não escapara por ali: a esperança. Talvez, só talvez, quando engravidasse, tivesse filho ou filha, tudo pudesse retornar ao que era. Onde maridos amavam as mulheres, onde quaisquer tipos de violência eram histórias contadas pelos andarilhos e bêbados da cidade. Coisas de tempos antes, tantos anos, tantos.
Pois que se dizia, pois que se repetia. Hefesto modelou-a em argila e, em seguida, animou-a, deu-lhe vida. Atena ensinou-lhe a arte da tecelagem, adornou-a com a mais bela indumentária e ofereceu-lhe o seu próprio cinto. Afrodite deu-lhe a beleza e insuflou-lhe o desejo indomável, que atormenta os membros e os sentidos. Hermes encheu-lhe o coração de artimanhas, impudência, ardis, fingimento e cinismo. As Cárites e a augusta Peito embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e as Horas coroaram-na de flores primaveris.
Zeus entregou-lhe um jarro incrivelmente ornamentado. Por fim, o astuto deus Hermes interveio mais uma vez, concedeu-lhe o dom da palavra e chamou-a Pandora, do grego Πανδώρα, Pandôra, significando "todos os dons". E dentre os mortais, posta de interior aberto, só a Expectativa (Élpis) permaneceu presa junto às bordas da jarra, porque Pandora recolocara a tampa rapidamente, por desígnio de Zeus. É assim que, silenciosamente, porque Zeus lhes negou o dom da palavra, as calamidades e misérias, dia e noite, visitam os mortais.
Cabelos escuros, extremamente lisos e com terminações de cachos gigantescos nas pontas, que iam até o início das nádegas. Olhos negros, do mais negro e profundo abismo, consumindo o campo de visão com o negrume inexplicável, que absorvia, inclusive, cada um dos raios de sol. Em formato árabe, oriental, sobrancelhas desenhadas e bem posicionadas. Corpo delimitado por curvas sutis e, mesmo assim, inacreditáveis. Sua espinha dorsal, alinhadíssima, comportava-se como a mais hipnotizante das serpentes, delineando o movimento base do seu corpo. Quadris médios, nádegas levantadas e redondas, praticamente esculpidas. Coxas grossas, pernas suaves e, ao mesmo tempo, fortes. A linha da barriga, em seu fim, apontava em meios ósseos e musculares, como em grande seta semi-invisível, o tal tesouro de entrepernas, a carne macia, os lábios frondosos, o pêlo ralo.
De alguma forma estranha, mesmo desde moça, conhecia todos os tipos de artimanhas de uma mulher, das quais, até mesmo as mais experientes e vividas não têm por completo. Cínica, decidida, inteligentíssima, astuta, ardilosa, atenta a todo e qualquer detalhe. Despertava desejo irrefreável, não só através do corpo, mas de seu ar de existir, algo além do próprio charme, algo perdido no espaço. E por si só, sentia prazer e ânsia constante, insaciabilidade em satisfazer a si mesma e a gama de corações dilacerados. Dominava, por completo, ao alcançar o último dos sentidos, entorpecendo com sua voz, invejável às correntes do vento que sopra nas estações.
Antes, garota vinda de um convento rigorosíssimo, nova na cidade, e já de trajes conservadores, despertava interesse em seus tios, padrinhos, primos, e em qualquer mulher que lhe prestasse o mínimo de atenção. Mas não, porque perto dela, não haveria outra mulher, outra qualquer. Seria ela, a primeira e real mulher dentre o mundo de todos os animais homens e supostas mulheres. Trazia do convento a habilidade incrível da tecelagem, a qual exercia como ninguém. Falava duas, três línguas além da própria, na qual se comunicava assustadoramente bem e com enorme clareza.
Adotada por freiras em um orfanato no meio do nada, construída, praticamente, em reclusão. E com todos os desejos controlados por todos os anos, pois que bastou abrir as pernas pela primeira vez a que se viciasse no corpo de tantos corpos. Porque foi, por a mera e pura curiosidade, aliada ao desejo, enxertou naquele mínimo mundo o que antes não se conhecia. Vício nas mais diversas drogas, homicídios, suicídios, tortura. Tudo em seu nome, tudo em sua prescrição, em sua existência, porque ela se fazia presente, existente, persistente. Mas, apesar de tudo, havia quem acreditasse que, do mesmo ponto de onde vinha tudo aquilo, restava o que não escapara por ali: a esperança. Talvez, só talvez, quando engravidasse, tivesse filho ou filha, tudo pudesse retornar ao que era. Onde maridos amavam as mulheres, onde quaisquer tipos de violência eram histórias contadas pelos andarilhos e bêbados da cidade. Coisas de tempos antes, tantos anos, tantos.
Pois que se dizia, pois que se repetia. Hefesto modelou-a em argila e, em seguida, animou-a, deu-lhe vida. Atena ensinou-lhe a arte da tecelagem, adornou-a com a mais bela indumentária e ofereceu-lhe o seu próprio cinto. Afrodite deu-lhe a beleza e insuflou-lhe o desejo indomável, que atormenta os membros e os sentidos. Hermes encheu-lhe o coração de artimanhas, impudência, ardis, fingimento e cinismo. As Cárites e a augusta Peito embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e as Horas coroaram-na de flores primaveris.
Zeus entregou-lhe um jarro incrivelmente ornamentado. Por fim, o astuto deus Hermes interveio mais uma vez, concedeu-lhe o dom da palavra e chamou-a Pandora, do grego Πανδώρα, Pandôra, significando "todos os dons". E dentre os mortais, posta de interior aberto, só a Expectativa (Élpis) permaneceu presa junto às bordas da jarra, porque Pandora recolocara a tampa rapidamente, por desígnio de Zeus. É assim que, silenciosamente, porque Zeus lhes negou o dom da palavra, as calamidades e misérias, dia e noite, visitam os mortais.
Gosto de você
Eu, sujeito oculto,
escondido, não-declarado.
Verbo transitivo indireto
de gostar, gostar, gostar,
do objeto, que
eu não usaria,
guardaria
você, meu pronome pessoal
sem mais ninguém
saber.
escondido, não-declarado.
Verbo transitivo indireto
de gostar, gostar, gostar,
do objeto, que
eu não usaria,
guardaria
você, meu pronome pessoal
sem mais ninguém
saber.
sábado, 8 de maio de 2010
Vermelhas
Suas unhas são
o carnaval inevitável
da minha carne, o gozo
todo, o gozo em parte.
O paradoxo literal,
a descrepância, minhas
costas, nossas ânsias.
o carnaval inevitável
da minha carne, o gozo
todo, o gozo em parte.
O paradoxo literal,
a descrepância, minhas
costas, nossas ânsias.
Inabsolutas
Rasgar tudo, todos
os traços intencionais,
invisíveis, irracionais.
Assinaturas abreviadas,
palavras ilegíveis, moldes.
correspondência. Rasgar
palavras e certas sílabas
incontinentes, indivisíveis,
remanescentes. Enforcar
inconclusões e provocar
consqüências, dizer seu nome
e duvidar de toda ciência.
Condenar o imprevisível
à heresia do sentimento, banir
futuros amores e negar o amor.
Mas só por venerar o abandono
o desespero, a recíproca
sonoridade da falta, e sentir
cada vez mais cada vez mais uma
vez mais, e querer o querer.
O expurgar do paraíso de todas
as coisas loucas, todas as porras
e idéias absurdas, da proibição
das coxas e do Napalm
reacionário das palavras mudas.
Amor, armor, armar,
arme-se de conjugações e
cognitivas, inconveniências
inabisolutas.
os traços intencionais,
invisíveis, irracionais.
Assinaturas abreviadas,
palavras ilegíveis, moldes.
correspondência. Rasgar
palavras e certas sílabas
incontinentes, indivisíveis,
remanescentes. Enforcar
inconclusões e provocar
consqüências, dizer seu nome
e duvidar de toda ciência.
Condenar o imprevisível
à heresia do sentimento, banir
futuros amores e negar o amor.
Mas só por venerar o abandono
o desespero, a recíproca
sonoridade da falta, e sentir
cada vez mais cada vez mais uma
vez mais, e querer o querer.
O expurgar do paraíso de todas
as coisas loucas, todas as porras
e idéias absurdas, da proibição
das coxas e do Napalm
reacionário das palavras mudas.
Amor, armor, armar,
arme-se de conjugações e
cognitivas, inconveniências
inabisolutas.
Decote e cachoeiras
E ao mergulhar de cabeça
na nascente da sua camisa
encontro conchas, e o leito
pedra lisa, o peito, a pele,
mananciais, água fria.
Ao descer o ventre
meandros tão curvos e
camadas perdidas,
no já perto deságüe, na
bacia, no encontro
das coisas vadias
Matas cilicares, de uma
foz em delta invertida.
Bem antes, parte
os traços em enormes
braços, grandes afluentes,
coxas graves e tardes que
se perdem, o achado
influente
E os mares de morros
encobrindo os entornos,
o retorno pedregoso,
seus dois cumes, montes
e mínima gruta, seus morros,
eu morro
Quando finalmente afogado
por debaixo d'água, três mil
metros e pés de vento,
mergulhado até os dentes,
esse rio que parte num
oceano de coisas inertes
e profundas.
na nascente da sua camisa
encontro conchas, e o leito
pedra lisa, o peito, a pele,
mananciais, água fria.
Ao descer o ventre
meandros tão curvos e
camadas perdidas,
no já perto deságüe, na
bacia, no encontro
das coisas vadias
Matas cilicares, de uma
foz em delta invertida.
Bem antes, parte
os traços em enormes
braços, grandes afluentes,
coxas graves e tardes que
se perdem, o achado
influente
E os mares de morros
encobrindo os entornos,
o retorno pedregoso,
seus dois cumes, montes
e mínima gruta, seus morros,
eu morro
Quando finalmente afogado
por debaixo d'água, três mil
metros e pés de vento,
mergulhado até os dentes,
esse rio que parte num
oceano de coisas inertes
e profundas.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Antípoda
Almirante retrocesso;
Redentor, Palácio
Imperial:
no Brasil
te amo pôr do sol
no Japão
te odeio carnaval.
Redentor, Palácio
Imperial:
no Brasil
te amo pôr do sol
no Japão
te odeio carnaval.
terça-feira, 4 de maio de 2010
O Pós-Desespero da Piedade
(ler depois de O Desespero Da Piedade, de Vinícius de Moraes)
Tende também, meu Deus,
piedade
de todos os homens apaixonados
e mulheres esquecidas nos bondes
na falsa gritaria
e as reticências depois dos nomes,
dos crucificados em decúbito dorsal,
mas de braços fechados na cama
e abertos à poesia silenciosa,
num desespero de dar dó.
Nas casinhas suburbanas
e suas janelas entreabertas
com o chavão repassado
por detrás dos canteiros abandonados
nas réstias vivas de imprecisão
e as mórbidas águas vivas
que pairam entrededos
e sacos de pão.
E se piedade vos sobrar, Senhor,
tende piedade de mim.
Tende também, meu Deus,
piedade
de todos os homens apaixonados
e mulheres esquecidas nos bondes
na falsa gritaria
e as reticências depois dos nomes,
dos crucificados em decúbito dorsal,
mas de braços fechados na cama
e abertos à poesia silenciosa,
num desespero de dar dó.
Nas casinhas suburbanas
e suas janelas entreabertas
com o chavão repassado
por detrás dos canteiros abandonados
nas réstias vivas de imprecisão
e as mórbidas águas vivas
que pairam entrededos
e sacos de pão.
E se piedade vos sobrar, Senhor,
tende piedade de mim.
sábado, 1 de maio de 2010
Os dois parágrafos do estado contínuo
Não, não sei. Apenas teorias e um monumento magnífico dedicado a todos os eu acho isso, eu acho aquilo. E uma brainstorm ridiculamente intensa, que tende ao infinito. Tudo, tudo, tudo, em fast foward. Existe a insatisfação crônica, uma espécie de febre malárica completamente aperiódica e ostensivamente maligna, numa compulsão de ir. Ir? Ir indo, partindo, seguindo, ir indo. Ir. De preparada mochila, lotada de provisões, mudas de roupas, alguns dois três livros, escova de dente, algum dinheiro. E no pico dos 39, 40º, desnaturadas todas as enzimas que mantêm a reação constante, inexorável e inalterável de todos os dias.
O homem é livre até o momento em que concebe o pensamento da liberdade. Até que seja contaminado pelo ar tóxico dos milhares de traças, livros, idéias, palavras. E é então que o mal enraíza com todos os seus milhares de braços por todo o corpo. Quando o vírus, bactéria, protozoário, multiplica sua existência e contamina todas as células, quando se deseja a liberdade. O céu arde brasa azul, completamente incomum, suspira em fumaças brancas. E não se enxerga mais que a única cor visível aos olhos fechados. Mataram os deuses, um a um, e construíram em seus lugares, gaiolas e palácios. Se realmente existe um deus, Deus, ele está em todas as coisas, que existem no real mundo real. Não, não sei. Apenas teorias e um monumento magnífico dedicado a todos os eu acho isso, eu acho aquilo. Mas ainda quero ir.
O homem é livre até o momento em que concebe o pensamento da liberdade. Até que seja contaminado pelo ar tóxico dos milhares de traças, livros, idéias, palavras. E é então que o mal enraíza com todos os seus milhares de braços por todo o corpo. Quando o vírus, bactéria, protozoário, multiplica sua existência e contamina todas as células, quando se deseja a liberdade. O céu arde brasa azul, completamente incomum, suspira em fumaças brancas. E não se enxerga mais que a única cor visível aos olhos fechados. Mataram os deuses, um a um, e construíram em seus lugares, gaiolas e palácios. Se realmente existe um deus, Deus, ele está em todas as coisas, que existem no real mundo real. Não, não sei. Apenas teorias e um monumento magnífico dedicado a todos os eu acho isso, eu acho aquilo. Mas ainda quero ir.
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