terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando favores são obrigações

Olhei pro relógio da parede e haviam se passado vinte minutos. Tinha enrolado uma toalha na cintura pra não andar de pau pra fora e pagar de voyeur pros vizinhos dela. Ela. Eu estava naquele território estranho e repentino com a garota por quem eu era maluco. pelo menos é o que eu acho. Mas esse lance de certezas absolutas nunca foi o meu forte. Tomei um copo d’água e peguei um dos cigarros que ela fumava e acendi na chama do fogão. Conheci Mônica dias antes na fila do cinema em uma sessão cancelada. Mesmo sendo um pouco egoísta e introspectivo quando estou sozinho acabamos conversando, já que o lugar comum que reúne as pessoas é indignação e palavrões. E no fim das contas eu tinha achado elegante e bonito o jeito que ela tinha mandado tudo à puta que pariu.


Entre o quer um cigarro e o quer beber alguma coisa as coisas andaram relativamente bem. Mônica escrevia muito bem, estudava Publicidade, tinha pernas grossas e gostava de Carlos Gardel. Já eu era mais simples, gostava de foder e de Rolling Stones. Acabei lendo metade do caderno que ela guardava debaixo da cama, e tudo era muito bom. Algum dia seria uma novelista conhecidíssima, talvez ganhasse prêmios e eu a reconhecesse numa coluna de domingo. E que a fama não estragasse aquilo que ela escrevia. Muito menos a maciez de sua pele. Tudo que eu lia era tão real que era impossível não acreditar que ela não tivesse vivido pelo menos metade daquilo. Talvez fosse neurose demais procurar marcas de pico em seus braços. Mas ela disse que se picou só pra saber como era e então escreveu. Não sabia mentir tão bem, precisava viver um pouco do que falava. Eu não me incomodava com aquilo. Era intenso o suficiente pra mim.

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