Lavou o rosto e deu dois tapas. A garota, a garota... Aline. Isso, Aline. Ela fumava. E ele precisava de um cigarro. mesmo que não fumasse, mesmo que não quisesse fumar. Voltou pro quarto. Procurou no bolso da calça jogada ao lado da garota, acendeu o cigarro e pôs tudo de volta no lugar. Aline não era feia. Era loura dos olhos castanhos, de seios pequenos e quadris largos. Puxou o cigarro com vontade, que coxas! o perfume dela estava marcado em seus braços. Deu-lhe um beijo no topo da cabeça, cobriu-lhe com um dos lençóis jogados no chão e arrastou-se descalço até a janela. Destrancou-a cuidadosamente, abriu pelas laterais, passou pro outro lado, perna de cada vez, fechou-a novamente.
Deu a volta na casa e o cachorro dormia com metade de seu tênis, estraçalhado, na boca. Agora preciso mesmo de um novo par. Pulou o portão. Catou os trocados no fundo dos bolsos enquanto caminhava até o fim da rua, espalhou as moedas na palma de uma das mãos. O suficiente, o suficiente. E o ônibus vinha dobrando a esquina. A fumaça do cigarro desenhava umas curvas estranhas diante de seus olhos e lhe lembravam as coxas de Aline. Deu sinal e jogou o cigarro no chão. Subiu, pagou, sentou-se no meio. Os trabalhadores que iam e voltavam e os bêbados dormindo e o de sempre, o de sempre: chegar em casa pra mais um dia. Sair domingo tendo de trabalhar no dia seguinte. Parabéns, garoto.
Subiu os degraus de chão áspero que parecia ainda mais áspero nas solas dos pés. Abriu a porta do terceiro andar com a chave do fundo do bolso remendado e calçou os chinelos jogados no batente. Correu até o banheiro e descarregou todo o prazer que só uma boa mijada é capaz de oferecer. Descarga. Lavou as mãos e o rosto inchado. Arrastou-se até a cozinha e fez um café forte e horrível, já que o céu já estava azul e precisava, definitivamente, acordar. Acendeu o segundo cigarro na chama do fogão, pó de café e água quente, açúcar e tinha de acordar. Mesmo mesmo. Precisava também se barbear. Tomou banho frio e toda aquela água gelada dava pontadas absurdas de doloridas e tirava todo cheiro da noite anterior. Fez a barba do melhor jeito possível, uma merda. O que era fazer a barba sem algumas gotas de sangue? Pão com manteiga quase vencida, mais café e o estômago embrulhado. Escovou os dentes, vestiu-se e pegou o crachá. Assobiando Easy Living, do Benny Golson e catando miúdo de trocados pro ônibus e pra comer alguma coisa mais tarde.
Trancou a porta, desceu as escadas. Preferia as escadas apesar do elevador em perfeitas condições. Esperou por algum tempo no ponto até que o ônibus chegasse. Ônibus cheio. Pagou e mergulhou na multidão espremida naquele espaço apertado e foi até o fundo. Sempre se perguntava se era algum tipo de fetiche que fazia com que se espremessem do meio pra frente e o fundo permanecesse praticamente vazio. Era um dos mistérios da humanidade. Todo mundo parecia ocupado demais pra qualquer outra coisa. Ele não. Não havia só a programação padrão, não conseguia funcionar daquele jeito. Mas tinha de pagar as contas de alguma maneira. Era uma grande merda, mas era sua própria grande merda. Era melhor não pensar muito naquilo. Concentrou-se na marca que a calcinha da mulher da frente fazia no vestido. Sentia-se um escroto por aquele tipo de coisa, mas pensar demais a respeito não era o tipo de lógica convincente. Easy Living.
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