terça-feira, 30 de março de 2010

Revolución de um segundo

De braços torturados
às alturas, esperando
pelo resgate do vento
que uiva junto aos ouvidos
e cabelos

enquanto crucificado
de olhos abertos e
cerrados, no cruzeiro
do sul, com pregos
de estrelas abandonados

no remanescente
dístone almiscarado.

E as nuvens imitam
a carne de um gigante
lagarto, e a lua pulsa,
dístone almiscarado:

seu coração
quase-tetravalvulado

até a extinção inexata
do solar meteoro da
póstuma madrugada,

setembro, abril, março,
mais nada, mais nada.

Líderes em suas cadeiras
de tutano e cegueira
reparadora, caindo de
seus punhos esquerdidas
e direitistas do túmulo
revolucionário

da América Central.

De braços torturados...
onde está o branco
dos dentes quebrados?

a morte incansável
das paredes de mármore
ainda perpetua gritos abafados
aos meus ouvidos;

um segundo.

domingo, 28 de março de 2010

Balada pseudobeat do Carrossel sem paradas

O que existe a se dizer
sobre a noite dos imortais?

Eu que não sou eu mesmo
aqueles dedos estirados
contra o vento, os bêbados
perambulando e os gatos pardos
miando - no (ó)cio - seus segredos

as órbitas incandescentes
de um fogo castanho e cruel
e tão suave e tão sutil e
tão melodramático sobre as
coisas que aconteceram no domingo
passado

O que existe a se dizer
sobre a noite dos imortais?

Eu que não sou eu mesmo
aquelas bobagens sem sentido
as frases recicláveis e o vidro
tilintando das luzes apagadas
dos prédios, das putas, e
das velhas espaçonaves

as bocas cheias de espaço
e vazias de nada e pulsando
palavras que não significam
coisa alguma e coisa nenhuma e
tão melodramático sobre as
coisas que aconteceram no domingo
passado, o que existe

a se dizer
sobre a noite dos imortais,
poetas, vagabundos, bêbados,
soterrados, do vazio,
do vazio, do nada.

Sobre o antigo e a não-salvação

Reunindo a indiferença fingida, respirou o ar macio, que por tanto de macieza, ainda torturava seus pulmões. E contendo lágrimas impassíveis do fundo dos olhos, tomou fronte de suas mãos, estendeu os braços e abraçou o vazio ao desprender de si mesmo, e do chão, seus pés. Expirou o ar como se o oxigênio antes tragado fosse o papel branco do cigarro, e que o gás carbônico fosse nada mais que fumaça entrelaçada de curvas; e, até mesmo acreditou nisso, em certo momento contraindo os lábios e assoprando sutilmente. Reparou que todos os ruídos audíveis formavam um emaranhado de mudez absurda, como se a presença por si só se desfizesse na atmosfera.

Ali, diante dele, diante de tantas coisas infinitas que viviam e soerguiam matéria inexistente por detrás de seus pensamentos, lá estava, ela. Abismada com a própria existência, carregando sua inquietude em defronte do abismo da distância aproximada. Tantas coisas que eram, agora, lembranças; tantas lembranças que se tornaram, agora, longitude no silêncio. Levantando a palma diante dos olhos, ele imaginou que cada uma de suas supostas células fosse uma partícula que esvaecia diante do tempo; e o que mais temia – tornar-se nada mais que recordação – era agora fato consumado e em consumação.

Abraçaram-se longamente, um engolindo o choro do outro, enquanto todas as estrelas mantinham-se de costas para a Terra. Afastando a existência mútua, separaram as bocas antes mesmo que selasse um beijo, e a carne antes que houvesse contato. E o eco de alguns segundos permaneceu inalterável por toda eternidade, suave e, quiçá, uníssono. Ela desaparecia por dentre as ondas do mar, reaparecendo em relances por entre as marés; ele voltava ao chamado inferno mortal, paralisado como lobo em existência óssea.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Quase-parágrafo no. 5 - Aterro

Das cavernas, do estremecer das monarquias citoplasmáticas, eis que preenchidas sob a casca, a crosta, o sangue em forma de luva, o sangue em forma de lava - de que vide o contrário -, nas câmaras abismadas, respaldos soterrados. Dentro do homem, cego, a rocha derretida, o ego, e a margem do mar de nada, a alma fosfolipídica; no prana defasado, o sulco do karma. Das descendentes mortalhas corpóreas, das formações epidermo-cristalino-rochosas, as grandes rochosas, as cordilheiras-raivosas, o intemperismo de seus milhares de vidas, vidas vistas, tocadas, não passadas: do seio materno ao bruto carinho paterno, a respiração polivalente do arder nos pulmões e nos adeuses de tantas mãos, a expulsão da carne, a clemência das pernas. Pernas, entrepernas, peripernas, pernas: lugar comum do retorno, do suborno, de certos homens - e de certas mulheres - em busca do peixe abissal, de frondosa castanha miúda e gulosa, isca fundamental; placas tectônicas separatistas, eis que ciclones imperceptíveis desabam na superfície de todos nós: cavernas temperamentais; placas tectônicas, tantas coisas, porcarias, minerais.

Quase-parágrafo no. 4 - Get the Road

Todo o céu, todo azul, e as intensas manadas de nuvens proliferando a brancura no oceano de vento, até as profundezas do antes-espaço. Numa dessas cadeiras duplas, das quais costumo evitar, um senhor de idade, magro e com camisa cor de oliva no lugar próximo à janela. Eu, eu, desafio à inércia, ousado, inconformado, entediado, contraindo e retraindo todos os músculos na tentativa do não-voar junto das curvas e freadas bruscas. Ou bem que não, que seja, estou à posição do corredor, de ombro feito alvo pros encontrões de bolsas e senhoras enormes em largura e imensas na falta de tamanho. Dos fones de ouvido, músicas aleatórias, quaisquer músicas, nem atento, a sinestesia a todo vapor, traços e lençóis partidos sacudindo no vento. O barulho de todas as peças, inclusive as inexistentes, remoendo e chacoalhando junto do ônibus, e de todos os passageiros. Sou um deles, um passageiro perplexo e mirrado, minha vida, coisas tão bobas. E no momento áureo, eis que a iluminação xamânica, o peyote das montanhas, nescalina de fim de pote, o alguma porra louca inexplicável. Ray Charles. Não conheço – por hora – tanto de Ray Charles a identificar quaisquer de suas músicas. A sinestesia inverte, tragado até as profundezas da contemplação – como de praxe – eis que tudo é diferente, mesmo continuando da mesma forma. Algo já definido, mas inexplicável. Soul, jazz, blues. Prefiro continuar chamando de melodia de revirar as entranhas da alma. Aquela voz surrada, debatendo gentilmente o piano. O chacoalhar do ônibus adquire ritmo, cadência. Ou não. Que seja. Que seja. Eu adquiro. Remexo como se o velho Ray conduzisse meus movimentos, como se eu fosse o velho Ray ao piano. Em mãos, a bíblia do beat, Sal, Dean e Laura no apartamento, conversando freneticamente sobre a viagem de Moriarty Jr. e sua ocarina bêbada. O que eu sou? O que eu sou? A letra, agora proposto a escutá-la, é triste, é dolorida, traz lembranças, traz tanta porcaria. E sepulta a indiferença do passageiro de ônibus. Sacudindo lentamente, remoendo, laços intensos no ar, On the Road no colo, e a alma espremida nos vãos absurdos do corpo. E a música, tão destrutiva. Brota um sorriso, pétala por pétala, em fotossíntese, em disparidade, no asfalto. Quem sou eu além do céu azul?

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pimenteira

Olha; menina.

Olha. Olha nos meus olhos.
Prometo não te despedaçar
em centenas de milhares de pedaços
inócuos e defasados, de te espalhar
pelo ventre nu de um rio
e remediar luciferina sem piedade
brilhar de forma sobrenatural
no rabicho dos vultos que subtraem
a episcopal serenidade de mim mesmo,

porque já o fizeste.

Olha; menina, que

Agora sou parte
das mãos membranosas da Terra
e de seus dedos em raízes, brotando
tempestades de galhos e rochedos
nesse mundinho irracional e tão bonito.

Olha; culpa tua.

Culpa tua esse desespero,
esse mergulhar de cabelos
de cada fio abissal de cobre
dos seres indescritíveis e inacreditáveis
que nele habitam; do sorriso sereno
e afável, dos dias antes-tristes
dos segundos agora-amáveis.

Menina; olha, que

agora não passo de um corpúsculo,
minúsculo, um planetinha vagabundo
ao redor de tuas duas órbitas
de infinito gravitacional.

Olha, com as mãos nas minhas
com a pele na minha
com a vida na minha
com o mundo no meu.

Olha, menina,
olha. Olha que bobo
sou eu.

terça-feira, 23 de março de 2010

Crescente

Pois que de surgir
nas persianas cinzentas de nuvens
brilhando em meio olho de gato
de turva pálida face

escondida nos bancos de areia
dos mares escuros, do oceano deserto
de grãos de estrelas fingidas

e cinturões, e Marias,
e Josés, e Alines, e Pedros,
e Robertos, e Ursas, e constelações
e bolsão de ar precoce do céu.

Parte de luz e flácida de distância
de gravidade séria, de estúpida
predominância, de parir de encostas

a marés em cheia, desmembrar espumas,
revelar sereias.

Desfazer em sal a maresia da carne,
do soluço da chuva vadia e das baladas
retorcidas de meia-noite,

o bote da cratera
engolir da gargante profunda da escuridão,
onde morre o dragão, da boca na boca
do homem, na boca da boca do lobo

De cantinho de unha
que cresce num meio-dia safado
de nuvens fugidas, de semblante
abafado, mordaça de céu

e raiar de dia,
única posição celeste, cipreste,
englobada, mesmo em negrura

no contorno a face,
porra louca, coisa à toa,

coisa lua.

Oferecimento

Distraia teus olhos
deste meus olhos
e finja que não

Fale qualquer coisa
que evite a mudez absurda
da solidão

Aprenda duas, três frases
mal-decoradas de algum livro
babaca e sem fundamento

Esqueça das horas
esqueça dos dias
esqueça do tempo

Mas se você quiser alguém
não prometo olhar em seus olhos
ou falar coisas sobre nós dois

Mas se você quiser alguém
não vou te ensinar quão louco
e perplexo, sem nexo,
é o mundo.

Mas com certeza te mostro
meu coração
que é tão vagabundo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Eu

Preciso fingir do tempo
que o tempo passa logo
que o tempo passa rápido

que a sucessão de dias
passa feito sucessão de segundos
e cliques vagabundos
tiques e taques de ponteiros
nos relógios mortos nas paredes.

Preciso fingir da cabeça
que eu mesmo cresça,
que eu mesmo apareça,
que eu mesmo amadureça

que a multidão de experiências
passe feito turbulência
e chacoalhe, com toda e qualquer
falta e excesso de decência
religiosamente na ciência
cientificamente na fé,
clemência, indulgência,
não-prudência.

Preciso fingir que finjo
até que perceba que não minto
só vivo, sou vivo

sol vivo.

Quase-parágrafo no. 3 - Não-ignorância

Tantas coisas a ser, tantas coisas a fazer, tantas outras que nem idéia se faz, ou nada mais, ou tudo mais. Recôncavos de vento, planícies solares, dobramentos lunares, mares de morro, montanhas de mares, o absurdo é a não compilação do universo, mas do inverso, da contenção, da contentação, da conformação. Tantas coisas, tantas coisas, e sou uma delas. E todas elas. Nem idéia se faz, mais, mais, imersão do infinito do que não há: mais. Sou tudo em todas as coisas e muito mais. Conformação? É pra falta de confronto que não existe mais em mim. Mais.

Quem

Que me dirá?
que lhe dirá?

das coisas insensatas,
das coisas insensíveis;

das coisas racionadas,
das coisas tão incríveis;

das formas absurdas,
dos braços invisíveis;

Quem me dirá?
quem lhe dirá?

das palavras nunca ditas,
das palavras sempre escritas;

das palavras nunca usadas,
das palavras sempre lidas;

das lembranças reprovadas,
das lembranças mais bonitas;

Quem me dirá?
quem lhe dirá?

que antes tudo,
tudo, nada;

noves fora, fora
nada, e dentro,

dentro de quem
existirá o dizer,

a quem será,
o nada;

Quem será,
quem será,

a quem dizer?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Capim Seco

Embrulhado no meu rosto,
seu rosto: louco, sem jeito,
o inegável do meu gosto
a cadência do meu peito.

Defasados em meus braços,
os sentidos, em não tê-los,
a sinestesia dos traços,
desde a raiz dos teus cabelos.

Uníssono equidistante,
pois, que "Tudo na vida é um país
estrangeiro"; então engaiolado,

Perdido coração errante
de transfiguração feliz:
tempo morto, abandonado.

terça-feira, 16 de março de 2010

Guerra

Construir com prefixação;
dispensando o léxico

e qualquer forma
de des-compensação.

Libertà

Nome que se desse
a certas coisas que há

minha alma e meu coração
seriam

vagabundos de uma estrada
caminhando sem um tostão,

mas, de mesmo que
houvesse nada, sem pernas
caminharia nas nuvens
ao tudo que não há
desde o infinito
sentido da impassível criação;

ao nada que existe,
nandando no mar
que chamam de chão.

E 'liberdade',
qual o preço da morte sacra
em rodovia lasciva,
sem começo
no escárnio da saudade

na dissidência do apreço,
e nem mais fariam
parte de mim,

seriam animais selvagens,
e eu os invejaria,
os injetaria nas minhas retinas

como no coágulo
de uma manhã ensolarada.

Mais engraçada que a vida
coisa parecida não há,
e quando pára de chover,
de breve começa a garoar.

E mais dolorosa que a ida
coisa parecida não há,
pra que se comece a correr,
é preciso, caindo, andar

E pois,não que falte graça
na morte, ou doce sensação
na decorrente saudade

Porém, há quem não se faça
em entender do coração:
chamar de grande crueldade.

domingo, 14 de março de 2010

Quase-parágrafo no. 2 - Garoa

Tudo que havia de se fazer, ser, existir; uma morta comodidade de paraíso. Como sol, que busca atlântico o fim pacífico do dia; noite morte de céu, dormência, fôlego falido, transeuntes, vagabundos, interruptores, gatos pardos, trabalhadores, donas de casa, religiosos, viciados, e todas são mortos, e todos sou eu: olhos paralelos ao nada.

Quase-parágrafo no. 1 - Caravelas

Perdido nesse mar de coisas macias, meus olhos flutuantes - globos perdidos por dentro da cavidade ocular – decaem no profundo silêncio do falso sono; plantas carnívoras – pálpebras - fecham suas supostas bocas, engolem o castanho, o negro, navegando no branco defasado do mundo. De braços, feito mensagens perdidas, espumas calejadas sobre ondas, esparramando semicírculos na pele fria, tão fria, tão oceânica e quase sem fim, enquanto dez naus formigam por toda vastidão, explorando os caminhos tão mais distintos até as Índias. Naus, naus, tão nuas, essas mãos que são suas, da companhia – perdida – de navegação.

sábado, 13 de março de 2010

Marô

Por fome de espuma,
desejando tanto o mar

assim como, de no mijo,
haver a uréia fervilhante
na grota escuna

velejando no crispo sal
desfaz a bruma que desenha
carneirinhos encardidos
no muro do quintal

em ondas verdes, verdes
distante o navio
que vai

no xixi esmeralda
salobra, que escorre
das pernas branco-nuvem
de mil e uma
criaturas angelicais.

domingo, 7 de março de 2010

Vivant

Amor vagabundo
existe e resiste,
ócio incompleto e
tão não-complexo

fixo dissidente
o abandono de todas
as causas, da ideologia
do amor-próprio

pelo próprio,
pelo próprio.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Lacuna

Ontem mesmo, um ano de minha vida
não havia passado, e na distância
havia algo de incomum e inexplicável

na maneira como batem as asas
e flutuam imensos minúsculos
diante de mim.

Vinte e quatro horas depois,
três meses se passaram
e não há nada de novo,

além dos ossos engavetados
das pirâmides embargadas

das palavras outorgadas;

na maneira como batem as asas
e flutuam imensos minúsculos
diante do nada. E o mundo é tão vasto

que chega a ser nada.

Mesmo às nuvens que copulam chuva
no céu; até vinte quatro horas de
três meses atrás.