sábado, 7 de novembro de 2009

Óculos blues.

Seus relacionamentos não funcionavam. Apesar aquela peculiaridade, era atraente. Charmoso, a palavra certa. Conquistava mulheres, lia os sinais, o morder de lábios, os sorrisos sutis, as mãos nos cabelos. Sabia o que dizer, quando dizer, como dizer. Mas não se relacionava de forma séria, não avançava de forma alguma. Tudo, apesar de ser a palavra certa, graças à peculiaridade. Quando perguntavam sobre, simplesmente respondia que não poderia tirá-los. Estariam grudados ou algo do tipo? Não, só não posso tirá-los, resposta. Mal talvez enxergasse o rosto de todas as mulheres com quem esteve. De todas as maneiras que esteve. Aquela peculiaridade, mesmo à noite. Lentes escuras, óculos escuros. E talvez nem ele mesmo soubesse a cor de seus próprios olhos.

Por uma vez, sentiu-se obrigado a explicar a situação, os motivos. O motivo, na verdade. Ela talvez não fosse alguém por quem estivesse apaixonado, mas não era alguém que mereceria ficar sem resposta. Qual a cor de seus olhos? Por que nunca tira os óculos? Dissertou, explicou todos os detalhes. O motivo. Ela riu, riu como nunca tinha rido. Vá embora, nunca mais se aproxime de mim. Que de outra maneira poderia ser? Agora eram lágrimas, não dentes brancos. Um dia, você se sentirá compelido a tirar estes seus óculos escuros. Nunca. Um dia, um dia. E perceberá que nada disso é uma brincadeira. Vá embora. Agora era solidão, não eram lágrimas, nem dentes brancos. Acima de tudo, óculos escuros.

O motivo, se é que você realmente importa-se em saber, é simples. Confuso, surreal. Mas simples. E risadas não adiantarão de nada, garanto. Os olhos são os espelhos da alma, dizem. E nesse caso, específico, porta aberta, sem tranca, sem trava, escape sem válvula. Esvoaçadamente perderia sua existência. E todo o surrealismo, desde que se entendia por gente, era presente em sua rotina. Óculos escuros, mais nada. Refeições, óculos escuros. Banho, óculos escuros. Dormir, óculos escuros. Sexo, óculos escuros. Nascimento, óculos escuros. E desde que conservasse os óculos escuros, Morte, óculos escuros.

Seria assim, uma vida por trás do semitransparente, na escuridão relativa, não fosse pela maldita praga. Aquela garota praguejara, amaldiçoara, rira. No fim das contas, coincidente ou não, tudo aconteceu, de uma maneira ou de outra. Alguma coisa, sem óculos escuros. Uma garota nova no trabalho, visivelmente interessada em seu jeito. Seu charme natural, a palavra certa. De forma incrível e inesperada, ele não se esforçou para tanto, era natural. Uma palavra mais-que-certa, desde que interpretada assim. Foi um encontro, ao amanhecer, talvez ela não estranhasse os óculos, desse tudo certo. Finalmente, Amor, óculos escuros. Ele gostava dela. Era mútuo, nós sabemos. Mas ele não se atreveu a ler.

Conversaram. Uma teórica troca de olhares. Os dedos juntos, aos poucos, óculos escuros. Tolices, óculos escuros. E então o beijo. O beijo apaixonado, nada além daquilo, óculos escuros. Mas tudo rápido demais, um grito na mudez, o silêncio permanente. Tudo está ali, diante de seus olhos. Dos olhos dela, dos nossos olhos. E palavras não são nada mais que olhos de uma realidade interpretável, óculos escuros. Restaram suas roupas, murchas, sem carne, sem vida, e uma fumaça branca, desvencilhou por onde órbitas fitariam os óculos escuros. Os óculos estavam na areia, praia. Eram verdes, óculos escuros.

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