quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Entropia

A lua estava escondida por detrás das negras nuvens, do negro céu. As gotas de chuva, pesadas, estalavam nas ruas, nos paralelepípedos, ao roçar contra as estruturas de metal das placas, dos carros e no encontro das janelas fechadas. Talvez fosse abril. E mesmo assim, chovia tanto, pensava. Olhava para o teto, olhos entreabertos, como pudesse atravessar qualquer tipo de obstáculo, e então, ir de encontro com o céu. Ou talvez algo mais que estivesse ali. Espreguiçou-se na poltrona, esticou as pernas, alongou o braço direito até alcançar a garrafa de cerveja. Tomou um gole e recolocou-a na antiga posição.

E então, chove até amanhã?
Provavelmente. Estou meio que, pressentindo essa chuva faz um tempo. Não é coisa pouca, sabe?
Sei, sei... Mas não é algo comum pra um dia de abril. Digo, uma noite de abril. O dia hoje estava límpido, azul, claro...


Mas você percebeu que iria chover, certo?
Ah, isso sim. Senti aquele cheirinho de terra molhada, de orvalho, de grama úmida e de nuvens pesadas chegando. Cheguei até a tirar as roupas do varal, a vizinha estranhou e acabou que fez o mesmo. Sorte, não?
Talvez. Não é algo tão difícil assim, pra você, perceber a chuva chegando. Normalmente humanos não conseguem pressentir algo assim.


Não entendi.
Simples. Seres humanos estão tão preocupados com sua rotina, com seus ‘incontáveis problemas’ e coisas do tipo.
Vamos, não seja tão cruel.
E você não seja tão hipócrita. Você concorda comigo e, inclusive, não entende o porquê de ser a única pessoa assim, certo?




Certo?

É...

Você nem precisaria responder, meu caro. Não é o tipo de coisa que precise ser confirmada verbalmente pra que se torne verdade. Entende?
Acho que sim.

Pois bem.



Estendeu sua mão direita, acariciou por trás da cabeça do gato preto, deitado no criado mudo, ao lado da poltrona.



Sei como você se sente.

Imagino que sim.

Na verdade, sendo parecido com você, ou o contrário, não sei; entendo perfeitamente.

Acho que é tudo uma questão de ponto de vista, mas não tira sua razão. Não me consigo me adequar ao mundo. Não da mesma forma que todo mundo o faz.

Por isso que você se parece tanto com tipos como eu.

Acho que sim. Mas não é o tipo de sentimento que me satisfaz por completo. Não é algo controlável ou racional. Talvez não. Mas tenho ciência de que não sou como os outros. Certo?



Certo?

Tarde demais, imaginou. O gato preto não responderia mais, estava dormindo profundamente, encolhido de frio.

Levantou-se da poltrona, atravessou o corredor escuro e voltou com uma pequena manta. Cobriu o gato, recolheu as duas garrafas vazias de cerveja, cerrou as cortinas e foi deitar-se. Não dormir. Apenas encobrir seus olhos com as pálpebras, infligir um tipo de descanso ao seu corpo. Mas sua mente não conseguia, nunca conseguia entrar em descanso. Um semi-stand-by era o máximo esperado. E no lugar de tudo isso, simplesmente revia todas as cenas do dia.

Abriu lentamente os olhos e observou sua mão esquerda, agora na frente do rosto. Cada um de seus dedos, ali, indeterminadamente colocados, um traço genético perfeitamente codificado. E suas cinco unhas, os cinco nós e observou até onde pôde, tentando ultrapassar o vazio de seu tecido. Falar com gatos era o suficiente de estranheza. Identificar células a olho nu seria demais pra qualquer ficção.

Seu dia tinha sido como qualquer outro. Ou simplesmente todos os dias fossem os mesmos, e ele, então, seria o algo diferente em todos eles.

Diferente. Diferente? A montagem igual, a pilha de pele, carne e ossos, e mesmo assim não conseguia enxergar a si mesmo como um ser humano. Não como os que via ao seu redor. E todos se moviam vagarosa ou rapidamente, enquanto ele observava tudo, aquele balé sincronizado, aquele caos entropicamente correto. Como? Não sabia. Mas era ele quem falava com gatos. Lembrava-se da chimpanzé que aprendera a linguagem dos sinais. Quem sabe assim conseguiria comunicar-se? Mas o que poderia dizer?

Tudo era o mesmo, e ele mudava constantemente. Falava com os gatos, e Chapeleiro dormia no sofá de sua sala. Fechou os olhos e conseguiu, por poucos segundos, entrar em stand-by, antes ao menos, que o sol socasse seu rosto por debaixo das cortinas púrpuras. E a chuva tornou a cair. Entropia.

Bom dia.
Sentiu certo peso em cima de suas pernas. Abriu os olhos lentamente, não estava sozinho no fim das contas. E em anos de gato, viveria eternamente. O suficiente, talvez.

Você estava certo, continua chovendo.
Não, você estava.

Entropia, e então o que mais?

Pift, pift, gotas de chuva contra a janela, aos poucos ganhando maior volume e espessura, plift, ploft, ploft.

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