quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dos Olhos da Amada

Enquanto carpia aquela densa mata de silêncio presente no ar e separava os barcos perdidos ao longe que sopravam contra quaisquer tentativas do vento, olhava-a cuidadosamente. Em cada curva via dunas e mais dunas de uma areia branca e macia. No meio do mar sombrio dos cabelos surgia a face. Imperceptivelmente emerso das profundezas inexploráveis do oceano despontavam as maçãs subaquáticas, seus dentes como pequeninas conchas alvas da boca que tremia suavemente ao mais sutil e improvável dos toques. Mas por mais que em todas as noites lhe vigiasse todas as praias absurdas, jamais se acostumaria com aqueles olhos.

O quarto era só uma parcela da noite escura. Longe do breu trilhavam em par misterioso as luzes das docas mansas e cais noturnos cheios de adeus. Quantos saveiros, quantos navios, quantos naufrágios? Aqueles olhos perdidos num galgar febril e inescrupuloso, a visão perdida e o horizonte tão mais distante. Aqueles dois olhos tão descrentes, tão irremediáveis, tão ateus. Pudesse um dia, quem dera Deus, ver um olhar mendigo da poesia, enquanto ela sorria e chorava, sem a menor alegria visível, sem o menor desespero distinguível. O ar finalmente foge sorrateiro.

- O que foi Vinicius?
- Oh, minha amada, que olhos os teus.

 

 

[Poema dos Olhos da Amada - Vinicius de Moraes



Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus]



 

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