segunda-feira, 18 de julho de 2011

Seu Lino e a ordem do universo

Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. Ou o universo come seu rabo e deixa pior do que os anéis de Saturno. Por isso você só limpa depois que evacua, e não o contrário. E, bem, existe uma ordem de pertencimento e adequação nas coisas, como por exemplo, fazer a barba. Não adianta você pegar pra um imbecil qualquer fazer sua barba. Ou ele será um açougueiro com uma navalha na mão, ou ele será um inútil que deixará milhões de tufos pelo caminho, ou você fará a descoberta da sua vida.

Conheci uma garota legal há uns tempos, descendente de italianos, a Ruth (e até então não havia conhecido nenhuma Ruth, novidade deveras). Conversamos um pouco, ela estagiava numa firma e eu ainda no começo da faculdade, saímos algumas vezes e graças ao Maria Antonieta da Sofia Coppola, acabei ganhando a garota. Ambos odiávamos, achávamos um lixo, etc., rolou a química no desprezo. Não cabe a mim explicar as mecânicas do desprezo, só louvá-lo incondicionalmente. Uma das vezes apareci com a barba mal feita pra caralho e acabei reclamando que, por pressa, paguei um barbeiro muito ruim. Química do desprezo mais uma vez. Conversamos mais sobre o lance de barbearia, forças universais e o desprezo por açougueiros e inúteis.

Por acaso meu avô é barbeiro.
Seu avô é barbeiro?
Meu avô é barbeiro.
E como funciona, como é, onde é, quanto é?
Funciona assim: você chega lá e pede pra fazer a barba.
Genial.
Né?
Incrível.
Então, é lá no centro e é três e cinqüenta.
Tá de sacanagem, três e cinqüenta?
Não tô, juro.
Caralho! Vou lá amanhã.
Espera crescer a barba antes.
Ai, verdade.

Cultivei uma boa quantidade de pêlo na cara pra saber se o senhorzinho era realmente bom. Ela não reclamava. Talvez até entendesse o que eu estava fazendo e sentisse que era um desafio necessário pra que eu ficasse numa boa. Acordei cedo com ela me ‘expulsando’ de casa porque tinha de ir pro estágio. Tomei uma ducha rápida e comi na rua. Decidi que era hora. A hora. Tirei o cartão do bolso e fui atrás do lugar. E apesar do meu péssimo senso de localização, foi fácil de encontrar. Era um lugar pequeno, simples, arrumado e com cara de barbearia. Justo. Entrei, cumprimentei, expliquei a situação e disse que era amigo da Ruth, que ela havia indicado – essas coisas. Seu Lino abriu o sorriso, mostrou onde sentar. Apresentou-se, preparou a espuma, abriu um estojinho e começou.

Virei freguês fiel. Deixava a barba crescer só pra aparecer por lá, e, conseqüentemente, acabamos amigos. Ele descobriu, obviamente, que eu estava saindo com a neta dele. No assunto era um assunto completamente evitado. Depois seu Lino queria saber como estávamos, se estava tudo bem, quanto tempo estávamos juntos, mil coisas. Passei a freqüentar não só pra fazer a barba. Levava revistas e algum outro material que ele precisava. Pagava as contas, saímos pra lanchar e conversávamos infinitamente. O melhor barbeiro do mundo, faltava isso naquela parede de pisos azul-claros, do lado dos certificados brasileiros e italianos. Torcia pro Palmeiras, claro, time de descendentes de italianos. Outro ponto de identificação, conversávamos sobre títulos antigos, possibilidades de novos, escalações, ídolos, histórias, tudo. No aniversário dele dei o DVD do Pernalonga, Barbeiro de Sevilha (pra ele, o melhor desenho já feito) e uma placa da escalação de 1951 do Palmeiras. E nunca recebi um abraço tão apertado desde então.

Um dia o pseudorelacionamento com a Ruth simplesmente acabou. Decidimos que estava tudo bem e que fora sexo casual era melhor deixar o resto pra lá. Dormi o final de semana no apartamento dela, pedimos pizza, sexo, porcarias na TV, conversamos, sexo, jogo de futebol e segunda-feira fui embora. Ela saiu pro estágio, e eu pra casa. Mantivemos (e mantemos) contato, embora nunca nos encontremos casualmente.

Entrei em época de final de período e avisei ao meu amigo que não iria lá por algum tempo, mas que depois compensaria. Numa segunda à noite recebi a notícia que seu Lino havia falecido, complicações de uma doença antiga – nada esclarecido. Fiquei arrasado, claro. Não fui nem no enterro, nem no funeral. Não gosto de enterros e nem de funerais. Visitei a família dele, dei minha condolências, o que a prática social necessita às vezes (mesmo de mim). Decidi deixar a barba crescer como um tipo de homenagem maluca pro seu Lino, até que completasse certo período – e a barba chegasse no tamanho máximo que eu deixava antes de passar pela barbearia.

Quatorze dias atrás o melhor barbeiro do universo abriu firma em outro lugar e abandonou a barbearia dele no centro. Que por acaso, agora é um consultório minúsculo de um dentista completamente duvidoso (deve ser do tipo açougueiro). Fiz a barba no primeiro barbeiro/cabeleireiro que encontrei. Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. No final das contas o cara era um açougueiro iniciante: fodeu só um pouco meu rosto, e a pele ficou irritada pra caralho, alguns cortes, normal. Nem todo mundo sabe fazer barba. Nem todo mundo sabe como funciona o universo.

You'll realize you're totally full

and there’s no space left.

Your eyes full of visions
your mouth full of words
your skin full of touch
your ears full of sounds
your nose full of scent
your streets full of steps
your vaults full of deads
your foul sky of clouds
your mind full of nothing
your place full of nowhere.

Saturday Sun

Deixa eu anotar um negócio na sua mão, preciso pra lembrar de um negócio.
Por que não anota nas costas da sua? (e ela riscando a palma da minha mão).
Não dá pra escrever na minha pele, acho que essa caneta me odeia.
Tá certo. Mas e se eu suar vai sair…
Tá muito frio pra você suar.
Verdade. É pra lembrar que tem alguma coisa anotada na minha mão quando?
Quando você me deixar na porta de casa.
Vou te deixar na porta de casa?
Vai.

Ri e concordei. Peguei outras pessoas em outros lugares e dirigi até o outro lado da cidade pra uma festinha dos conhecidos de alguém. Deixei todo mundo no tal apartamento, voltei pelo retorno, coloquei um pouco de gasolina no canto e filei um cigarro enquanto conversava com o frentista. Fumamos e conversamos sobre o preço da gasolina e depois sobre a pensão que ele tinha de pagar pra ex.

Olhei pro relógio e decidi voltar pro apartamento e como havia previsto tudo estava em ares de merda. Grupos espalhados falando baixo e bebericando vinho seco, ouvindo músicas terríveis e rodopiando arrastando os pés e os olhos pelo carpete mal colocado. Desci e fui andando até o posto, conversei mais com o frentista e filei outro cigarro, fumamos e conversamos mais um pouco. Comprei três garrafas de vinho barato e voltei pra ‘festa’. Sentei no sofá espaçoso e quase vazio, abri um dos vinhos com a chave de casa e empurrando a rolha com o dedo.

Fiquei olhando pras pessoas e suas manias bêbadas e suas narinas dilatando aos suspiros, a fumaça de baseado escapando pelos quartos, suas camisas feitas sob medida e os movimentos lentos que faziam, algumas, só algumas, ao ritmo das músicas. Desci mais uma vez e trouxe o frentista pra cima, que acabara de largar seu turno. Concordávamos que não era um bom lugar pra se estar, mas que o vinho barato era doce e que enquanto pudéssemos diferenciar os tipos cambaleando pela sala e pelos corredores, tudo estaria bem.

Montamos um ninho das almofadas verdes do lado do aparelho de som e conversamos esperando até que todos estivessem devidamente bêbados pra não ligar mais pra trilha sonora – como se mesmo sóbrios notassem quaisquer diferenças. Passei pra rádio e procurei uma estação escondida entre os traços finos, rodando o botão bem devagar e atentando à mínima variação de estática e ruído de fundo. For the dreams that came to you when so young, told of a life CARALHO, Nick Drake, dissemos em uníssono. Ficamos em silêncio por muito tempo ouvindo as músicas – era uma espécie de programa especial.

Num dos comerciais ele explicou que o pai dele, que havia morrido quando ele tinha dezesseis anos, adorava Nick Drake por culpa do avô, que venerava o cara e tinha fitas e o caralho a quatro. Achei a história o máximo, apesar de tão curta e simples. Ele listou as melhores músicas, na própria opinião, e eu fiz o mesmo. Secamos a segunda e a terceira garrafas de vinho e prometi que o levaria em casa. Fui até o banheiro, enfiei o dedo na garganta e vomitei parte do vinho.

Escapei por alguns minutos, dei volta pelo balcão da cozinha, que beirava a sala e os limites do carpete manchado, passei por uma das janelas e fui até a piscina onde outras pessoas da ‘festa’ conversavam e tremiam de frio ouvindo as próprias besteiras. Fiquei de cueca enrolei as duas meias na mão direita, onde a garota havia escrito sabia lá o quê. E me joguei na água gelada enquanto meu amigo vomitava um pouco no jardim. Prendi a respiração e fui até o outro lado da piscina com o impulso do mergulho e flexionando o corpo, fiz o caminho de volta a braçadas, saí, peguei as roupas e me sequei na toalha de rosto do banheiro. Vesti as calças e a camisa, mal abotoada, joguei os tênis no banco de trás do carro e levei meu amigo em casa, ambos cantarolando Winter is Gone bebadamente, embrenhando o carro pelas ruas do bairro onde ele morava.

Filei o último cigarro e tomei uma xícara de café antes de voltar pra festa. Abotoei corretamente a camisa, desamarrei as meias da mão, calcei e recoloquei o tênis nos pés. Olhei pra mão e vi uma mancha de tinta borrada. Merda. É a merda da vida. Desengatei o freio de mão e olhei pelo retrovisor antes de passar a primeira, pra ver o céu começando a clarear. Saturday sun, came early one morning in a sky so clear and blue, saturday sun. Dei a volta no final da rua, que não tinha saída, e fiz a descida de volta na banguela, atravessando o bairro inteiro cortando pelas ruas embaralhadas e inclinadas até uma das avenidas principais, passei a segunda, acelerei, passei a terceira e cortei a curva machucando os pneus na curva mais imperfeita de toda a madrugada. Saturday sun, came without warning so no-one knew what to do.

Voltei pro lugar da ‘festa’ pra ajudar a recolher os cacos de todo mundo que eu ainda ‘teria’ de levar pra casa. Carreguei alguns pro carro, deixei outros pra lá em suas camas, sofás e manchas de porra no carpete. Última parada, a última pessoa. Abri a mão.

Então foi isso que aconteceu?
Foi exatamente isso que aconteceu.
Sei.
Bom, seja lá o que estava escrito na mão, espero que você lembre o que era.

Ela sorriu seu sorriso de cabelo em meio rabo de cavalo, seu sorriso das mechas soltas ao redor do rosto, da parte da maquiagem borrada e seu sorriso de como eu quisesse entender, e cantou so sunday sat in the saturday sun bem baixinho. Desliguei, engatei o freio de mão e respirei fundo.

Melhor você esperar domingo chegar. Quer tomar um banho?

Por que

Os dois deitados, lado a lado, nos bancos do carro, totalmente reclinados pra trás.

Por que mesmo você tem de ir embora?
Acho que nem eu mesma sei.
Então por que tá indo?
Você sabe bem o porquê.
Sinceramente?
Hm.
Não.

Ela vira o corpo pro banco do motorista e abre os dois olhos enormes, castanho-esverdeados, umedece os lábios e pisca algumas vezes. Respira pausadamente e talvez esteja insistindo pra que eu faça o mesmo.

Eu nunca fui embora.
Conversa.
Nunca. Desde que ainda existam livros do Neruda pra te mandar, nunca fui embora.
Mas um dia os livros do Neruda vão acabar e daí, mesmo com quaisquer outros motivos, talvez isso seja um prelúdio de merda.
Você sempre desaprende de beber, de tornar as coisas simples, de muitas coisas. Até que você aprenda definitivamente e sobrarem livros do Neruda, eu não vou embora.
Acho que isso tomou um rumo meio estranho, sabe?
Também acho. Lembra aquele bilhete que eu te deixei da primeira vez?
Lembro.
Lembra da última frase?
Lembro.

Virei pro banco do carona, abri meus olhos pequenos, castanhos-sem-graça, contraio o lábio seco e não pisco. Mantenho o olhar fixo. Prendo a respiração por alguns segundos e insisto pra que ela fale por mim.

“Nos veremos em outra vida quando formos gatos”.
Pois é. Mas daí que essa outra vida chegou e nos vemos uma vez ou outra e sempre tem isso de outra vez, outra vez. Pra mim, ir embora em movimento nunca foi problema. Foda mesmo é ir embora e me manter parado, no mesmo lugar. E isso me mata.
Como agora.
Como agora. Isso significa que essa outra vida acabou?
Sabe quantas vidas os gatos têm?
Sete, nove, sei lá, um monte.
Então não.
Ainda não?
Isso é um problema de tempo.
Porra, eu sei, eu sei
Quando você acha que as coisas acabam?
Coisas?
Ah, as coisas, você sabe, tudo.
Ah, todo momento.

Quando

Quando você acha que as coisas acabam?
Coisas?
Ah, as coisas, você sabe, tudo.
Ah, todo momento.
Explica melhor?
Explico.
Agora, nesse exato momento, tudo que existe tá desmoronando. Seja em algum lugar tão longe que nem dê pra entender como chegar lá, como num lugar tão próximo que não dê pra imaginar como estar ali.
Tudo?
Tudo.

Quase silêncio e a areia juntando nas beiradas do corpo e fazendo barulho de saleiro esvaziando devagar. Último gole da vodka e os olhos lacrimejam. Acabou? Acabou.

E quanto mais percebemos algo que não havíamos percebido antes, ou quando conhecemos algo novo, o infinito cresce ainda mais e ao mesmo tempo deixa de existir.
Agora não entendi nada.
Olha, chega uma hora que você sabe que existem infinitos grãos de areia que estão por aí, um por cima dos outros e entre as frestas, nas praias, nas dobradiças, na pele, nos cantos, balançando e fazendo curvas engraçadas por cima do concreto rachado e tudo desse tipo.
Certo, e?
Daí que você percebe que uma coisa que é infinita é composta por uma repetição absurda e simples, e mesmo que você vá até o nada e volte, as frestas, praias, dobradiças, pele, cantos e curvas engraçadas por cima do concreto rachado e tudo desse tipo estará repleto e grãos de areia.

Ela tirou um uísque numa sacola de papel de dentro da bolsa, abriu e tomou um gole, passou a garrafa pra mim e o sol ficou de frente pra nós dois. Colocamos óculos escuros, acendemos cigarros e nos abraçamos, porque no inverno de certas coisas e de certos lugares, até as manhãs são frias.

Acho que entendi.
Pois é. O infinito tá acabando.
Agora?
Nesse exato momento.

Silêncio. e a garrafa vai embora rápido.

Tá na hora de ir pro aeroporto, né?

Ela olha pro relógio, faz que sim e apaga o cigarro gargalo adentro.

E agora?
A gente procura outro infinito pra acabar.

Como

Como será que funciona?
Hm?
Como será que isso funciona?

Tomei um gole generoso de vodka no gargalo, algumas gotas caíram assim que eu afastei o vidro frio da boca morna e da garganta quente.

Quer dizer, um dia nada de realmente importante e grandioso vai ter alguma importância fodida e tudo vai acabar assim.
Sem mais nem menos?
Sem mais nem menos.

Ela tomou três goles curtos, limpou o canto da boca, respirou pausadamente e passou a garrafa de volta.

Como será que funciona?
Isso de existir, né?
É.
Talvez seja tudo uma viagem foda.
Como?
Uma viagem. Assim: antes as coisas que eu percebo que existem agora não existiam, pelo menos pra mim, pelo simples fato de que eu não as conhecia ou deixava tudo passar em branco.
Eu não existia.
Mais ou menos.
Mais ou menos?
É. Sabe quando a gente sabe que tem alguma coisa ali e não dá pra responder na lata?
Sei.
Meio que um lance de genialidade, porque essas respostas simples e óbvias são visíveis só pra quem é gênio. Como perceber que o detalhe mais simples torna numa pintura comum uma obra prima ferrada, é sacar o tempo chave de uma sinfonia, essas coisas.

Tomo dois goles curtos e limpo o canto da boca, cuspo no chão e a garganta contrai de leve e o sol aparece e parece que o fim do mundo, onde o mar cai no espaço, é cor-de-rosa.

E eu?
Não sou sequer inteligente. As coisas têm de cair no colo e com bilhete explicativo, de preferência bem claro e direto.
E será que é assim que funciona?
Não sei se é assim, mas onde eu moro tudo é feito de coisas assim.

A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.

Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.

sábado, 18 de junho de 2011

Onde

A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.

Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.
Não. Quero saber onde você mora.
Tá bom. Entendi. Fecha os olhos.
Pra quê?
Fecha.
Pronto.
O que você tá vendo?
Nada.
É aí que eu moro.
No nada?
Não. No infinito.
O infinito é grande demais.
Não dá pra ver, né?
Isso.
Qualquer lugar é o infinito?
Só quando ainda não der pra enxergar.
Fecha os olhos também.
Pra quê?

Ela sorri com o cabelo escondendo tudo que não é sorriso pra me obrigar a entender que não há nada no mundo além daquele sorriso.

Pra voltar pra casa.

E o resultado é exatamente igual a todos os anteriores.