Quando voltou a si, do sono, percebeu-se sentado, de livro pousado no colo. O quarto, apesar de ser o mesmo de sempre, tinha um aspecto estranho, defectivamente estranho. Tomou o livro em mãos, dobrou-lhe a ponta da página. Fechou. Manual de Instruções e Utilização. Suas pernas estavam dormentes, decidiu levantar vagarosa e cuidadosamente, esticar o corpo, alongamento ou simplesmente caminhar até a porta. Quase de pé, sentiu fraquejo nas pernas, fosse normal por ter dormido sentado, cambaleou, falseou e apoiou-se na parede até que tivesse total controle do corpo. Na verdade, estava ligeiramente confuso. Mente perdida em concepções básicas, em redefinições estranhas, observações óbvias. Esticou os braços, que rangeram nos ossos até o alcance dos noventa graus juntos à coluna, e o alívio repentino.
Estava só de cueca, precisava colocar alguma coisa, algum tipo de roupa ou cobertura. Inicialmente estranho, mas depois compassadamente, andou até o guarda-roupa do outro lado do quarto, lambendo o chão com os pés. Puxou de lado a porta corrediça, num único cabide do móvel completamente branco, pendiam calça jeans e camisa branca, de botão. Vestiu-se naturalmente, mesmo estranhando os pêlos eriçados e a pele fria, e de tão súbita, a percepção da baixa temperatura. Serviam perfeitamente, e mal se lembrava da última vez de que roupas lhe serviam e lhe caíam tão bem. Abotoou habilmente, a camisa, endireitou a gola, ajustou e fechou o punho. Posicionou-se diante do espelho, ainda de pés descalços, mas sem incômodo.
Dois passos para trás e virou-se lentamente, observando o quarto como nunca houvesse posto olhos antes. Notou-lhe o piso branco, absurdamente limpo, as paredes brancas e lisas, que de tão alvas, brilhavam sutilmente. Notou a cama de solteiro, lençol e travesseiro brancos, a cadeira metálica, revestida de brancura tão-quase-leitosa. Ao lado da cama, um criado-mudo branco, sobre o qual jazia um vaso cilíndrico com uma única rosa, incrível e absurdamente vermelha. A luz, perfeitamente distribuída, partia das fluorescentes mais luminosas que já havia visto, duas. O Manual de Instruções e Utilização, de cor azul celeste, permanecia sobre a cadeira, página marcada e tudo mais.
A porta, de mesma cor das paredes e contorno tênue, resplandecia ao lado do espelho, em um canto adjacente, e sua maçaneta circular, pequena esfera translúcida e brilhante. De passo em passo, agora sob controle e vestido, completamente seguro de si, Isaac retornou à cadeira.
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