O quarto era só uma parcela da noite escura. Longe do breu trilhavam em par misterioso as luzes das docas mansas e cais noturnos cheios de adeus. Quantos saveiros, quantos navios, quantos naufrágios? Aqueles olhos perdidos num galgar febril e inescrupuloso, a visão perdida e o horizonte tão mais distante. Aqueles dois olhos tão descrentes, tão irremediáveis, tão ateus. Pudesse um dia, quem dera Deus, ver um olhar mendigo da poesia, enquanto ela sorria e chorava, sem a menor alegria visível, sem o menor desespero distinguível. O ar finalmente foge sorrateiro.
- O que foi Vinicius?
- Oh, minha amada, que olhos os teus.
[Poema dos Olhos da Amada - Vinicius de Moraes
Oh, minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus
Oh, minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus]
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