Todas as poucas coisas que o avô tinha foram deixadas à família. Uma delas foi o casal de passarinhos. Não eram de espécie rara nem valiam tanto assim. A ocupação do aposentado era tratar da melhor forma possível os animaizinhos. Ao morrer, junto do par de sapatos velhos, uma espingarda de ar velha, os álbuns de fotografia e algum dinheiro, deixara também a responsabilidade pelos pássaros. A idéia de ter os bichos presos na gaiola não agradava a todos, mas pelo amor e memória do avô era importante mantê-los por perto e permitir aquela situação. Certas obrigações como limpeza ou alimentação eram revezadas pelos membros da família. Mesmo não gostando da idéia, pai e filho decidiram ajudar.
A situação estava praticamente normalizada depois de planejamento e paciência. Não era uma situação confortável, algo bom ou algo ruim. Era simplesmente satisfatório. Conversaram sobre a responsabilidade de todos a respeito da herança do avô. O garoto era compreensível o suficiente. Fins decididos e assunto resolvido. O sapato seria reformado, a espingarda de ar seria do neto, os álbuns restaurados e os animais cuidados. As tarefas de criação revezadas, todos deveriam ajudar e com o tempo se acostumariam.
Um dos problemas da rotina é como as coisas passam despercebidas por pura mecanicidade e falta de atenção. Um dos membros da família havia deixado a gaiola acidentalmente aberta. Era a oportunidade perfeita. O gato que rondava o quarteirão decidiu agir. Subiu o muro vizinho em um único pulo. Rebolou o corpo magro de costelas à mostra varando o quintal, pulou algumas caixas e finalmente chegou até o segundo andar. Foi descoberto pela quantidade de penas espalhadas e o sangue escorrendo-lhe do focinho.
Convocaram nova reunião. A avó explicou ao garoto que era questão de instinto, de necessidade, de sobrevivência. O pai mantinha-se quieto, chateado. O instinto sobrepujaria qualquer coisa segundo a família. Conversaram durante algum tempo, repetiam o discurso e, tecnicamente, tudo estava resolvido. Família novamente em luto, mas em escala reduzida. O garoto planejava vingança. Não poderia deixar aquilo sem volta, mas teria de agir à surdina. Planejou tudo, preparou tudo. Foi até o armário e recolheu a espingarda de ar comprimido que era do avô. Separou palitos de churrasco e inseticida. Fez o teste. disparos perfeitos.
Espalhou o spray na ponta dos palitos, armou isca para o gato: prato de comida. Alguns dias haviam passado desde a última refeição, teria de voltar. Palitos na arma. Barulho ensurdecedor repentino. Uma explosão dentro da casa que ecoara por todos os cômodos e, provavelmente, por toda rua. A fumaça subiu pelo quintal. Todos desceram as escadas correndo. O pai com uma escopeta apoiada nas costas, rindo. Gargalhando. Os restos do gato estavam espalhados pelo chão. Meu Deus! O que você fez? Por que você fez isso? Instinto, instinto.
O garoto passou alguns dias sem dizer uma só palavra. Perdera a oportunidade perfeita.
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