terça-feira, 2 de novembro de 2010

Aurora

Quando voltou a si, tudo parecia novo e estranho. Mas não era normal sentir-se assim. A cadeira debaixo de seu corpo continuava a mesma cadeira de antes. Seu corpo era estranho, mas era o mesmo. Estendeu as mãos frente ao rosto. Perfeitamente normais, apesar da sensação desconfortável. A sensação era de como se tivesse adormecido sob efeito de alguma droga forte. As linhas das mãos ainda eram as mesmas, a cicatriz no anelar da direita ainda estava lá. Vestia uma camisa branca, alva e limpa. Não estava abotoada. Respirou fundo, o ar parecia estranho em seus pulmões. Esfregou os olhos. Levantou-se devagar. Apoiou os braços no encosto da cadeira, pôs-se de pé.

Olhou ao redor. Paredes brancas, cama simples de lençol, forro e fronha de travesseiro azul claro. Um móvel retangular de cor clara e um vaso de vidro reluzente com água translúcida, uma flor de caule verde escuro, folhas brilhantes e pétalas vermelho-fogo. Caminhou em sua direção e lhe tocou a superfície sentindo sua fragilidade. Abriu a porta única do móvel, alguns cadernos limpos, livros de botânica e um manual de instruções, que recolheu e colocou sobre a cama. Mexeu os dedos dos pés e sentiu o chão frio. Notou que havia um par de sapatos e de meias, ambos negros, ao lado da cadeira. Sentou-se e se calçou.

A porta a sua frente tinha enormes dobradiças de metal polido. Abotoou a camisa com certa dificuldade. Abriu o manual de cima da cama. A primeira página era revestida por papel alumínio. Passou o cabelo curto pra trás olhando-se no ‘espelho’. Estava pálido. Sua aparência era fria. Encostou a mão na testa, a temperatura estava baixa. Olhou pra cima, havia um ar condicionado portátil funcionando silenciosamente. Procurou por seu controle no móvel, debaixo do travesseiro, debaixo da cama, nos cantos. Não havia controle. Decidiu sair. Fechou o zíper do jeans, colocou o livro debaixo do braço, rodou a maçaneta e puxou a porta. Uma luz forte lhe cegou momentaneamente. Fechou os olhos e tateando a superfície externa puxou a maçaneta e se manteve rente à parede até que seus olhos se acostumassem com a luminosidade.

Ouviu barulho de mar. Mar. Nunca tinha visto o mar, mas sabia que aquele era o som vindo das ondas e da água na areia. Debaixo dos sapatos a superfície era dura e lisa. Caminhou por alguns metros. Checava com um dos pés na frente tateando e garantindo o próximo passo. O ar marinho encheu seus pulmões. Era definitivamente uma praia. Como havia parado ali? Todo aquele ambiente era completamente normal ao mesmo tempo de novo e estranho. Não entendia a situação. Esfregou os olhos e concentrou-se por alguns instantes. Readquiriu parte da visão, diferenciando formatos, limites e cores, apesar da falta de exatidão. Com andar mais seguro, desceu alguns degraus até uma pequena mureta que lhe separava da areia. Aproximou uma das mãos pra puxar uma das travas do portão. Sentiu uma leve pressão no pulso e ouviu um estalado seco vindo do portão, que abriu. Atravessou a passagem e andou em direção do mar.

Tirou os sapatos e as meias, seria melhor sentir a areia com a sola dos pés. A areia fria envolvia a pele. Passo a passo distanciou-se de casa. Sentou perto do mar, recolheu alguns grãos na mão, deixou com que caíssem rolando pela superfície dos dedos. No meio de tantas sensações estranhas, finalmente sentia-se bem, mesmo não reconhecendo mais nada ao redor. Abriu o livro no colo. Talvez tivesse realmente ingerido alguma droga. Passou as páginas das considerações do autor. Folheou rapidamente até encontrar alguma coisa. Eram letras garrafais. Modelo 15-AAC Asimov. Propriedade de R. Giskard, direcionado a R. Daneel Olivaw. Mais uma página. As letras tornaram-se mínimas mais uma vez.

Daneel leu sobre complexos sistemas de engenharia, esquemas, explicações específicas em várias línguas. Não entendia nada. Era humanamente incompreensível. Pelo menos aos olhos de um leigo, nada daquilo fazia qualquer sentido. Respirou fundo, deitou o livro na areia junto dos sapatos. Mais e mais perto do mar, sentiu a água morna. Era uma sensação incrível. O que estava acontecendo? Talvez devesse voltar ao quarto, esperar por alguém, procurar por algum telefone ou quaisquer indícios ou pistas do que estava acontecendo. Voltou ao livro e se sentou mais uma vez. Precisava manter a calma. A página estava marcada por uma pequena dobra. Adiantou a leitura do ponto em que havia parado até encontrar as letras garrafais mais uma vez.

  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

  • 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.


 

O mar ainda banhava a costa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário