domingo, 28 de fevereiro de 2010

Boitempo

Brota o violão danado, por detrás da antes madrugada. Da madrugada de tantas coisas, tantas coisas, e ainda há um dia por passar. Violão danado. Baden Powell arrastando Chuva, de Durval Ferreira e Pedro Camargo. Como coleção de espectro, claro. Não empunharia outro violonista sequer ao lado do mar, ao lado do bronze. Não, não. Fica bonito, mas por demais exagero, lirismo, essas coisas. É o Rio. Rio de Janeiro, daqui a pouco vai ficar quente pra cacete. Em frente à Rua Rainha Elizabeth, calçadão de Copacabana. Daqui a pouco um calor daqueles. A praia pita o cachimbo de maresia e solta a fumaça de areia. O mar faz barulho gostoso no cangote da manhã. O sol nasce. Isso, isso. Sem violão, só bronze e os carneirinhos pulando no alto das marolas. “No mar estava escrita uma cidade...”.

O povo passa, o tempo passa. Sol cor de cenoura. Não, desistiu. Sol cor de Rio, Rio de Janeiro. O povo passa, olha. Tanta gente tira foto, conversa, faz carinho, resmunga. Até de lhe pintarem o bronze da roupa, já fizeram. Crápulas. “No mar estava escrita uma cidade...”. Bom que até lhe arrumaram um par de óculos novos. O grau aumentou. Coisa da idade, coisa dos olhos. De pernas cruzadas, no banquinho, e de costas pro mar. Como se o mar carregasse o espectro de tanta coisa, tanta adivinhação, tanta aporrinhação. E violão danado. Talvez que no Garota de Ipanema, no hall dos espectrais, desçam uns pileques vendo as meninas passando. Violão danado, mudinho, mudinho. O mar é rapaz esperto, sabe de fazer agrado no cangote da manhã, da tarde, da noite. E ele, de pernas cruzadas, olha do bronze, toda moldura do calor. Bem que eu disse, que calor!

Pois que bem, tudo de passar. O povo passa, o tempo passa. O bonde passa cheinho de pernas. Pernas mulatas, branquinhas, pretinhas, amarelinhas, morenas, adocicadas e amarguradas. Pois que bem, pedido de casamento já feito, e por conta de testemunha prévia, ele do alto do bronze, espiava tudo – e ainda espia – de sorriso contido, de olhar perdido (que a tudo espia). Passa moleque, que crente de sabido ou não, engraxa os sapatos. Brilhandinho. Precisa pagar não, seu moço. Por conta, por conta. Sorriso contido, as conchinhas imaginárias da calçada de Copa flutuam no chão. E no banco, do lado, te amo, também, casa comigo, caso. E alemão, português, espanhol, japonês, e até o brasileiro que ainda não é do Rio. Fotos, fotos, fotos, sorriso contido. A cidade continua ali, escrita no mar. Mar danado, safado, cheio de cheirinho pra cima dos cangotes. E o cachimbo de maresia que nunca acaba. Fumaça de areia.

Tanta gente, quanta gente, povo passa, tempo passa. E naquele banco já se meteram as mãos por dentro do vestido, das ancas, no encontro de corpo. Mão que não acaba. Dedo que não dá conta. De recosto no banco a bunda sorridente. E o tesão, a loucura, a juventude (que no espírito de quem quer mantém viva a si) ululando, o corpo tão somente – aparentemente – imóvel. Fora os assaltos, roubo. Por demais, o sentimento de pequeneza, não pode prestar depoimento. Não viu, seus olhos estavam perdidos, sua boca calada, seu sorriso contido. Aceita um litrin de pinga? Ói, que num ofereço mai. Barba mal feita, litro de cachaça por debaixo do braço. E fica tudo certo. Conheci sua cidade, Itabira. Bonita demais. A senhora do alto de seus sessenta anos respira. Patroa esperando, outro dia conversamos mais. Vai-se embora o rapaz de paletó nas costas. E tanta coisa mais, tanta coisa mais. Gente sem cama, sem comida. Nem liga de dividir o espaço do banco, lugarzinho pra deitar. Alguém vem e enxota. Mas até lá, nem incomoda, sorriso contido, o bronze olhando o infinito.

Pois bem que... Veja: pôr do sol. Sol de clave, perdido no céu. Cor de cenoura. Não, não. Cor de Rio. O dia ainda não terminou. Estrelas soltas no cristal negro, nuvens pairando, no quadrante infinito de qualquer lugar. “No mar estava escrita uma cidade...”. E Drummond só de rabo de olho, espiando tudo, no bronze. Pernas cruzadas e... Deus me tira o violão danado e arrasta Chuva. Mas não é de Durval Ferreira e Pedro Camargo. É composição própria, coisa divina. Mas depois, no hall dos espectros, Baden arrasta a outra Chuva. Lirismo comedido. Bem empregado, Drummond de pernas cruzadas, hora de o mar deitar na sereia do vento. E tudo isso em frente à Rua Rainha Elizabeth, no calçadão de Copacabana.

Sol

clave em pestana de marés,
abaixo um tom de
Lá onde se põem

quatro dedos
de pescador em beira-mar.

Carne enfurecida

:buscando carne,
buscando vida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Vênus

É uma heresia tão cruel
queimar no altar vazio
de deserto em revés

chorando água benta
em nome de algum deus pagão
que esqueceu de mim

sacrificar o sangue das horas
num solstício fatal de
separação.

É uma heresia sem fim
ser profano sem mais

e arder no caminho de luz
que dança a chama vela
em escuridão.

Balada dos versos quase-brancos

Arrasta braços e desfaz
em maré de tantas coisas
tão cegas, surdas, mudas e
esparramadas pelo chão.

Então arrasta o rosto inerte
e traga o soluço morto
na fumaça lúcida e das
valas nuas de desilusão.

Devora os passos e contrai
as nuvens de folhas mortas
loucura exposta e de algodão,

Abre os olhos e mergulha nu
num temporal de pálpebras
roupagem falha e encenação.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Você

Assim como a fina chuva
esmaece e borra os contornos;
resfria, longe da mão, a luva,
desfaz cores nos entornos

E pousa gotas de asas
de hidrogênio. São pequenos
insetos montando casas:
morrendo em braços morenos.

A distração da piedade,
que destrói quaisquer limites,
em tempestuosa calmaria

Arrasta inerte a verdade,
crava a entranha dos palpites,
renega a fé do novo dia.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Canto de Orfeu (ler acompanhado de Valsa de Eurídice - por Baden Powell & Vinícius de Moraes)

E é quando eu convoco
o silêncio a ouvir meu corpo

e o vazio a sentir meu rosto

perder os membros estirados
numa maré de loucura
e estranheza...

Saciar a inércia na falta
e os ecos nas profundezas;

Fingir de pretas mangas
primavera nua de pele fria
e perder o rumo incerto

na profunda incerteza
de se desejar macia;

na insuportável cegueira,
de luz e trevas, que dança,

que arde, que ama.

E é quando eu invoco
o paganismo tão adorado

e a piedade do único deus

que despeja a débil companhia
da mortalha irremediável
de fome perdida...

E então, inundando de agonia
a falha cruel da realidade;

Desprezar dos ponteiros afiados
e o corte que abre da carne dócil
a perder o rumo incerto

na profunda incerteza
de não possuí-la,

tempestades de tantas coisas
que varrem a vida...

Não havendo sóis
e nem manhã de cada dia,
Orfeu, acaba de ser

e esvai em constelação fria.
Orfeu, Orfeu

e desaba o céu
na loucura de tristeza
que instala no peito dos deuses

e despedaça na alma do homem

Orfeu, Orfeu.

Sobre a água que brota da terra

Pois; E pois então que jorre,
nasça do ventre pálido
a mão que brota e então morre
nas margens do rio cálido

Que murmura junto aos seixos
dos dois montes, cumes, seios;
e esvai nas coxas em beijos
na morte de luz e anseios.

Pois; E pois que escondam cristais
n'água, do brilho morno das
marés distantes do homem

Pois que em questões fundamentais
e nos olhos absortos, nas
coisas comuns e sem nome.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Frieza

Porque o gelo bem tratado

-diferente das pessoas-

não amarela com o tempo.

Renitência

É no sabor da carne
que mastigo a memória, a matéria;

marcado nos braços estão
o toque e o desenho do ventre,
quadril, seios, pernas, costas

sutil o movimento
que distancia o desejo

até as coisas opostas,
que vivem em mente

nas entrelinhas bruscas e sonoras
dos ossos,
de sal,
na praia, em Tróia.

Pregadores

Vendo o vento ventar
no vento do vendaval

invento vendo o vento
ventando no varal;

segurem as ceroulas
do pretério imperfeito
das cuecas dependuradas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Da cinza do cinza

Passou a procissão
de serpentinas, benzedrinas
moças e meninas
na avenida, então

no terceiro dia, juntei os
cacos dos ratos,
dos porta-retratos,
enterrei minha quarta-feira
nos pratos de planta
no jardim do quintal.

Tão Durante

Meu destino é tiracolo
jogo de cintura, inverossímel,
chute a gol, desfile na avenida

é vida de morte, tiro ao alto,
e sobrepeso de partida
irremediável distância de inquietude
e plena dormência eqüidistante

Os braços soerguem ao vento
impressões infinitesimais
de um sentido carregado sem
sensações

O prazer, sentidos,
tantas verdades, quaisquer
direções.

Meu destino é tiracolo
do que pula que pula
do colo no colo do homem
e que avoa sem nome

pra longe


de longe.
[de mim]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Dos insetos em volta da luz

Como de todas as outras vezes, como de todas as outras noites, como de todas as outras estrelas e idéias. Alguns carros raspavam borracha, feito lixa no horizonte silencioso das ruas, que só as escuto e não as preciso enxergar. De olhos fechados, o mapa de algumas constelações está diante de minhas pálpebras obscuras. Ônibus e caminhões de lixo passam ranzinzas na rua, chacoalhando metal moldado como desejasse a existência de metal retorcido. As nuvens permanecem austeras e, cinicamente, são meras observadoras. Não, são mais. São contra-regras responsáveis por efeitos adversos, chuva. Chuva? Um inseto d’água aloja suas asas de hidrogênio no meu nariz. Observo outros de sua espécie em mergulho profundo contra tudo de profano que há desde arranha-céus às avenidas, meus olhos estão instintivamente abertos.

Respiro profundamente, sim, Chuva. Fecho os olhos mais uma vez. A fumaça do cigarro entre meus dedos desenha uma galáxia perdida na quase atmosfera que me permeia. Respiro profundamente, sim, Chuva. Os pequenos insetos d’água cresceram, estão maiores, mais fortes, mais pesados. Trago até o limbo do filtro do cigarro. Tusso de forma sutil. Esmago seu delicado corpo de papel e cinzas no parapeito da janela, espremendo sua espinha dorsal contra a pedra fria, os insetos de asas translúcidas caminham por meu rosto. Tenho de ir embora, falo a mim mesmo, e agora, insistente, firme, persistente. Finalmente expiro a fumaça refugiada em meus pulmões. Olhos abertos.

A chuva pára. A garoa pára, em termos de exatidão. Como embriagados, meus olhos vagam feito cigarras sonâmbulas na palidez da lua. Lua. Sem pudor, sem vergonhas, de orgulho em proa e mantendo firme a expressão de luz que em si retrai, surge. Lua. A escuridão da noite resplandece em porcelana obscura lunar, os reflexos pálidos e fronteiriços, os terraços molhados e as crateras de emboscada, o dragão prepara sua armadilha enquanto Jorge aperta firme em mãos sua lança de silêncio. O vento surge, chama meu nome.

Chama todos os nomes, curvo a cabeça e lhe cumprimento. Um barquinho de um rio por perto, não o vejo. Não os vejo, rio ou barco, ou pecados, ou pescadores, ou pecadores. E mesmo não existindo rio, barco e pecados naquele mundo, ouvi um homem chamando o vento. Dorival Caymmi. O assobio corta a mudez de vida que goza em morte. Vamos chamar o vento. Assobio, olhos fechados, o pescador imita o pecador, assobia também. Não acredito em pecados. E eles não acreditam em mim. O vento passa por mim, cumprimenta, agradece, vento que dá na vela, vela que leva o barco, barco que leva a gente. O dragão sorri por detrás das crateras. Tenho de ir embora.

Olho, finalmente, para trás. Estendido numa cama, no oceano de lençóis, marolas estampas e fronhas brancas de espuma praiana, um corpo nu suspira vida. De nádegas descobertas, de costas à mostra, de nuca pálida. A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Escorro lentamente da parede ao chão, rente à superfície pálida. Observo o corpo perdido em trevas. Linda, lindíssima. Não, nunca, nenhuma, qualquer, fora uma transa absorta, uma trepada qualquer. Os ecos de seus gemidos misturados com meus suspiros ainda ressonavam nos pedaços do quarto. Respiro profundamente. Tarde demais, tenho mesmo de ir embora.

Como viajante, estabelecida regra, eis que em doutrina individual e interminável, teria de segui-la. Penar por suas entranhas de sussurro, calar no ventre de sua mortalha de luz. Procurei por minhas roupas, ri em silêncio da provável vida própria que as peças adquiriram: seus tecidos não mais tão têxteis e tão mais celulares. E cada torque de linha remediada no silêncio do voyeurismo imaginário. Sorri. Por algum efeito magnético, o corpo nu verteu vida e escapou dos bruços, e agora em decúbito dorsal, dois cumes seios apresentavam-se á palidez da lua. Os bicos esculpidos e de vida própria, a barriga de curva nas margens mananciais de um rio escondido. E como acompanhando a trilha feminina do absurdo incrédulo da positividade, dei por certo, Deus existe. Ri de mim, dos pensamentos e da credibilidade – verídica – de meus novos argumentos. Converteria ateus ao endeusamento pleno do místico, ao lhes mostrar aquele corpo nu. E os homossexuais, os heterossexuais, os frígidos, as frígidas, os desacreditados, todos, diante do frenesi bíblico-sexual de epiderme.
Por entre aquelas pernas, dos lábios de segredos de palavras reduzidas e significantes, jaziam entrelinhas de entrededos. A pequenina castanha, gulosa de ser tocada. A sensação incrível de penetrar, de profanar, de transtornar os mares e desmembrar cardinalmente as intenções do corpo. E eu sorria de loucura. Loucura saudável, veneno-remédio da redenção da carne. Vesti-me, peça por peça, sangrando arrependimento e coagulando força de vontade. Cobri o corpo com as arestas inverossímeis dos lençóis, beijei-lhe a testa, um sorriso brotou de seus lábios adormecidos, encolheu. Tenho de ir embora. E fui.

Fechei a porta, tranquei por fora com minhas chaves, cópias. Preferi as escadas, estiquei as pernas, redirecionei os ossos, estalei as vértebras como gato fugidio. Entreguei a chave ao porteiro, Boa noite, bom serviço e obrigado. Caminhei até a esquina, acendi outro cigarro, sentei no meio fio. Celular em mãos, fora do bolso, apaguei o número da lista de contatos. Aquele número, aquelas noites, aquele corpo nu e abandonado. E eu estava apaixonado por ela. Guardei o aparelho, procurei as chaves de casa, bolso esquerdo. Procurei as chaves do carro, fundo do mesmo bolso. Levantei. Andei por alguns metros, desovei o corpo do cigarro no meio da rua, entrei no carro. Repassei a doutrina, em palavras douradas e ardentes, em minha cabeça, como tatuagem de fogo de nenhum vestígio na pele.

Quando com uma mulher, fico com ela. Mas então, ao me apaixonar, respirei profundamente e completei a lacuna mental em voz baixa, Tenho de ir embora. E um inseto de suas asas de hidrogênio pousou em minha frente, no vidro do carro. Como de todas as outras vezes, como de todas as outras noites, como de todas as outras estrelas e idéias. E começou a chover.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sobre certas coisas

A tinta dos dias marca
meu corpo com as silhuetas
dos trevos espalhados pelos campos

e sempre que penso que não há mais
espaço, nascem mais quatro folhas
nos pontos mais distantes do meu coração

onde meus olhos separados
avistam a mesma paisagem

e onde meu futuro e meu passado
encontram-se sorrateiramente

onde as garrafas estão vazias,
os cadernos riscados,
os cigarros nos parapeitos,
os dedos cheios de calos.

E o amanhã é como uma roda-gigante
que por mais paradas faça

vai e sempre volta

nas voltas tatuadas
da pele quente e fria
que o passar do tempo faz.

Posse

Meu egoísmo tem gosto
de bismuto no rosto
do que eu tenho e não
divido.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os Irmãos

A ressaca de nada passou. Meus dedos apoiados no teclado, nada. O efeito das xícaras de café chegou ao fim. A caneca largada por cima do caderno, nada. Gotículas de suor escorrem da testa. Máquina de escrever enferrujada, mão estendida nas teclas. Respirando longamente a aspereza da madrugada, janela aberta, os mosquitos no frenesi do abandono entram em casa, picam os tornozelos, merda. E a dor dos infernos, que é mais um incômodo, torna-se coisa qualquer. Alguma coisa precisa ser purificada. Vomitada, posta pra fora. Em algum lugar ponteiros estreitam cliques indigentes e perdidos. Sem tiques e taques. Clique, outro segundo.

Nuvens cinzentas movimentam-se no céu escuro, estrelas mortas brilham furtivamente por detrás do celofane da escuridão. Volto à cadeira. Pernas cruzadas, o jeito é o retorno ao computador. Máquina de escrever afastada, caderno guardado, canetas na gaveta. Não, nada. Enfio o dedo na goela e não sai nada, nada. Nem uma palavra, um som, um acorde, uma vogal. Respiro profundamente, minutos passam. Horas passam. Volto à janela, o ar continua áspero. Ele não fere os pulmões, mas não é amigável. Meus pés pedem o contato com o nada, meus braços pedem o bater de asas. Os mosquitos cansaram dos tornozelos, concentram-se nos dedos.

A frustração não passa, aumenta. Sono, cansaço. Mas não, não posso e não consigo dormir. Deito mais uma vez, a terceira vez. Luzes apagadas, mundo semi-apagado. Fecho os olhos, mas não. Não durmo. Volto ao computador, abro todos os programas possíveis de edição de texto. Fecho um a um. Sobram o Word e o Bloco de Notas. No primeiro costumo escrever prosas, seja lá o que forem. No segundo, versos, poesias, seja lá quais forem. Olho para uma teia de aranha perdida no canto do quarto. A aspereza agora está nos meus pulmões. E como criado vida própria, não sai, não quer sair.

Forçar não adianta, digito um bando de coisas sem sentido. Decido ouvir alguma coisa. Alguma coisa torna-se muita coisa, várias coisas. Desisto, abro a janela mais uma vez, os grilos cantam alguma melodia incrível. Céu sem lua aparente. Saudades de uma lua cheia e imagino que algo brote disso. Nada, mais nada. Fecho os olhos e imagino estar cochilando, finalmente. Flutuo no nada, na aspereza que permeia meus pulmões e minha pele. Não, estou lúcido. Abro os olhos e percebo que nem um minuto havia se passado.

Sigo uma coruja em vôo rasante até o toco mais alto da cerca. O barulho de silêncio da madrugada permite que silhuetas dos sons sejam altamente distinguíveis. Me imagino em algum livro estranho, numa ficção nonsense. Imagino que a coruja me fala alguma coisa e que leio seus lábios. Não, não. Seu bico. Talvez alguma coisa nasça daí, talvez. Alice e Lewis Carroll talvez me salvem. A coruja não fala nada, só produz ruídos típicos. Seus grandes olhos amarelos olham o nada.

Volto ao computador, algumas horas se passaram. Fecho os olhos mais uma vez. Vou até a cozinha, abro uma long neck, bebo a cerveja incrivelmente gelada. Tenho vontade de contar ao mundo todo que aquela é a cerveja mais gelada do mundo. Mas diretamente, de dentro da minha cabeça. Duas de minhas personalidades interiores – como gosto de definir – me cutucam com um graveto. Um rapaz de vinte e poucos anos está encostado junto da janela, fumando e cantarolando uma música antiga. Não me sinto assustado, pelo contrário, fico feliz dessa companhia inesperada e estranha. Olho pra cadeira próxima à parede, atrás de mim. Uma garota, também de vinte e poucos anos está sentada. Vestido curto, pernas grandes, magra, magrinha. Seus longos cabelos descem suas costas, seus olhos de mesma cor que os meus me olham.

Ela cruza as pernas, as descruza, cruza mais uma vez, um sorriso malicioso. Ela me provoca dessa maneira, ou menos tenta. E consegue. Fico excitado, seus olhos ficam mais compenetrados, seu sorriso mais perverso e convidativo. Linda, lindíssima. Seu corpo delineado, seus seios são pequenos e redondos, suas curvas são perfeitas, seus traços são um tanto asiáticos. A reconheço finalmente. Putamerda mental. O rapaz junto à janela apaga o cigarro no parapeito e aproxima-se.

Abre a geladeira, pega duas long necks, me entrega uma. Não, eu havia errado. A cerveja que eu bebia não era a mais gelada do mundo. Está é. Ele me olha nos olhos, sorri e fala ‘eu sei’. Seus olhos são da mesma cor que os meus. Com seu jeitão de James Dean, acende outro cigarro e volta à janela. Como ele sabia o que eu estava pensando? Lucky guess, boy, ele rebateu. Com certeza era a fala de algum filme, mas eu não lembrava qual. Senti um arrepio, ela estava de pé, por trás de mim, respirando em minha nuca. E ele sorria, na janela, fumando e bebendo do outro exemplar da cerveja mais gelada do mundo.

Você me conhece, ela falou. Eu sei. Não, não sabe. Você até então não havia me visto, mas me conhece. Mas e essa forma humana? Essa forma é a forma que mais lhe agrada, atribuída a sua musa, por sem só. Você sentiu ciúmes? Senti, mas eu entendo e compreendo. Sei. E como você sabe, a dona da forma humana me é dona do amor também. Não entendi. O rapaz expirou uma grande quantidade de fumaça, apertou meu ombro, Ela e eu. Como assim? Ela e eu somos apaixonados e amamos loucamente você e a outra forma humana, a feminina.

De fato, eu reconhecia a garota, que tinha em realidade quase vinte anos. Mas não o rapaz, o garoto. Você ainda não me reconhece, não é? Não, não reconheço. Você ainda está me descobrindo, garoto. Como assim? Qualquer um de nós dois, irmãos, eu e ela, estamos aqui através de representações humanas. Mas você me conhece sim, só não essa forma humana. Segundo putamerda mental. Vejo que agora sabe quem eu sou. Exato. Ela me abraçou por trás e me beijou o pescoço, Finalmente. Antes mesmo que eu recordasse alguma coisa, ele me interrompeu Verdade, parecemos os personagens de The Dreamers, os irmãos. E era exatamente o que eu estava pensando e mal cheguei a concluir.

De quem é essa forma humana? Ele riu. Sou a forma humana das características mais marcantes. Eu não tenho nenhum traço de James Dean. Nem eu, você quem percebeu isso sem ao menos fosse realidade. Olhei em seus olhos e eles eram exatamente iguais aos meus, não só da mesma cor. Ela riu ao meu ouvido e sussurrou, “Terceiro putamerda mental”. Ela pegou a cerveja da minha mão, tomou um gole e sentou-se mais uma vez, rindo. Ele apagou o cigarro e sentou-se junto dela. E agora? Ambos deram as mãos. Insisti, E agora? Abra os olhos.

Mas eles já estão abertos! Riram maldosamente. Você é mais que isso, sabemos, então abra os olhos. Como assim? Veja, nosso pai nos mandou aqui e agora somos parte de você, te conhecemos, te entendemos, te sentimos, te amamos, e é recíproco. Quando você nos odeia, te odiamos, quando você nos ama, te amamos, mesmo que isso parta do seu subconsciente mais profundo. Falavam alternadamente, como fossem um só. Ambos são ninfas, eu sei disso. E como em diferenciação inútil de gênero, de qualquer forma, as personificações incumbidas por nosso pai e por você mesmo nos deram essas aparências personificáveis. Mas só agora vocês tornaram-se humanos. Mas eu sempre fui uma garota em todas as características que só você conhece, entende, sabe e ama. E eu, um rapaz, ou melhor, uma bicha em todas as características que só você conhece. Mas eu não divido muitas das características que vocês têm.

Ele respirou fundo, ela também. Verdade. Você não é orgulhoso, ou gay, ou egoísta, ou autoritário ou muitas das coisas que nós dois somos. Então não entendo. Temos existência própria, somos ninfas, sem sexo, desde que descendemos de Zeus. E ele? Ele descendeu de alguma outra coisa, ou não, isso não sabemos. Mas por que eu? Abra os olhos. Por que eu? Abra os olhos. Por q... Abra. Percebi que a resposta estaria diante de mim. E finalmente abri os olhos. Deparei com o computador, três páginas escritas, meu corpo purificado e minha alma lavada. E o ciclo havia se completado por onde começou, como o Ouroboros que engole sua própria cauda: sem começo e sem fim.

O sol nascia pela fresta da janela, meus pulmões respiravam sutilmente. E a garota, a Poesia, e o garoto, Prosa, riram deliciosamente do alto de seus camarotes.

Geometria dos Dias

[caption id="attachment_357" align="alignnone" width="370" caption="Clique para ampliar."][/caption]

A Banda dos Corações Partidos.

Estava chovendo. Ainda estava chovendo, mas eram apenas cicatrizes torrenciais da forte tempestade de alguns minutos antes. Não precisava ligar a TV ou o rádio pra saber do transbordamento de algum rio, algum barranco que cedeu levando barracos junto ou qualquer desgraça afim. Eu estava acocorado no meu mundinho. Ou melhor, sentado, com as pernas esticadas sobre a cama, as costas recostadas na parede, luzes apagadas. Observava a chuva tropeçando contra a janela e observava as pessoas, carros, guarda-chuvas, galochas, capas, casacos. Quando os táxis lotados estacionavam no quase subir do meio-fio, revolviam quantidades surpreendentes d’água às calçadas.

Passageiros saiam correndo, o último a ficar pagava o táxi com a soma de todos e saía encoberto por alguém que o esperava. Uma mulher corria descalça, com os desconfortáveis saltos em mão, rindo sozinha e embriagada, até algum lugar a salvo da chuva. Um mendigo enrolava-se confortavelmente em metros de lona de caminhão rasgada. Gatos amontoavam-se, encolhidos, em caixas de papelão. Um cachorro manco tremia caminhando pela calçada encharcada. E eu estava acocorado no meu mundinho, de espectador, como fosse um leitor do livro daquela noite. Daquelas pessoas, dos outros animais, da chuva, das cobras feitas d’água, que se contorciam e irrompiam em diversos pedaços enquanto escorregavam pela janela.

Alguns relâmpagos espalhavam-se sem muita firmeza, os deuses tiravam fotos torrenciais de todos os seres humanos. E os flashes propagavam por todo o céu. As ruas tinham estado de doce enjoado, pirulito lambido até a metade, filme muito longo e becos parisienses lotados de prostitutas da revolução francesa. O ritmo das gotas e do vento me sussurrava I Don’t Know Where I Stand. As gotas mínimas e suicidas eram a introdução do violão, o vento que uivava era a voz sobrenatural e sincera que outorgava as cores dos outdoors e carros amarelos, vermelhos e até mesmo dos brancos. Não havia cores, apenas Joni Mitchell. Cantarolei de um jeito enjoado.

Dobrei os joelhos, apoiei os braços nos joelhos, um esticado e o outro flexionado servindo de apoio à cabeça. Minha respiração deixava vestígios no vidro frio, esbranquiçava o caminho das cobras feitas d’água e acocorado no meu mundinho, eu desenhava círculos nos rastros dos meus pulmões. Ouvi alguns cliques, a maçaneta girou e a porta abriu. Porra, no escuro? Ouço as chaves e o chaveiro chocando-se contra a mesinha perto da porta. Não acende a luz, não. Meu colega de quarto largou o casaco pesado num descanso e acendeu um cigarro. Certo, certo, mas que merda é essa? E eu estava desenhando os arcos olímpicos no vidro.

Você não ia sair com tua noiva? Ia. E era uma surpresa, uma porra louca dessas. Ia. Certo, deixa de responder assim e me conta o que houve. Puxando o cinzeiro pra perto, bateu as cinzas, que houve? Ah, deu em merda. Como assim? Uma longa tragada. Não tínhamos problemas nenhum, eu e meu colega de quarto. Quem não nos conhecesse, ao saber da situação, imaginaria que somos irmãos ou namorados. Eu estava no penúltimo ano da faculdade, ele também. Eu namorava uma garota, amiga de infância, por mais de quatro anos, éramos noivos fazia um mês. E ele era a bicha mais bonita do mundo. As mulheres derretiam a seus pés, e seus enormes olhos azuis só estavam interessados em outros homens. A maior decepção das mulheres da cidade, com certeza.

Era extremamente independente, forte e maduro. Até que alguém dissesse por a + b, ou que ele mesmo revelasse, ninguém acreditaria na homossexualidade desse cara. E éramos sim, como imaginavam, irmãos. Tornamos-nos grandes amigos e então, irmãos. E, sempre, ele foi o irmão mais velho. Nunca desrespeitamos um ao outro, desde o começo. E seu amor e carinho de irmão eram idênticos aos meus. E naquele exato momento, ele me fitava com aqueles enormes olhos azuis. Seu tipo lembrava o de um Kerouac moderno. Seu rosto forte, suas expressões alinhadas e aninhadas. E do escuro, aquelas bolas de gude azuis me fitavam e eu o olhava de canto de olho. Ele colocou o cigarro na boca, livrou-se dos sapatos, recolheu o cigarro, bateu as cinzas, cruzou as pernas. Não vou te bajular pra que conte, você vai contar de qualquer maneira e sabe disso. O viado aqui sou eu e nunca fiquei com viadagem.

Respirei fundo. Ele sabia, desde o começo, que o que precisava para que eu abrisse a boca, seria uma frase de impacto. Ou algo mais pra um tapa na cara, mais direto e conciso. Ela simplesmente acabou tudo. Arregalou os já enormes olhos azuis, enterrou o cigarro em seu túmulo de cinzas, retirou dois da carteira. Acendeu os dois, um na boca. Toma. Finalmente virei, segurei o cigarro e olhei seu rosto por alguns segundos. Toma. Tomei o cigarro entre os dedos, levei a boca e inspirei profundamente. Agora conta essa merda direito. Abri um canto da janela e baforei a fumaça cinza e fantasmagórica que fugia das gotas. Ela catou tudo que tinha e se mandou com aquele amigo dela, que eu sempre tive ciúme. Porra! Pois é. Ele havia recostado na cadeira na qual estava sentado. O encosto rangeu de leve. E eu que sempre dizia que essa merda não tinha sentido.

Lembrei dos seus sermões em um momento. Porra, agora vendo bem, você tinha total razão. Agora?! É, é muita merda acreditar quando é realidade, mas me referi aos fatos passados. Entendi. Ambos tragamos os cigarros. Contei tudo, contei como ela estava maravilhosamente linda, como seus olhos estavam abismados de alegria e ao mesmo tempo tristeza. Aquela era uma aventura, algo novo, uma paixão. E eu era o amor. Você era o amorno. Péssima escolha de palavras. Me dá crédito, to tentando te animar. Acabei o cigarro e afundei seus restos mortais no parapeito molhado. Merda, que mais? Ah, ela explicou tudo, disse que queria ser feliz e que eu fosse também. Que merda. E foi sincera em tudo, inclusive nos olhos. E eu observava aqueles enormes olhos azuis, comovidos, sinceramente comovidos e chateados.

Assassinando o cigarro no cinzeiro, ele se sentou na cama. Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto machucando a pele fria. Solucei de forma imperceptível. Esquece essa merda, ta? Não dá. Eu sei, mas é preciso. Olhei seus olhos entristecidos. Que eram nada mais que o reflexo dos meus. Encostei a cabeça em seu ombro e chorei feito criança. Acendendo outro cigarro com uma das mãos, segurou minha nuca com a outra. Afagou meus cabelos e me falou como tudo aquilo era uma merda. Não preciso do óbvio. Nem eu, apertando minha cabeça com força contra seu ombro. E mais lágrimas escorreram. O que aconteceu com seu namorado? Ah, eu terminei. Por que? Vi um lado dele que não conhecia. Que merda. Mas estou bem. Como? Ele acendeu um cigarro e me entregou. Recompus-me e recostei na parede mais uma vez.

Não sei ao certo, mas faltava algo. O que? Paixão. Como você consegue se apiedar comigo e chamar minha ex-noiva de vaca, se fez a mesma coisa que ela? Querer paixão não é pecado, mas abandonar uma pessoa é uma merda, ela sabe disso. Por que a chamou de vaca? Porque ela fez isso com você. Não sou diferente de outra pessoa... E além do mais, por que a piedade? Porque do mesmo jeito que a entendo e não a julgo por isso, sei que você não merecia isso. Ninguém merece isso. Eu sei. POR QUE VOCÊ FEZ, ENTÃO? Porque eu sou uma vaca. COMO ASSIM? Tragando calmamente o cigarro, ele me olhava com seus grandes olhos azuis. Toda aquela situação parecia surreal, e em meio de um cenário preto e branco, seus olhos azuis eram as únicas coisas coloridas. Não, mais-que-coloridas, eram profundamente vivas. Me acalmei. Mais calmo agora, imagino. Quem mais sente com tudo isso não é você ou meu ex-namorado.

Traguei o cigarro. Quem é? Sou eu e a outra pobre vaca. Por quê? Ele me apontou o próprio cigarro, tragou com força até que a chama apagasse e depois afundou os restos mortais no cinzeiro. Expirou lentamente a fumaça. O cigarro acabou, a fumaça se desfez, a chama queimou por completo. E? E eu continuo respirando. E uma lágrima pesada desceu por um de seus gigantescos olhos azuis. E eu finalmente entendi.