Os olhos continuam fechados e o apito do trem sobe pelas bordas do abismo. É exatamente isso que distingüe ao olhar pra parte inferior com os olhos fechados os globos tremendo e as córneas apontadas pra cavidade da própria cabeça.
- Hm, uhum, claro, claro.
-Você tá ouvindo?
-Claro que tô, relaxa. Só tô com os olhos meio irritados.
-Mesmo?
-Porra, relaxa.
-Tá ardendo?
-O que?
-Os olhos, cacete.
-Ah, sim, sim. Continua com a história.
-Onde eu parei mesmo?
-Ele ligou pra ela de madrugada e...
-Ah, sim... Então começaram a discutir e
Ouvir tudo mesmo sem dar qualquer importância. Fingir importância. É tão errado assim inventar mentiras e acreditar que elas são reais? Convencer inclusive a si mesmo é uma condição menos trabalhosa. E sincera.
Tão longe, tão longe, não sabia nem a distância, de tão longe.
-Acredita nisso?
-Maior sacanagem.
-Não é?
Não que não se importasse. Prefere acreditar que se importa a concordar que é egoísta.
-Se estivesse nessa situação o que você faria?
-Iria embora.
Abre os olhos e está a quilômetros de distância.
Sua consciência diz o passado não lhe pertence mais.
-É mais fácil se convencer que coisas assim dão certo.
-Credo. Pior que pensando bem até faz sentido. O que você vai fazer agora?
- Me convencer disso.
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